OS PRIMEIROS ANOS

Nasci a 26 de Março de 1952, sem culpa nenhuma. Mas, apesar dessa presumível inocência, durante o primeiro mês de vida mal me conseguia alimentar, parecendo expiar culpas por procuração ou a crédito.

Por pouco não me abriram o estômago, para ver se a válvula, curiosamente chamada «pilorum», não estaria fechada!

Mas não! Felizmente para mim - do mal, o menos... - era só uma reacção alérgica ao leite, que alguns meses de colo e cuidados conseguiram ultrapassar.

Lembro-me, com três anos, de passear de mão dada com o meu pai no recreio da escola "Ave-Maria", ali à Rua dos Lusíadas, em Lisboa, onde estavam a terminar obras, aplicando no «recreio» a famosa «calçadinha lisboeta». Nesse recreio, nos anos seguintes, sofri reveses e glórias, conforme me corriam bem, ou mal, os jogos de "matas" que fazíamos nos intervalos. Aí, felizmente, aprendi a escrever e a contar.

Digo felizmente, porque a escola praticava, à época (não sei o que faz agora...) o método chamado «gestaltista», de inspiração germânica. Básicamente, significa que nunca soletrei! Portanto, tenho a felicidade de nunca ter sido obrigado, ou sujeito, ao triste exercício de partir a fala, e a linguagem, em peças mecânicas elementares (as sílabas), que em si mesmas nada querem dizer, e que se vão compondo, por balbuceio, umas com as outras, como quem junta parafusos num motor.

Não! No método da «gestalt» aprendemos holísticamente (como é hoje moda dizer-se), ou mais correctamente ainda, holofrásicamente. O aprendiz é colocado perante pequenas frases simples, ligadas à sua experiência próxima - o bolo é doce, a ovelhinha é branca, etc... - e «lê-se», declamando, isto é, repetindo as frases que estão escritas no «quadro» à nossa frente. Graças a esse método, tive esta feliz vivência, que recordo perfeitamente, e me faz duvidar do «associacionismo» de Locke, tanto quanto me faz alinhar com Leibniz nas ideias inatas - num momento, não lia nem percebia nada; de um momento para o outro, comecei a ler tudo.

Foi, de facto, um despertar (ou um activar, como também diz Leibniz)!Não foi, garanto, o produto da mecânica e habitual associação de signos simples que criaram outros mais complexos...

Outra coisa que me aconteceu da qual julgo não ter culpa, (embora possa ter alguma responsabilidade, se é certo que se escolhe o nascimento) foi ter nascido de pai filósofo. Afonso Botelho, assim se chamava o senhor meu Pai, foi filósofo e escritor, um dos participantes da tertúlia da «Filosofia Portuguesa». Por isso, falar de Filosofia, em minha casa, era normal e, para mim, essa familiaridade já existia desde tenra idade. Foi por isso que, aos dez anos, no exame da Quarta Classe (um exame nacional, que daria acesso ao Secundário) involuntariamente deixei boquiabertos os meus examinadores, no exame Oral. De facto, quando me pediram que dissesse o nome dos planetas do sistema Solar, eu comecei a debitar a lenga-lenga, mas enganei-me e disse no final... Saturno, Urano, Neptuno e Platão! Os dois Professores que me examinavam entreolharam-se, divertidos com o que julgavam ser um lapso que gerara uma coincidência engraçada, e um deles repetiu, em tom algo mordaz: "Platão"? Peço desculpa- respondi de imediato, corando - Plutão! E depois acrescentei, para compensar e justificar o engano, com toda a naturalidade "Platão era um filósofo"...
Esta saída valeu-me um «muito bem!» imediato dos dois professores, que se entreolharam novamente, mas agora com espanto e não gozo, e deram por concluído o meu exame com nota máxima.

DENTRO E FORA DE CASA

A nossa casa vinham conversar com o meu Pai não só alguns dos filósofos da Filosofia Portuguesa, como outras figuras da Cultura. Parece que cheguei a estar ao colo do Teixeira de Pascoaes, que me achou uma criança patusca. Francamente, disso não me lembro; eu tinha nascido em Março, isto foi talvez em Novembro, na última vez que o Poeta desceu a Lisboa, antes de morrer. Nessa viagem cumpria, afinal, o seu mais famosos verso: «Na folha que tombava,/ A Alma que subia.

Em caligrafia redonda e compassada - é má-educação escrever com uma letra que os outros não conseguem ler facilmente - em três folhas manuscritas deixou Álvaro Ribeiro, por mais de trinta anos, numa gaveta lá de casa, um breve testemunho do seu nobre carácter, espelhado nessa caligrafia leal para o leitor, não a caligrafia críptica dos presunçosos que julgam ter algo de valor a esconder dos outros, e escrevem de maneira ilegível...

Nessa caligrafia, e no texto que escreveu a convite do meu Pai, para ser lido na festa dos Reis Magos, deixou, a "tinta permanente" azul o que nunca mais esqueci sobre a tradição daquela Festa e do simbólico e generoso Bolo Rei.

Foi com algum espanto e bastante desencanto que, já rapazinho, comecei a perceber que, fora de casa, o ambiente parecia muito diferente - provinciano, desconfiado, até tacanho. O Salazarismo já tinha entrado na sua curva descendente, e como não havia ideias novas ou estratégias convincentes, manter o Império parecia aquela fatalidade sem alternativa nem viabilidade, que esgotava todos os objectivos. Tudo parecia organizado, naquele regime, para tentar parar o tempo ou, pelo menos, fazê-lo andar devagar. Tendo em conta o que eram «os anos sessenta» por esse mundo fora, a tarefa era hercúlea.

O mercado cultural Português era, nessa época, pobre e fechado; não havia ainda escritores profissionais a tempo inteiro! Por isso, passei por uma desagradável humilhação, quando, no Arquivo de Identificação de Lisboa, ao tirar o meu primeiro Bilhete de Identidade, o funcionário que me chamou para me medir a altura e tirar a impressão digital, mostrou ao colega o meu formulário, para se rir com ele da profissão que o meu Pasi indicara: Escritor. Ah, ah, ah, olha este diz que é escritor...

Este provincianismo cultural foi-se agravando na razão inversa da velocidade com que «tudo estava a mexer»; e a mexer, sobretudo, para a geração dos jovens que, como nunca antes, tinha ganho uma voz autónoma, uma presença e um poder comunicacional único, que acontecia pela primeira vez na História.

Infelizmente, essa ventania que varreu os anos 60 apenas acirrou um impotente autoritarismo que, em vão, tentava evitar a mudança dos tempos (e das vontades). Um dia, sentado num banco do jardim da Parada, em Campo de Ourique, com dezassete anos, beijei a minha namorada, com quem casei três anos depois. E de repente, sinto que me tocam num braço, e vejo um polícia que me interpela com ar sério:«essas coisas fazem-se em casa!»... Estávamos no ano de 1969!!! Enquanto no Jardim da Parada tudo continuava parado, em França já se tinha feito o Maio de 68. Como estranhar a queda deste carcomido edifício, cinco anos depois?


A IDADE DO CORPO

Foi do Orlando Vitorino que li esta expressão, para referir a adolescência.

A idade do corpo, sem dúvida. O crescimento, na adolescência, é tão avassalador que dificilmente podemos deixar de prestar permanente atenção ao corpo. O desejo sexual irrompe sem avisar e torna-se cada vez mais perturbador. É a idade em que se aguentam, e se desejam, todos os excessos... As minhas leituras filosóficas, naquela idade, foram talvez excessivas, percebo-o agora, pela simples razão que me faltava a maturidade para arcar com os pressupostos vivenciais da Filosofia. Não digo que essa maturidade dependa, necessáriamente, dos ditames do calendário; haverá excepções, pois o génio caracteriza-se por ser apto a sobrepor-se a quaisquer condicionantes... Só que eu, naquela idade, ainda não era genial.

Apesar da minha precoce erudição filosófica, na adolescência, ao acompanhar as conversas de tertúlia com os amigos do meu Pai, via-me, por vezes, em colapso, incapaz de acompanhar realmente muito do que se passava à minha volta; um dia, o José Marinho, perante os meus sinais de perplexidade, angústia e impaciência, murmurou com simpatia; "Pois, a Filosofia é um pouco velhaca, não é?" . Hoje... como o percebo!!!

OS CAVALEIROS DO AMOR

Houve um livro que me impressionou, apesar da sua aparente modéstia (era um inédito, , pouco extenso, um projecto de livro publicado postumamente). Refiro-me à obra de Sampaio Bruno "Os Cavaleiros do Amor". Editado na colecção de Filosofia e Ensaios da Guimarães Editora, uma prestigiada colecção dedicada a temas filosóficos, e que tanto se identificava com os autores do escola da Filosofia Portuguesa - por exemplo, aí publicou José Marinho o seu tão esperado título "Teoria do Ser e da Verdade". Os livros da colecção eram capeados a um característico verde seco que me permitia distingui-los em qualquer estante de qualquer Livraria ou Biblioteca; onde os meus olhos pousassem, se lá estivessem, eu descobria-os. A colecção acabou por incluir um livro onde foi impresso pela primeira vez o meu nome, dado que fui o autor da tradução dessa obra, "O Homem e a Técnica", de Oswald Spengler, prefaciado pelo meu amigo Luís Furtado.

Ora «Os Cavaleiros do Amor» chamaram-me a atenção pelo título, que atraiu de imediato um jovem sempre imbuído das esperanças amorosas dos verdes anos. Pensava eu, nessa época de grandes expectativas e ávidas leituras, que talvez aí fosse encontrar algum conhecimento mais maduro sobre o Amor, que me permitisse ordenar e disciplinar, no céu do Ideal, a perturbação das emoções e os sonhos agitados pela sedução do Belo Sexo.

Redondo engano!

Os Cavaleiros do Amor" nada tinham a ver com o que eu, ansiosamente, procurava.

O que eu teria querido encontrar seria algo mais no género de uma Metafísica do Sexo, do Évola, ou até algo mais exótico e arriscado, longínquo e transmutante, o Sexo Tântrico do Osho!!! Mas, a esse tipo de saberes ou dizeres só pude vir a ter acesso mais tarde, depois da Revolução de Abril e da Revolução da Informática, porque essas duas revoluções é que me abriram as portas e os caminhos para toda a informação cultural, mesmo a mais extravagante.

Estava eu, então, algo desiludido, a ler as primeiras páginas dos "Cavaleiros do Amor" quando, por acaso, calhou comentar com o meu Pai que, afinal, ainda não encontrara referências ao Amor que justificassem o título do Livro... No meu tom de voz, notava-se uma surda recriminação ao autor, pois esse título induzira-me no erro de querer lê-lo... Como o meu Pai tinha esse e quase todos os outros títulos da colecção, na sua biblioteca, eu já me interrogava se não seria melhor escolher outras leituras.

O meu Pai riu-se. Percebeu perfeitamente o que significava o meu tom de voz."Insista, insista. Talvez o título seja um anagrama", respondeu-me com ar divertido e algo misterioso.

Ahhh... filosofia velhaca, sem dúvida (pensei eu)... então agora até os títulos dos livros filosóficos podem ser anagramas que um jovem inexperiente não tem maneira de decifrar, limitado, como está, pela sua ignorante cegueira?

Anagrama, anagrama, deixa cá ver no dicionário; sim, já percebi.... Tenho de trocar letras e obter um novo significado...

Acicatado por este enigma, avanço na leitura do livro, e nele vejo então desenrolar-se a extraordinária erudição de Sampaio Bruno; mas não uma erudição pomposa, excessiva ou arrogante, tão pretensiosa quanto inútil - não, era antes a erudição de um febril e incansável inquiridor, que abria uma profusão imensa de caminhos e oportunidades para conjecturar o sentido dos factos históricos, ou a justeza dos valores, ou a heroicidade dos gestos. Enquanto lia o livro, várias vezes caí numa telepática sonolência em que me via a medir, ou percorrer, a vastidão da mente do livre-pensador Sampaio Bruno, uma mente onde pareciam caber todos os livros e todos os juízos, mesmos que perdidos na mais remota das bibliotecas ou na mais obtusa das referências bibliográficas, e que Bruno descobria e recolhia, com o faro e a persistência do mais fiel e competente cão de caça.

E tanto no palmilhar desses caminhos de caça como, depois, já no remanso meditativo dessa catedral do saber que era a sua inteligência, o espírito de Sampaio Bruno movia-se e caminhava com ligeireza, sem se deixar prender aqui ou ali, sempre em direcção à tese da liberdade do espírito humano. Fosse onde fosse que a verdade estivesse oculta, distorcida, esquecida, alguém seria movido pela liberdade de a encontrar, decifrar, dizer ou criar.

"Os Cavaleiros do Amor" eram então, afinal, os Amantes da Verdade. E a sua aventura era escapar à mão pesada, dogmática, fanática mesmo, que manipulava o poder da Inquisição, em suma, o poder de Roma.

Subitamente, apercebi-me que não havia só um anagrama para decifrar, mas também uma metáfora.

O anagrama: (d)o Amor, são os Cavaleiros perseguidos pelo fanatismo papista de Roma  (R O M A - A M O R).

A metáfora: a Cavalaria, que é essa aristocracia altruista, de que falou muito antes, na "Arte de Bem Cavalgar" o nosso el-rei-filósofo D.Duarte. Essa estirpe é a única que se estriba no Amor à Verdade, é a única que pode guardar o Cálix do Graal, o Verbo que afirma a equivalência da Verdade ao Amor;.

Desapareceu o Graal, que estava sob custódia de nobres Cavaleiros também eles desaparecidos, esfumando-se gradualmente num tempo em que, passo a passo, se vai impondo a equivalência da Verdade.... ao PODER.

Foi importante aquele livro, ao fim e ao cabo, para me ajudar a perceber que quem não ama a Verdade, não ama verdadeiramente ninguém.

A vida, mais tarde, se encarregou de me confirmar que quem aspira ao poder, renega o amor.