Afonso Botelho

Congresso Anteriano Internacional Outubro 1991

Separata, Ponta Delgada, 1993

«Soledade, Incompleta Saudade»

por Afonso Botelho

Independentemente de averiguar se a poesia constitui a forma mais adequada à expressão do pensamento anteriano, elejo para matéria desta reflexão os últimos vinte e um sonetos que, na edição de Oliveira Martins, são datados de 1880 a 1884. Aceito, portanto, como significativas as cartas a Guilherme Storck e a Jaime Magalhães Lima, localizando em tais poemas o essencial do seu ideário filosófico.

Com isto fica posta em causa a validade dos outros textos em prosa ou verso, confessionais ou objectivos, que compõem o acervo escrito do filósofo e poeta.

Distingo filósofo de poeta apenas porque a junção dos dois atributos num mesmo sujeito já tem uma conotação crítica que nem abona a noção de filosofia nem a de poesia.

De novo se aflora o problema da autêntica expressão filosófica ou dos géneros formais que lhe são próprios. Não partilho da tese de que a filosofia é um género literário, tão-pouco da afirmação que exclui a poesia de veículo verbal da expressão filosófica. Creio que este problema, assim colocado, está fora da sede que lhe convém porque, como escreve indignado José Marinho, «o filósofo não é um escritor» e, acrescento agora, nem a filosofia se integra em qualquer problema que a escrita possa suscitar.

Na palavra, em sua origem misteriosa, estará porventura a oportunidade da verdadeira interrogação acerca do que é comunicar filosóficamente, pelo que nunca esta interrogação se satisfará se questionarmos apenas os géneros literários ou qualquer outra forma de expressão verbal. Tenhamos presente que a filosofia é um modo de pensar antes de ser uma forma de falar ou de escrever e nesse primeiro momento instaurador se define o que realmente a especifica.

Entendido assim o verbo da filosofia, torna-se aceitável que Antero tenha reconhecido nos referidos poemas a síntese teórica do seu sistema de pensamento e ainda lhes tivesse atribuído uma ordem finalista, colocando deliberadamente em seu termo, como sustenta António Quadros, um remate tão unitivo e pacificante, tal qual é o soneto «Na Mão de Deus».

Seria pelo menos interessante analisar este todo poético, isolando os conceitos fundamentais, justificando a sua unidade pelos princípios lógicos e metafísicos que nele se afirmam. Mas essa não é tarefa que caiba nos limites de uma comunicação, por natureza, mais sugestiva do que demonstrativa.

A proposta que me é lícito fazer decorre da impressão que sempre me causou não encontrar explicitado nos textos filosóficos de Antero o tema da saudade, nem sequer delimitada a palavra por sentido diferente daquele que a liga à instância simplesmente reprodutiva da recordação. Pelo menos assim a emprega o filósofo em «O Futuro da Música» e, se não caio em omissão, em mais nenhum outro passo.

Contudo, na síntese poética, nem o vocábulo aparece. Apenas, e logo no primeiro soneto, «Transcendentalismo», Antero invoca a Soledade, o que nos levanta a suspeita de que, nesta viagem do Espírito, a versão castelhana foi escolhida como ponto de partida contrastante com aquele sentido saudoso da nossa espontânea sensibilidade.

Com a involuntária lucidez dos poetas ou para que não subsistam dúvidas, o filósofo associa a palavra a duas outras, que no contexto se equivalem, cujo significado a vêm definir agravando-se o conteúdo de extrema solidão. Com efeito, próxima à imagem de deserto, a soledade encontra o seu lugar negativo, ou seja, e na linguagem aristotélica, a ausência daquela qualidade do corpo que o referencia com as coisas e as pessoas.

Mesmo assim, poderíamos ainda oferecer a esta palavra deserto analogia com ermo, vocábulo frequente na poesia cortês.

No contexto da nossa primeira poesia lírica, o sítio ermado serve únicamente como enquadramento espacial, quando muito cósmico, enquanto que a ausência da pessoa amada ou amiga representa o sentimento substancial da relação, desde a sua raiz mais íntima e profunda.

Portanto, em nenhum dos três géneros de canções medievais deixámos perder esse liame saudoso que subordina e tempera a separação decisiva e metafísica, a que a imagem do deserto nos induz.

Não obstante o emprego do termo soledade no lirismo medieval ou, no nosso tempo, o seu uso metafórico pelo próprio Teixeira de Pascoaes, fundador do Saudosismo, nunca a palavra perturbou o significada da nossa Saudade, pese embora a equivalência que Carolina Michaelis concede aos conceitos dos dois vocábulos, castelhano e português.

Vácuo é a outra palavra com que Antero intensifica o sentido de Soledade, compondo o último terceto do seguinte modo: «Na esfera do invisível, do intangível, /Sobre desertos, vácuo, Soledade, /Voa e paira o espírito impassível.»

Nem sempre os termos utilizados pelo poeta mantêm o mesmo conteúdo representativo. O pensamento antinómico e evolutivo do nosso filósofo facilita a alteração conceptual das palavras muito usadas que nos vinte e um sonetos finais mais se repetem e mais modificam o significado originário. Deste ponto de vista, a noção de vácuo serve mesmo de chave à interpretação daquela síntese não só porque percorre o desenvolvimento lógico dos poemas mas também porque acusa as cambiantes conceptuais que lhe são necessárias.

Não difere aquela palavra de vazio, esta sim comummente utilizada tanto na imagética filosófica como na poesia.

Alguma intenção específica levou portanto o poeta a preferir vácuo a vazio quando para tal não são patentes exigências de rima ou de métrica. Os princípios fundamentais do seu sistema de pensamento também não o condicionariam a optar por aquela noção filosóficamente estimada pelos Gregos que requeriam a ideia de espaço absoluto. A preferência emerge, quanto se pode supôr, da imagem do vácuo relativo que a Física propõe. Efectivamente parece não ter bastado a Antero uma noção estática de vazio. A potencialidade voluntariosa manifestada na representação mental emprestou-lhe a força expressiva da imagem de rarefacção, identificando-se com este processo mecânico.

Se esterilizar o vazio aparenta ser a sua mais imediata intenção, vemos no decurso de seis poemas que o vácuo também provoca, mesmo que indirectamente, uma certa dinâmica finalista. Assim, no soneto «Evolução», segundo da série, o poeta aspira à liberdade, depois de estender «as mãos no vácuo». Como se tivessem a energia de um gesto litúrgico, as mãos no vácuo impulsionam à aspiração da liberdade.

Logo no soneto seguinte, primeiro do «Elogio da Morte», a imagem afasta-se do movimento libertador embora ganhe em dignidade ao passar a nominar-se «nocturno, mudo e augusto»; como o próprio Inconsciente, passa também ele a ser esfíngico e enigmático.

Se a Soledade continuasse a acompanhar esta repetida viagem em crescente qualificação até que ponto dela usufruiria? Pouco mais do que nada porque toda a adjectivação é exterior, pertence mais ao ponto de vista do poeta, à valorização que dele faz, do que à sua intrínseca natureza. Efectivamente, o interior do vácuo persiste invisível e inaudível, sobretudo impredicável. Do mesmo modo, a Soledade confirma a solidão que o radical solus desde o início nos sugere.

Porém, a predicamentação chegará, o vácuo terá a sua oportunidade ontológica, no oitavo soneto, último do «Elogio da Morte», que ali assume. por fim, o Não-ser. Rasga-se então o véu da imagem e o vácuo recolhe-se à sua forma aparente: «Para os mais és um vácuo cinerário». A «Noite sem fim, espaço solitário» esconde-se na forma exterior do vácuo e só se revela aos que não se assustam com o Não-ser.

Feita a destrinça entre a imagem e a ideia, deu-nos Antero o primeiro termo metafísico da sua viagem espiritual - o Não-ser - que é, sem dúvida, a afirmação que traz consigo a dissolução da esperança imagética.

É essa esperança, contida na imagem, que a noção de Nada jamais recusa, tanto à lembrança de origem como à expectativa de movimento. Nesse comportamento do Nada com a imagem se reafirma a sua possibilidade criadora, do meu ponto de vista necessáriamente considerada em todos os sistemas criacionistas, desde o pensamento tradicional cristão às teorias filosóficas que como tal se definem, no caso português, ao criacionismo defendido por Leonardo Coimbra.

Aliás, é este filósofo que numa das suas melhores obras, «O Pensamento Filosófico de Antero», esclarece as correspondências imagéticas dos três absurdos do pensamento anteriano: o puro plural, correspondente ao caos, a pura unidade, correspondente ao vazio, o puro abstracto, correspondente à ausência do Amor.

Evidente se nos afigura que, das três imagens, a que domina é a de vazio, e efectivamente tal domínio verifica-se no decurso do sistema teórico de Antero mesmo quando este pensador contempla o pleno ser, porque qualquer dos dois momentos ou termos da dialéctica do pleno e do vazio tem neste último seu princípio energético. O nosso filósofo é, quanto penso e por isso mesmo, o praticante evidente daquela dialéctica, levando ao absurdo a tensão dicotómica que os Gregos ainda reduziam no pensamento englobante do ser enquanto ser.

Antero não contemporiza nem soluciona, leva até ao fim a premissa do Não-ser; através do sonho e da adoração identifica-o com o Ser único e absoluto.

Esta contradição nos termos é, no fundo, o lógico resultado de um percurso que vai do vazio, ou mesmo do vácuo, ao ser único e uno, e não, como no destino criacionista, do Nada ao Absoluto. Em tais circunstâncias, a ambivalência do pensador coloca-nos naquela situação que José Marinho muito justamente pondera: «Tudo quanto, afinal, ante nós perdura é o que nos aparece vazio de ser e de consciência, como se o Nada a cada instante fosse o princípio e regressivo fim para toda a ilusão de ser».

O Nada assim interpretado, como conducente à ilusão de ser, isola a Soledade na ilha da solidão metafísica.

Por mais solitário que tivesse sido o nosso primeiro modo da saudade, por menor que fosse a presença do humano na nossa lírica medieval, o realismo que sempre nos caracterizou havia de salvaguardar esse «princípio» ou «regressivo fim» que aporta à terra firme de uma entidade concreta e que tanto é garantia como condição do essencial sentimento saudoso.

Mesmo a saudade dos nossos místicos, sobretudo de frei Agostinho da Cruz, se liberta daquela abstracção que, por outra via, a ciência e certa filosofia desorbitada utilizam. Na contemplação do ser mais puro e necessário, a consciência saudosa encontra sempre o caminho do ser pessoal. Quando o monge da Arrábida exclama: «Ah, saudade minha, luz divina!» entenda-se que esta luz não se apresenta difusa e impessoal mas é tão concretamente possuída como possessiva é a forma de invocar a própria saudade.

São aliás essas duas características, a exigência do fim regressivo e a necessidade da presença pessoal, que tornam completo o projecto deste sentimento essencialmente português.

A via do pensamento de Antero, que oscila entre o vazio originário e a adesão última ao pleno ser, anula qualquer das condições que tornam possível a realização da saudade. De acordo com este desenvolvimento racional, com efeito, nem o movimento regressivo da memória à origem (a lembrança), nem a necessidade de uma presença concreta que humanize o desejo, têm a menor viabilidade.

Assim se compreende que a Soledade seja apenas a expressão exacta do desejo, que não vai além de um movimento preso e incompleto, com frequência perpassando pela poesia e pela prosa anteriana mesmo quando não expresso.

A Soledade é certamente esse desejo intenso que o poeta coloca no primeiro dos vinte e um sonetos, antes mesmo de a referir, numa ordem que corresponde à da formação do conceito, inversa à da evolução semântica da palavra desiderium, como observa Dias de Magalhães.

Efectivamente a formação dessa ideia de Soledade parte da fonte interior da energia do ser através do impulso que denominamos desejo e abre-se ao infinito na procura da sua complementaridade.

Mas até que ponto tal procura não é um intento vão? O infinito que o pensamento de Antero persegue, mais que o indefinido que Sampaio Bruno distingue do infinito metafísico, é a própria impossibilidade teórica decorrente da antinomia insuperável entre absoluto e realidade.

A Soledade aparece, portanto, como tributo dessa impossibilidade que o absoluto abstracto tem de interferir no concreto e de dar ao desejo saudoso o complemento de que carece. A Soledade anteriana constitui assim, mais do que um sentimento bem definido e perfeito, uma saudade incompleta, uma noção que na sua forma terminal se torna aspiração aberta ao sensível.

Dos vários sentidos que na prosa filosófica o infinito denuncia, o que mais autênticamente se exprime é o sentimento do infinito porque liberta Antero do dilema entre a existência real e a necessidade do absoluto, dilema que, como deduz Ana Maria Moog, o levou à total desesperança, enquanto que, na poesia, ecoavam os apelos ao Deus transcendente.

A Soledade, ou o sentimento do infinito, é um desses apelos ao Deus inominado, um apelo que através do último soneto quase se define:«Na mão de Deus, na sua mão direita».