Revista Cultura Portuguesa, nº 1

O pensamento iniciático de José Marinho

António Telmo

As raras referências à obra de José Marinho, o não aparecimento de estudos sobre um dos maiores filósofos do século XX, podem ter origem na dificuldade em compreender o que ele escreveu, se a hostilidade ou a indiferença que a filosofia defronta entre nós não forem suficientemente explicativas. O leitor sente-se impotente perante um livro como a «Teoria do Ser e da Verdade» e, vencido logo no início, não chega a encontrar o ritmo requerido de lucidez, certamente alcançável se não houvesse a má vontade da inteligência. A «Teoria» aparece assim como uma montanha inacessível na planície acidentada do pensamento português. O próprio autor, em vida, não escondia, no silêncio generoso e amável, a decepção de ver sem eco fundo a filosofia que concebeu da nuvem e do raio do seu assombroso espírito. Generoso e amável, porque pensava que uma longa , demorada, dificílima iniciação, para a qual poucos têm vocação e paciência, se requer para compreender todo o pensamento filho da viagem.

«Suspensos ante o véu da alma, os que admitem ou diversamente crêem no sentido do ser sem verdade, na imortalidade insciente ou na mortalidade opaca, não conhecem a paciência de esperar os momentos em que o véu se entreabre, revelando as profundidades do encoberto e do mesmo encobrir» 1.

Num tempo como este em que vivemos e pensamos e em que tanto se fala, lê e escreve de iniciação, não está mal lembrarmos que o autêntico conhecimento iniciático começa no limite em que se dissolve a vulgar percepção da realidade. Por outro lado, e por isso mesmo, «toda a filosofia é iniciática» 2, se não for filosofia livresca ou cultural, isto é, se for composta de actos ou átomos lúcidos da inteligência que se anima e mais se ilumina se a si chama a imaginação, com toda a sua luz ou pavor, a intuição e o sentir. A forma filosófica tem ainda a vantagem de não deixar alimentar falsas ilusões. Não oferece o suporte sensível ou imagético da ideação em que se enganam os crédulos.

É sabido que os caminhos da iniciação se têm apresentado como opostos ao pensar. O neo-orientalismo insiste principalmente sobre a exigência de matar o «mental», como condição prévia da evolução na ordem do ser. Pelo contrário, é à subtileza do sentimento que se confia o segredo dessa evolução.

Quem assim fala ignora o que seja o autêntico pensamento, mas também pouco sabe do subtil sentimento. Os seres destituídos do pensamento que se traduz por operações lógicas (o analógico pressupõe o lógico), os animais, são o que são, como disse o poeta, numa forma específica de conhecimento, mais ou menos obscura ou mais ou menos luminosa. Sendo a experiência iniciática a própria forma individual de conhecimento (todas as demais são colectivas e genéricas), nela o que se pensa espírito se conhece numa alma e num corpo singulares, dados uma só vez no mundo e, daí, a diversidade das filosofias. Não importa que filósofos da espécie zodiacal de José Marinho possam ser, como ele diz, apodados de «místicos extraviados»3 pelos racionalistas menores de «uma razão que não sabe de si», que não pergunta pelo próprio fundamento.

Escreveu que nada é para combater e tudo para compreender. Era um «desperto», alguém que fez «a longa viagem, mas viagem insituada e permeada de suspensões e perplexidades». Em José Marinho acendeu-se e perdurou a coragem do pensamento livre: «o autor (da Teoria do Ser e da Verdade) crê ter ficado simultâneamente autónomo e fiel a uma via remotíssima de pensamento. Essa via, ao mesmo tempo fácil e dificílima em sua subtileza, e sempre revelada e oculta, permanece aberta para todos os homens e todos os seres. Uns a seguem livres, outros, forçados por o que é, para estes, necessidade incompreensível. Melhor parece livremente segui-la e de olhos abertos.»4

Confundem alguns a via sacra da «santa filosofia» com qualquer via devocional - judaica, católica ou islâmica - e interpretam o superior diálogo dos filósofos como um conflito de religiões, de pontos de vista religiosos. José Marinho não é um pensador místico porque nunca disse, escreveu ou pensou que o princípio da filosofia é a devoção. Nem também disse, escreveu ou pensou que a razão, isto é, o raciocínio não constitui a forma da filosofia, mas ensinou demoradamente que, somente quando não se interroga sobre si e vai inconsciente de si e do seu enigma, se impede a razão de cumprir a finalidade para a qual autenticamente existe: a de promover os raciocínios sobre a verdade e sobre o ser que fazem eclodir, em dado momento, a interrogação. A interrogação é, assim, para José Marinho, o princípio da filosofia, e ela é, bem longe e bem pura de toda a mistura sentimental, o supremo acto do intelecto. Após ter feito eclodir a interrogação, a razão não se demite. Mais sábia e lúcida agora, reitera a cada novo momento o processo, além de se assumir especulativamente para reflectir as luzes do inteligível que a interrogação revela. Daqui o erro de opôr pensamento racionalista e pensamento místico, o que equivale a chamar estúpido a Platão e cego a Aristóteles.

Todo o segredo do pensamento de José Marinho depende, pois, da compreensão do que é «interrogar» nesse pensamento. É dado como ponto assente que raros atingem sequer o primeiro estádio da interrogação. Logo aqui se vê que não é o mesmo que pergunta. Há, porém, uma distinção mais subtil. A pergunta supõe uma resposta; a interrogação é já a própria resposta. Este paradoxo aparece mais evidente e verídico, se se disser que a interrogação não é só o princípio da filosofia mas também o seu fim. O mais alto grau da interrogação será assim a sabedoria divina ou Sofia, aquela actividade a que Álvaro Ribeiro chamou «o conhecimento especulativo do Absoluto»5.

A condição de haver interrogação é ter-se adquirido o sentido subtil do enigma, primeiro alvor ou sinal de que o próprio corpo se assume como corpo subtil ou astral. Do ponto de vista vulgar, pôr um fenómeno como enigma equivale a confessar para si próprio e para os outros «um não sei», a declarar-se e reconhecer-se ignorante do que esse fenómeno é ou significa, a pôr uma fronteira, um limite entre nós e o desconhecido. O desconhecido assim posto é, afinal, um conhecido que ainda não o é, mas que outros homens, outros espíritos ou algum deus já detêm como tal. Não é desconhecido em si, mas para outro. Ciência e religião encontram-se aqui com o pensamento vulgar. Para a primeira, o ainda não conhecido toma a forma de incógnita numa equação. Sendo o princípio supremo da razão matemática o princípio da identidade (A=A), se A não é igual a A, é porque falta num dos termos algo que é a incógnita, cujo valor uma vez determinado restabelece a evidência da equação.

José Marinho concebe a Deus, não no sentido de ser mistério para outro, mas para si mesmo. É neste mistério supremo do interrogar que se revela o Espírito: o insubstancial substante, cindindo e unindo infinitamente. No homem que, pelo confronto da visão unívoca e da cisão extrema, nasceu para a luz do Espírito, a interrogação, potenciando-se, traduz-se na descoberta da subjectividade que é, no microcosmos, a vivência sófica do mistério supremo. O problema do mal, tal como se põe para o pensamento vulgar, incapaz de compreender o que lhe parece como o absurdo da terra dolorosa e da humanidade pecaminosa, incompatível com os atributos divinos de Bondade e de Majestade, não se põe a José Marinho. A cisão surge no Princípio dos Princípios como impulso da liberdade divina e, com ela, de todos os seres.

Tudo está num movimento subtil do intelecto a que é urgente aceder e sobre o qual não nos é possível, em tão breves linhas, insistir muito. O pensamento que se desenvolve por correcção, ampliação e aperfeiçoamento do pensamento vulgar, o pensamento que não admite a metanóia (em José Marinho referida à interrogação) ficará para sempre preso a si próprio e nos próprios limites, até quando atinge o esplendor da teologia. Tais como somos de nascimento, não temos sentidos nem pensamento que dêem a verdadeira verdade que se exprime no ser imediato. A filosofia autêntica começa quando se rompe essa linha de pensar e a razão transfigurada assume a energia de não dizer «verdade» sem «ser» e «ser» sem «verdade», de morte em morte e de estádio em estádio mais e mais alto de conhecimento.

Estudemos José Marinho. Não nos deixemos enganar pela ideia de que a sua sombra está ainda muito próxima, pois partiu para o mundo dos viventes apenas há cinco anos. A sorte que o destino nos concedeu de o termos tido como Mestre seja, para alguns, a fonte do impulso que nos leve a estudá-lo. A Teoria do Ser e da Verdade somente à trigésima terceira leitura começa a revelar-se.

Escrevo comovido que José Marinho foi um dos meus mestres. A última vez que o vi, repousava seu corpo corruptível na Igreja de São João de Brito. Eu acordara de noite sobressaltado e um estranho nervosismo, uma surda inquietação se apoderara do meu corpo subtil. Era por volta das três horas, quando os chineses dizem que a alma toca o inominado. Levantei-me e passeei pela casa até encontrar o perdido sossego. Pelas onze da manhã, soube que José Marinho tinha morrido aproximadamente àquela hora da noite.

Tu, meu Amigo, ou algo de ti, se encontrou com o meu ser, no ponto crucial do tempo. Agora, estou ali com o teu cadáver, no silêncio claustral, os dois sós, durante largos minutos. sobre nós paira a misteriosa sombra da morte. Ocorrem-me os versos do poeta:

«Calmo, na falsa morte a nós exposto,

O livro ocluso sobre o peito posto,

Nosso Pai Rosacruz conhece e cala.»

A Teoria do Ser e da Verdade é uma das raras cópias humanas desse augusto livro, para sempre vedado aos olhos dos mortais que não receberam a iniciação.


Notas:

1 Teoria do ser e da Verdade, pág.40, Guimarães Editores, Lisboa, 1961

2 Obra citada, pág. 7

3 Obra citada, pág. 22

4 Obra citada, pág. 6

5 O Problema da Filosofia Portuguesa, pág.9, Editorial Inquérito, Lisboa 1942