Excertos de “Princípios da Filosofia”

e da “Carta ao Abade Picot”

…Podemos considerar que a utilidade desta filosofia, visto que ela se estende a tudo o que o intelecto humano pode considerar, é a de que só ela nos distingue dos mais selvagens e bárbaros; e que cada nação é tanto mais culta e evoluída quanto melhor souberem, aí, filosofar; o maior património de um Estado é o saber dos seus verdadeiros filósofos.

E, para cada homem em particular, não é apenas benéfico o convívio com quem cultive este saber, mas é incomparavelmente mais proveitoso que se dedique ele mesmo ao filosofar, tal como vale muito mais que alguém se sirva dos seus próprios olhos para se guiar e apreciar a beleza das cores e da luz, que mantê-los fechados e seguir os passos de outro. Viver sem filosofar é, de facto, manter os olhos fechados e nunca tentar abri-los.

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Os brutos animais, que só têm o corpo para conservar, ocupam-se continuamente a procurar o alimento que os vai nutrir. Mas os homens, cujo bem principal é o espírito, deveriam orientar os seus melhores esforços na busca da sabedoria, que é o verdadeiro alimento do espírito.

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Nenhuma alma humana, por pouco nobre que seja, permanece tão presa aos seus sentidos que não sinta, por vezes, necessidade de se afastar deles, para procurar um bem maior, mesmo que não saiba exactamente em que ele consiste… E mesmo aqueles que a fortuna mais favoreceu, que têm saúde, honras e riqueza, não deixam também de sentir este desejo, como todos os outros; aliás, estou mesmo convencido que são estes que com mais ardor aspiram a um bem superior, soberano sobre todos os outros bens que já possuem.

Ora este bem superior e soberano, quando considerado da perspectiva da razão, não da luz da fé, mais não é que a sabedoria, isto é, o conhecimento da verdade e das primeiras causas, que se alcança com a investigação filosófica.

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Porém, aqueles que fazem profissão da filosofia são, frequentemente, menos filosóficos e menos sábios que aqueles que nunca se dedicaram profissionalmente ao estudo da filosofia. Assim, terei que explicar sucintamente em que consiste a verdadeira sabedoria e seus graus, tal como hoje se me apresentam: o primeiro grau contém todas as noções que são, por si mesmas, tão claras e evidentes que podem ser conhecidas sem mediação ou mediador. No segundo, temos tudo o que a experiência dos sentidos nos permite conhecer. No terceiro, temos o que a conversação e os outros homens nos podem ensinar, sendo que a este podemos acrescentar um quarto, a leitura – não de todos os livros, mas daqueles que foram escritos por pessoas capazes.

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Parece-me que é através destes quatro meios que adquirimos toda a sabedoria; não considero aqui a revelação divina já que esta não nos conduz por graus, antes nos eleva, de uma só vez, a uma fé inabalável.

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Ora, todas as conclusões que se deduzem de princípios que não são evidentes também não podem ser evidentes, mesmo que o processo dedutivo esteja correcto. Daqui se conclui que todos os raciocínios deduzidos de tais princípios não dão o conhecimento certo de coisa nenhuma, nem tampouco permitem avançar um só passo para a sabedoria.

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…eu desejaria apresentar aqui as razões que provam que os princípios que expus neste livro são aqueles pelos quais podemos atingir a mais alta sabedoria, o soberano bem da vida humana. E essas razões são apenas duas, e bastantes: a primeira é que esses princípios são muito claros e evidentes, a segunda é que deles é possível deduzir todas as outras coisas; ora, só estas duas condições bastam a estes princípios, e é-me fácil provar a primeira, que eles são muito claros e evidentes, pela forma como os encontrei, a saber, rejeitando sucessivamente todas as coisas em que podia encontrar o menor motivo para duvidar, pois só aquelas que, quando a elas dedicamos a nossa atenção, resistem a ser rejeitadas desta forma podem ser as verdades mais claras e evidentes que a mente humana pode conhecer. Assim, quando cheguei ao ponto de perceber que aquele que quer duvidar de tudo não pode, todavia, duvidar que existe, enquanto duvida, e que enquanto assim raciciona, aquele que de tudo duvida mas não podendo duvidar de si mesmo não é o que normalmente chamamos de corpo, mas sim o que chamamos alma ou pensamento, concluí que o primeiro princípio é o ser ou a existência deste pensamento. Deste princípio deduzi claramente os seguintes; que há um Deus, que é autor de tudo o que existe no mundo e que, sendo então a fonte de toda a verdade, não criou o nosso entendimento para ele se enganar no juízo que faz de tudo o que percepciona de forma clara e distinta. Tais são os princípios de que me sirvo para considerar as coisas imateriais e metafísicas, e deles deduzo ainda muito claramente os princípios que regem as coisas corporais e físicas, a saber: que há corpos extensos em comprimento, largura e altura, que têm diversas formas e se movem de diferentes maneiras.

Eis, em suma, os princípios de que deduzo a verdade das outras coisas. Uma outra prova da evidência destes princípios é que eles foram conhecidos em todas as épocas e tidos como verdadeiros por todos os homens, exceptuando apenas a existência de Deus que, pelo facto de Deus não poder ser visto nem tocado, foi posta em causa por todos aqueles que deram demasiada importância aos sentidos e suas impressões.

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No entanto, torna-se necessário dizer que só devemos usar uma forma tão geral de duvidar quando começamos a procura e contemplação da verdade, pois no que toca á condução dos negócios correntes do nosso quotidiano somos obrigados, muitas vezes, a decidir segundo meras opiniões dado que, nesses negócios, quase sempre se esgotaría o tempo oportuno de agir antes de termos podido concluir o processo que nos liberta de qualquer dúvida. Perante várias dessas opiniões sobre um mesmo assunto, mesmo que não consigamos distinguir uma mais verdadeira que outra, se a situação exige uma decisão rápida, devemos escolher uma delas e, depois de escolhida, devemos ater-nos a ela como se a tivéssemos julgado certíssima.

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Não explico aqui outros termos de que me servi anteriormente e pretendo contnuar a sevir-me porque julgo que os leitores dos meus escritos não serão tão estúpidos que não possam compreendê-los por si próprios. Além disso, constato que as explicações dos filósofos, dadas segundo os seus preceitos lógicos, sobre coisas que são em si mesmas manifestamente evidentes, apenas levam à confusão. E já afirmei antes que esta proposição “penso, logo existo” é a primeira e mais evidente para o pensamento que avança ordenadamente; com isto, não pretendi dizer que não seja necessário saber, previamente, o que é o pensamento, ou a certeza, ou a existência, ou que para pensar não seja necessário ser, e outras coisas assim; mas todas estas noções são de tal modo simples e imediatas que não nos conduzem a nenhum outro conhecimento adicional sobre outras coisas existentes, o que me levou a não as referir aqui.

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…notaremos que nos é óbvio, graças a uma luz natural nas nossas almas, que o nada não tem qualidades nem propriedades que o identifiquem; onde percebemos alguma qualidade ou propriedade, é necessário que haja um ente ou substância em que elas se sustentam. Essa luz também nos permite perceber que conhecemos tanto melhor uma substância quanto mais propriedades nela distinguirmos. Ora, não há dúvida que é no nosso pensamento que melhor conhecemos as suas qualidades, melhor do que conhecemos as qualidades de qualquer outra coisa. E quando alguma coisa nos estimula a conhecer as suas qualidades, esse estímulo também nos leva a conhecer melhor ainda o nosso pensamento. Por exemplo, se julgo que existe um bocado de terra, porque a toco ou vejo, por maioria de razão devo estar convencido da existência do meu pensamento; de facto, pode acontecer que eu julgue estar a tocar em terra, e isto não ser verdade, podendo até não haver terra nenhuma, ali ou em qualquer outro lado, mas é impossível que eu, isto é, a minha alma ou pensamento, não exista ou nada seja enquanto eu estiver a pensar isto que estou a pensar.

A conclusão a retirar daqui é que todas as coisas que nos vêem ao pensamento poderão não existir ou ser falsas mas nós, que as pensamos, necessariamente existimos.

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…aqueles que nunca pensaram ordenadamente podem ter opinião diferente, porque nunca distinguiram com clareza o que é aquilo que pensa, a sua alma, e o que é extenso em comprimento, largura e altura, o corpo.

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Quando o pensamento, ao rever todas as noções que encontra em si, aí encontra a ideia de Deus, a ideia de um ser que é omnisciente, omnipotente e totalmente perfeito, facilmente conclui que esse Ser perfeito é ou existe; porque ainda que o pensamento possa ter ideias distintas de outras coisas, nelas não encontra algo que garanta indubitavelmente a existência da substância que as sustenta, enquanto que, com a ideia de Deus, não só lhe percebe a possibilidade da existência, tal como às outras ideias, mas apercebe-se também que essa ideia tem uma existência absolutamente necessária e eterna. Porquê? Bem, tal como da compreensão da ideia de triângulo o pensamento conclui que é necessário e indubitável que a soma dos seus ângulos seja igual a dois ângulos rectos, também na compreensão da ideia de Deus o pensamento conclui que a existência necessária e eterna é uma indubitável propriedade de um Ser todo perfeito. Logo, o pensamento deve deduzir que Deus é, ou existe.

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O pensamento reconhecerá ainda, e com isto ficará mais seguro da verdade da sua conclusão, que a nenhuma outra ideia, das muitas que possa contemplar, pode atribuir esta existência absolutamente necessária.

Sim, por esta única razão terá o pensamento de concluir que a ideia de um Ser Perfeito não está nele por força da imaginação ou da ilusão, nem tampouco representa uma quimera, mas antes aí se encontra como sinal que lhe foi impresso por uma natureza imutável e verdadeira, necessáriamente existente porque só pode ser concebida como tal.

A nossa alma não teria dificuldade em reconhecer esta verdade se estivesse liberta dos seus preconceitos; mas como, em tudo o mais que pensamos, estamos habituados a diferenciar a essência da existência, e podemos ficcionar tantas vezes quantas quisermos ideias de coisas que nunca existiram nem existirão, basta não elevarmos suficientemente o nosso espírito para uma clara contemplação deste Ser Perfeito que poderemos ficar com dúvidas quanto a essa ideia, tomando-a por uma daquelas que podemos engendrar quando queremos, ou por uma daquelas cuja existência é apenas possível porque não está garantida na sua essência.

Também não é difícil percebermos que as diversas ideias que temos em nós não diferem muito entre si, enquanto consideradas apenas na sua dimensão de representações mentais, ou pensamentos. Mas já se diferenciam totalmente quanto ao objecto ou substância que representam, quando uma ideia representa esta coisa, e outra ideia representa aquela coisa. E quanto mais perfeição estiver na ideia, mais perfeita terá de ser a sua causa, ou a substância que a sustenta.

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Assim, porque encontramos em nós uma ideia de Deus, que é um Ser Todo Perfeito, podemos investigar a causa que faz com que esta ideia esteja em nós… Mas uma ampla e cuidada consideração de todas as suas infinitas perfeições só nos pode levar a concluir que a recebemos de um Ser não menos infinito e perfeito, isto é, Deus, que é e existe pois se manifesta presente nesta ideia. De facto, a nossa luz natural permite-nos perceber que:
- o nada não pode ser o autor de alguma coisa, e
- que o mais perfeito não pode ser a continuação ou emanação do menos perfeito, ou dele estar dependente…
e também por essa luz natural percebemos que:
- é impossível ter ideias ou representações de algo se não houver, dentro ou fora de nós, uma substância original cuja natureza é composta das perfeições assim representadas
- mas como nós somos seres com grandes imperfeições e estamos longe das imensas perfeições que contemplamos na ideia de Deus, temos de concluir que essas perfeições são atributos de um ser muito diferente de nós, isto é, Deus, ou que, no mínimo, já foram atributos desse Ser que outrora exisitiu; e
- pelo facto de serem infinitas, ainda existem aí.

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Aqueles que exercitaram o seu espírito na contemplação da Divindade e das suas perfeições infinitas apercebem-se que, apesar do nosso pensamento finito não poder compreender a natureza do infinito, paradoxalmente, podemos conceber com grande clareza essas perfeições infinitas, pois sendo simples e ilimitadas, o que delas concebemos não é confuso.

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Também é evidente que quem, como o ser humano, conhece um ser mais perfeito que ele próprio não pode ser o seu próprio criador. Se o tivesse sido, certamente se teria criado a si mesmo com todas as perfeições que lhe era possível conhecer. Tal como as coisas são, o que faz sentido é que o ser humano tenha sido criado, e seja sustentado na sua existência, pelo Ser que possui efectivamente todas essas perfeições, isto é, Deus.

Aliás, desde que se tenha em consideração as características do tempo e da duração da nossa vida, não é difícil aceitar essa demonstração. Sabemos que as partes de que somos compostos não dependem umas das outras, e nunca existem em conjunto senão enquanto estamos vivos e existimos, e não existe razão necessária nessas partes para que tal existência se prolongue um momento mais; assim, a mesma causa que nos dá a vida, Deus, é a que nos mantém vivos, que nos conserva na existência. E sabemos que não temos em nós nenhuma força que garanta a nossa existênca, pela qual possamos subsistir sem que Ele nos conserve. Ora, se Deus nos faz subsistir fora de si, e nos conserva, não tem necessidade de ser conservado por nenhum outro, antes se conserva a si mesmo e é Deus.

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Uma vez que a extensão é a natureza do corpo e pode ser dividida em partes, o que constitui uma imperfeição, concluímos que Deus não é um corpo. E dado que os sentidos são, apesar de vantajosos para o homem, impressionados por estímulos provenientes do exterior, do qual estão, assim, dependentes, concluímos também que tais sentidos não são atribuíveis a Deus. Para Deus, ao contrário dos humanos que querem e entendem por operações diferentes, querer, entender e fazer é uma simples acção única, em que cria tudo o que existe, mas não a malícia, porque esta é nada

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…para que tenhamos uma ciência perfeita das coisas que Ele criou, aduzindo explicações que referem os efeitos às suas causas, noção que está naturalmente nas nossas almas, e para que nessa ciência possamos avançar com segurança, deveremos sempre lembrar, ao examinarmos a natureza de alguma coisa, que Deus, seu Autor, é infinito e nós, que queremos conhecer, somos inelutavelmente finitos.

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E se Deus nos fez a Graça de revelar, a nós ou a alguns de nós, verdades que ultrapassam a compreensão natural da nossa inteligência, como os mistérios da Encarnação ou da Trindade, não levantaremos dificuldades à crença em tais mistérios, mesmo que os não compreendamos com clareza. Não devemos achar despropositado que, na natureza imensa de Deus, ou naquilo que Ele faz, haja muitas coisas que ultrapassam as capacidades do nosso espírito.

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Portanto, nunca ficaremos encurralados em disputas sobre o infinito, sabendo que seria ridículo que nós, seres finitos, quiséssemos impor-lhe alguma determinação ou limite. É por isso que não nos perturbam questões como a de saber se metade de uma linha infinita é também infinita, nem se o número infinito é par ou ímpar. Só aqueles que imaginam o seu espírito infinito se sentirão capazes de decidir sobre tais dificuldades. Assim, pela nossa parte, se depararmos com coisas que nos parecem sem limite, não iremos afirmar e garantir que são infinitas, antes diremos que são indefinidas. A extensão, por exemplo: nunca poderemos imaginar uma tão grande que não seja possível imaginar outra maior. Logo, diremos que a extensão das coisas possíveis é indefinida. E como não é possível dividir um corpo em partes tão pequenas, que não se possa dividi-las novamente em partes ainda mais pequenas, pensamos que a quantidade pode ser dividida um número indefinido de vezes.

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E designaremos este género de coisas de indefinidas para reservar apenas a Deus o atributo “infinito”. È que sabemos que não se distinguem limites nas suas perfeições, tal como estamos seguros que tais limites não podem existir, por definição.

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Quanto às outras coisas todas, sabemos que elas não são perfeitas… Portanto, mesmo que nelas notemos propriedades que nos parecem sem limites, não deixaremos de lembrar que tal se deve à imperfeição do nosso conhecimento e não à infinitude da sua natureza.

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O primeiro atributo de Deus que devemos considerar é o de Ele ser verdadeiro e a fonte de toda a luz. Como tal, não é possível que seja a fonte directa dos nossos erros e enganos.

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Mas como acontece que nos enganamos frequentemente, mesmo que Deus não seja enganador, se desejamos descobrir a causa dos nossos erros e enganos, para os corrigirmos na sua origem, devemos atender a que eles se devem mais à nossa vontade que ao nosso entendimento. Os nossos erros, além disso, não são coisas ou substâncias que careçam da acção criadora de Deus; ao invés, eles são, em relação a Deus, apenas negações. Por eles verificamos que Deus não nos deu tudo o que nos podia dar, mas logo aí também entendemos que tampouco era obrigado a dar-nos mais do que deu; mas em relação a nós, os nossos erros são imperfeições e defeitos.

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Toda a actividade mental que se passa em nós pode ser agrupada em duas espécies: a apreensão pelo entendimento, a decisão pela vontade. Sentir, imaginar ou conceber puras abstrações são diferentes modos de apreender ou usar o entendimento. Desejar, repudiar, confirmar, negar ou duvidar são diferentes modos de usar a vontade.

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Quando apreendemos qualquer coisa, não corremos o risco de nos enganarmos enquanto não emitirmos qualquer juízo sobre ela; e ainda que julgássemos, não cairíamos em erro se não déssemos o consentimento senão ao que sabemos e compreendemos com clareza, naquilo que julgamos. Ora os nossos erros frequentes provêm de, na maior parte das vezes, emitirmos juízos sobre coisas de que não temos um conhecimento exacto.

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De facto, o nosso entendimento só se exerce naquilo que que se lhe apresenta enquanto objecto, e são poucos, ou limitados, esses objectos, logo, é escasso e limitado o nosso entendimento. Mas a vontade, num certo sentido, pode parecer sem limites, na medida em que nada encontramos que possa ser objecto da vontade de outros, mesmo objecto da imensa Vontade Divina, e que não possa ser também objecto da nossa vontade. Como tal, daqui resulta que, frequentemente, estendamos a nossa vontade muito para além do que conhecemos clara e distintamente. Não admira que este uso desmedido da vontade venha a causar os nossos enganos.

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Mas também é para nós uma grande vantagem que a vontade seja assim inesgotável, pois servimo-nos dela para agir livremente. Somos senhores das nossas acções, de tal modo que merecemos louvores quando decidimos e agimos bem.

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Também nos são devidos encómios se, por acto da vontade, distinguimos o verdadeiro do falso e escolhemos o que é verdadeiro, em vez de sermos empurrados para ele por força estranha ou exterior...

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Ficaremos decerto em dificuldades se tentarmos harmonizar a liberdade da nossa vontade com os decretos divinos, pois isso é como tentar entender, ou abarcar, ou limitar, com o nosso entendimento, toda a extensão do nosso livre-arbítrio e toda a extensão ilimitada da Providência Divina.

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Mas poderemos facilmente ultrapassar essas dificuldades se tivermos em conta que o nosso pensamento é finito e a omnipotência de Deus é infinita. Por meio dela, Ele não só conheceu toda a Eternidade, tudo o que é ou pode ser, como também o quis. É isto que faz com que a nossa inteligência possa conhecer clara e distintamente que essa omnipotência está em Deus, mas a nossa inteligência não é suficiente para compreender toda a extensão desse Poder nem tampouco como é que ele deixa as acções dos homens inteiramente livres e indeterminadas. Por outro lado, temos tanta convicção da liberdade e desprendimento que existe em nós, que nada há em nós que conheçamos com mais clareza e evidência. Como tal, a omnipotência divina não deve impedir-nos de manter esta convicção, pois seria errado duvidar do que, por experiência, tão claramente percebemos dentro de nós, por causa de não compreendermos uma outra coisa que, à partida, sabemos ser, por natureza, incompreensível.