Doutrina Fadista

por Álvaro Ribeiro

(excerto - da colectânea «Portas do Conhecimento»)


Álvaro RibeiroO fado é uma arte popular. O primeiro problema duma doutrina do fado consistirá, pois, em investigar quais sejam o verdadeiro significado e real valor da arte popular.

Arte popular não pode ser entendida como arte que ao povo se dirige, descendo e simplificando, divulgando e degradando, até se tornar acessível ao público e à multidão. Arte popular não é o contrário de arte para raros apenas. Arte popular não é a arte que desce, pelo contrário, é a arte que sobe, a que procura sempre uma expressão mais alta. O artista que desce até ao povo demonstra, nesse movimento, que do povo não provém; a sua missão cultural, por muito útil e valiosa que seja, é estranha ao povo. Tal como um professor de língua estrangeira; tal como um missionário ou um conquistador.

Não se pretende com isto dizer que se repudia a dádiva generosa dos artistas clássicos; antes pelo contrário. Para com o povo têm os artistas superiores a grande dívida, mais do que o grande dever, de o educar estéticamente; e sempre competia so Estado como às mais altas instituições representativas da arte superior realizar a expansão das obras primas e alargar o respectivo público. devem ser dadas às gentes todas as possibilidades (especialmente as escolares e financeiras) de emoção compreensiva do património artístico da Humanidade. Mas este movimento escolarizante que, sem ideia pejorativa, pode ser chamado de descida, é totalmente diferente do movimento de subida.

Arte popular é aquela que do povo parte, que no povo tem sua origem; cada aspecto da arte popular morre quando atinge certo grau do que costuma chamar-se estilização; arte popular é a que começa por sê-lo, não aquela que acaba por sê-lo.

Convém, pois, não confundir arte popular com arte clássica, vulgarizada, diminuída; a expressão arte popular não pode designar, simultâneamente, sem perigo de erro, duas actividades contrárias, mas não contraditórias.

Há quem negue a arte popular, como há quem negue o povo. Nesta negação está a base mais forte dos argumentos dos detractores do fado; há, porém, dezenas de fadistas que ao adversário concedem aquela premissa, não vendo que dessa concessão, dessa concordância, resultam, a breve prazo, a decadência do espírito fadista e o definhamento da sua atitude polémica.

O fadista talvez seja levado a tal doutrina quando impelido por um sentido de justiça social, legítimo e louvável. Sómente, saltando do sentimento de justiça para o ideal do igualitarismo colectivista, opõe à evidência de cada momento uma ilusão utópica e ucrónica, pois imagina possível uma sociedade sem povo, ou melhor, uma sociedade onde não haja a distinção entre povo e outras categorias sociais. Repare-se que não se critica neste ponto qualquer ideal político, o que está fora de discussão; chama-se apenas a atenção para a necessidade eterna da existência do povo, na sua peculiar função em qualquer organismo nacional. Haverá sempre indivíduos que queiram sair do povo, mas a ilusão está em querer, permita-se a frase, que todo o povo saia do povo, abandone o povo, deixe de ser povo. As flores e as folhas parecem querer sair do caule e da raiz; mas não é possível reduzir as plantas assim estruturadas sómente a caule ou sómente a flor; o fenómeno do fototropismo não vai de encontro ao valor e à dignidade da planta inteira, solidária e una.

Há povo - povo que se modifica, transforma e aperfeiçoa - há arte popular radicalmente distinta da arte proveniente de outras camadas sociais.

Do estudo do folclore e da etnografia, em seus variadíssimos ramos, resulta bem evidente que existe uma mentalidade popular; mas, o que mais curioso parece, tal mentalidade popular, longe de ser dócilmente formada pela alta cultura de origem estranha (ou estrangeira, ou clássica) muitas vezes se opõe, em misteriosa resistência, ao cultismo vampírico.

Leia-se os livros dos etnólogos portugueses e consulte-se demoradamente o folclore; afirmar-se-á eloquentemente a arte popular, arte que do povo sobe para dizer e exprimir, para revelar uma alma.

O povo tem as suas profissões, os seus costumes familiares e locais, a sua maneira de reagir a todos os fenómenos colectivos, as suas danças, as suas canções, os seus provérbios, as suas locuções e o seu vocabulário, etc... - enfim uma cultura popular irredutível à cultura clássica, uma cultura que evolui e progride por leis internas e próprias, uma cultura que só morre quando atingida pelo crime.

Combater a arte popular, na intenção de extingui-la para a substituir por arte burguesa ou aristocrática, ministrável ao povo em simplificações, resumos, pílulas, sessões baratas, etc... - é um crime. A vida é revelação de possibilidades; há que deixar o povo viver, revelar-se, exprimir-se. Mandar calar o povo, ensinar-lhe uma língua estranha e pô-lo a ouvir o que outrem julgue superior, é um crime. Isto é: é um delito social irreparável.

É já evidente, nesta altura dialéctica: que mereceria o nome de pedante todo aquele que levantasse a bandeira da rebelião contra o folclore e a etnografia; que mereceria o nome de bárbaro todo aquele que quisesse destruir as indústrias artísticas regionais, para as substituir por uma indústria de tipo único, talvez americano; que mereceria o nome de filisteu todo aquele que quisesse proibir as danças e as canções provinciais, do Minho à Madeira, para as substituir pela música estrangeira, difundida pela T.S.F. ou pelas fanfarras locais. No entanto, se é compreensível o espírito de ódio à diversidade das manifestações populares, é ilógico e incompreensível o ódio votado sómente a uma modalidade da música e da poesia populares, ao fado.

É demasiadamente conhecida a lenga-lenga dos detractores do fado; sómente, convém em primeiro lugar saber se a cada acusação ao fado não corresponde acusação igual, ou paralela, a outras expressões artísticas que os detractores respeitam, ou dizem respeitar. Valeria a pena colocar, lado a lado, os argumentos contra o fado e as excepções a favor de outras poesias, de outras músicas, de outras canções, quer nacionais, quer estrangeiras; valeria a pena, sim, porque ficaria demonstrado que contra o fado não há razões, mas apenas ódio.

Estranho jeito de ódio! Ódio ao povo, ódio proveniente de quem, nas cidades do litoral, não é povo!... E repare-se bem: os detractores do fado pertencem mais à classe média - aos que do povo saíram apenas há uma ou duas gerações - do que à fidalguia, bem mais compreensiva de tudo quanto revela as virtudes da terra e da grei.

Na alta província, não pode haver ambiente desfavorável à arte popular local; não é possível um desprezo snob pelo folclore. O fado tem o destino da arte popular na grande cidade do litoral e na grande capital. Se em Londres, Paris ou Berlim houvesse uma arte popular tão digna como o fado é em Lisboa, as classes médias dessas cidades comportar-se-íam segundo as leis da sociologia e da cultura.

Que seria do nosso teatro ligeiro, da revista ou da opereta, se lhe extraíssem a beleza folclórica? Imagine-se a pobreza e o desgosto das cenas, dos quadros e dos actos!...Acontece, porém, que só os quadros do fado arreliam o snobismo burguês - esses mesmos quadros que exaltam enebriantemente o povo de Lisboa. Mas, por nobre contraste, o povo de Lisboa não pede a supressão do folclore provinciano, desse folclore que não briga com o gosto artístico dos detractores do fado, se acaso gosto artístico possuem.

(...) É na maneira de cantar o amor que se vê a divergência enorme entre a emoção campesina e a emoção citadina que caracteriza o fadista. O amor domina os seres humanos; o amor não admite desobediência nem rebelião. Mas, dominado pelo amor, o fadista tem mais viva e dolorida consciência do inevitável do que o campesino. E como, para o homem e a mulher do bairro popular da cidade, as circunstâncias em que a aventura e o drama amoroso se travam são mais complexas do que aquelas que se apresentam normalmente aos habitantes dos bairros luxuosos ou aos camponeses, o fadista tem de acentuar traços agudos e penetrantes na expressão comovida da verdade. Quem chama decadente ou doentio ao fado, por tal motivo, não terá de condenar também todas as obras primas da poesia, musicada ou não, onde o amor atinge profundidade, exaltação e tragédia? É doentio o fado, ou o sentimento humano que ele popular e grandiosamente nos exprime?

A ideia de destino gera, no fadista, um sentimento de solidariedade e de irmandade que dificilmente se poderá encontrar fora do povo português; não que a outros povos faltem sentimentos comparáveis, mas falta-lhes a mesma fundamentação emotiva. (...) O mesmo culto religioso une povos de diferentes continentes; o mesmo sentimento patriótico une qualquer povo espalhado pelo mundo; um hino, uma marcha, uma canção, uma poesia, etc... podem apertar laços desleixados, reviver emoções, comover fortemente. Mas o sacramento do fado produz um milagre maior e diferente, coisa que só um grande artista poderia exprimir em palavras, coisa que só pode ser negada por quem seja isento de emotividade autêntica. Há no fado um não sei quê, que só o próprio fado pode dizer, mas que não se pode negar.