O espírito crítico

A forma crítica do pensamento, prolegómeno da ciência e do saber actuais, exprime bem a situação do sujeito do conhecimento que, ou já possui a verdade que aos outros nega, ou a refuta como imprópria de qualquer sujeito, porque só como objecto a deseja. (...)

O espírito crítico, tal qual o valorizámos, parece assumir uma importância que em si mesmo não tem, dado que, tanto pela restrita amplitude do seu sentido, como pela debilidade dos princípios, tende a confinar-se à atitude de um só pensador, envolvido pela sua circunstância.

Em segundo momento, porém, verificaremos que as restrições propostas à substância do criticismo sergista subentendem uma função pensante que excede em muito o seu valor intrínseco, tendo em conta a energia direccional da tradição, que ele contraria, e, sobretudo, a crise do modo de pensar universal, que nele se representa.

Quanto ao primeiro aspecto, não será difícil compreender que o espírito crítico, como conhecimento mortífero, dissente, no que respeita ao problema do mal, da nossa remota tradição. Embora Sérgio defenda a contingência do mal, impedindo o verdadeiro acesso à liberdade de espírito, nega a aspiração do pensamento português de compatibilizar o absoluto com a existência do mal.

A dissenção mais se contrasta no pensamento dos séculos XIX e XX, em que melhor se define a filosofia lusa.

E, com efeito, tal especificidade pode muito bem ajustar-se ao momento ideal em que Sampaio Bruno, no conjunto dos pensadores preocupados com a ideia de Deus e a existência do mal, se atreve a colocá-lo no cerne da Criação, e o mistério, no princípio da filosofia ou, ainda mais acentuadamente, no "seminal princípio de toda a filosofia"1

Se José Marinho assinala deste modo tal audácia do filósofo, mais facilmente compreendemos e aceitamos que António Braz Teixeira defenda a ideia de que o mistério substitua a «admiração e o espanto» que precediam o conhecimento dos gregos2.

Sendo embora transição devida à visão cristã do saber, ou sequência do modo de pensar português, certo é que esta substituição altera abissalmente a relação com o mundo a conhecer, não só na largueza das noções que integra, entre as quais a do irracional, mas também como sintoma de uma visão compreensiva da crítica.

E então se esclarece o modo de criticar de cada um dos dois pensadores, Bruno dando o exemplo de uma crítica que compreende o bem e o mal da cisão, Sérgio excluindo ambos, na medida em que os separa irremediavelmente, prejudicando o «misterioso» unitivo, pelo «duvidoso» separativo.

(....)Os pensadores, que vêem no misterioso a única origem do mal, evitam o grave erro do positivismo de tudo querer explicar; e os que tomam o mistério por incompreensível, esses entregam ao criticismo o que haviam negado ao positivismo. Se algum sinal nos dá o mistério, esse é, sem dúvida, o de poder ser compreendido, não pelo juízo cisório mas pelo juízo reflexivo, radicado no mistério.

(...) A simples alteração do ponto de vista filosófico não será suficiente para alterar as condicionantes do pensamento. Só um recomeço teórico-religioso, na apreciação do ser, quebrará o círculo vicioso em que a negatividade crítica nos encerrou.


O reconhecimento e aproximação ao mistério, em Leonardo Coimbra e na «Renascença Portuguesa», compreende-se pela continuidade da tradição misteriosa de regresso à origem, que é uma tendência acentuada do pensamento português.

Essa tendência é bem diferente do retorno meramente afectivo e metafórico que tenta dar alívio ao drama da vida e da morte. Ela também não se confunde com a doutrina mecanicista e com todas as outras do retorno repetitivo, cuja frustração Raúl Proença analisa admirávelmente, nem tão-pouco com a visão retornista nietzschiana, para a qual o homem não tem outra pátria senão este mundo.

O mistério da origem, que os saudosistas, tal como o criacionismo leonardino, propõem à nossa compreensão, concentra-se essencialmente na indefectível unidade do ser adâmico e do ser decaído, unidade que a razão abstracta é incapaz de abraçar e compreender, mas que a ressonância moral indicia como proposta ao conhecimento.

(...) A filosofia Alemã, num dos momentos da sua, e universal mudança, apurou kantianamente a crítica do conhecimento, mas, para o estado metafísico do português, não eram as limitações do conhecer que nos impeliam a mudar tão radicalmente o universo do saber.

O nosso avatar foi, e é, o pensamento de Sampaio Bruno, cuja roupagem voluntária ou involuntáriamente vestida, nos oculta o filósofo essencialmente libertador de que precisávamos. Movido por intento que nada tem do frio juízo crítico, o autor de «A ideia de Deus» é, efectivamente, estimulado a pensar por impulso religioso que, no entanto, se elabora e completa teóricamente - o que nos permite pensar que o seu primordial intuito foi o de abrir o panorama da filosofia portuguesa ao ritmo de uma autêntica religião teórica. (....)

(...) De todos os impulsos de mudança, três tiveram especial oportunidade na abertura do pensamento português aos novos rumos da teoria e da prática do amor perfeito: a ideia audaciosa de colocar o mistério na origem do filosofar; a inferência da queda no centro da divina Perfeição; a redenção dos seres como movimento metafísico do universo, a recuperação do Paraíso Perdido como seu fim teúrgico. Nenhum destes impulsos advém, confirmemo-lo, da fantasia de Bruno ou da imagem efémera, todos se originam na crença teórica e florescem em princípios filosóficos autênticos e em verdades apodíticas, entre si verdadeiramente harmonizadas. Posto isto, não parece consentido ao juízo crítico tê-los como sentimentos sem ideia ou por imagens metafóricas.

(...) Quero crer que hoje, e especialmente em Portugal, o espírito crítico não parte da morte ou do nada, à imagem e semelhança do acto divino da Criação, mas parte para a morte, até que um dia se possa libertar das categorias negativas e aceda ao sentido infinito que a morte de si mesma projecta. Por enquanto, porém, ainda domina esta dialéctica da queda, que influencia profundamente o nosso ambiente cultural, já sensibilizado, aliás, pela atitude crítica da geração de 70.

(...)Não precisamos de longamente procurar, na galeria dos filósofos universais, um racionalismo que recuse claridade ao irracional. Entre nós, coetâneo da minha geração, se fez sentir o criticismo idealista de António Sérgio, condicionando a intelectualidade e a prática deste País, de tal modo que ainda agora se apaga, da identidade nacional, presente ou histórica, a sombra do possível conúbio da razão com o irracional. E com esta indirecta imposição do judicativo intelecto, tornam-se incompreensíveis, não só os eventos mais significativos da nossa remota cultura, como o pensamento que proponha a sabedoria do sentimento e reponha o conhecimento viabilizado pelo coração.

(....)Tal qual estamos, na cultura, no ensino e na vida social, temos que retomar o diálogo com os autênticos filósofos e poetas, sobretudo com os que admitem a «razão correlativa com o irracional» e não recusar ao princípio da individuação o «encanto do seu excesso de Ser»3.

1 José Marinho, Verdade, Condição e Destino, Porto, 1976
2 Deus. o Mal e a Saudade, Lisboa, 1993. Também Eudoro de Sousa, Mitologia, Lisboa, 1988
3 José Marinho, Razão e Irracional, in «Presença», 1939.