O escândalo Académico do Sec.XX

Os Manuscritos do Mar Morto


Após mais de cinquenta anos decorridos desde a sua descoberta, em 1947, estes textos, escritos entre 250 A.C. e 68 D.C., foram finalmente publicados.

Ao anunciarem a publicação, nos Estados Unidos, dos últimos volumes, as edições Oxford University Press completaram a obra titânica de imprimir trinta e nove volumes que levaram meio século a serem preparados por grupo restrito de eruditos que tiveram acesso aos cerca de quinze mil fragmentos dos mais diversos tamanhos que foram descobertos em diversas grutas perto de Mar Morto.

Fossem quais fossem as razões, algumas delas certamente relacionadas com a própria dificuldade do trabalho, mas outras tão díspares como a defesa exacerbada de direitos de publicação ou a suspeita de um boicote, pela Igreja Católica, à divulgação do teor dos manuscritos, temerosa de revelações que levantassem questões insanáveis à sua Dogmática, para a lentidão e as inúmeras preripécias que envolveram esta gigantesca tarefa arquoeológica, o facto de os trabalhos de leitura e transcrição destes manuscritos terem demorado cinquenta anos foi classificado por Geza Vermès, professor na Universidade de Oxford, como o escândalo académico do século XX.

Tudo começou em 1947, quando o pastor beduíno Mohammed Ahmed el-Hamed, conhecido pelo Lobo, descobriu por mero acaso no deserto de Juda, perto da localidade de Qumran, terrritório da actual Jordânia, uma caverna com ânforas, no interior das quais encontrou alguns rolos de manuscritos. Vendidos estes a um mercador, e posteriormente levados à mão de peritos internacionais, foram identificados como documentos elaborados nos cem anos posteriores ao nascimento de Jesus Cristo.

Esta extraordinária descoberta levou à realização de mais quatro anos de buscas, de 1952 a 1956, muitas delas lideradas pela Escola Biblica de Jerusalém. Dessas buscas resultou a descoberta de onze grutas com mais de uma dezena de milhar de fragmentos, desde rolos de mais de sete metros, como o chamado manuscrito de Ísaías (7,34 metros) ou o chamado do Templo, (8,75m), a milhares de outros fragmentos, alguns do tamanho de um selo postal.

Na gruta nº4, descoberta em 1952 pelo Padre Roland de Vaux, encontraram-se fragmentos que, ao contrário dos que foram encontrados nas outras grutas e que íam sendo progressivamente publicados, foram mantidos em segredo, o que levou as acusações públicas de um alegado boicote à publicação por parte da Igreja Católica. Esta alegação não foi confirmada por nenhuma prova credível e foi linearmente recusada por alguns académicos de renome. O atraso na divulgação, porém, existiu.

Após a Guerra dos 6 dias, em 1967, o espólio passou a estar sujeito á autoridade do Estado de Israel.

A Biblical Archaelogy Review americana iniciou então uma agressiva campanha para apressar a publicação dos manuscritos. Já em 1987, é nomeado responsável por esta tarefa o académico de Harvard John Strugnell, que alarga bastante o grupo de trabalho. Mas uma polémica entrevista dada ao jornal hébreu Haaretz provocam a sua exoneração, sendo substituido por Emmanuel Tov, professor da Universidade Hebraica. Emmanuel Tov rodeou-se de uma centena de especialistas e, em cerca de dez anos, conseguiu dar à estampa a monumental obra.

Assim, a obra «Discoveries in the Judaean Desert» Oxford University Press, está disponível por cerca de 4,300 euros e cada volume inclui textos em aramaico e hebreu, fac-similes dos fragmentos e tradução em inglês (versão em francês, na livraria La Procure, em Paris).

Uma obra desta dimensão exige uma leitura de muitos anos, o que irá adiar por algum tempo quaisquer novas revelações.

Esperam-se, no entanto, decorridos que sejam os anos necessários para o estudo aprofundado de tão vasto acervo de informações, a sucessiva publicação de teses interpretativas e exegéticas, que certamente levantarão o mesmo tipo de celeuma provocado por obras de ficção como o recente «Código da Vinci» ou com o também recente Evangelho de Judas.

Para os interessados neste género de temas, ainda agora a procissão vai no adro.