-

Do lear, ou da lealdade

excerto de «ABC da Lealdade»

in Rev. Cultura Portuguesa, nº2

A filosofia é coloquial. Todos os grandes filósofos escreveram ou falaram para alguém. D. Duarte fê-lo expressamente para senhores e gentes de suas casas, isto é, para os aristocratas do espírito que, regendo suas casas segundo a ética posta pelo rei em tratado, puderam, em estas e posteriores gerações, levar Portugal às Descobertas.

Em consequência, não admira que se note neste tratado de lealdade a ausência de uma concatenada sequência de noções, conceitos e princípios a definir-lhe um sistema. Dos cento e três capítulos desta obra só um aborda específicamente o tema. No entanto, do primeiro ao último, procurando mais a compreensão do género do que a da espécie, o movimento do verbo do que a passividade do substantivo, é com a lealdade, e lealmente, que D.Duarte tece a obra inteira. Obra inteira que não se confina ao Leal Conselheiro mas se alarga e aprofunda no Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela. Diria até que neste livro se contém o essencial da doutrina da lealdade, pois é na brevidade de suas páginas que D. Duarte estabelece a relação ético-ontológica entre corpo e alma, entre alma e espírito.

Para melhor compreensão do que possa ser este tipo de relacionar, ligar ou lear se anota que ele aparece na imagem do cavalo, do cavaleiro e do espírito divino que a ambos rege. Assim como as noções de realidades tão diversas encontram a sua forma ou expressão no modo racional de sua existência, a relação tem de procurar a outra realidade ou irrealidade em que possa existir. Essa será a imagem em seu movimento tendencial, que define o tão complexo movimento do espírito a que chamamos analogia.

Como é sabido, a analogia tem vários sentidos que, nos últimos tempo e entre os nossos pensadores esotéricos, se aprofundam como modo de cifrar ou decifrar. Em meu entender, D.Duarte pensa por analogia, como os principais filósofos portugueses, e encontra a sua emergência ética na lealdade. Se assim for, este sentimento assume-se no pensamento duartino pela mais elevada expressão. A lealdade, na acepção que hoje nos é comum, produz efeitos apenas no cenário moral e, exactamente por isso, começa a ser muito pouco praticada.

Lealdade, elo de pensamento, de sentimento e acção, essa consubstancia-se na teoria de D.Duarte que, sendo predominantemente ética, define também uma antropologia, uma cosmologia e uma teologia.

Se fizermos o currículo teórico da lealdade, surpreender-nos-á a exactidão com que ela se equivale às várias doutrinas filosóficas escalonadas no tempo. São dois extremos, o que é definido pelo sistema ético de D.Duarte, primeiro momento e mais pleno de filosofia da lealdade , e o do pós-kantiano Josyiah Royce, que escreveu os seus ensaios sobre o lealismo no fim do século passado.

Também temos entre os nossos pensadores leais - que o são, como já disse, na sua maioria, os nossos pensadores - um representante do idealismo crítico, na pessoa de Raul Proença. D. Duarte e Raul Proença, também eles dois extremos entre os quais medeia o esvaziamento progressivo do sentido global da lealdade, que enleia sujeito e objecto, natureza e sobrenatureza, forma e matéria, corpo e alma, sem hipertrofiar nem diminuir nenhuma das realidades enleadas.

A este esvaziamento corresponde a impossibilidade de pensar por analogia pura, pela imagem semelhante ou «à imagem e semelhança» do divino absoluto.

Na continuidade dos pensadores portugueses seus antecessores e contemporâneos, Raul Proença enfrenta o absoluto, mas na situação mais difícil, que é a do idealismo crítico, situação catalisadora das angustiantes contradições do pensamento, porque ela própria feita da aproximação de contrários.

Recorre o filósofo do Eterno Retorno à lealdade da consciência como última testemunha da verdade de si mesmo, no limite tenso do princípio de autonomia. O seu solilóquio brilha como sinal do extremo limite a que chegou o homem moderno na solidão dos seres.

Perdeu-se já a harmonia do pensamento coloquial do «A B C da Lealdade» que uniu senhores e gente de suas casas por esse mundo descoberto. Ficou-nos a carência daquele pensamento e a recordação pétrea das cordas manuelinas que então fixaram simbolicamente o enorme laço de lealdade que envolvia a civilização lusíada.