Entre a aporia e
a antinomia

(...sobre José Marinho
e
Emanuel Kant)

No limiar dos mistérios, o pensamento arquitecta-se como uma «capela imperfeita». Nem palavras, nem números bastam. Não obstante, o homem de saber visiona a intuição genesíaca e procura mostrá-la aos outros de forma compreensiva, simpática e inteligente.

Francisco Moraes Sarmento, "O sistema da Filosofia Portuguesa como Religião da Razão", in Leonardo, Revista de Filosofia Portuguesa.


Durante semanas a esmo, durante meses a eito, durante anos a fio, sentou-se Marinho ao lado de Álvaro e, afinal... nunca lá esteve.

Porque o seu filosofar é um filosofar sem filosofia; e para Álvaro, não há filosofar se não ficar dita a filosofia. E só a magna presença da Amizade mantém juntos dois Homens que sustentavam dois Universos distintos, nem sequer tangentes e, no entanto, tão próximos.

È que o arco-íris, agora, está a ver-se daqui, da cadeira em que se senta Marinho! E vendo-se bem no ar, não se vê bem onde assenta; e logo que Marinho se vê vendo o arco-íris, este desaparece! Deixa, porém, e apesar de já ausente, leve crepitar da sua presença nas cores que ainda brilham, por um momento breve, na inércia da retina.

Mas eis que, agora, é da cadeira de Álvaro que o ângulo certo se forma, e dá-se a refracção da luz, da luz que atravessa a chuva que cai e faz aparecer, sem cair, o arco-íris.

E se Marinho diz; “desapareceu!”, e fala verdade, diz Álvaro, não menos verdadeiro : “apareceu!”.

Querer que algum deles pudesse ter pretendido sentenciar, em definitiva concomitância, que o arco-íris é, é a mera melancolia dos aspirantes que não sendo, ainda, ou nunca, querem ser, por uma vez, ou sempre, testemunhas do resplandecer da refracção da luz.

Marinho, ciente de que não há testemunhas voluntárias ou voluntariosas do arco-íris que cada um vê, totalmente ciente dessa incomunicabilidade paradoxalmente comum, mantém a afirmação dessa possibilidade impossível, numa aporética incansável mas fatigante que obriga o acompanhante, leitor ou ouvinte, a superar o cansaço e a náusea que magoam o suficiente para fazer desistir os ainda néscios.

Já Emanuel Kant, esse, pretendeu afastar os néscios do presumido mas impossível conhecimento mostrando o quão ridículo são tais testemunhos que se julgam capazes de certificar a presença de um arco-íris. Em vez da aporia, porém, julgou Kant preferível, por mais definitivo, optar pela antinomia.

E brama então o filósofo, na sua intenção decisiva:

- Uns dizem: “desapareceu!”, outros dizem “apareceu”! Logo, é impossível - conclui lesto e retumbante o Germano - decidir qual deles está dizendo a verdade! E se ambos estão afirmando conhecer o mesmo – um dizendo que está, outro que não está –impõe-se que concluamos que ambos nada mais conhecem senão a impossibilidade desse conhecer.

E a diferença que há entre dizer o que está, ou não está, e o que é, ou não é ? Essa diferença, que traria engulhos e dificuldades ao seu conveniente esquema antinómico,  tão aparentemente certeiro, Kant simplesmente elimina. O Ser,de jure, é como um arco-íris, de que uns dizem “é”, outros “não-é”.

Logo, acrescenta arguto, não o podemos conhecer, o que é o mesmo que não esteja, e o mesmo que não seja! O númeno de Kant é como um nada...

Conclui então Marinho que Emanuel Kant nunca teve um Amigo (vivo, morto, ou ressuscitado!) em que pudesse crer, e que lhe dissesse – também vi o arco-íris!

Então, se o arco-íris, feito uma raridade, nunca estiver visível para mais que um único de cada vez, se nunca for externa e positivamente consensual, isso quer dizer que nunca está? Ou pior, quer dizer que não é? Ou quererá dizer, até, que tendo sido, morreu?

Marinho também sabia que o que univocamente viu, não ganha certeza com o incerto dizer de o ter visto. Assim, isso que viu já não é o que possa ser afirmado como estando a ser visto a alguém que o possa ver, também, na mesma univocidade – quando esse alguém vai a vê-lo, já desapareceu!

Essa inconstância, essa falta de concomitância, essa impossível repetição da causa e obediente obtenção do efeito perante a curia dos observadores ou jurados, perturba-nos o juízo, ou o juiz em nós, pois nos deixa sem os testemunhos concordantes que são necessários para declarar o veredicto certo, ou científico....

Mas Marinho tinha Amigos, como Álvaro, em que podia acreditar; Amigos que lhe diziam “eu vi o arco-íris”! E Marinho perguntava-se, então: para quê transformar esta incompatia, que é mais própriamente uma falha de sintonia, em radical antinomia?

Muito bem! Dois ou mais seres pensantes não podem, quando querem, ver em conjunto o arco-íris. Pois não...

Só podem, se Deus quiser! E Deus é livre de o fazer, se quiser.

Marinho, ao contrário de Kant, vai então dizer que vê, que vê o arco-íris que é! Só que, confessa ele ao dizê-lo, se o julga lá presente, não está, se o julga ausente, lá está.

“O arco-íris é insubstancial!”, proclama então Marinho, e na aporia que sustenta, simpatiza com o esforço de Kant.

Mas não pode concordar com a antinomia, apesar de que se lhe impõe que diga ( porque é igualmente verdade!) que o arco-íris também é... substante!

in "Leonardo, Revista de Filosofia Portuguesa", Maio 2009