Afonso Botelho

II Colóquio Tobias Barreto, Açores

20 de Outubro de 1994

Apresentação do livro de Manuel Cândido

«A Filosofia Criacionista da Morte»

por Afonso Botelho

As gerações só se encontram na compreensão, nunca na crítica, porque a crítica, em qualquer dos seus sentidos, é sempre separar.

Aliás, a compreensão faz a diferença entre o juízo metafísico, que Leonardo Coimbra define, e o juízo crítico, que não tem por pressuposto essencial a reflexão compreensiva. É o juízo «apressado», que José Marinho tanto desvalorizava, mas que fundamenta, inconscientemente, a vida activa contemporânea e, conscientemente, a vida intelectual portuguesa.

Sofremos, na nossa comunicação de ideias, do equívoco que, a partir da geração de 70, se foi tornando predisposição habitual, de dar à crítica um carácter sistemático, por tal forma que examinamos o pensamento novo pelos critérios cognitivos do pensamento pensado.

Há, neste estado intelectual, «uma singular inversão do processo do conhecimento, que só uma filosofia do amor e da diferença poderá encontrar». Uma filosofia criacionista como a de Leonardo - acrescento eu às palavras de Manuel Cândido, que acabo de reproduzir.

Ao apresentar uma obra deste jovem filósofo, tentarei, portanto, não examinar conforme aquele exame que, infelizmente, relaciona as gerações na evolução entrópica das sociedades, mas compreendê-la e compreender-me nela, isto é, por ela corrigir o que, em meu próprio pensamento não seja verdadeiramente criador.

De resto, ao tentar fazê-lo não estarei mais do que a seguir, distante é certo, o exemplo do maior filósofo português contemporâneo, que ambos temos por mestre. Pelo menos, só nessa relação pessoal se compreende a fidelidade inteligente com que Manuel Cândido interpreta o pensamento de Leonardo Coimbra. E, quando digo pensamento, não estou a empolar a amplitude de um estudo que se propôe abranger apenas a filosofia criacionista da morte.

É que a tese subordinada a este título tem por finalidade integrar a noção de morte no sistema criacionista, isto é, cumprir a necessidade de rever todo o sistema para nele encontrar o lugar que compete àquela noção.

Neste aspecto, e tanto quanto tenho presentes os estudos sobre o criacionismo leonardino, o livro de Manuel Cândido poderá não ser o mais completo, mas é, sem dúvida e precisamente o mais sistemático.

E como estou a apresentar uma obra de filosofia a todo o género de futuros leitores não posso deixar de lembrar os estudantes universitários que, creio, cada vez mais se aproximarão do pensamento-chave da filosofia portuguesa actual, e que já tarda a ser estudado no nosso convívio luso-brasileiro.

Não direi, porém, que se trata de um livro de utilidade para o aprendiz de filosofia, se é que a filosofia se pode aprender. Obra de verdadeira especulação filosófica, sem preocupações didácticas, o estudante escolar não terá nele um vade-mécum de facilidade, não obstante terminar com um resumo de todo o desenvolvimento conceptual, a propósito da teoria da imortalidade que é, juntamente com a teoria do juízo, a medula doutrinária da obra interpretada.

Há que assinalar a este respeito que o autor de uma obra de natureza especulativa e funcionalmente curricular tenha evitado cedências tanto à ligeireza divulgadora, como às exigências da erudição, sendo, porém, como se esperava, muito bem apoiada nos textos de Leonardo e nos de cultura filosófica em geral.

Sem se deixar atrair por qualquer destas vertentes escorregadias, Manuel Cândido atingiu o objectivo raro de interpretar com rigor hermenêutico e, simultâneamente, com a versatilidade da imaginação pessoal, oferecendo à estante dos estudos leonardinos um livro que se acompanha com confiança e, por vezes, com entusiasmo.

Mesmo assim, a «Filosofia Criacionista da Morte» é de leitura difícil para os que começam a conhecer o pensamento de Leonardo Coimbra, dada a complexidade de saber metafísico que supõe, e, para os que já praticam a reflexão filosófica, pela prolixidade dicionarista dos conceitos, de que às vezes padece, sem, contudo, afastar os neófitos que, com autenticidade, se iniciam nos mistérios leonardinos, tão sábiamente preservados. Nem por ir do sistema à noção este livro se torna demasiado abstracto ou sacrifica o intimismo do mestre.

Se me é dado aqui confessar algo de pessoal, confirmo que, à medida que ía lendo a obra de Manuel Cândido, ía encontrando a racionalidade das emoções originais que a presença iluminante de Leonardo Coimbra deixou na minha memória.

Mas a singularidade inquestionável desta obra reside no propósito de interrogar a noção de morte no sistema criacionista, a começar pela observação de que ela já estaria visível, ou pelo menos necessitada, em «O Criacionismo (síntese filosófica)», de 1912, contra, aliás, o juízo de José Marinho, que considera incidental a inserção deste tema neste texto.

Segundo Manuel Cândido, a morte está presente no «Criacionismo II» «sob o problema da dissolução das actividades monádicas» e é, ainda nas suas palavras, « a subida da dialéctica criacionista ao universo do espírito, sobretudo com a descoberta da pessoa moral, (que) irá problematizar a noção de morte ao encarar a questão do desaparecimento e possibilidade de dissolução das consciências».

São dois, portanto, os motivos que levaram o autor a integrar a morte no sistema criacionista: a evidência de que a noção de morte é necessitada pela própria estrutura essencial do sistema, e o receio de que, partindo «imediatamente da problematicidade existencial da morte», tal corresponda a «optar pela diluição dos supostos fundamentais» desta estrutura essencial. É um receio que se compreende,e se aplaude, num interprete de Leonardo que sobreestima as soluções espirituais, ou melhor, personalistas, deste filósofo cristão.

Todavia, outras visões existenciais há que preservam esses pressupostos, não obstante problematizarem a partir da morte, como é o caso do existencialismo cristão de Gabriel Marcel ou o personalismo fenomenológico de Max Scheler, para lembrar os que mais contrastam com as propostas heideggerianas.

Mesmo atendendo às bem fundamentadas observações de Manuel Cândido sobre a diferença entre a noção leonardina de sistema e os conceitos tradicionais, não penso tão-pouco indiferente que se tome a morte ou o sistema como ponto de partida, visto que é também plausível que a própria discursividade do pensamento sofra perdas que se venham a diluir irreparàvelmente, agora na estrutura global.

Poder-se-á supôr que o centro ideal do sistema assegura em tudo a unidade integradora e que não tem propriamente sentido falar-se de ponto de partida. Assim seria com efeito se o percurso humano nesta vida, tanto no domínio da vontade como no domínio da ideia, não nos obrigasse a permanentes opções, forçosamente geradoras de perdas e ganhos, nas explícitas palavras de Leonardo Coimbra.

Por isso a eleição do ponto de partida do sistema para a problematização da morte não é isenta de riscos, no sentido de perdas em relação aos resultados finais. E o primeiro que ameaça esta visão é o da morte se deslocar de função, tal a consideram Leonardo e Manuel Cândido, em princípio dinamizador de todo o sistema.

Ora este princípio é incontestavelmente o amor, que, na sua expressão cósmica, o autor refere, e bem, como essência da morte.

Aliás, é exclusivamente por aqui que esta função se integrará na harmonia do todo.

A tendência substitutiva não se verifica apenas na obra que apresentamos, mas nos próprios textos de Leonardo que à morte se referem. Se estes não forem ponderados no seu conjunto, pode esquecer-se, por exemplo, que, depois do livro «A Morte», Leonardo escreveu um diálogo filosófico em que o Amor é pensado conjuntamente com a morte e, sem dúvida, sobre esta prevalece. E então já não poderemos considerar, sem qualquer reserva, que aquela é a obra «que melhor representa uma perspectiva sistematizadora do problema da morte». É possível até que o seja, desde que tal consideração não possibilite o esquecimento de alguns conceitos e o esvaziamento de outros, que são primordiais na estrutura cognitiva do pensamento leonardino.

Assim, se hipertrofiarmos o significado sistematizador daquele livro teremos, por exemplo, do conceito de imagem uma perspectiva minimizadora e negativa que, no contexto, se compreende que tenha, porque aí representa a «habitual imagem feita de horrorosos acessórios e acusações irreflectidas», na expressão do filósofo.

Manuel Cândido faz a aproximação desta visão leonardina daquela que Platão nos oferece, especialmente na «República», mas tem o cuidado de esclarecer que, para a meditação da morte, Leonardo segue a via da ideia, preterindo a via da imagem.

Efectivamente, este é um ponto de partida cujo desenvolvimento coerente nos leva ao sistema integrador, tão bem reflectido pelo nosso hermeneuta. Mas, em meu entender, outro abre o seu sulco na mesma unidade essencial do sistema: é o ponto de partida do Amor e da imagem, o qual revela toda a funcionalidade na estrutura cognitiva do criacionismo, não só pela imagem representativa, que aproxima o sujeito do objecto, o ser da experiência, como pela imagem arquétipo, que nos atrai permanentemente para a origem, ou, como diz Manuel Cândido, para «a unidade amorosa originária».

poderíamos acentuar que esta imagem indicia o duplo sentido de origem, tão importante para a compreensão do pensamento leonardino, aliás, nele assinalado, tanto nos estudos sobre a saudade como nas páginas dedicadas à imanência divina.

Este segundo sentido em nada prejudica o caminho ascensional do ser para a perfeição e para a unidade, por duas razões que Leonardo regista com toda a clareza: por um lado, a imanência não se opõe, antes completa, a noção de transcendência. Ambas constituem, no criacionismo, uma só relação que direcciona todas as «outras relações já feitas para a possibilidade infinita de todas as relações a fazer».

Direi mesmo que, sem a permanente equivalência dos dois pontos de vista, a metafísica criacionista fica amputada de uma parte essencial do seu movimento criador e reconstrutor do ser desde a origem. Com efeito, não se compreenderia o excesso divino na realidade criada se a memória inventiva não pudesse contar com a criação anterior à queda, como até nem se compreenderia a própria queda sem aquele estado virginal da criação.

A imagem desse estado, se fosse meramente aparente, esvaziada de realidade, não teria, como tem, na lógica do sistema criacionista, uma presença justificada. Ela representa mais do que aqueles núcleos de realidade a que se refere Leonardo nas primeiras páginas da «A Alegria, a Dor e a Graça»; ela espelha-se na alma e na frescura das primeiras sensações. Dispensar esta alegria (que também é graça) do estado original, seria admitir um criacionismo que partisse da queda, o que é contraditório, não só do sistema em geral, mas da própria espontaneidade criadora de Leonardo que, segundo Manuel Cândido, «nutre desprezo por qualquer tipo de cisão». Os juízos de Leonardo sobre a ideia brunina da criação evidenciam também essa impossibilidade metafísica de conceber a criatura como um espírito diminuído, que ao espírito homogéneo regressa.

Por isso, é-me difícil aceitar que possa verdadeiramente tomar-se o sistema criacionista como uma categoria crítica, porque essa crítica, ou crise, ou cisão, não qualifica intrinsecamente o pensamento de Leonardo, não faz parte do processo dialéctico, que progride pelo excesso, nunca pela recusa e, muito menos, pela repugnância.

A crítica na elaboração mental do nosso filósofo aparece sempre extrínseca ao juízo dialéctico sobre a experiência e manifesta uma escolha livre que não exclui, antes amplia. Cerqueira Gonçalves, para quem, aliás, Manuel Cândido remete, acentua isso mesmo, o carácter superador e direccionista da dialéctica leonardina.

Sistematiza r criticamente corresponde de certo modo a edificar um sistema fechado, que jamais atingirá a universalidade da teoria. E, neste livro, que brevemente apresentámos, dão-se-nos razões suficientes para reconhecer que sistematiza r não é idêntico a teorizar.

Dou-me conta, neste momento, que me afastei do objectivo inicial de dedicar exclusiva atenção ao texto de Manuel Cândido que, com o maior gosto, me propus apresentar. Creio, no entanto, que nem a obra nem o autor desmerecem por despertarem nos seus leitores algumas reflexões que íntimamente os preocupam.

Afinal, será este o melhor modo de os compreender e de os estimar, reconhecendo que «A Filsofia Criacionista da Morte» é uma das obras mais importantes que, nos últimos tempos, se tem publicado entre nós no domínio da filosofia.

Por isso subscrevo com total concordância as seguintes palavras com que Francisco da Gama Caeiro introduziu este livro: «Resta-nos, para além de brevemente apontar a fecundidade ~do tema, e a singular pertinência da meditação filosófica prosseguida por Manuel Cândido, saudar a iniciativa editorial que tornou viável a impressão do presente texto, a qual reforça e vem dar continuidade - sublinhemos o acontecimento - ao novo e pujante surto filosófico português destes finais do nosso século».