Uma nota sobre a actividade

de classificar e etiquetar filósofos.

Quem perceber que o acto de “filosofar” é o único radical gerador de toda a possível verdadeira filosofia, então saberá que toda a “Filosofia” ou “Filosofias”, e suas congéneres “História” ou “Histórias da Filosofia ou Filosofias”, têm um saber composto de duas matérias: uma, será o resíduo objectal desse verdadeiro filosofar, a outra será toda a sofística e outras formas de possíveis discursos que, embora possam ter muito valor enquanto expressão do racional, não são verdadeiramente a filosofia.

Retomar o fio desse exercício antigo que só no agora de cada instante realmente acontece, exige que o “filosofar” ultrapasse a pressão uniformizante de todos os discursos já feitos…. Os únicos companheiros são as vozes do verdadeiro filosofar que, também elas, tenham assumido a sua radical singularidade.

A única garantia a que pode justamente aspirar todo e qualquer que se atreva a “filosofar” é que nada foi, é ou será dito e pensado de uma vez por todas; a esse “saber definitivo” (que tanto atrai os académicos de todos os tempos…) falta o consentimento de todos os que alguma vez disseram, dizem ou dirão, pensaram, pensam ou pensarão.

Todo o labor classificativo, académico e erudito sobre os resíduos expressos e impressos do verdadeiro “filosofar” (as obras de filósofos notáveis) vai juntar-se aos milhares de escritos de empenhados epígonos e estudiosos; e dele se terá de dizer que é apenas uma provisória e contingente proposta de ordenação, classificação e avaliação, cuja existência orbital em torno do “filosofar” é um novo encobrir labirintico que, embora não sendo essa a função a que estaria destinado, devolve o verdadeiro “filosofar” à intimidade do possível reencontro com o enigma, ou seja, devolve a árvore à floresta.

Quando se ordena, classifica e avalia o que é radicalmente autónomo e único, singular e diferente, próprio e original, corre-se o risco certo de produzir um trabalho que não atinja mais que os critérios do já conhecido, ficando por abrir a porta para o horizonte do verdadeiro “filosofar”.

Pela mesma razão, a polémica, a argumentação ou a refutação, assim como outros processos da retórica sofistica quedam sempre aquém ou além do “filosofar”, e não se pode dizer, com total propriedade, que se refuta um filósofo, e com algumas limitações e reservas poderemos dizer (como audaciosamente, como era seu timbre, fez Orlando Vitorino, no seu livro “Refutação da Filosofia Triunfante”) que se refuta uma filosofia.

Não basta, julgo eu, fixar um qualquer “filosofar” em forma escrita, nem tampouco exercer o “filosofar” sobre os tópicos mais mundanos e coisificáveis, assim deixando obras de valor social e cultural, nem tampouco louvar e promover tais obras filosóficas a manuais, compêndios, tratados e catecismos metodológicos ou políticos, e divulgá-los em todas as escolas e arquivá-los em todas as bibliotecas, a nível Planetário, não basta isso ou o que seja para anular a singularidade única da fonte, inesgotável e irrepetível, de curiosidade filosófica em cada um, que em si e para si pratica o “filosofar”, quando ocorre que alguém “filosofa” verdadeiramente…

Dito isto, que é um dizer suspenso numa afirmação que nega que se afirma, (porque o tema assim o exige, note-se…) insere-se o pequeno texto abaixo, que num tom mais prosaico, sucinto, compassado e simpático, dá um bom exemplo das possíveis discrepâncias, equívocos e confusões que são os frutos dessa tal actividade académica ou escolástica que parece tão inevitável quanto desnecessária, e tão necessária quanto ineficaz, mas que não deixa de manifestar o inquietante e inquietado fluxo, (diria, talvez, José Marinho, de “trânsito e recurso”…), entre a retórica social, de todos, e o diálogo interno, de cada um, assim como manifesta a cumplicidade estimulante que se pode gerar entre a Filosofia e a Poesia, quando ambas apenas verbo.

Uma nota sobre DESCARTES e ESPINOSA



Autor: Jonathan Bennett


Tradução: João Seabra Botelho

Descartes era um dualista e Espinosa um monista. Se isto determina um contraste entre eles, deveria haver uma qualquer questão à qual Descartes teria respondido “dois” e Espinosa “um”.Vejamos então:

a)Quantas substâncias há?
Espinosa: “Uma”. Descartes “Específicamente, uma; mas se abrirmos um pouco o critério que define substância, milhões”. Nunca, em relação a esta questão, Descartes alguma vez respondeu “dois”.

b)Quantos tipos básicos de substância há?
Descartes:”dois”; Espinosa “dois: embora haja apenas uma substância, ela é de dois tipos”.

Descartes é normalmente classificado de dualista porque afirmou que o pensamento e a extensão são os dois tipos elementares e lógicamente distintos de ser. Mas, neste sentido também Espinosa era um dualista. Se tomarmos sériamente a sua afirmação de que há infinitos “atributos”, poderemos vê-lo como um pluralista, quanto a este ponto, mas dificilmente como um monista.

c) De quantas substâncias é composta uma pessoa com seu respectivo corpo?
Descartes responde (sem atender às suas próprias afirmações sobre a divisibilidade da matéria): “Duas, se uma pessoa, com seu respectivo corpo, for feita de um corpo e de uma mente, cujas substâncias são distintas”. Espinosa:”Nenhuma, porque uma pessoa e seu respectivo corpo é um modo (regido por dois atributos) da substância una e única, e não é, portanto, composta de qualquer número de substâncias.”

Estas são as questões que mais rapidamente nos acodem à mente, e nenhuma delas mostra um contraste dualista/monista entre Descartes e Espinosa.

Mas;

d) Dados A e B, que são atributos básicos e lógicamente independentes, qual é o menor número de substâncias necessárias para instanciar os dois atributos A e B?
A esta pergunta, Descartes responde “Duas” e Espinosa responde “Uma

Suspeito que aqueles que sublinham um contraste dualista/monista entre Descartes e Espinosa têm geralmente em mente, não o contraste que realmente se constata em d), mas antes que Descartes respondeu “dois” na questão b), enquanto que Espinosa respondeu “um” à questão a).

No entanto, é indubitável que d) é uma questão relevante no pensamento de ambos, e também na “filosofia da mente” em geral…

(nota do Tradutor: lembra-se agora o afamado livro de António Damâsio “O erro de Descartes”, apesar de o “erro” que esse livro tanto critica e parece querer refutar seja a resposta de Descartes a c), alínea que Bennett não comenta. António Damásio escreveu mais tarde o livro “Ao encontro de Espinosa”, onde, sendo ele um discípulo da filosofia materialista americana, procurou no monismo de Espinosa um suporte para a sua “filosofia da mente”. Mas Bennett mostra aqui que Espinosa afirma claramente que a pessoa é um modo, regido por dois atributos da substância única divina. Ora bem, não parece que Damásio possa subscrever esta tese; portanto, a sua invocação de Espinosa para “companheiro” das suas teses materialistas não é justa... Ou, por outras palavras, a matéria ou substância de Espinosa não é a matéria corpórea da filosofia da mente de Damásio e dos filósofos empiristas americanos).
(...)
Que a resposta de Espinosa a d) é, sem dúvida, “Uma”, depreende-se quase imperativamente da estrutura geral da sua metafísica; mas só conheço uma única referência explícita sobre este ponto, a saber:

“ É evidente que, embora dois atributos possam ser concebidos como distintos – ou seja, podemos conceber um sem a presença do outro – isso, no entanto, não nos permite concluir que eles caracterizam (ou se aplicam, ou são instanciados por) duas entidades ou substâncias diferentes… Nada tem de absurdo indicar vários atributos de uma só substância [Ética I, 10, 0, nota].

Porém, curiosamente, esta referência sofreu um destino curioso às mãos dos tradutores de Inglês. A palavra que aqui traduzi por “caracterizar” é constituere.

Este termo foi traduzido por “constituir”, por Elwes, White, and Willis, e por “forma”, por Boyle. Mas qual o motivo de Espinosa para se incomodar a negar que dois atributos distintos têm de constituir ou formar duas substâncias? Obviamente, o que ele pretendia afirmar era que dois atributos diferentes não tinham de, necessáriamente, se referir ou aplicar, ou caracterizar, duas substâncias diferentes.

A palavra constituere, como os tradutores poderiam ter facilmente constatado nos dicionários, pode ter esse significado, que é o único a fazer sentido, neste contexto.

É triste que o comentário mais explícito de Espinosa a um tópico que tem importãncia própria e que também traz consigo a única justificação possível para o contraste genuíno entre o monismo dele e o dualismo de Descartes, tenha sido manifestamente mal traduzido em todas as versões Inglesas da Ética.

(nota: no seu livro, “Ao encontro de Espinosa”, António Damásio labora neste erro - ou leu Espinosa em latim?)