Colaboram:


Luis Furtado



João
Seabra Botelho



Francisco
Moraes Sarmento



Francisco Saraiva


«banner» de
João-Pedro Rocha

páginas de

«O Filósofo»

Autores
Arquivo
Citacionário

Edward Gibbon na Tertúlia



«A PENA DE ZALEUCO»



excertos da obra

O Declínio do Império Romano

Foi de forma quase silenciosa, sem alarido nem proclamações, que os estudiosos conseguiram que a Razão Pública dos Romanos fosse transferida e aplicada frequentemente nas instituições de quase toda a Europa. Ainda hoje, como o podem reconhecer e confirmar os juristas sabedores, as leis de Justiniano instilam o respeito e recebem a obediência de várias nações soberanas.

Sábio, ou afortunado, é o príncipe que liga a sua reputação ao interesse e honra de uma tão longa linhagem de humanos. Dessa linhagem receberá sempre zelosos encómios, os seus defeitos serão sempre piamente ocultados ou esquecidos. Mas essa crescente idolatria pode também criar a reacção oposta, e da oposição de alguns a esse interesse e honra virá o rancor ao carácter de Justiniano, que foi exposto nos seus aspectos negativos e levou alguns a negarem qualquer mérito ao príncipe, aos seus ministros e às suas leis.

È sobejamente conhecida a história das Doze Tábuas das Leis de Roma, registadas em cobre, ou madeira, ou marfim, pelos Decemvirs. Ditadas pela aristocracia que tinha relutantemente acedido a justas exigências do povo, as tábuas adaptavam-se à vida urbana, ao estado e à cidade, e permitiram aos Romanos sair definitivamente do barbarismo, já que foram capazes de nelas coligir as normas e instituições dos seus vizinhos mais esclarecidos.

Hermodorus, um habitante da cidade de Éfeso, soubera inspirar os legisladores de Roma com os conhecimentos que detinha das formas de organização e de civilidade dos muitos povos e cidades que visitara. Com essa preclara colaboração, ganhou uma estátua de homenagem perene no forum do Senado.

Também as colónias da Grande Grécia tinham trazido consigo, e melhorado, as artes de governação e sabedoria política vigentes na sua terra mãe. Cuma e Regium, Crotona e Tarento, Agrigento e Siracusa estavam no patamar das mais florescentes cidades. Os discípulos de Pitágoras aplicavam a sua filosofia na arte da governação; as leis não escritas de Carondas aceitavam a intervenção benévola da poesia e da música, e Zaleuco deu forma à Republica dos Locrianos, que sobreviveu sem alterações por mais de dois séculos.

Por motivo de algum orgulho nacional, tanto Livio como Dionisio quiseram acreditar e fazer crer que representantes de Roma tinham visitado Atenas quando esta se encontrava sob a sábia e esplêndida governação de Péricles; e as leis de Sólon foram transcritas para as doze tábuas. Mas se uma tal embaixada dos Bárbaros da Hespéria tivesse realmente sido recebida em Atenas, o nome dos Romanos teria sido familiar aos Gregos antes do império de Alexandre, e a mínima evidência desta visita teria sido explorada e celebrada pela curiosidade Ateniense, nos tempos que se lhe teriam sucedido. Contudo, os monumentos de Atenas mantêm-se em silêncio; e tampouco parece plausível que os patrícios Romanos tivessem tomado a iniciativa de efectuar uma viagem tão longa e perigosa apenas para copiar o mais puro modelo da democracia.

Podem-se encontrar algumas semelhanças entre as tábuas de Sólon e as dos Decemvirs, mas é casual; algumas dessas leis comuns a ambas foram, afinal, adoptadas em todas as sociedades, por serem fruto da natureza e da razão humanas; outras, apenas evidenciam uma origem comum, quer do Egipto quer da Fenícia.

No entanto, no cômputo geral, os legisladores de Roma e Atenas parecem ser estranhos ou adversos uns aos outros.

Sobre a notável sabedoria que se encontra exarada nas Doze Tabuas, cuja leitura era recomendada por Cícero apenas por ser educativa e agradável, afirmou Tulio: “A sabedoria dos nossos antepassados é admirável. Só nós somos mestres na jurisprudência civil, e a nossa superioridade ainda mais se destaca se lançarmos um olhar sobre a rude e quase ridícula jurisprudência de Draco, Sólon ou Licurgo.”

As Doze Tábuas resistiram durante séculos, sobreviveram às chamas dos Gauleses, e ainda subsistiam na era de Justiniano; a sua perda foi imperfeitamente colmatada pelos modernos estudos históricos.

Mas embora estas veneráveis tábuas fossem consideradas a fonte e base da justiça, ao fim de cinco séculos estavam quase soterradas sob uma enorme quantidade de leis novas, que se tinham tornado, para a boa aplicação da Justiça, num peso e num obstáculo ainda maior que todos os vícios da Cidade.

Mais de três mil placas de cobre estavam depositadas no Capitólio, e algumas dessas leis, como a de Juliano contra a extorsão, tinha mais de cem artigos.

Os Decemvirs tinham-se esquecido de introduzir a pena de Zaleuco, que durante tanto tempo mantivera a integridade da sua republica, a coesão e simplicade das suas leis. De facto, qualquer cidadão Locriano que propusesse uma nova lei, teria de o fazer ficando de pé, face à Assembleia do Povo, com uma corda atada ao pescoço; caso a sua proposta de lei fosse regeitada, o proponente seria enforcado naquele mesmo instante.


Abel de Lacerda na Tertúlia



A ILHA DOS AMORES EM


“OS LUSÍADAS”

É REAL? OU IMAGINÁRIA?

A popularmente chamada “Ilha dos Amores” concebida e descrita por Luiz Vaz de Camões no seu poema épico “OS LUSÍADAS” é uma Ilha real existente no Oceano Atlântico ou Índico? Ou pelo contrário, é uma “Ilha imaginária” criada e liricamente cantada e descrita por Camões?

Ou ela é mais do que imaginativa, e é uma “Ilha” no “Centro do Mundo”, um “Templo de sabedoria cósmica”, em que o “mistério da essência humana” está “encerrado” “escondido” “guardado” ou mesmo “eternizado? E de acesso de conhecimento só para “espíritos escolhidos”?

Será que a “chave que abre a porta dessa Ilha” é o verdadeiro objectivo e essencial do poema? Aquele “secreto segredo sacro” que possibilita ao “Peito ilustre Lusitano” por “obras valerosas da lei da morte se ir libertando”? Será que “nessa Ilha Angélica pintada” criada por Camões, está “situado o TRONO DA VERDADE? A “essência da vida”?

Será que essa “essência” é o grande protagonista de todo o poema? Aliás, a quem é que o poema é verdadeira e esotéricamente destinado? Será, que em lugar de chamar-se a essa ilha, a “Ilha dos Amores”, não deveríamos antes chamar-lhe A ILHA DO AMOR? A ILHA DO PURO AMOR?

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)


António Telmo na Tertúlia



O pensamento iniciático de José Marinho

in

Revista de Cultura Portuguesa, nº1

As raras referências à obra de José Marinho, o não aparecimento de estudos sobre um dos maiores filósofos do século XX, podem ter origem na dificuldade em compreender o que ele escreveu, se a hostilidade ou a indiferença que a filosofia defronta entre nós não forem suficientemente explicativas. O leitor sente-se impotente perante um livro como a «Teoria do Ser e da Verdade» e, vencido logo no início, não chega a encontrar o ritmo requerido de lucidez, certamente alcançável se não houvesse a má vontade da inteligência. A «Teoria» aparece assim como uma montanha inacessível na planície acidentada do pensamento português. O próprio autor, em vida, não escondia, no silêncio generoso e amável, a decepção de ver sem eco fundo a filosofia que concebeu da nuvem e do raio do seu assombroso espírito. Generoso e amável, porque pensava que uma longa, demorada, dificílima iniciação, para a qual poucos têm vocação e paciência, se requer para compreender todo o pensamento filho da viagem.

«Suspensos ante o véu da alma, os que admitem ou diversamente crêem no sentido do ser sem verdade, na imortalidade insciente ou na mortalidade opaca, não conhecem a paciência de esperar os momentos em que o véu se entreabre, revelando as profundidades do encoberto e do mesmo encobrir».

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)


Louis Lavelle na Tertúlia




Da sinceridade, ou o retorno à origem

Excerto de

«L'erreur de Narcisse»

Logo que começo a agir, a minha vida fica encerrada numa situação; e carrega o peso do seu passado; e mil forças começam a retê-la; ela é um movimento no qual me encontro preso e de que não sei se estou a padecê-lo ou a produzi-lo.

Mas a sinceridade recusa todas essas solicitações que me pressionam e obriga-me a descer até ao coração de mim mesmo. A sinceridade é sempre um retorno à origem. Ela faz-me um ser em perpétuo renascimento.

A sinceridade liberta-nos de qualquer receio quanto a opinião ou consequência. Ela leva-nos à origem de nós-mesmos e, perante os nossos próprios olhos, desvela-nos, tal qual somos ao sair das mãos do criador, no primeiro assomo de vida, antes que as aparências exteriores nos tenham seduzido ou que tenhamos inventado qualquer artifício.

A sinceridade mostra-nos como somos, e não num retrato que seria ainda exterior a nós-mesmos. Ela não carece de garantia ou confirmação. Ela é aquela perfeita clareza do olhar que anula toda e qualquer sombra entre mim e ti, que anula qualquer sombra de um olvido, ou a sombra de um desejo; a sinceridade é aquela verticalidade do querer que não nos deixa espaço para qualquer desvio, para nenhuma escapatória nem nenhuma reserva mental.

Finalmente, a sinceridade é a perfeita nobreza interior. O homem sincero apenas pede para viver sob o céu livre. Ele é o único que tem suficiente ombridade para nada dissimular de si, para nada esperar senão a verdade, para não se contentar com aparências, para se firmar tão intimamente no ser que não se distingue mais para si do que que para aqueles a quem aparece.


Sob o olhar de Deus

A sinceridade é o acto pelo qual me meto a mim próprio sob o olhar de Deus. Nenhuma sinceridade se pode encontrar fora dele. Pois, para Deus, já não há mais espectáculo nem mais aparências. Ele é a pura presença de tudo o que é. Portanto, quando me viro para ele, nada mais conta em mim do que o que sou.

Deus não é apenas aquele olho sempre aberto a que nada posso dissimular do que sei sobre mim próprio, mas é também aquela luz que atravessa todas as trevas e torna possível que eu me revele tal qual sou, a mim próprio, sem que eu antes soubesse que o era. O amor-próprio que me ocultava de mim mesmo é como uma veste que cai de um golpe. Um outro amor, que agora me envolve, torna a minha alma transparente.

Durante todo o tempo que a vida persiste em nós, vamos ainda guardando a esperança de mudar o que somos, ou de o esconder. Mas logo que a nossa vida é ameaçada ou está prestes a terminar, só realmente o que somos tem ainda valor. Só perante a morte somos totalmente sinceros, porque a morte é irrevogável e transmite à nossa existência, que ela colhe, o verdadeiro selo da absoluteidade.

E imaginamos na morte o olhar de um juiz a que nada escapa, o qual, mal ela ocorre, se apercebe imediatamente da verdadeira natureza da nossa alma, até aos seus mais íntimos resquícios. E que significa esse olhar senão a impossibilidade, aí onde já estamos, de algo acrescentar ao que fizémos, de nos evadirmos do que somos para um futuro novo, ou de separarmos o que é o nosso ser real do que é o nosso ser aparente para, no momento em que a vontade fica paralisada, ou de beijarmos contemplativamente esse ser agora completado, e que, até aí, mais não fora que um esboço sempre carecido de algum retoque?

Na sinceridade, não basta invocar Deus como testemunha, temos de o invocar também como modelo.

A sinceridade não é apenas vermo-nos na nossa luz própria, mas também realizarmo-nos segundo a sua vontade. Que sou eu, senão o que ele me pede que seja?

Mas uma distância infinita não se revela já em mim, entre o que faço e essa possibilidade que está comigo, em relação à qual o meu único vínculo é o de a concretizar? Ora, quanto a isso, não paro de fraquejar e, na medida mesma em que nisso falho, mais não sou para mim, ou para os outros, que uma aparência dissolúvel que qualquer sopro dissipa, e que a morte abolirá.

Eis, então, o verdadeiro sentido que deve ser atribuído às seguintes palavras:«Quem, neste mundo, corar por minha causa, por ele eu corarei, diante de meu Pai. Quem, neste mundo, me reconhecer, eu reconhecê-lo-ei diante de meu Pai. Eu vim ao mundo para dar testemunho da verdade».

(tradução de João Seabra Botelho)

Abel de Lacerda na Tertúlia



Causas da oposição do

«Rei do Vinho - Baco» à epopeia dos Lusos

Comunicação à Secção «Luís de Camões»
da «Sociedade de Geografia de Lisboa»
pelo sócio Abel de Lacerda Botelho
Abril de 2013

CAPITULO I

Porque é que BACO se quis opor à Viagem de Vasco da Gama à Índia? Qual a causa de tanto receio, de tanto medo, de tanto ódio que levou BACO a opor-se ao êxito da gente Lusa? O que é que o levou, inclusive em dois consílios dos deuses, a tentar que Júpiter e Neptuno não permitissem ao Gama chegar à Índia???

Porque é que “O Rei do Vinho – BACO” queria impedir à Gente Lusa, aos seus Barões assinalados, ao Rei de Portugal, que eles fossem expandir por todo o orbe terrestre, a Fé e o Império?

Porquê?

Claro que Luís de Camões conhecia essas razões. E não fugindo a tal “drama”, que poderia ter redundado em verdadeira “tragédia”, descreve-nos em “Os Lusíadas” - embora através de certo “ocultismo” - quais as intenções de Baco que o levaram até a tentar opor-se ao próprio Júpiter e, já em “causa de desespero”, a pedir auxílio a Neptuno, que convocasse um segundo consílio dos deuses.

Na verdade, se os Lusos sempre foram “fiéis” e “bons servidores de Baco”, como, e porquê, este deus do Olimpo estava revoltado, e queria a todo o custo fazer obstáculo e impedimento, a que os Portugueses descobrissem o caminho marítimo para a Índia, e “entre gente remota edificassem novo Reino que tanto sublimaram”?

Se a Gente Lusa (e seus descendentes e aderentes) sempre foram dos “melhores fiéis” que Baco teve, porque é que Baco os quis prejudicar, e tão mal tratar?

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)


Martin Lings na Tertúlia


A linguagem e a alma

Excerto de

" The Underlying Religion:

An Introduction to the Perennial Philosophy"

Nota: Por vezes, a Tertúlia tem convidados... Esses convidados nem sempre podem participar de viva voz; mas podem, sempre, participar de viva inteligência! Martin Lings (1909 - 2005), práticamente desconhecido em Portugal, conviveu com René Guenon e Frithjof Schuon e é o autor da mais notável biografia, em língua Inglesa, do Profeta do Islão, biografia intitulada: "Muhammad: His Life Based on Earliest Sources", livro cuja publicação em Portugal se justificaria plenamente, para colmatar um vazio de informação lamentável e perverso, tendo em conta que as primeiras gerações desta Pátria guardaram, nos alvores da sua memória milenar, uma vivência histórica profundamente enraizada nos primeiros e vibrantes séculos da expansão Islâmica.

Todas as línguas de que temos conhecimento são uma forma degradada de alguma língua mais antiga, ou até arcaica, e quanto mais recuamos no tempo, mais impressionante se mostra o poder da fala humana. Mostra-se também mais complexa, de tal forma que as mais antigas linguagens, aquelas que são muito mais remotas que a própria História, são mais subtis e elaboradas na sua estrutura, exigindo maior concentração e presença de espírito ao falante do que qualquer das mais recentes.

A passagem do tempo tende sempre a diminuir cada uma das palavras tanto na forma como na sonoridade, enquanto a gramática e a sintaxe se vão progressivamente simplificando. Mas embora o tempo tenda a despojar as linguas da sua qualidade originária, também é verdade que todas as línguas têm, em termos quantitativos, todo o vocabulário que é necessário aos seus falantes.

Um amplo acréscimo de objectos materiais, por exemplo, irá implicar um aumento proporcional do número de substantivos. Mas enquanto que, nas línguas actuais, as novas palavras têem de ser cunhadas artificialmente e acrescentadas, do exterior, no seio da linguagem corrente, das línguas mais arcaicas que conhecemos podemos afirmar que possuem, para além das palavras em utilização corrente, milhares de outras palavras não usadas que, se tal for desejado, podem ser produzidas, por assim dizer, orgânicamente, graças a uma quase ilimitada capacidade de formar palavras que é inerente à própria estrutura da linguagem.

A este respeito, serão as línguas actuais as que merecem ser apodadas de “línguas mortas” ou, pelo menos, moribundas, pois, comparando-as com as linguas arcaicas e ditas “mortas”, verificamos que estas se mantêm como um organismo de intensa vitalidade, não obstante se encontrarem votadas ao desuso.

Tal facto não significa que as línguas arcaicas ou aqueles que as falavam estivessem privados da virtude da simplicidade. A verdadeira simplicidade, longe de ser incompatível com a complexidade, até de certo modo a requer como contraponto para a sua mais completa realização. É preciso distinguir entre complexidade, que implica um sistema ou ordem definida, e complicação, que implica desordem e confusão. Uma distinção correspondente tem de ser feita entre simplicidade e simplificação. O verdadeiro homem simples é uma unidade intensa; é completo e convicto, não está dividido em si-mesmo nem contra si-próprio...

Para manter esta sua coesa integração, a sua alma tem de reajustar-se totalmente a cada nova circunstância, o que significa que deve haver uma grande flexibilidade entre os vários elementos psíquicos – cada um tem de estar preparado para se integrar perfeitamente com todos os outros, pouco importa o estado de alma do momento. Esta síntese tão estreitamente tecida, na qual se baseia a virtude da simplicidade, é complexidade, algo bem distinto da complicação; e tem o seu contrário na complexidade das línguas arcaicas, ás quais é geralmente aplicado o atributo de «sintéticas» para as distinguir das modernas linguas «analíticas».

Só um sofisticado sistema de regras gramaticais permite que as diferentes partes da fala, análogas às diferentes partes da alma, possam ser flexionadas articuladamente, projectando em cada frase a unidade de sentido que se inicia na palavra singular. A simplicidade das línguas sintéticas é comparável à das grandes obras de arte – simplicidade, não necessáriamente dos meios, mas do efeito total; e obtida, sem dúvida, no seu mais superlativo grau.

Tal era, também, a simplicidade da linguagem primordial e, podemos acrescentar, dos homens que a falavam. Esta é a conclusão que nos é imposta se atentarmos na evidência linguística disponível, e o testemunho de tal evidência é do mais alto significado psicológico, já que a linguagem tem uma importância fundamental na vida dos homens e está íntimamente ligada à alma humana, de que é a mais directa expressão.

Um dos legados do passado mais remoto que se manteve no tempo presente com excepcional inteireza e que, por essa razão, está qualificado para servir como um exemplar «marco», é a língua Árabe.

O seu destino tem sido bastante estranho... Quando os Árabes surgem na história, são um povo de poetas, que dispõe de uma ampla e variada gama de formas métricas e que usa a prosa apenas para a vida quotidiana. Possuiam uma escrita bastante rudimentar, que só alguns sabiam utilizar e, regra geral, preferiam transmitir os seus poemas tradicionais oralmente, de geração para geração, pelo que, à chegada do Islão, eram o mais iletrado dos povos Semitas. Isso, certamente, explicará em parte o facto de a sua língua se encontrar tão bem preservada; a evidência linguística mostra, porém, que o Arábico do seculo VII, embora já distante de uma língua ainda mais arcaica, isto é, ainda mais sonora e complexa, era ainda a que estava mais próxima da «língua de Shem», mais do que o Hebreu falado no tempo de Moisés, quase dois mil anos antes.

Foi o Islão, ou melhor, a necessidade de registar cada sílaba do Corão com total precisão, que impôs a literacia a partir desse século; mas, ao mesmo tempo, o Corão impôs como modelo aquele mesmo arcaismo, e como tinha que ser decorado e recitado com a maior frequência possível, o efeito prejudicial da escrita foi sempre anulado pela constante presença do Arábico Corânico na fala de todos. Rápidamente se desenvolveu uma ciência especializada em registar e preservar a pronúncia exacta, e qualquer degradação era detectada e corrigida pelos esforços persistentes e continuados dos Muçulmanos nos séculos que se seguiram, esforços que pretendiam manter inalterada a sua língua, igual ao que fora no tempo do Profeta e tal como ele a falou!

Daqui resultou que essa língua ainda hoje subsiste; inevitavelmente, alguns dialectos se foram formando, com o correr do tempo, à sua volta, e algumas sílabas poderão ter caído em desuso ou alguns sons poderão ter-se fundido, e outras simplificações semelhantes, e tais dialectos são utilizados em conversas correntes; mas em qualquer situação que justifique uma mínima formalidade, imediatamente se recorre ao Árabe clássico, e mesmo quando alguém sente que tem algo a dizer que é realmente importante, pode também recorrer espontâneamente ao Árabe Clássico.

Além disto, aqueles poucos que se recusam, por uma questão de princípio, a usar a linguagem coloquial acabam perante um dilema: ou se abstêm totalmente de participar numa «conversa vulgar», ou arriscam-se a parecer demasiado pomposos, como se fossem artistas de rua mascarados com roupas reais. Assim, a conversa fiada, isto é, a expressão imediata e lesta de pensamentos insensatos ou incontidos, deveria ser relativamente pouco comum no passado, pois não é algo que as línguas antigas facilitassem ou promovessem; e se o pensamento não andar perdido e souber tomar cuidado com a forma em que se expressa, certamente será mais cuidada a fala e mais sóbria a linguagem. Ora o Sânscrito conta a mesma história que o Arábico: um e outro, nas suas maravilhosas e variadas gamas de consoantes deixam-nos a convicção que, em passado remoto, os orgãos da fala e da audição eram bem mais sensíveis e delicados do que são hoje; esta convicção é reforçada pelo estudo da música mais antiga, plena de subtilezas rítmicas e melódicas.

Se a filologia não pode acercar-se, e descrever, as origens da fala, pode, todavia, perspectivar num percurso ininterrupto alguns milhares de anos de história linguística, percurso que também representa, em certos aspectos, milhares de anos de história da alma humana.


Conversas em Tertúlia


Tertúlia em Miraflores, Janeiro de 2012. Participaram no diálogo Luis Furtado (LF), João Seabra Botelho (JSB) e Francisco Moraes Sarmento (FMS).


Já será tempo de conversar sobre José Marinho?

Num inverno invulgarmente soalheiro, a tarde aprazível convida a um passeio. Alguém interrompe o silêncio:

JSB – Meu caros, terminou há dias o ano em que se completou o cinquentenário da publicação da «Teoria do Ser e da Verdade». Uma vez que as vozes institucionais já fizeram as homenagens que tinham a fazer, o Marinho está outra vez disponível para conversar connosco...

FMS – Não esteve disponível porque estava ocupado a participar nas homenagens, ou porque andava a fugir delas?

(risos)

LF – Bem, então eu faço a pergunta que ele nos fazia, quando chegava à tertúlia: “Temos conversa?”

FMS – Temos, sempre!... Tenho andado a ler S. Tomás de Aquino e, por estranho que pareça, fui parar a Marinho. Hoje, estou em dizer que o conceito de insubstancial substante é um conceito inspirado por Aquino. E tomando em atenção as teses de Aquino, acabei por concluir que José Marinho é Aristotélico.

LF – Em que sentido?

FMS – Bem, é a leitura de Aquino que me permite entender o insubstancial substante sem decair nas muitas leituras que, infelizmente, andam por aí, e que tentam empurrar Marinho para uma tradição céptica e nihilista.

LF – Para mim, o conceito de insubstancial substante resulta de uma equivocidade que está no próprio fundamento do pensamento humano. O acto de pensar nunca se cansa de si mesmo, porque o pensamento sempre se recria, principalmente quando tem sobre sua égide a própria mente divina. O insubstancial substante, portanto, em todos os momentos morre, e em todos os momentos renasce de si-mesmo. No renascer está precisamente a sua substancialidade, afirmada no pensamento, já que este nunca se contradiz a si-mesmo como realidade, como essência de si.

Mas eis agora a perspectiva do homem, que é a perspectiva de J. Marinho. Marinho é um homem de perplexidades, que se vê perante a alta missão do seu pensamento, que reconhece o alto grau que esse mesmo pensamento pede para a reflexão sobre si-próprio. E esse pensamento, na pureza de si-mesmo, porque está alto, porque deseja contemplar a verdade e o ser da verdade, apenas encontra como reflexo a própria natureza humana. E o que é que lhe diz a natureza humana? Diz-lhe que o infinito ser sempre se nega - nega-se em todas as substâncias criadas; mas também persiste, porque permanece sempre como poder de afirmação.

FSM – Pois o que me surpreendeu, foi a dissolução do equivoco... A expressão insubstancial substante, que aparenta ser intrinsecamente equívoca, segundo uma interpretação aristotélica de S.Tomás, deixa de o ser. Perceberá isto quem se lembrar dos argumentos de S.Tomás que conciliam a tese da eternidade do mundo e a existência de um Deus Criador.

LF- Bem, quanto a mim há, realmente, uma equivocidade! No entanto, é certo que, no insubstancial, sempre a preposição apela ao substante... O substante é o fundamento, que o pensamento continua indefinidamente a procurar, porque o pensamento não tem posssibilidade de se contrariar, mesmo na negação, pois até na negação se reconhece, quanto mais não seja como fundamento de si-mesmo.

FMS- Isso é pedagógico...

LF- Não, não é apenas isso. O ser tem de negar-se para se afirmar.

FMS – A negação não é necessária à afirmação do ser. A negação é sempre provisória...

JSB – Creio que essa seria a tese de Álvaro, e nisso discordaram os dois Amigos. A tese de José Marinho, quanto a mim, não é essa. Em Marinho, a cisão é irrefragável! Não há humana afirmação de ser que dela, cisão, seja imaculada; o não-ser, não sendo o que é, como que assiste o que é, a ser. Eis o enigma fundamental que, segundo Marinho, move todo o filosofar.

LF – Sim, e Marinho teve a virtude de levar toda a problemática da filosofia, da filosofia em geral e não apenas portuguesa, para este tema axial. E poucos o entendem. E embora seja um autor de relevância mundial, é intraduzível; a sua escrita é inevitavelmente hermética, não suporta tradução. Há uma cisão extrema, e a cisão extrema explica necessáriamente um eleatismo de tipo metafísico. Nós temos a nossa velocidade própria de pensamento, potencialmente infinita, e viajamos dentro de nós por mundos infinitos, dentro dos quais nos sentimos concêntricos, como se fôssemos senhores mas , bem no fundo, estamos a alargar as nossas cavernas, ou seja, os nossos possíveis céus.

No contexto da Terra, alargamos os nossos horizontes. E por isso as viagens dos homens adquirem vários significados, porque o homem pode navegar infinitamente, através de vários mundos. A cisão extrema, para Marinho, é pressupor que, no fim de tudo, na grande finalização teleológica da História dos Mundos e do Ser em relação a esses Mundos, mais uma vez, perante o infinito inesgotável, o que o homem pode conceber, ou a realidade que o homem pode usufruir, é sempre separada. A cisão extrema fala-nos, e impõe-nos, autoritáriamente, que há sempre algo finito que para nós serve, mas, no fundo, que está perante o infinito inconcluido. A cisão extrema é para além dos homens e das circunstâncias que os envolvem na sua própria evolução.

Sob o ponto de vista antropológico, partindo do princípio que há um fim teleológico do homem nesta dimensão espacio-temporal, há sempre uma cisão extrema, porque Deus, como diria Pessoa, é sempre para além da ogiva, o grande ser acima de tudo, acima de todos os anseios, acima de todas as nossas especulações – e ainda bem! Sem isso, a nossa existência na Terra poderia ser programada por etapas, poderia ser mais ou menos definida e orientada, e não haveria algo, para além de tudo, perante o qual nós sentíssemos que o mistério da existência tivesse solução possível.

FSM – A autognose é concêntrica? Na autognose o homem não se conhece apenas a si mesmo... Na autognose conhecemo-nos a nós, e a todo o Mundo!!!Não há, por isso, redenção do mundo sem salvação do Homem, por muito que isso custe aos ecologistas e aos amigos dos animais da nossa praça! E, já agora, eu diria que só temos cisão na Criação... Perante a eternidade do mundo, o que é a cisão? Aliás, para mim a cisão é uma noção teológica, embora todos andem a tratá-la como se fosse uma noção antropológica.

JSB- Caro Francisco, parece-me que quererá dizer que o Mundo é perpétuo, não eterno. A eternidade, como sabe, está fora do tempo e da sucessão dos momentos, e o Mundo não o está, certamente... A tese de Aquino, creio, é a da perpetuidade. Quanto à cisão extrema, como lhe chama Marinho, ela é apresentada quase como se fosse um atributo divino; mas se Marinho não carece da inteligência que permite aos homens não limitar ou antropoformizar o Divino, ao dizer que a cisão seja em Deus, terá de dizer que essa cisão é para nós, e não para Ele; e é por ela ser para nós, que a autognose de cada um não poderá abarcar nem uma só gota do que está para além de cada um; no entanto, não haverá nenhum limite ao que a graça Divina queira dar a conhecer a cada um... Mas isso, já será sófico e misterioso, está, julgo, para lá da autognose enquanto tal...

LF- A autognose é sempre concêntrica em nós. E excêntrica em relação a Deus. É a graça que ultrapassa os Mundos e as dimensões que temos como referências relativamente ao nosso espaço e ao nosso tempo. Pensamos que o milagre não existe... Pensamos até, embora não acreditemos, que é impossível uma comunicação, mas o beneficio da graça é algo que nós recebemos para além de todo o espaço e de todo o tempo. Isto foi uma das heranças que recebi, não só das leituras de Leonardo Coimbra, com também da mestria do Álvaro Ribeiro. A gnose, repito, como algo do conhecimento que nos é dado, e que para nós serve como semente de evolução e como ascensão para a nossa possível realização interna, é algo que em nós se opera, em nós se confirma, em nós se dilata, abrangendo, por si-mesma, tudo o resto, que no fundo é a realidade, realidade essa a que chamamos mundo. Não tenhamos o receio de sermos mónadas!

FMS – Se eu fosse a ave metafisica do Sant'Ana Dionísio diria que na autognose todo o homem se sente divino.

JSB – E esses momentos, como talvez Marinho lembrasse agora, não são, na autognose, o entusiamo que caminha sempre a par e passo com o lamento de Cristo”Pai, Pai, porque me abandonaste”? Nenhuma monada subsiste apenas da sua harmonia interna!Mas talvez, quem sabe, essa harmonia seja já em si suficiente para fazer voar a ave metafísica...

LF-Porque é que a mónada é a configuração? Por que razão nos aparece como o ser infinito de Parménides, o ser concluso para o qual transferimos contradições, interrogações... O que interessa nas mónadas, na sua sua conclusividade que parece negar o infinito, não é a contradição do infinito. O infinito, para o ser humano é como um imenso oceano de reserva a partir do qual todas as finitudes se dispoêm nas suas múltiplas correspondências e nas suas especiais simpatias. Mundos diferentes sim, mas conclusos na sua harmonia, sabendo nós que essa harmonia faz parte dessa outra harmonia geral que é aquela que nos movimenta o espírito e que ao mesmo tempo faz com que tudo o que pensamos possa ser concebido. Verdadeiramente, não há conceitos singulares que por esta génese não sejam universais. E que por esta luz interna, fogo activo, não se torne propriedade comum universal de tudo o que é o nosso conceber. Os conceitos a priori serão sintéticos? Nós pensamos que todos os conceitos serão gerados em nós porque fazemos parte da universal geração de tudo o que é o nosso conceber. Presumo que não é nas ciências evolucionistas que está a geração de toda as coisas. Nem estas ciências tem ainda a atitude firme de receberem em seu seio aquilo que é o movimento evolucionista do mundo! Mas há no espírito humano como que um polo de referenciação que vai distinguir aquilo que é o nosso conceber. Neste caso, concebemos pelo espírito. Por isso mesmo concebemos para as ideias e isto sustenta em nós uma perspectiva abençoada e possivelmente transcendente de todos os mundos que possamos conceber.


  

Novos Textos

Orlando Vitorino

Suaves Cavaleiros

in «A Ilha» de 1 Jan. 1971

1 - O que os governos idolatram

O governo das sociedades contemporâneas é orientado segundo um princípio absolutizado e universalizado, a que tudo se deve subordinar: o princípio da economia.

O predomínio absoluto deste princípio começou por constituir a arma que conquistou para a burguesia o domínio das sociedades. Conquistado esse domínio, logo o princípio da economia se revelou instrumento da mais flagrante e dolorosa injustiça. Multiplicaram-se as suas vítimas vertiginosamente, até abrangerem a quase totalidade dos homens.

Quando essa injustiça, assim estabelecida, ficou patente e adquiriu as proporções de escândalo, procurou-se atribuir às modalidades e processos de aplicação do princípio, não ao próprio princípio, a sua origem e causa. Mantendo-se assim, no seu pedestal, esse princípio absoluto e único, reforçando-o e elevando-o até mais alto, dividiram-se em duas correntes principais os adoradores do ídolo - chamaram-se uns socialistas, chamaram-se outros capitalistas. O que os distingue é apenas a modalidade, o processo daquilo que ambos os grupos designam por «distribuição da riqueza», designação sarcástica pois do que efectivamente se trata é da «distribuição da pobreza». De qualquer modo, o ídolo é o mesmo, o princípio fica intocável e sua soberania continua a ser total.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)

Álvaro Ribeiro

Doutrina Fadista

O fado é uma arte popular. O primeiro problema duma doutrina do fado consistirá, pois, em investigar quais sejam o verdadeiro significado e real valor da arte popular.

Arte popular não pode ser entendida como arte que ao povo se dirige, descendo e simplificando, divulgando e degradando, até se tornar acessível ao público e à multidão. Arte popular não é o contrário de arte para raros apenas. Arte popular não é a arte que desce, pelo contrário, é a arte que sobe, a que procura sempre uma expressão mais alta. O artista que desce até ao povo demonstra, nesse movimento, que do povo não provém; a sua missão cultural, por muito útil e valiosa que seja, é estranha ao povo. Tal como um professor de língua estrangeira; tal como um missionário ou um conquistador.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)

João Seabra Botelho

Orlando Vitorino, ao Undécimo Ano

Sou pela viagem! Prefiro-a à homenagem, em que, vulgarmente, o que se faz é prender o falecido sujeito, que valoramos merecedor, a um volumoso busto, a uma lápide tumular, ou a um nome de rua.

Em vez de assim imobilizar tal meritório viajante, que percorre já outros mundos, remetendo-o a uma situada, ilusória e carente intemporalidade, prefiro, neste undécimo ano após a morte de Orlando Vitorino, ousar fazer com ele um viajante discurso que, a ter alguma filosófica interrogação, será também incursão na memória imperturbável, onde todas as viagens são possíveis e ficam devidamente seladas.

Como é sabido, após o golpe de Estado do 25 de Abril de 1974, as autoridades militares reunidas em Junta chamaram diversas personalidades civis e disseram-lhes: criem partidos políticos.

Não vou aqui perder tempo acrescentando peripécias desse enredo, já que viajar na memória imperturbável não corresponde a ser memorialista. A razão de invocar tal acontecimento, ocorrido há quatro decénios, apenas serve de contexto para dizer que, embora Orlando Vitorino não estivesse no lote de «personalidades» a quem uma Junta Militar chamaria para fazer tal encomenda, dado não ter currículo político relevante, tanto ele como muitos outros portugueses decidiram organizar, ou comparecer, em iniciativas destinadas a discutir um possível ideário para um possível partido.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)

Afonso Botelho

Morte essencial e morte existencial em Leonardo Coimbra

Algumas notas pessoais e inéditas de José Marinho, feitas à margem da conferência de Leonardo sobre a morte, sugerem que vários passos desta reflexão denotam já a génese de «A Alegria a Dor e a Graça», que ele havia de publicar apenas três anos depois.

Marinho considerava que este último livro, mais do que a obra programática, «O Criacionismo», contém a essência, os princípios e o ritmo do pensamento do seu mestre. Por isso nos estimulava frequentemente a aprofundar a leitura do texto, que não tinha até então a necessária hermenêutica.

Aprofundar era o verbo por ele usado como acto imprescindível ao movimento especulativo. E, realmente, ajusta-se bem à imagem leonardina da alma que, no início de «A Morte», é comparada a um poço que nos atravessasse de lado a lado em cujas funduras abissais se vissem de novo as estrelas.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)

José Marinho

Sete Aforismos

1 - O homem que concebe a imortalidade, esse mesmo a não concebe perfeitamente; isto equivaleria, com efeito, a tornar-se imortal. Todo o perfeito conceber leva ou deveria levar a ser. Mas que sentido tem um perfeito conceber? Não é todo o conceber necessariamente imperfeito e sinal de imperfeição? Conceber é assim relação extrínseca do ser e do sentido. Assim seguindo, já nego o que antes afirmara. Mas prefiro negar-me a mim próprio do que negar a verdade ou ignorar a sua solene e terrível exigência. O nosso conceber não nos leva a ser perfeitamente, apenas certifica da possibilidade de ser e a desenvolve ou manifesta no plano de ser em que existimos. Cai abaixo da geração vital e supõe o conhecimento mais perfeito.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)

Orlando Vitorino

A Filosofia

como Imagem da Pátria

Há várias imagens de Portugal. Uma é formada pela história da acção que os portugueses exerceram e aquela a que foram sujeitos. É outra a da história da política e dos políticos, dos sucessivos regimes e governos. Uma terceira é a da história das artes, com natural relevo para a literatura. Faltava, até agora, uma última imagem, decerto a mais decisiva: a oferecida por aquilo que os portugueses pensam, a da história da filosofia portuguesa.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)

Orlando Vitorino

Diário das Presidenciais de 1986

Os Dois Primeiros Dias

1.° Dia

O José Luís Gala é quem lança a pergunta.

Estamos todos, como se tornou habitual ao fim da tarde, no "café" onde se reúne a tertúlia de jovens estudantes que têm gosto em comentar comigo livros, imagens, eventos e ideias. A pergunta deixa­-nos a todos perplexos, mas a verdade é que ela não é mais do que um convite para prolongarmos em obras nossos pensamentos e palavras. Ou um desafio para pormos à prova nossos pensamentos e palavras sob pena de eles não passarem de fáceis orgulhos, cómodas certezas, inconsequentes displicências de "intelectuais".

Todos sofremos a situação em que os Portugueses se encontram e todos sabemos que ela constitui, essencialmente, mais uma confirmação do preceito de Álvaro Ribeiro segundo o qual "não há política portuguesa sem cultura portuguesa".

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)

Luís Furtado

Budismo ou Aristotelismo?

O que é o Budismo? Ou, para nossa mais modesta compreensão, o que é o estado búdico? O que é ser Buda?

Recordo-me, em concentração respeitosa, à qual não falta uma certa saudade, dos tempos mais antigos em que eu, na companhia de outros mestres que já não estão entre nós, pensava estes temas que, aliás, preenchiam a minha alma, na aurora ainda imatura do seu pensar filosófico.

Falava então eu para o Álvaro Ribeiro de Rudolf Steiner, e da relação que se devia fazer, bem distinta, entre a teosofia e a antroposofia. Penso eu que agora essa questão, de novo, vai acontecendo entre nós. E que todas as religiões têm tendência, não para uma síntese, mas para uma síncrese, ou seja, para uma mistura!

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)



Orlando Vitorino

Teoremas de Filosofia, Nº 1, 1969

(Ed.de autor, de 500 exe.)

Notas contra a
   degradação do espírito

Terceira (e última) Parte

Conta-se Klages entre aqueles que atribuem a Frederico Nietzsche o papel que ele a si mesmo atribuía: o de quem se apercebe com nitidez que algo de radical separa neste momento toda a filosofia que no passado remonta até Sócrates e «aquela nova raça de filósofos que vejo erguer-se no horizonte»(18).

Será difícil mostrar que tal separação reside no que distingue um pensamento que aceita e um pensamento que recusa «a hostil oposição do espírito e da vida»; na aceitação, ou na recusa, persiste na fidelidade ao espírito ou a abandona.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)


Luis Zuzarte

O Mito de Diónisos

Num artigo recente referimo-nos ao estudo que o filósofo Heidegger escreveu sobre o poeta Holderlin, esse poeta louco de Diónisos, que ombreia com Nietzsche nessa singularidade, já que este foi o filósofo louco de Diónisos. Proponho-me agora abordar a relação entre Diónisos e Cristo, já que Diónisos é, na mítica grega, o deus que corresponde ao deus crucificado e, assim, que é crucificado na alma do mundo, ou melhor, na alma da terra, pois tal é a característica própria de Diónisos.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)


Orlando Vitorino

Teoremas de Filosofia, Nº 1, 1969

(Ed.de autor, de 500 exe.)

Notas contra a
   degradação do espírito

Segunda Parte

3. A psicologia moderna - especialmente aquela a que Klages chama «psicologia de escola» como a que domina o nosso ensino - procura evitar a palavra alma. E mais procura evitar a palavra «espírito». São, ambas, palavras que comprometem ou palavras que se dão por comprometidas.

De poucas terá a demagogia e a hipocrisia, sobretudo a dos políticos, abusado mais que da palavra «espírito». Por outro lado, ficou ela presa, no pensamento contemporâneo, ao sistema filosófico de Hegel, sistema demasiado rico, complexo e profundo para que do espírito se possa falar sem o ter em conta, sem que, de algum modo, haja um compromisso hegelianista em todo o espiritualismo. Restituir a uma palavra degradada o sentido que lhe vem da noção que designa, seria a nobre tarefa dos filólogos, a que poucos pensadores se entregam. É significativo que o mais significativo filósofo do nosso tempo tenha a nobreza de o fazer.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)


Leonardo Coimbra

excertos de

«A Alegria, a Dor e a Graça»

A liberdade existe, a graça é o seu corpo

É um universal que vem encher o vazio da forma.

Cada ser conhece imediatamente o Espaço como um ponto de impenetrabilidade que é a sua afirmação de coexistência, conhece o Tempo como o caminho da tendência, a distância entre o desejo e a acção.

Este conhecimento vago precisa-se pelo movimento, que dá ao Espaço e ao Tempo a sua mais alta organização.

No mundo da realidade, da harmonia, do caos ordenado, do Universo, o particular absoluto não existe. “Tudo é em tudo” é o primeiro universal.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)



Luís Furtado

in «Artes e Letras», D.N. 13/06/1968

Ano XIII nº693

Platão e os Cavaleiros do Amor

Para além do interesse que nos desperta como tradução exemplar feita por um espírito talentoso para a filosofia, o diálogo «O Banquete», recentemente saído a público, oferece-nos ainda um estudo sobre a perspectiva portuguesa de Platão (Coimbra, 1968) devido a Pinharanda Gomes.

Com base no tema do diálogo refere-se uma esclarecedora síntese a vários escritos que na literatura portuguesa trataram do problema do amor. Sempre fiel à valia dos documentos históricos, vinca as possíveis influências de ordem mística que a nossa literatura foi haurir ao transcendente idealismo platónico.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)


Orlando Vitorino

Teoremas de Filosofia, Nº 1, 1969

(Ed.de autor, de 500 exe.)

Notas contra a
   degradação do espírito

Primeira Parte

No final da última destas notas encontrará o leitor a seguinte interrogação: «Poderá isso a que o Cristianismo chamou alma e os Gregos chamaram psique, entender-se como um estado do espírito? Será a persona, entendida quer como pessoa, quer como personagem, não o estado de alma que dela fez um teatro simultâneamente primitivo e degradado, mas a imagem de um estado de espírito que a si mesmo se dá a forma e a matéria da alma ou da psique

1. Nas chamadas «línguas latinas» - os actuais dialectos em que o latim ainda se fala - dá-se o nome de personagem ao que, em teatro, o comediante representa ou que no comediante se representa.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)


Mário Ferreira dos Santos


Notas sobre

Abstracção e Metafísica



     Via Ascendente e Descendente



1- Abstração e Metafísica

Aristóteles estudou minuciosamente a abstracção e atribuiu-lhe diversos graus. Esses graus foram, depois, também estudados com não menos atenção pelos escolásticos, e foram caracterizados em três graus abstractivos, três graus que são próprios da faculdade de abstracção intelectual do ser humano.

Esses graus caracterizam-se da seguinte maneira:

1 - O primeiro grau de abstracção do intelecto consiste em tomar o objecto abstraindo da sua mera singularidade; abstraimos as suas propriedades, os seus acidentes, e chegamos a conceitos gerais como casa, árvore, homem, etc..

2 – Na abstracção do segundo grau, a mente não apenas anula os aspectos materiais e as propriedades sensíveis, mas, além disso, especificamente, o intelecto vai considerar o objecto apenas na sua condição extensiva, e quantitativa; e essa consideração pode ser feita segundo uma extensão contínua ou segundo uma extensão discreta. São estas abstrações, portanto, as que compõem a matemática , dado que a abstracção na extensividade contínua dá-nos a Geometria, as figuras geométricas, enquanto que a abstracção na extensividade discreta dá-nos a Aritmética, ou os números.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)


Mário Ferreira dos Santos


Excerto de

«Análise de Temas Sociais»



     Ácerca do conceito de Causa



1 - Factor

Factor, em sentido etimológico, é o que faz, do verbo «facere», e refere-se tanto à pessoa humana como a alguma coisa. Na matemática, significa um de dois termos que, multiplicados um pelo outro, constituem um producto. Na linguagem moderna, tomado em sentido amplo, é tudo quanto concorre para determinar um efeito, e é empregado, hoje, nas ciências culturais. Nesse amplo sentido, o termo é usado frequentemente como sinónimo de causa.

Tal sinonímia deve-se a uma razão muito simples.

Nos séculos XVIII e XIX alguns filósofos, por não terem devidamente compreendido o conceito de causa, exposto por Aristóteles e pelos escolásticos, decidiram combatê-lo. De tal modo o fizeram, que muitas mentes desprevenidas recearam continuar a usá-lo, preferindo substituí-lo pelo termo factor.

Portanto, para que se tenha uma clara visão deste termo é mister analisar o conceito de causa, evitando os erros frequentes que muitos filósofos modernos cometem.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)


João Seabra Botelho


Prefácio ao livro de Miguel Bruno Duarte



«Noemas da filosofia portuguesa»



Prefácio

1 - Da filosofia portuguesa

Filólogo e pensador que merece o epíteto de luso-brasileiro, já que desenvolveu e deixou no Brasil grande parte do seu labor, o português Eudoro de Sousa escreveu algures numa das suas obras: “Não preciso lembrar que, em certo ponto da escala temporal, o historiador da cultura brasileira teria de enfrentar a cultura ibérica, e daí partir para a cultura européia, e que, no estado atual dos nossos conhecimentos, só nos deteríamos no berço desta última, situado no mediterrâneo oriental pré-helênico, nas culturas neolíticas pré-cerâmicas da Ásia Menor.”

Sim, tem razão Eudoro...É exigível ao intelecto da maturidade humana que tenha consciência das suas raízes. É descabido julgar que podemos ignorar as origens sem perder os fins; e perder os fins é o mesmo que andar irremediavelmente perdido.

Assim, hoje, os países do continente Americano que vieram a constituir-se como culturas autónomas, interrogam-se sobre as suas raízes europeias, e mais particularmente sobre as suas raízes ibéricas, ou mais particularmente ainda sobre as suas raízes portuguesas, tal como desde há já vários séculos aos portugueses do espaço lusitano tem sido exigido que recordem as suas origens em longínquas paragens do Lácio, do Peloponeso, da Fenícia ou da Arábia.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)


João Seabra Botelho


Excertos de


“Crítica da Compreensão Pura”


    de Emanuel Kant

Selecção, ordenação, introdução e tradução livre de


  João Seabra Botelho

    Introdução:

É sabido que Kant teceu muito laboriosamente a argumentação exaustiva do seu sistema, pois era daqueles burgueses Modernos convencidos de que a Humanidade tinha finalmente entrado na Idade da Razão e, como tal, era tempo de criar um sistema capaz de corrigir os erros do passado Clássico e Medieval.

Não era só ele, porém, a desejar essa tarefa...Desde Lord Bacon que vários filósofos vinham dando a entender, de maneira mais ou menos explícita, que iriam tentar oferecer ao mundo um novo «organon», suplantando assim Aristóteles.

O leitor sem pretensões de erudição universitária, simplesmente animado de curiosidade filosófica, apanha um susto ao ver Kant soterrado sob centenas de versões, citações e traduções e um número abismal de interessados e seguidores... Quase parece que esses todos já disseram tudo. Ao mesmo tempo, porém, fica no ar, lançada subreptíciamente, a seguinte sugestão: só grandes especialistas compreenderão realmente a obra...

Encontrar textos de Kant que apresentem, de forma sucinta mas elucidativa, alguns dos momentos em que o seu filosofar serviu realmente de instrumento à inteligência universal, parece, pois, tarefa arriscada, qual incauto caminhante entrando em floresta densa e agreste, onde só devem entrar experientes viajantes. A esse primeiro desafio junta-se depois, como adiante explicitamos, o de traduzir esses textos para português.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)


Francisco Sottomayor


O Culto e a Cultura

1. Os «Conferencistas do Casino» e a República Positivista

Nas bibliografias dos vários doutores, sábios e santos que, no decurso de dois milénios, se vieram sucedendo na Igreja, ressalta ao leitor atento e paciente a constante preocupação e a permanente ocupação dos pensadores católicos de maior celebridade, fama e santidade. Efectivamente, na resolução dos problemas, na descoberta dos segredos e na meditação dos mistérios, em suma na actividade da razão, decorreu a vida nem sempre pacífica dos homens que, com maior entendimento e responsabilidade viveram a doutrina católica tradicional.

Quem, reflexionando sobre esta constância, não duvidar da incontestável fé dos santos doutores, perguntará surpreendido qual o motivo de tanto esforço humano. Pois quê: não é então verdade que, se o homem cumpre á risca todos os preceitos e ditames da Igreja será, ao fim e ao cabo, digno de merecer a salvação? Para quê, portanto, estes sábios doutores, que depois foram santos, dedicam a sua vida a tão profundos, laboriosos e pacientes estudos, na tentativa de conciliar a sua razão com a fé? Porquê, firmar numa filosofia uma apologética que articulasse o culto católico com a cultura do seu tempo?

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)



Luis Furtado


O dinheiro como valor de

representação

John Law

Para vos falar do dinheiro como valor de representação, como principiarei a explicar-me?

Tudo o que possa dizer passa pelo crédito. Se existe um poder incontornável, é realmente o do crédito. Quem não admira o seu poder maravilhoso? Quem não reconhecerá a larga parte que lhe cabe do prodigioso desenvolvimento económico da época actual?

No entanto, subsiste sempre uma antiga divergência de opiniões ligando-se à dimensão e funcionamento do crédito, que de tempos a tempos se reproduz com uma vivacidade nova. O crédito representa a abertura ao poder criador e a faculdade de multiplicar os capitais... Outros economistas não são tão optimistas.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)


João Seabra Botelho


Sentimentologia – Excursão III

A Protímia


A protímia, dos Helenos, ou perseverantia dos Latinos, é o fio-de-prumo que mantém a alma na vertical desde os primeiros passos da vida. Este sentimento brilha serenamente no olhar dos recém-nascidos e responde, ou torna fútil, a questão: viver para quê? 

A protímia é uma das fadas que rodeia o berço, e o seu condão é a energia dos feitos que nunca dependeram do acaso. Ganha raízes no lado esquerdo do coração do fadado e fá-lo sentir-se animado, mesmo no infortúnio

A protímia distingue-se bem da obsessão. Esta, é uma dependência que consome, enfraquece e incapacita, enquanto aquela é uma anuência, que alimenta, fortalece e prepara para qualquer renúncia ou sacrifício.

A protímia só pode ser estimulada pelo exemplo. Aqueles poucos que a praticam, despertam-na naqueles poucos em que está dormente.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)


Francisco Saraiva


Do organon da lógica

à lógica transcendental

No anterior texto, “O que é a lógica”, elaborei acerca da essência da lógica, propondo que ela se radica e fundamenta na essência do homem (um animal racional ou uma alma em que reside o logos). De acordo com esta tese, a lógica, buscando responder à questão da essência das coisas (ou dos entes), constitui-se numa ontologia.

A lógica das origens (Sócrates, Platão e Aristóteles), procurando um desvelamento do ser através do diálogo, do exame da linguagem e do silogismo, encontrou uma convergência ou correspondência entre os princípios ou formas do pensamento e os princípios estruturantes da realidade. Isso mesmo verificamos nos princípios fundamentais da lógica, nomeadamente identidade e princípio de razão suficiente ou causal. O mesmo nexo de necessidade das leis do pensamento se encontrava na realidade. Nessa medida, a lógica se constituira numa ontologia, palavra que é habitualmente definida como ciência do ser mas que pode também ser compreendida como “o logos do ser” ou “a relação do ser ao logos”.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)


Francisco Moraes Sarmento


Apresentação do livro de


Costa Bruno

'Madalena, Fragmentos de um romance'

Dia 23 de Outubro, Livraria Bertrand, Chiado, Lisboa

Caros Amigos

No 23 de Outubro, às 18,30, lançarei na Bertrand do Chiado, Lisboa, a obra "Madalena, fragmentos de um romance". Trata-se de um conjunto de cartas de C. Bruno à sua amada, Madalena. Para além dos encontros e desencontros entre um homem e uma mulher, trata-se de uma teoria sobre o ideal amoroso, na forma epistolar. O tema será comentado por João Seabra Botelho.

Conto com a vossa presença

Francisco Moraes Sarmento



Orlando Vitorino


Traduções portuguesas de filosofia

Subsidios para a história da filosofia portuguesa

- Terceira Parte -

4. Filosofia Moderna

a) Descartes

A relação que há entre a obra de Descartes e a actividade da Companhia de Jesus, que então denominava o ensino em Portugal, explica que de todos os pensadores do Renascimento, tenha sido esse o mais conhecido e divulgado entre nós até que Verney, certamente pelos mesmos motivos, o tenha desvalorizado e desdenhado.

Não chegaram os primeiros a levar a divulgação de Descartes até ao ponto de traduzirem os seus livros, tradução que, depois da obra de Verney e da reforma pombalina do ensino, ficou comprometida.

Só em nossos dias, muito tardiamente portanto, se publicaram as traduções das Meditações Metafísicas, por António Sérgio, e do Discurso do Método e Tratado das Paixões da Alma, por Newton de Macedo.

b) Leibniz e Espinosa

Ao contrário de Descartes, Leibniz e Espinosa seriam suspeitos à filosofia que, na época deles, dominando o ensino, era oficialmente cultivada entre nós. Ambos se relacionavam, no aspecto religioso, com ortodoxias adversas ao catolicismo. E apesar de um ser de origem portuguesa e de o outro se referir com admiração aos pensadores portugueses, só em 1930 aparece uma tradução de Leibniz e em 1950 a da Ética de Espinosa.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)


Luis Furtado


A Janela

Nunca a humanidade esteve tão mergulhada no mundo da cultura! Hoje, todos somos cultos só porque nos civilizamos, só porque julgamos que o progresso, em si mesmo, se encarregará de fazer por nós mais do que aquilo que representa o nosso desempenho no viver afadigado e quotidiano. Escusamos até de pensar! Tão somente pensamos no modo melhor e mais útil de levar a nossa vida. Tudo o que nos rodeia passa, assim, a ser displicentemente aceite como facto cultural.

Na verdade, todos os factos comparticipam de uma cumplicidade de modelos ou de acções que, fazendo parte do espírito humano, descrevem as suas ansiedades, que pouco a pouco se vão sedimentando nos nossos hábitos de viver e interpretar o mundo.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)


Orlando Vitorino


Traduções portuguesas de filosofia

Subsidios para a história da filosofia portuguesa

- Segunda Parte -

I. A filosofia grega

a) Os pré-socráticos

A cultura clássica, e sobretudo a filosofia grega, nunca despertou entre nós o interesse e a atenção que outros povos lhe dedicam, apesar de o aristotelismo constituir uma constante cultural e mental do pensamento português.

Dos pré-socráticos apenas se traduziram os Versos de Ouro, de Pitágoras, no século XVIII. Dever-se-á isso explicar pelas dificuldades de erudição que a sua tradução e interpretação oferecem e, sobretudo, porque o interesse pelos pré-socráticos só pode ser despertado pelo prévio conhecimento da filosofia grega, em especial de Platão e Aristóteles, caso não seja promovido por motivos de erudição religiosa.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)


Francisco Saraiva


O que é a lógica?

Assim, de uma forma directa e inesperada, me interpelou uma vez numa tertúlia alguém que sabia muito mais do que eu. Preocupava-o (creio) que estivéssemos falando de uma coisa sem realmente a compreender. Não me recordo do que na altura disse, mas creio que terei defendido que a lógica é, em última instância, ontologia.

Muitos anos passados, respondendo ao convite, que muito me honra, para colaborar na «Homo Viator», retomo o tema.

O que é então a lógica? E porque é esta questão importante? Não existe propriamente uma definição académica sobre o que seja a lógica. Em primeiro lugar, tal deve-se ao facto de não haver, entre diferentes escolas de pensamento, um acordo acerca do “objecto” da lógica (o pensamento?, as regras do raciocínio válido? as condições de possibilidade do conhecimento? a realidade?). Mas, se nos posicionarmos num plano ainda anterior às decisões das escolas (ou sistemas) quanto ao problema (realismo, idealismo, nominalismo, epistemologia), verificamos uma outra coisa: é que a definição é desde logo uma forma ou expressão do tipo de pensamento lógico. Adiante desenvolveremos um pouco mais este ponto.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)

Orlando Vitorino


Traduções portuguesas de filosofia

Subsidios para a história da filosofia portuguesa

- Primeira Parte -

1. A tradução dos livros de filosofia pode considerar-se devida a quatro ordens de motivos: a motivos culturais, quando se consideram tais traduções como forma de enriquecimento de cada cultura; a motivos literários, quando tais livros sao representativos dos mais altos valores de expressão artística, como acontece com Platão, Cícero ou Hegel; a motivos religiosos, políticos ou científicos, quando essas manifestações encontram na filosofia ou um complemento que as prolonga ou fundamento de que carecem; a motivos propriamente filosóficos, quer quando um pensamento virtual, de demorada expressão, recorre à expressão próxima ou análoga dada por filósofos estrangeiros, quer quando um pensador ou um movimento original procura, na tradução de obras filosóficas, a expressão de filosofemas e até sistemas que se conjugam e vêm fortalecer e ampliar um pensamento original.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)


Mário Ferreira dos Santos


Da Perfeição e das ideias

É no tocante à perfeição que as concepções de Aristóteles e de Platão se dividem. Aristóteles é empirista-racionalista, e a esquemática da conceituação física é nele predominante, levando-o a colocar a perfeição na substância individual.

Este cavalo, aqui e agora, é mais perfeito que a cavalaridade, é mais perfeito que a sua forma. Ademais, há apenas uma existência real para ele, que é a individual, pois as formas não se dão fora das coisas. E é o indivíduo o mais perfeito, porque é mais determinado, já que ele é a última determinação da sua espécie, e é uma existência real.

Para Platão, é o contrário. A perfeição é do logos de que os entes participam. Nenhum ser individual realiza plenamente a perfeição específica, pois nenhum ente, individualmente, é tudo quanto, dentro da sua espécie, pode ser. Esta abrange, portanto, um âmbito muito mais vasto e nela se incluem todas as perfeições possíveis das determinações, não actualizadas axiológicamente por Aristóteles.

Mas o logos, que é o inteligível dos entes (para Platão não se separa do ontológico, pois este é o logos da entidade), é a razão de ser do que é isto ou aquilo. O ser inteligente é aquele que capta a inteligibilidade do logos das coisas, e que pode analizar, extensa e intensamente, o que um ser é.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)


João Seabra Botelho


Devaneio sobre a Beleza e a Arte


Nota: Este texto foi escrito a convite de Manuel Bernardes, para integrar o catálogo da exposição individual de pintura que realizou em Fevereiro de 2011


capa de catalogo“Tudo o que n'Ele tem permanecido invisível desde a criação do mundo será visto claramente ao apreendermos as coisas que criou” (Romanos, 1:20)

Os que olham para uma pintura esperam que o intento do artista tenha sido o de abrir uma fresta nos limites deste mundo, por onde passe uma réstea de Beleza. O artista, esse, espera que os olhares que procuram a sua pintura se deixem guiar pela luz, as cores e as formas dos seus quadros, ao encontro das subtis energias que fluem dessa fresta.

E é assim que a Beleza se torna real, e visível, apesar de não ser deste mundo.

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)


Luis Zuzarte

A propósito de René Guénon

René Guénon é, decerto, o mais importante intelectual e pensador, diremos, exactamente, «metafísico», do tradicionalismo ocidental. Na sua vasta e notável obra, estabelece o contacto, a ponte e a ligação entre o tradicionalismo ocidental e o tradicionalismo oriental, demonstrando, mediante pacientes, penetrantes e agudíssimas escavações nas legendas, nos mitos e nos símbolos, quer ocidentais, quer orientais, que uma mesma e única tradição existe, embora diversamente repartida pelos lugares e pelas épocas. A essa tradição chamou «primordial» e, dentro da linha que nos é própria e peculiar, podemos afirmar ser aquela tradição que inspirou e se exprime e manifesta nos «textos bíblicos».

(excerto - clique no titulo para ler texto completo)

Afonso Botelho

A contemplação



Afonso Botelho

O espírito crítico



Álvaro Ribeiro

Recensão «A essência do


conhecimento»

Inéditos* de
José Marinho

Juízo Final


Em nome do Deus subtil se falou de juízo final. E os homens, enquanto são também no engano de ser, e assumem a liberdade de pensar sem garantia no que chamamos insubstancial substante, se atribuíram um juízo final.

Juízo final, porém, como tudo quanto foi revelado, tudo quanto se manifestou e proclamou, do mais excelso ao mais trivial, é para interpretar-se. Ele não significa, como se tornou evidente pela nossa teoria, decisivo distinguir de verdade e erro, bem e mal, justo e injusto, mas o sublime anular no insubstancial substante, em si e para si, mas em nós e para nós, de toda a distinção e divisão da cisão, conforme a dissemos, a cisão pela qual há a distinguir e dividir no que sabe, ou no ser do que sabe, ou no ser para o que sabe.


O homem é para si como o encoberto

Só se descobre o coberto ou o encoberto.

Nós dizemos coberto o que tem sobre si algo que o esconde aos olhos. Deste modo, por exemplo, o corpo se diz coberto pelos vestidos. Quando, porém, dizemos encoberto, ou hesitamos entre o cobrir e o encobrir, coberto e encoberto, tal dizer, e a perplexidade no dizer, revelam sentido mais fundo, maior dificuldade da apreensão e do conceito. Assim, ocorre já em expressões comuns, ao referirmos, por exemplo, o céu, ou o sol, coberto ou encoberto. Coberto convém ao simplesmente sentido ou percebido como velado. Encoberto, por seu turno, convém quando o acto ou o agente de cobrir de modo mais ou menos indirecto ou mais ou menos consciente se referem.

Se retiro os vestidos, o corpo aparecerá em sua nudez; como poderei, entretanto, retirar as nuvens que velam o que é para mim céu indefinido, indeciso, ilusório, ou face do sol? Fui eu próprio, ou alguém, quem se vestiu: e o refiro num processo, desde o primeiro ao último gesto. E tal como vou da nudez ao corpo vestido, posso regressar deste àquela. Perante o que aparece coberto, depende de mim ou de alguém descobri-lo; perante o que aparece encoberto dificuldade em grau maior ou menor se depara. O processo e a consequente situação escapam-me, de algum modo: ou ao meu poder, ou, mais subtilmente, ao meu saber.

Tal a breve síntese das longas reflexões sugeridas pela situação do homem quando regresssa do sentido do mistério remoto ou do drama insolúvel ou irresolúvel, ao sentido do renovado enigma do ser da verdade para si.

No sentido menos comum ou já trivial do drama insolúvel, um ser alheio ao ser do homem é, para ele, como o de que o seu ser depende; no sentido exclusivo do mistério, toda a consciência, todo o conhecimento, todo o saber quedam dependentes de uma verdade alheia ao pensamento.

Que significado, porém, pode encontrar-se para tal dependência? Pois o que depende do que é enquanto é, ou é ser da verdade, e se dirá então absoluta ou estrita e inelutável necessidade, outro certamente será do que ele. Se é, porém, o irredutível outro, como pode tal relação de algum modo estabelecer-se, como o que se sente, como o que se crê, como o que se pensa?

E o que depende enquanto pensa, depende então da verdade substancial do que é, mas com a condição de algo haver dessa verdade no próprio ser como o que é enquanto pensa, ou no próprio pensamento. Se, porém, no pensamento a verdade é como substancial, ou como o que plena e necessáriamente cumpre todo o pensamento, que sentido tem então pensar? Pois pensar é carecer de algum modo da verdade que na visão unívoca não foi, ou não foi para si, ou foi dada no limite do ser qual somos ou do pensamento qual pensamos.

De qualquer modo, e isso importa atenta e reiteradamente considerar, o homem é para si como o encoberto, e o será em seu ser, ou no pensamento, ou num e noutro.

José Marinho

* Homo Viator esclarecerá a origem destes inéditos em devido tempo

Nec
Oblitus!

Nunca esquecidos!
(em ordem alfabética)


Afonso Botelho



Álvaro Ribeiro



Francisco
Sotto-Mayor


Jorge Filgueiras


José Marinho



Leonardo Coimbra


Luis Zuzarte


Mario Ferreira
dos Santos



Orlando Vitorino