Cisão Extrema

Excerto de «A Situação Cultural do Escritor»

Assim como consideramos enigmática a situação da nossa cultura, por não revelar influência dos grandes pensadores nossos contemporâneos, estranhamos agora que as grandes obras epocais se subsumam numa semi-obscuridade, ausentes dos programas universitários e da actualização que à crítica e ao ensaísmo crítico compete iniludivelmente fazer.

As obras de Pessoa já ganharam a confiança das escolas médias e superiores, em consequência, note-se bem, das razões exteriores que a «Mensagem» concitou. Mas as obras de Pascoaes e de Leonardo Coimbra? O «Verbo Escuro» e «A Alegria, a Dor e a Graça»?




Soledade, Incompleta Saudade

Comunicação ao Congresso Anteriano, Ponta Delgada, 1991

Independentemente de averiguar se a poesia constitui a forma mais adequada à expressão do pensamento anteriano, elejo para matéria desta reflexão os últimos vinte e um sonetos que, na edição de Oliveira Martins, são datados de 1880 a 1884. Aceito, portanto, como significativas as cartas a Guilherme Storck e a Jaime Magalhães Lima, localizando em tais poemas o essencial do seu ideário filosófico.

Com isto fica posta em causa a validade dos outros textos em prosa ou verso, confessionais ou objectivos, que compõem o acervo escrito do filósofo e poeta.




Morte essencial e morte existencial

em Leonardo Coimbra

Algumas notas pessoais e inéditas de José Marinho, feitas à margem da conferência de Leonardo sobre a morte, sugerem que vários passos desta reflexão denotam já a génese de «A Alegria a Dor e a Graça», que ele havia de publicar apenas três anos depois.

Marinho considerava que este último livro, mais do que a obra programática, «O Criacionismo», contém a essência, os princípios e o ritmo do pensamento do seu mestre. Por isso nos estimulava frequentemente a aprofundar a leitura do texto, que não tinha até então a necessária hermenêutica.

 



O espírito crítico

A forma crítica do pensamento, prolegómeno da ciência e do saber actuais, exprime bem a situação do sujeito do conhecimento que, ou já possui a verdade que aos outros nega, ou a refuta como imprópria de qualquer sujeito, porque só como objecto a deseja. (...)

O espírito crítico, tal qual o valorizámos, parece assumir uma importância que em si mesmo não tem, dado que, tanto pela restrita amplitude do seu sentido, como pela debilidade dos princípios, tende a confinar-se à atitude de um só pensador, envolvido pela sua circunstância.

 



O Modo de Pensar Português e a Cultura Internacional

Separata do Congresso

O modo de pensar dum povo não se pode senão sugerir. É necessário ser sujeito passivo desse mesmo pensamento para possuir todos os segredos da sua comunicabilidade, e então pertence-se anímicamente a ele.

Mais isolado está o pensamento dum povo que ao pensar actua, isto é, actualiza as potencialidades não só racionais, mas sobretudo sentimentais e anímicas. O modo de pensar do povo português é exemplo extremo desta afirmação.

O pensamento português é um pensamento inefável. Os historiadores da filosofia que têm uma existência proeminente na actual situação cultural portuguesa parece não conseguirem, com o simples uso das suas categorias racionais, elaborar uma história da Filosofia Portuguesa. Este facto tem graves inconvenientes, não só para os mesmo historiadores, como para a apresentação visível desse pensamento ao mundo internacional da cultura. Também a acção das Faculdades de Filosofia se anquilosa progressivamente, pois não podem andar ao mesmo ritmo a exigência das sucessivas gerações de estudantes e a ingrata função dos leitores de documentos. Daí a ausência da Filosofia Portuguesa ser notória nos congressos internacionais e nas Universidades de Portugal.

 






Textos de Afonso Botelho

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II Colóquio Tobias Barreto, Açores

20 de Outubro de 1994

Apresentação do livro de Manuel Cândido

«A Filosofia Criacionista da Morte»

por Afonso Botelho

As gerações só se encontram na compreensão, nunca na crítica, porque a crítica, em qualquer dos seus sentidos, é sempre separar.

Aliás, a compreensão faz a diferença entre o juízo metafísico, que Leonardo Coimbra define, e o juízo crítico, que não tem por pressuposto essencial a reflexão compreensiva. É o juízo «apressado», que José Marinho tanto desvalorizava, mas que fundamenta, inconscientemente, a vida activa contemporânea e, conscientemente, a vida intelectual portuguesa.

Sofremos, na nossa comunicação de ideias, do equívoco que, a partir da geração de 70, se foi tornando predisposição habitual, de dar à crítica um carácter sistemático, por tal forma que examinamos o pensamento novo pelos critérios cognitivos do pensamento pensado.

Há, neste estado intelectual, «uma singular inversão do processo do conhecimento, que só uma filosofia do amor e da diferença poderá encontrar». Uma filosofia criacionista como a de Leonardo - acrescento eu às palavras de Manuel Cândido, que acabo de reproduzir.


Do lear, ou da Lealdade

excerto de «ABC da Lealdade»

in Rev. Cultura Portuguesa, nº2

A filosofia é coloquial. Todos os grandes filósofos escreveram ou falaram para alguém. D. Duarte fê-lo expressamente para senhores e gentes de suas casas, isto é, para os aristocratas do espírito que, regendo suas casas segundo a ética posta pelo rei em tratado, puderam, em estas e posteriores gerações, levar Portugal às Descobertas.

Em consequência, não admira que se note neste tratado de lealdade a ausência de uma concatenada sequência de noções, conceitos e princípios a definir-lhe um sistema. Dos cento e três capítulos desta obra só um aborda específicamente o tema. No entanto, do primeiro ao último, procurando mais a compreensão do género do que a da espécie, o movimento do verbo do que a passividade do substantivo, é com a lealdade, e lealmente, que D.Duarte tece a obra inteira.


A contemplação

1. A luz substancial

Admitamos que desde o século XII se equiparavam duas ideias de luz, dominando, no entanto, a que Aristóteles nos legou: a luz como forma acidental.

Todavia, com o advento da espiritualidade cisterciense e franciscana e, mais concretamente, com a sua condensação doutrinária na filosofia de S. Boaventura, a Luz, pelo contrário, é com evidência uma forma substancial, perfeccionante e, na pureza divina, absolutamente simples.

A substância readquire assim a simplicidade e a independência de um princípio e, como tal, está na origem, não só do conhecimento, mas também das formas visíveis que compõem a obra plástica. Isto é, a luz divina está presente e actua para além do intelecto humano, nas formas que apreendemos e por que as apreendemos.