Afonso Botelho

Excerto de «A Situação Cultural do Escritor»

Teoremas de Teatro, Lisboa, 1967

«Cisão Extrema»

por Afonso Botelho

Assim como consideramos enigmática a situação da nossa cultura, por não revelar influência dos grandes pensadores nossos contemporâneos, estranhamos agora que as grandes obras epocais se subsumam numa semi-obscuridade, ausentes dos programas universitários e da actualização que à crítica e ao ensaísmo crítico compete iniludivelmente fazer.

As obras de Pessoa já ganharam a confiança das escolas médias e superiores, em consequência, note-se bem, das razões exteriores que a «Mensagem» concitou. Mas as obras de Pascoaes e de Leonardo Coimbra? O «Verbo Escuro» e «A Alegria, a Dor e a Graça»? - duas obras fundamentais para a compreensão do nosso saber pagão e cristão, saudosístico e sebástico, e para o conhecimento concomitante dos nossos erros. Vivem à margem da lei, expulsas dos cursos universitários e propositadamente esquecidas pela publicidade cultural.

O partidarismo não repudia apenas estes autores nem as obras afins da geração de Leonardo e Pascoaes, alheia-se de uma certa linha de pensamento que se aprofunda ou se eleva além das demarcações do realismo positivista e seus sucedâneos.

Como antes referi, publicou-se há quatro anos um livro de José Marinho que reputo indispensável ao filósofo e ao crítico ibéricos, por significar a reflexão filosófica do nosso saber teórico contemporâneo. Escrito, porém, em linguagem de realidade e não de realismo, mantém-se oculto do movimento interpretativo que faz circular uma obra, tornando-a oportuna e acessível à vocação do jovem e à informação do especialista. Seguirá, portanto, a carreira das obras destinadas ao esquecimento, o que neste caso é também de lamentar por atravessar a cultura uma fase de extrema carência na progénie da especulação.

Ora a «Teoria do Ser e da Verdade» é, segundo creio, a obra de mais oportuna fecundidade reflexiva que o saber cristão entre nós contemporâneamente produziu. Ampliando «A Alegria, a Dor e a Graça», no sentido da especulação, restringe-se no apelo humano e corpóreo que todos os escritos de Leonardo possuem em altíssimo grau. A Teoria é mesmo um livro perigosamente descarnado, conduzido por uma obcecação especulativa dos temas e do ritmo do pensamento - um e outro equivalentes, no entanto, aos daquela obra fundamental de Leonardo Coimbra.

Com efeito, à Alegria corresponde a Visão Unívoca, à Dor a Cisão, e à Graça o Insubstancial Substante. E ritmo de pensamento, que tanto preocupa José Marinho, quem sabe se por sedução do barroquismo poético do seu Mestre, apesar de parecer divergente, mais os aproxima, não obstante um usar a métrica larga da poesia de Junqueiro e de Pascoaes, e o mais novo usufruir já das formas mentais que Pessoa criou.

O ritmo ternário que o Cristianismo imprime ao pensamento mais heterodoxo, movimenta as duas obras citadas. A «Teoria do Ser e da Verdade», antípoda de qualquer forma de ortodoxia, resolve-se na interferência de vários estádios intermediários, mas, na sua pura essencialidade, espelha-se no movimento da Santíssima Trindade e de um modo mais redemptorista do que a obra de Leonardo, onde o último termo se abre em «pathos» demasiado anímico. A «Teoria», pelo contrário, procura infinitamente o Espírito, recorrendo da Paixão pela Cisão Extrema, o que significa, mesmo que involuntáriamente, a aceitação teórica da doutrina prática do perdão 1.

Algumas vezes lamentei que faltasse a este livro exemplar, embora excessivamente secreto e demasiado alheio às exigências dialécticas do nosso pensar actual, uma reflexão sobre o Amor compatível com a importância que deveria ter no sistema de pensamento do seu autor. Hoje compreendo que esse Amor maior não caberia nos limites dum capítulo, mas deve antes pressentir-se inspirador de toda a obra, como aliás se observa no prefácio.

Limitado, num capítulo, estudou José Marinho o amor não ritmado da verdade, que, indo de extremo a extremo, tanto aceita a «visão unívoca infantil» como se ancilosa na cisão e repele «todo o sentido da visão unívoca e do ser na visão» 2.

Cisão ilusória é esta a que se refere a «Teoria do Ser e da Verdade» e que nós constantemente praticamos pela tendência mais característica do nosso pensar, que é o de tornar absoluto aquilo que apenas caminha para ele.

Em obra da adolescência já havia apreendido este ritmo do pensar português, mas valorizando esse regresso pela «decepção» (cisão) no movimento mestre-discípulo. Não me apercebi, porém, de que só o pensamento de alguns portugueses reflecte aquele movimento de regresso ou de recurso que Pascoaes teorizou na Saudade 3 

O pensar absolutiza a «decepção» e pragmatiza-a nesta quietação desesperante em que estamos e em que nos pensamos, como se a corporizássemos a partir duma primeira instância da existência.

Se aprofundarmos essa cisão extrema a que parece termos chegado, concluiremos que é uma cisão que não se conhece como tal e que, portanto, não é tal.

Não sendo a cisão reconhecida pelo pensamento, é antes a consequência dum acto voluntário sem horizonte espiritual; participa duma absolutização abstracta e provoca a contracção da subjectividade e a falsa objectividade que nos define nos movimentos de cultura intervalar.

Assim, se não podemos, com justiça, considerarmo-nos uma raça abúlica nem desinteressada da perfeição comum, tudo ocorre como se fechássemos os acessos à participação nos destinos da livre comunhão dos homens.

Por isso somos um povo de alegria frustre, lamentoso e triste.

«Só. Ai do Lusíada, coitado!», como exprimia o tão português António Nobre.

O desejo de criar e produzir acicata a nossa subjectividade, mas sem oalimento de um princípio de verdadeira imanência, nem o estímulo de uma imagem significativa, cedemos o desejo à vontade, vontade por si agónica e inconsequente.

Sempre que tentamos transcender a cisão, fazêmo-lo por um acto da vontade arbitrária, apenas sugerido pelo desejo, logo abandonado pela imaginação. Ora, um puro acto de vontade é insignificativo, nada tem que ver com o decidir mais fundo e total que a cisão extrema aponta.

Quando agimos, segundo a situação da colectividade, ou, como indivíduos, participantes da sua subjectividade abstracta, não conseguimos vencer o vazio que circunda o eu singular, e, ou pelo conhecimento desse vazio nos contraímos, ou, se passamos do pensamento à prática, lógicamente vemos frustradas as mais sinceras e convictas tentativas.

... (...)...

Absolutização de algo que não comporta o absoluto é o fantasma que surge aos que reflectem sobre os actuais caminhos da nossa inteligência.

Citámos José Marinho, podemos referir novamente Orlando Vitorino, que, num dos seus últimos ensaios, observa a absolutização da liberdade, oposta à sua expressão moral, e Brás Teixeira, que, em artigo publicado na mesma altura, encontra na nossa ânsia desmedida de absoluto a causa da obsessão dramática da «realidade brutal e agressiva do mal nos homens e no mundo» 4.

Orlando Vitorino parte do pressuposto que essa tendência para o absoluto é excrescência cultural, ao passo que Brás Teixeira a toma como qualidade de ser português, consequente nos nossos sucessos e nos nossos fracassos.

Do que escrevi até agora sobre o tema se depreende que nem relaciono meramente  esta inclinação da cultura com o circunstancial, nem tão-pouco a radico na qualidade de ser português.

De uma e de outra participa igualmente a noção de estado, a qual comporta, em meu entender, a absolutização da subjectividade na cisão, com todas as consequências a que aludimos.

A nossa linguagem comum, todavia, empobrece muito esta noção de estado, que tem na língua portuguesa tão raros significados filosóficos, discriminando o verbo ser em acepções que que, de modo bem patente e sensível, faltam à língua francesa.

Usamos, por exemplo, a palavra estado num sentido jurídico, como situação de casado ou solteiro, relacionando-a, portanto, com uma ideia de tempo absoluto e de uniformidade substancial, que é o contrário da sua expressão filosófica, pois esta distingue precisamente no verbo ser a mobilidade ôntica, a capacidade de emergir de si-próprio como outro, de relacionar o singular com o plural.

O que acontece por vezes ao nosso modo de ser é rejeitarmos essa mobilidade do estado, para o transformar no hábito, que é sempre uma tentativa de voltar à fixidez do ser.

Ora o estado habitual dos Portugueses corresponde, neste momento, a uma compulsão da cultura na aceitação de certos valores e ideias. Destas, a que mais nos afecta é a ideia de tempo, que, não só na criação artística, mas também no exercício comum dos sentimentos, opera como categoria tendencialmente absoluta quando o sujeito da acção pressente a morte, o sofrimento ou o amor.

Nestes casos, que delimitam a acção dramática da existência, dá-se como que uma contracção da subjectividade que amplia os acontecimentos ou situações futuras no seu significado e grandeza, de tal modo que passam a representar motivos de salvação ou de perdição, tal como os actos religiosos.

Esta contracção da subjectividade transforma o tempo, categoria acidental, no tempo não categorial, porque absoluto, o que, no plano lógico, corresponde ao absurdo.

Notas:

1 - Obra citada, pag.83

2 - Obra citada, pag.72

3 - «O Modo de Pensar Português e a Cultura Internacional»

4 - Orlando Vitorino, prefácio do «Ensaio sobre a Liberdade» de Stuart Mill e António Brás Teixeira, artigo na revista «Espiral», nº 1.