Anais do Congresso Int. de Filosofia de São Paulo

de 9 a 15 de Agosto de 1954


Afonso Botelho

O Modo de Pensar Português e a Cultura Internacional

Afonso Botelho

O modo de pensar dum povo não se pode senão sugerir. É necessário ser sujeito passivo desse mesmo pensamento para possuir todos os segredos da sua comunicabilidade, e então pertence-se anímicamente a ele.

Mais isolado está o pensamento dum povo que ao pensar actua, isto é, actualiza as potencialidades não só racionais, mas sobretudo sentimentais e anímicas. O modo de pensar do povo português é exemplo extremo desta afirmação.

O pensamento português é um pensamento inefável. Os historiadores da filosofia que têm uma existência proeminente na actual situação cultural portuguesa parece não conseguirem, com o simples uso das suas categorias racionais, elaborar uma história da Filosofia Portuguesa. Este facto tem graves inconvenientes, não só para os mesmo historiadores, como para a apresentação visível desse pensamento ao mundo internacional da cultura. Também a acção das Faculdades de Filosofia se anquilosa progressivamente, pois não podem andar ao mesmo ritmo a exigência das sucessivas gerações de estudantes e a ingrata função dos leitores de documentos. Daí a ausência da Filosofia Portuguesa ser notória nos congressos internacionais e nas Universidades de Portugal.

Mas a corrente do pensamento português em nada se altera com o prejuízo destes factos. Em meio século, o pensamento filosófico-poético de Sampaio Bruno, de Leonardo Coimbra, Pascoaes e Fernando Pessoa, para só citar os que mais aprecio, continuou a principiologia tradicional, respondendo, quer poética quer filosóficamente, às perplexidades mais fundas do homem português. E respondendo a estas perplexidades poético-filosóficamente, entendo que se tornou presente na cultura internacional. Mas aqui começa o problema que os próprios historiadores portuguesas patenteiam, não conseguindo alinhavar uma história da filosofia.

O problema pode exprimir-se assim: o pensamento português é inefável; mas por sua culpa, isto é, por não chegar a consubstanciar-se como pensamento filosófico, ou por culpa das categorias que se lhe aplicam para o tornarem possível? Encarando o problema pela culpa do pensamento português acentua-se a substância ou natureza do mesmo pensamento, encarando-o pela culpa das categorias alheias acentua-se o modo de pensar específico do povo português.

Creio que o problema se resolve escolhendo este último caminho e excluindo o primeiro; simplesmente, a resolução envolve a determinação do modo de pensar dum povo o qual, como disse, não é possível determinar-se perante a generalidade dos outros povos, mas apenas sugerir-se.

Vejamos, portanto, em aproximações sugestivas, (e destas, só algumas) a razão de ser do carácter inefável do pensamento português, aceitando agora antecipadamente que a encontraremos no modo de pensar específico dum povo.

As categorias usadas pela generalidade dos nossos historiadores e o espírito historicista que informa a sua cultura (e a da maioria dos homens cultos) assentam num princípio comum - a realidade é o real.Não obstante o pensamento existencial ter abalado esta identificação, defendendo a totalidade do concreto, o peso do conservantismo da cultura mantém íntegro o preconceito que a Filosofia Moderna consolidou.

Em todos os tempos houve espíritos e sistemas filosóficos que exteriorizaram a verdade, os valores, o tempo, a vida, mas em nenhuma época, senão na moderna, se subordinou o modo de pensar a este preconceito. Pode-se dizer, sem exagero, que o próprio pensador subjectivista ou o filósofo que afirma a não-existência do real, (desde que sejam modernos), pensam e afirmam como se pensassem e afirmassem que a única realidade é o real. Quer dizer que as suas afirmações ou conclusões só atingem o último grau de verdade quando se põem de acordo com o real ou, pelo menos, com um critério de exteriorização.

Os sistemas filosóficos que a modernidade produziu e que mais influenciaram a cultura internacional manifestam relevantemente esta condição esta direcção comum do pensamento.

Não convém a tão modestas notas seguir a análise, mas a síntese.Voltemos, portanto, ao que se afirmou. As categorias do historiador da filosofia, análogas às da cultura internacional, revelam as três ou uma das três influências seguintes:

1. - A única realidade é o real. A razão é a exclusiva faculdade do real, que o apreende e o representa, a imaginação é a fonte do erro, o mistério e a vida são irrealidades; a matemática, como ciência da razão e do real, é a única verdadeira ciência. Influência de raiz cartesiana, racionalista - realista.

2. - Uma ideia só é verdadeira no momento em que é confirmada pela generalidade mental, pela «mente de todos os espíritos», como diz Berkeley. A verificação pela experiência ou pelo exame é indispensável a toda a opinião para genhar raiz na ciência ou na filosofia; necessidade dum saber oficioso (inimigo do pensamento intuitivo e livre) que confere graus nas Universidades e seriedade às obras escritas. Influência cientista-experimentalista que poderá em última instância entroncar-se na corrente empirista dos ingleses.

3. - Não pode considerar-se esta última determinante das categorias referidas como uma influência, porque constitui o seu próprio substracto, o estado habitual da cultura oficiosa dos nossos dias.Trata-se duma determinante clara e nominalmente positivista e, como muito bem acentua Álvaro Ribeiro, o Positivismo é mais uma corrente de opinião do que uma escola filosófica. O ambiente da cultura vigente nos países onde o Positivismo fez carreira (e estão neste caso Portugal e o Brasil) é propício à formação, em cada uma das sucessivas gerações, dum espírito ou dum critério a que corresponde uma força social.

Ambos obrigam o modo de pensar a exteriorizar-se, chamando o sujeito do pensamento à integração no mundo exterior da História, das ideias como factos, da religião social. O real, a que o positivismo vincula toda a realidade exterior ou interior do homem (transcendente ou imanente), representa o máximo de exteriorização, pois atinge a antropologia, o cosmológico e o teológico e, dum modo efectivo, já que é uma corrente de opinião constituída em força social.

Indiferente ou contra as categorias da cultura oficiosa e dos seus historiadores, o pensamento português denota um modo de pensar específico, pelo menos relativamente a estas três influências. a partir das quais tentarei agora sugerir aquela especificidade: 1ª - Se algum princípio admitíssemos para sintetizar a inclinação do pensador português, o modo habitual como o pensador, filósofo ou poeta, interpreta o mundo que nos circunda, seria:nem toda a realidade é o real. Não é esta proposição contrária, mas contraditória da que enunciámos. A contrária - nenhuma realidade é o real - não traduziria com fidelidade a posição espontânea do pensador português perante o mundo exterior e não significaria tão fortemente a oposição que a contraditória envolve, pois também em filosofia, por vezes, os extremos se tocam. Basta verificar como Filosofia Moderna, representando o mais unitário período do pensamento filosófico, abarca as duas posições contrárias , oscilando constantemente entre a atribuição e a negação da realidade ao real. O resumo histórico da teoria do ideal e do real de Schopenhauer deixa ver com toda a clareza como a contrariedade de sistemas revela afinal uma mesma posição perante o real, fascinação a que não fogem os mais idealistas dessa teoria.

O homem português, o que pensa e o que age, cumpre uma tradição anti-moderna. Foi ele que nos alvores da Modernidade colocou a cultura internacional, já dominada pela objectividade do real, perante a experiência feita da proposição contraditória - nem toda a realidade é o real.

A acção epopeica do povo português veio sobretudo confirmar que o irreal tinha realidade, mas as categorias da cultura moderna não receberam o aviso e o proveito que dele tiraram foi, em todos os aspectos, meramente consequente e não principial. Assim, enquanto os portugueses iniciaram o movimento da modernidade, criando o arquétipo da descoberta, que é o acto de conhecimento humanamente eficaz mas submisso ao véu sobrenatural que cobre a natureza, a Idade Moderna, internacional, promoveu e desenvolveu o arquétipo da invenção mecânica-científica, que não só desconhece a origem velada das coisas como impulsiona, no seu progresso, o aniquilamento da natureza.

O português transforma o irreal em realidade tal como parece desejar a acção programática do cientismo, mas, contráriamente ao sentido que tomou a modernidade, viaja através do real, sem pretender ser criador de novas formas ou dominar pelas suas exclusivas forças o vento, o mar e as tempestades. Deste modo a natureza é respeitada nas obras poéticas e artísticas da cultura portuguesa. Os Lusíadas e o Manuelino manifestam sobejamente a integridade da natureza, a união sagrada do irreal com o real. Desde a interpretação solitária da natureza, da poesia medieva, até às obras inclusas no renascimento, o modo de pensar português preserva sempre o rincípio feminino, desvelando e não rasgando, concretizando e não abstraindo.

O próprio espaço que a cultura moderna havia de exteriorizar completamente através do espírito matemático, transformou-se pela acção dos portugueses, que muito estudaram e se serviram da matemática, num princípio espiritual que demonstra em conclusão que o real não preencheu exclusivamente as categorias da realidade na cultura lusíada, tendo sempre ficado livres para criarem obras de poesia e de filosofia a imaginação e a vida.


Separata do Congresso 2ª - A segunda influência do espírito moderno exerce-se relativamente ao sujeito do pensamento, procurando nele outras formas de exteriorização do modo de pensar.

Ora, a este respeito, e formulando a pergunta a favor da corrente moderna levanta-se uma dúvida quanto ao modo de pensar específicamente português. Por certos aspectos o pensamento do filósofo ou poeta português parece desligado de qualquer relação pessoal. Há poetas e filósofos da cultura lusíada verdadeiramente solitários, em cujas obras não transparece nem a relação de escola nem a relação de sistemas. Estes, aliás, acentuaram apenas essa faceta quase geral da cultura portuguesa, exceptuando a dos «homens cultos» que, sobretudo nos nossos dias, dominam o ambiente cultural, e que nas raras obras que escrevem reproduzem a problemática e as soluções mais em voga do estrangeiro.

Com efeito, as questões e os pensadores Universais (nos dois sentidos da profundidade e da generalidade) nem sempre encontraram na nossa cultura autêntica o eco ou a resposta que a universalidade do pensamento exige. Em contrapartida, há uma certa constância de temas de índole nacional que, se por um lado pode justificar a existência dum pensamento específico, por outro agrava a ausência da generalização da verdade que desde a idade moderna cada vez mais se aceita como garantia da sua formulação e manifestação. Ocupa-se ainda com frequência o pensador português de certas particularidades de tipo pragmático-concreto que não têm audiência internacional e que ainda tornam mais fechada e menos presente esta cultura.

Do ponto de vista internacional, portanto, o modo de pensar português, se fosse conhecido e analisado, apareceria como impessoal e sem aquela relação visível que transformou numa grande conversa a Filosofia da Modernidade, não obstante os cuidados exemplares de Descartes e outros, em não revelar influências.

Independentemente da valorização que possa fazer-se dum modo de pensar assim considerado, é certo que se nega muitas vezes originalidade ao pensamento português com base na falta de generalidade de ideias. À luz deste critério não se vêem na cultura portuguesa nem percursores nem continuadores e, portanto, é lógico que não se lhe reconheça existência autónoma nem originalidade.

O critério fica, porém, em causa se encontrarmos no modo de pensar português uma relação pessoal mais profunda do que aquela que o conceito de «verdade colectiva» aparentemente sugere. E assim é.

O pensamento português como, em meu entender, todo o pensamento não totalmente abstracto, participa, de perto ou de longe, da relação mestre-discípulo. Só ela justificaria, aliás, o chamado ensino superior que, deslocadamente, se baseia nas relações vazias da experiência e do exame, por influência da verdade concebida como generalidade de ideias.

Não cabe nesta breve comunicação aprofundar a afirmação ou afirmações anteriores, mas tão somente dar sentido ao que se sugeriu, sobretudo porque parece ter-se agravado a dificuldade de confirmar por este lado a especificidade do modo de pensar português.

Posta a necessidade da relação pessoal mestre-discípulo, avoluma-se ainda mais a inexistência do pensamento português. Poderá, quando muito, admitir-se que esse pensamento se cria com originalidade mas fracassa ao tornar-se cultura.

Porém, se atentarmos no modo de pensar dos mais significativos filósofos ou poetas portugueses ou observarmos o processo cultural dos nossos dias, subjacente àquele que a cultura histórica e universitária propõe (reprodutora das categorias internacionais) perceberemos dois momentos distintos na evolução do modo de pensar: um, em que é visível a relação mestre-discípulo, outro em que ela desaparece e se revele antes a situação solitária (que só exteriormente o é). Assim age e assim pensa o homem português, trinitáriamente, por desejo, lembrança e saudade. O pensamento e a acção, que entre nós se podem exprimir pelo termo comum de actuação, são inicialmente gregários ou comunitários e aderem, portanto, ao entusiasmo, à simpatia e até à admiração que a relação mestre-discípulo encerra.

Em certos pensadores universais este primeiro momento sobressai e torna-se predominantemente visível, - é o caso de Platão (para só citar o simbólico) Mas o modo de pensar português só se completa no terceiro termo, ocasionado pela visão universal da lembrança, a qual, para o primeiro momento da relação mestre-discípulo, para o entusiasmo, admiração ou simpatia, se define como desilusão. Nas relações binárias em que se cria o pensamento moderno típico, o momento da desilusão já não é criador, mas apenas sistematizador e classificador. No modo de pensar português, é nele que reside o princípio da unidade que antecede o acto da criação. Assim, o nosso modo de pensar específico conserva intacto o trânsito, natural da própria evolução anímica, do ideológico para o ideal, como, paralelamente, vimos que conservava o trânsito do irreal para a irrealidade.

Dificilmente tal modo de pensar se torna visível mediante o conceito desenraizado de «verdade colectiva» e através dos processos de aferição - da experiência e do exame.

3ª - A análise desta terceira influência que, como vimos, mas do que influência é o próprio substracto da vida aparente dos nossos dias, levar-nos-ía ao estudo da realidade social portuguesa - o que está fora dos limites desta comunicação, prestes a esgotar-se. Apenas uma referência que sintetize o melhor possível o que queríamos concluir.

O Positivismo, sendo uma corrente de opinião, penetrou as ideias e os ideais da nossa época pela sua raiz social, igualando-as nos seus efeitos e significados às instituições e às entidades político-sociais. O progresso da exteriorização do modo de pensar chegou aqui ao seu máximo limite - que é também o limite da contradição implícita no seu sentido. O termo exteriorização já não serve. o modo de pensar extroverte-se, pois já não é no pensamento que encontra o fim perseguido, mas num verdadeiro mundo de obediências, compromissos e vinculações sociais. O real, ainda aferente da realidade, tem agora um qualificativo que exprime o afastamento da natureza. O real é positivo. Positivas têm de ser as ideias, os actos, os sentimentos, a vida, enfim, para que valham algo na cultura vigente em Portugal, e influente na convivência internacional.

O Positivismo estabeleceu-se portanto como critério de ortodoxia que, poucoa pouco, se transmuda em modo de pensar. Em todos os planos, quer no intelectual, quer no social quer no cultural , o pensamento espontâneo encontra o mundo de artifício positivista. E do mesmo modo por que o candidato às colocações estáveis, ou aos graus universitários, tem de submeter-se a exames e concursos - para os quais se faz (disformando a sua livre personalidade) - as ideias fazem-se para o pensamento social vigente e dominante. A factibilidade das ideias é a primeira exigência da sociedade positivista. E as outras seguem-se, levando os valores espirituais à integral subordinação do real positivo, exterior, ao homem concreto, a Deus pessoal, à Natureza intacta, exterior ao que fundamentalmente determina o pensamento espontâneo do português.

O nosso modo de pensar natural ou específico sofre duas limitações fundamentais, uma teórica, outra prática. A teórica, pela exclusão gradual das suas categorias na cultura dominante e pelo progressivo monopólio das categorias invisuais para a sua originalidade. A prática, pela ineficiência a que estão destinadas todas as ideias não positivas, pois o pensamento livre em qualquer das suas manifestações, obrigado como é a tornar-se facto, imediatamente se transforma em facto histórico, em pensamento passado.

Repetimos: fazer contrastar o que consideramos o autêntico modo de pensar português com a teoria de uma sociedade positivista excede os limites da sugestão, que impusemos por lógica à natureza deste trabalho.

A perspectiva dum pensamento impulsionado por fortes razões tradicionais prevê que o sentido que a Filosofia Moderna definiu, espiritualmente sujeita pela fascinação do real, tenha o seu termo na agonia, determinando um conjunto de culturas agónicas, que já dominam ou virão a dominar os ambientes internacionais dos Congressos e nacionais das Universidades.

A agonia, segundo uma visão diversa de Sto. Agostinho e sobretudo de Unamuno, é a aporia sentimental a que chega o homem que só atribuí realidade ao que é exterior a si próprio , ou, em si próprio, ao que está fora da sua natureza e destino.

Essa mesma perspectiva encontra horizontes em que o agónico é ultrapassado pela saudosa ligação às origens, reconhecidas tanto por uma antropologia como por uma cosmologia autónomas.

O modo de pensar português, subjacente à sociedade e à cultura positivista, é anti-agónico e, que não houvesse outro, este princípio contrastante era suficiente para o autonomizar, e autonomizar do mesmo modo passo uma cultura saudosa.

As categorias da cultura internacional não servem contudo para se aperceberem de nenhum dos aspectos fundamentais do pensamento português. O modo de pensar lusíada continua a impedir que a filosofia e a poesia deste povo descobridor sejam descobertas pelo mundo culto.

Poderá o Congresso de Filosofia de s. Paulo contribuir para que se ponha a hipótese de que a culpa desta ocultação não está do lado do pensamento português?