As divergências de Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa

(Nota: Este texto é a síntese de algumas opiniões com que participei numa breve discussão que se gerou na sequência da publicação, na revista "Leonardo", de uma entrevista de Teixeira de Pascoaes (pode ler a entrevista aqui). Nesta entrevista, Pascoaes faz diversas considerações sobre Fernando Pessoa, que alguns leitores da "Leonardo entenderam controversas, e daí nasceu alguma "polémica".)

 

Sobre o "fingimento" de Pessoa

O discurso poético não é, (não poderia ser!), um desconhecido a que procuramos as feições esquecidas, ou nunca vistas. Mas a nota de Pascoaes sobre Pessoa, que aqui publicámos na sua crua e inesperada lucidez, é um arguto e irresistível mote para inquirirmos todo o discurso poético, “de Homero até hoje”. Pode este discurso circunscrever-se, como quereria Pascoaes, a uma exigência da imediateidade expressiva de uma experiência única e singular do poeta que inflama ou ilumina os seus sentimentos - mesmo que já pensados e sábios, ainda sentimentos – ou, como roga ou interroga Pessoa, poderá ele abrir-se a um poetar do pensamento que, quando é caso disso, finge o sentimento? Finge, entenda-se, não por superficial ou diletante capricho, mas por trágica condição, nostalgicamente vivida e sofrida, de se ser esse em quem o sentimento já não é ónticamente possível, já não se ilumina.

A questão que Pessoa encarna – e que tantos de nós subscrevemos implicitamente, na nossa admiração por ele e, provavelmente, sem termos sequer consciência dela -  é esta: Quem garante que o homem nasce sempre com sentimentos, apesar de ser garantido que nasce sempre racional?  

Resposta a Cynthia Taveira

Cara Cynthia, a sua participação, e o modo como participou, neste breve colóquio, trouxe novos temas e perspectivas a este confronto peculiar entre dois Poetas que, se podem ser companheiros na resistência à "modernidade", como bem disse no seu anterior comentário, também divergem e se diferenciam, talvez para nossa (dolorosa) surpresa; e serão os leitores destes dois poetas que terão de decifrar o cerne deste seu confronto e desta adversa complementaridade, julgando o pleito como melhor entenderem.

Aproveito agora o poema de Pessoa que citou, "Paraíso", para ilustrar o primeiro de dois pontos em que, julgo, divergem estes Poetas.

Dalila P.Costa, tal como lembrou, diz que a essência da Poesia "é abrir o invisível". Concordamos, e connosco concordam muitos outros que tal disseram de modo semelhante ou diverso. Ora o tema "Paraíso", tão prenhe de "invisibilidade", daria a Pessoa, assim o esperaríamos, excelente oportunidade de criar "essa Poesia". No entanto, achamos que assim não acontece! Apesar de um evidente magistral poetar, Pessoa fica-se, essencialmente, pela trama subjectiva, como que preso à oposição entre o que se deseja e o que se tem! Embora comece por "sonho" e "realidade", palavras mais cheias e promissoras, decai para a terra "que ansiamos", oposta à "terra que podemos ter", e acaba dando o paraíso por "irreal", sem nos desvelar uma só centelha da invisibilidade paradisíaca. Por fim, Pessoa termina compensando-nos da morte do "sonho" com um prosaico, juvenil, imaturo e titânico "é em nós que é tudo", que nos permite acabarmos a leitura do poema leves, jovens, e com o amor a sorrir.

Que tem isto a ver, ou com a verdade, do Paraíso?

Refira-se que esta utilização, por Pessoa, do "tudo" substantivado, é frequente nele, e tem sua expressão mais célebre no mote, que cita igualmente no seu comentário e que vem também citado, em lugar de destaque, no manifesto da "Nova Águia", "ser tudo de todas as maneiras".

Dita só assim, não é esta frase infelicíssima? Ou seja - quão infeliz, sendo o que lhe foi dado ser, terá de ser o humano que queira "ser tudo de todas as maneiras"?

Num tempo de titãs, como o nosso, em que a Omnipotência Divina é o que sobra do poder que atribuímos a nós mesmos, fica bem ouvir isto, pois fica. É a proposta de uma fuga para a frente que socorre e anima todas as imaturidades e voluntarismos. Mas nisto, Pascoaes nunca alinharia...

Para Pascoaes - atrevo-me a sugerir o que diria - se esta frase pretende ser um estímulo, é daquelas boas intenções de que o inferno está cheio; se pretende ser o clamor culminante do Poeta, é o bradar ímpio de um acólito com excesso de zelo, de um aprendiz de feiticeiro! Na Tradição da Pátria Portuguesa, O Único Deus cria cada humano com a virtualidade de ser ... único!

Interroguemos: para quê "tudo de todas as maneiras"??? E como?

A resposta não existe... Sem categoria do modo e sem finalidade, a afirmação queda no vazio do possível, sem acto, uma espécie de "bluff" ou de truque ilusionista, uma aliciante proposta de vida fatalmente privada da vitalidade que a possa concrescer, ou concretizar!

Aqui já posso, a ver se concluo, passar para o segundo aspecto divergente destes Poetas, sendo que fica dito o primeiro, a saber:

 - divergem na forma como cada um intentou, e cumpriu "a abertura da, ou à, invisibilidade".

O segundo aspecto é a posição dos dois Poetas face ao lirismo. A Pessoa, uma vez mais genial no lema, ficámos a dever o: "a minha Pátria é a Língua Portuguesa". Mas eis que o poeta desvaloriza o lirismo perante outras formas poéticas, e exalta a épica. Já Pascoaes, na entrevista publicada, de imediato contesta essa afirmação, exaltando o lirismo. A divergência não é de somenos, pois o lirismo, para os que estão para lá do Marão, é a própria essência vital da original fala galaico-duriense, a sua mais excelsa qualidade, que lhe trouxe a autonomia e afirmação histórica e cultural em toda a Península.

Chamemos a  testemunhar, a bem da imparcialidade, um terceiro, alheio a este embróglio. Citemos o texto, no seu sabor vernacular:" Vilahi a razón pola que a poesia lírica nacéu e froleceu niste recanto de Fisterra, e tamén a razón pola que as primeiras cantigas e trovas de amor, deica ben entrado o seculo XIV, háchanse compostas en lingua galega."

Explica depois o autor o brotar da poesia nesta língua: "Soio o galego - feiticeiro, musical, suave como um agorimo - soio o galego era axeitado pra a esprésion lírica." E corrige: "(Foi este lirismo nado na Galiza o que pasou dende a nossa terra ao veciño Portugal, e non levado ahí de Itália ou Franza, como apuntou Teófilo Braga.)" Lembra depois o autor: "Por isso, na soada epístola do Marqués de Santillana ao Condestabre de Portugal se alcontran aquelas verbas, tan repetidas, de que "non ha mucho tiempo, cualesquier decidores e trovadores, agora fuesen castellanos, andaluces o de la Estremadura, todos sus obras componiam en lengua galega o portuguesa".
 

Temos, então, esta língua, esta Pátria, mãe de todo o lirismo medievo peninsular, pois "a nossa lingua, acariñante e feiticeira, parece feita talmente pra refrexar os sentimentos do corazón". O Galego (1) que assim escreve acrescenta a seguinte confissão: "assim se esprica que, ainda os galegos cando estamos falando en castelán, se desexamos interpoñer un pasaxe amoroso, causi sin nos dar de conta, botamos mau da língua que mamamos no berce."  

E será preciso lembrar Macias, o Namorado, um dos dois mais famosos "decidores e trovadores" da época, que protagonizou, com a sua trágica, impossível e mortal paixão amorosa, o mesmo amor eterno que aqui se viveu em Pedro e Inês? Incapacidade, o lirismo?

Cativo, de miña tristesa!
Ja todos prenden espanto
E perguntan, que ventura
Foy, que me atormenta tanto?
Cuydé subir en alteza
Por cobrar mayor estado,
Y cay en tal pobreza que moyro desamparado.
Com penar e com desejo Vos direi, malfadado
Lo que yo he, ben o vejo:
Quando o loco cay, mays alto
Subir prende mayor salto.
Miña loucura assi crece
Que moyro por a ti tornar.
 Pero mays non averey,
Si non ver, y desejar

Estes curtos extractos de lirismo medievo são, pois, mínima mostra de uma "incapacidade" que, nos primórdios de Portugal, deu autonomia à língua que Pessoa veio a chamar a sua Pátria...

Naturalmente, Pascoaes discordou de Pessoa quanto à subalternização do lirismo, e creio que, desta vez, com muita razão.

João Seabra Botelho
(Maio de 2009)

(1) Luís Moure-Mariño