René Guénon

René Guénon


O Esoterismo Islâmico

Tradução de João Seabra Botelho


1. Shari'ah, Tariqak, Haqiqah

De todas as doutrinas tradicionais talvez seja a doutrina Islâmica aquela que mais claramente distingue as duas componentes que a constituem, e entre si se complementam, e que podemos nomear por exoterismo e esoterismo. Na terminologia Arábica, elas designam-se por shari'ah, literalmente «o grande caminho», que é comum a todos, e a haqiqah, literalmente «a verdade interna», esta restrita àqueles que, não por qualquer decisão arbitrária, mas pela sua natureza própria, possuem as qualidades ou aptidões que lhes permitem atingir o conhecimento da verdade.

Para ilustrar as suas respectivas naturezas, «externa» uma, «interna» a outra, o exoterismo e o esoterismo são frequentemente comparados à «concha» (qishr), e ao «cerne» (lubb), ou à circunferência e ao seu centro.

A shari'ah abarca tudo o que, nas línguas Ocidentais, designaríamos por «religioso», incluindo específicamente tudo o que concerne às áreas social e legal que, no Islão, estão essencialmente integradas na religião. Poderá então dizer-se que, acima de tudo, a shari'ah é uma norma de acção, enquanto que a haqiqah é saber puro; mas deverá perceber-se com clareza que é este saber que dá à shari'ah o seu mais alto e profundo sentido, a sua razão de ser, pelo que, mesmo para aqueles que praticam a shari'ah sem se aperceberam claramente da haqiqah, é esta o seu verdadeiro princípio, do mesmo modo que o centro é o princípio de toda a circunferência.

Mas isto não é tudo. O esoterismo não se limita ao puro saber, não é apenas composto pela haqiqah; inclui, também, todos os caminhos e meios para o atingir. Ora, tomados no seu conjunto, estes são designados por tariqah, «escola» ou «caminho» que conduz da shari'ah à haqiqah. Retomando a metáfora da circunferência e do seu centro, diríamos que a tariqah se compõe de todos os raios que podem unir qualquer ponto da circunferência ao seu centro. Isto lembra-nos o seguinte: sendo os pontos da circunferência infinitos, e a cada um podendo conresponder um raio que o liga ao centro, todos esses raios representam bem a diversidade de todas as turuq (plural de tariqah) que podem existir, cada qual adaptada à natureza de cada um dos pontos, isto é, à natureza diversa de cada criatura. A isto se refere o dito: «os caminhos para Deus são tão numerosos como as almas dos humanos» (at-turuqu ila 'Llahi ka-nufusi bani Adam). Assim, os caminhos são muitos, e tanto mais diferem quanto mais próximo cada um esteja do seu ponto de partida inicial, o ponto na circunferência; mas o seu término é só um, todos confluem e terminam no mesmo ponto, pois só há um centro, como só há uma verdade. Falando com rigor, teremos de dizer que as diferenças iniciais se vão desvanecendo, e com elas também o ego (al-inniyia, de ana, eu). Noutras palavras, na medida em que se atingem os mais elevados estados de ser, em que os atributos (sifat) da criatura (abd, servo) - que, na realidade, são limitações - se desvanecem (al-fana, extinção), o que permanece é sómente a presença dos atributos de Allah (al-baqa, a permanência), cuja essência (adh-dhat) apenas por eles se manifesta.

2. Tasawwuf

O esoterismo, abarcando então, como vimos, tanto a tariqah como a haqiqah, os meios e o fim, designa-se em Arábico pelo termo genérico tasawwuf que só pode ser traduzido com acuidade como «iniciação» -tema a que voltaremos depois. Embora o termo tasawwuf possa ser aplicado a qualquer doutrina esotérica e iniciática, sem atender a qual a sua origem ou tradição, os Ocidentais cunharam o termo «Sufismo» para designar o esoterismo Islâmico; mas, além de ser um termo totalmente convencional, este vocábulo tem a desvantagem de inevitavelmente sugerir, devido ao seu sufixo «ismo», a ideia de que nomeia uma determinada doutrina de uma determinada escola... Ora, tal não acontece, uma vez que as escolas existentes no esoterismo islâmico são as referidas turuq, que apenas representam caminhos diversos para um mesmo fim, entre elas não havendo qualquer diferença doutrinal distintiva ou relevante, pois «a doutrina do Uno é uma só» (at-tawhidu wahid).

Relativamente à origem etimológica destes termos, tanto tasawwuf como «sufismo» derivam da palavra sufi, e aqui é desde já o momento para dizer que ninguém pode em tempo algum dizer-se um sufi, excepto se for totalmente ignorante e, com esse dizer, provando que não o é verdadeiramente, dado que tal qualidade ou estado é um segredo (sirr) entre o verdadeiro sufi e Allah; o que alguém poderá dizer de si mesmo é que é um mutasawwuf, termo que se aplica a qualquer pessoa que se dedique ao caminho iniciático, independentemente do «grau» que nele tenha atingido. Mas o sufi, no verdadeiro sentido da palavra, é aquele que atingiu o «grau» supremo.

3.Sufismo

Foram muitos os que quiseram atribuir as mais dispares origens à palavra Arábica sufi; mas, do ponto em que nos encontramos, esta questão é insolúvel, e aceitamos sem protesto que para este vocábulo foram sugeridas demasiadas etimologias, igualmente plausíveis, e das quais só uma será verdadeira. E, na realidade, deveríamos reconhecer nela apenas um nome simbólico, uma espécie de «cifra» que, enquanto tal, dispensa qualquer derivação etimológica específica; e este caso não é único, pois é possível encontrar ocorrências semelhantes em outras tradições. Quanto a essas referidas derivações etimológicas, o que realmente encontramos são algumas semelhanças fonéticas, que, de acordo com as leis de um certo simbolismo, nos podem permitir estabelecer relações entre várias ideias que, assim, vieram a agrupar-se em redor desse termo. Mas se atendermos ao carácter da língua Arábica (carácter que é partilhado pela língua Hebraica), o sentido primeiro e fundamental de uma palavra é dado pelo valor numérico das letras que a compõem; assim, de facto, o que é realmente notável é que o valor numérico das letras que compõem a palavra sufi é idêntico ao valor da expressão al-Hikmatu'l-ilahiya, «Divina Sabedoria». O verdadeiro sufi é, portanto, aquele que possuí esta Sabedoria, ou, noutras palavras, ele é al-'arif bi'Llah «aquele que conhece por Deus», pois Deus não pode ser conhecido senão por Ele-próprio. Eis aqui, então, o supremo grau do conhecimento, ou haqiqah.

Do que acabámos de dizer podem extrair-se várias consequências relevantes, a mais importante sendo a constatação de que o «Sufismo» não é algo que tenha sido «acrescentado» à doutrina Islâmica, como se fora um complemento vindo do exterior. Pelo contrário, é parte essencial e integrante dessa doutrina, pois sem ela a doutrina Islâmica ficaria óbviamente diminuída e incompleta, e incompleta pela falta do que está «mais alto», ou seja, o que advém directamente do seu princípio. A suposição, totalmente gratuita e desprovida de fundamento, sobre a origem estrangeira do vocábulo - Grega, Persa ou Hindu - queda formalmente contraditada pelo facto de os termos expressivos do esoterismo Islâmico estarem totalmente dependentes e vinculados à estrutura própria da língua Arábica, e se existem evidentes similitudes entre o Sufismo e outras doutrinas iniciáticas de diferentes origens, elas explicam-se fàcilmente e sem necessidade de recorrer às teses dos «termos emprestados» pelo simples facto de que, se a verdade é só uma, todas as doutrinas tradicionais são necessáriamente idênticas na sua essência, por muito diferentes que sejam as roupagens com que cobrem a verdade.

Quanto à questão das origens, pouco importa se a palavra sufi e seus derivados tasawwuf e mutasawwuf já existiam na língua Arábica desde os seus primórdios ou se surgem em período tardio, questão que tem sido amplamente debatida pelos historiadores; a realidade que a palavra sufi exprime terá certamente existido desde sempre, mesmo antes de ser nomeada por ela, ou por qualquer outra, ou de haver sequer necessidade de a nomear. De qualquer forma - e para alguém que não se limite a perspectivar este tema apenas pelo «exterior» aquele argumento seria já suficiente - a tradição expressamente afirma que esoterismo e exoterismo procedem directamente dos ensinamentos do Profeta e, na verdade, toda e qualquer tariqah regular possui uma silsilah ou «cadeia» de transmissão iniciática que, em seu último elo ao Profeta reverte, passando por um número variável de intermediários. Mesmo que, mais tardiamente, alguma tariqah tenha recebido por «empréstimo», ou «adaptou» alguma influência externa em detalhes do seu método particular, esses detalhes são secundários e de modo nenhum afectam o que é essencial

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A verdade é que o «Sufismo» é tão Árabe como o próprio Corão, no qual, aliás, estão depositados todos os seus princípios; todavia, para nele os encontrarmos, o Corão terá de ser interpretado segundo a haqiqah, que consubstancia o seu mais profundo sentido. A mera análise linguística, lógica e teológica dos ulama azzahir, (literalmente «os doutores do exterior», ou seja, os doutores da shari'ah), não é suficiente já que a sua competência apenas abrange a esfera do exotérico.

4. Misticismo

Contrariando uma opinião demasiado divulgada no Ocidente, diremos que o esoterismo Islâmico nada tem de comum com o «misticismo».

As razões que nos levam a tal afirmação entendem-se fácilmente tendo em conta o que dissemos até agora. Desde logo, o misticismo aparenta ser exclusivo da Cristandade, e só por erróneas assimilações alguém poderá encontrar equivalentes noutras tradições. Algumas semelhanças externas, como sejam o uso de certas expressões, terão dado azo a tal equívoco, mas nenhuma dessas semelhanças pode ser apontada como indicação de alguma diferença verdadeiramente essencial... Por definição, o misticismo restringe-se à esfera da religiosidade, mas é necessário esclarecer que ele nasce apenas do seu conteúdo exotérico; o seu fim, como é evidente, está bem longe de almejar apenas ao puro saber.

Por outro lado, o místico não pode ter um método, uma vez que a sua atitude é de passividade e, como tal, restringe-se apenas a receber o que vem até si espontâneamente, sem qualquer esforço ou iniciativa da sua parte para o obter. Assim, não pode existir uma tariqah «mística», e não pode até conceber-se, já que uma e outro se excluem e contradizem mútuamente. Acresce que o «místico» estará sempre isolado, exactamente pelo facto de assumir a passividade para poder receber a sua «graça». Não tem, nem pode ter, um shaykh (mestre espiritual, o que nada tem a ver com o chamado «director espiritual», nem tampouco terá a silsilah ou «cadeia» pela qual é carreada a «influência espiritual» (expressão que uso aqui para traduzir tão fielmente quanto possível a palavra baraqah), sendo que esta «cadeia» é uma consequência imediata da presença do shaykh. A regular transmissão da «influência espiritual» é o que caracteriza essencialmente a via da «iniciação» e o que própriamente a concretiza; por isso, usámos esta palavra «iniciação» para traduzir o termo arábico tasawwuf.

Diga-se então, com clareza, que o esoterismo Islâmico, como todo o esoterismo autêntico, é «iniciático» e não poderia ser outra coisa; e mesmo não tendo em conta diferenças quanto aos objectivos, resultantes de se incluírem, uma no exoterismo, a outra no esoterismo, a «via mística» e a via «iniciática» são radicalmente opostas e, sugestivamente, a língua Arábica não nos dá nenhum étimo que possamos traduzir, mesmo de forma apenas aproximada, por «via mística», de tal forma esta ideia é estranha à tradição Islâmica.

Na sua essência, a doutrina iniciática é puramente metafísica, no sentido original e verdadeiro deste termo; mas no Islão, tal como em algumas outras tradições, esta doutrina fundamenta e sustenta um conjunto complexo de «ciências tradicionais» que resultam da sua aplicação a diferentes áreas dos fenómenos contingentes. Estas «ciências» estão como que suspensas dos princípios metafísicos de que dependem e derivam, e obtêm desta dependência (e das «transposições» que ela permite) tudo o que lhes dá valor; neste sentido, são parte integrante da doutrina, embora num grau secundário e subordinado, e não meros acréscimos artificiais e supérfluos.

Parece haver aqui algo de particularmente difícil de entender para os Ocidentais, indubitávelmente por não haver no seu ambiente cultural nenhum termo de comparação com isto. Todavia, já houve no Ocidente «ciências tradicionais», tanto na Antiguidade como na Idade Média, mas todas elas foram totalmente esquecidas pelo Homem Moderno, que ignora a verdadeira natureza das coisas, ou simplesmente nem dela se apercebe. Os que confundem esoterismo com «misticismo» estão votados a não entender o papel e o lugar destas «ciências», que representam um tipo de conhecimento que não poderia estar mais afastado das preocupações dos místicos, e a incorporação destas «ciências» no «Sufismo» constitui para eles um enigma indecifrável.

5. As ciências tradicionais

Uma dessas ciências é a ciência dos números e das letras, da qual já demos antes um exemplo na hermenêutica da palavra sufi, ciência que só encontra paralelo na Kabbalah Hebraica graças à estreita afinidade entre as duas linguagens que servem de veículo de expressão a estas duas tradições, linguagens cujo sentido mais profundo só pode ser dado por esta ciência. Semelhante a esta são as várias «ciências cosmológicas» que estão incluídas parcialmente no que se chama «Hermetismo»; e a propósito de uma delas, a Alquimia, este termo só é tomado no sentido de algo material pelos ignorantes, aqueles para quem o simbolismo é letra morta, exactamente aqueles que na Idade Média eram conhecidos por «queimadores de carvão» e por fazerem «fumo», e foram os precursores da Química moderna, por muito pouco elogiosa que esta origem possa parecer aos que a praticam. Tal como a astrologia, outra ciência cosmológica, que é algo de totalmente diferente de uma «arte divinatória» ou «ciência da conjectura», que é como os modernos a vêem. A Astrologia foca-se no conhecimento das «leis cíclicas» que desempenham um papel relevante em todas as doutrinas tradicionais. Acresce que existe uma correspondência entre todas estas ciências, uma vez que todas procedem dos mesmos princípios, podendo todas elas, como tal, serem consideradas como várias representações da mesma coisa, de diferentes perspectivas. Por isso, astrologia, alquimia, e até a ciência das letras mais não fazem que traduzir as mesmas verdades em linguagens adequadas a diferentes ordens da realidade,unidas entre si pela lei da analogia universal, que fundamenta todas as correspondências; e, por virtude desta mesma analogia, estas ciências, por uma adequada transposição, encontram o seu campo de aplicação tanto no «microcosmo» como no «macrocosmo», pois o processo iniciático reproduz em todas as suas fases o próprio processo cosmológico. Para se ter uma consciência plena destas correlações é necessário ter alcançado um grau muito elevado na hierarquia iniciática, um grau chamado «enxofre vermelho» (al-Kebrit al-ahmar); e quem tiver atingido esse grau pode, por meio da ciência conhecida como simiya (termo que não deve ser confundido com kimiya) e operando algumas mutações em números e letras, pode, dizíamos, agir em entes e coisas que correspondem a estas na ordem cósmica. Jafr, que de acordo com a tradição deve a sua origem ao próprio Ali, é uma aplicação destas ciências à previsão de eventos futuros; e nesta aplicação, em que naturalmente intervêm as leis cíclicas que mencionámos antes, está manifesto todo o rigor de uma ciência matemática e exacta para quem o souber compreender e interpretar (pois possui uma espécie de «criptografia» que, de facto, não surpreende mais do que uma notação algébrica). Seria possível mencionar outras «ciências tradicionais» que poderão parecer ainda mais estranhas a quem não estiver habituado a estas coisas.

Por fim, devemos acrescentar uma última observação de importância capital para entender o verdadeiro paradigma da doutrina iniciática: esta doutrina nada tem a ver com a «erudição», e nunca poderia ser aprendida com a leitura de livros, como é feito no conhecimento vulgar ou profano. E os escritos dos grandes mestres podem apenas servir de «apoio» à meditação; ninguém se transforma num mutasawwuf apenas por os ter lido, além de que esses escritos permanecem totalmente incompreensíveis para quem não esteja qualificado para os entender. São necessárias certas qualidades e aptidões inatas que nenhum esforço, por maior que seja, pode substituir; acresce que é também necessário o vínculo a uma silsilah, pois a transmissão de «influência espiritual» que é obtida através deste vínculo é, como já dissémos antes, a condição essencial sem a qual não há iniciação, nem mesmo do grau mais elementar. Esta transmissão, que se recebe de uma vez por todas, deve ser o ponto de partida para um trabalho puramente interior para o qual todos os meios exteriores são apenas ajudas e apoios, mas necessários, já que tem de se tomar em conta e aceitar a natureza humana tal como ela é.
Só por este trabalho interno é que alguém, se disso for capaz, poderá subir grau a grau até ao cume da hierarquia iniciática, a «Suprema Identidade», o estado absolutamente permanente e incondicionado que está para além das limitações de todo a contingente e transitória existência, afinal, o estado próprio do verdadeiro sufi.