Recensão de

«A Essência do Conhecimento»

de A. de Miranda Barbosa

Coimbra, 1947

Este livro, que representa um trabalho sério nas intenções e honesto nos processos, possui também o mérito de estar redigido com sobriedade e lucidez, numa prosa limpidamente vernácula, a qual revela o espírito operante de um homem verdadeiramente estudioso. Mais notável ainda do que tão invulgares predicados é um carácter que distingue este livro entre as mais recentes dissertações universitárias: o de não consistir num fácil encadeado de transcrições e citações de livros estrangeiros, que mal encobre o desdém pelos valores substantivos da literatura portuguesa.

A exibição de extensas bibliografias vale, entre nós, de prova de erudição e, por ela, muitos doutores adquirem tal prestígio que lhes consente adiarem a ingrata tarefa de meditar directamente os problemas e a perigosa aventura de defender as próprias opiniões. A reputação de «mestre sabedor» e de «incansável trabalhador» contenta fácilmente a exigência do público que não ousa inquirir da posição doutrinal que o professor assume perante os alunos e, muito menos, da direcção a que ele subordina o seu contributo para a cultura portuguesa.

A respeito do Dr. Miranda Barbosa não podem os estudiosos formular grandes dúvidas, porque o ilustre professor confessa de maneira significante a sua fé católica, a que subordina o seu labor filosófico, ao acompanhar «as correntes neo-escolásticas que desde o século passado se desenvolvem sob a inspiração tomista».

Toda a gente sabe que a profissão de fé católica não obriga à aceitação da escolástica. Apenas os estabelecimentos de ensino eclesiástico, quer dizer, os seminários e as faculdades pontifícias são obrigadas a cumprir o que foi aconselhado por Sua Santidade nas encíclicas Aeternis Patris e Studiorum Ducem. No entanto, os pensadores católicos que pretendam conformar a «mundivivência cristã» com sistemas filosóficos que se encontrem fora da tradição do magistério eclesiástico, incorrem no perigo de serem considerados simpatizantes com a heresia, verificam por vezes que os seus livros permanecem de remissa no Index e não logram obter aquela continuidade de transmissão escolar que assegura a vida dos sistemas filosóficos.

Será talvez inútil recordar aos eruditos alguns exemplos de escritores católicos que procuraram a concordância do seu pensamento com os sistemas de Descartes, Kant, Hegel, Comte e Bergson, e até os existencialistas nossos contemporâneos, mas convém, sempre, relembrar o exemplo português de Leonardo Coimbra.

Esta observação pode, porém, induzir no velho e tantas vezes refutado erro de que a Escolástica corresponde a uma idade histórica, à Idade Média, e de que, portanto, os neo-escolásticos apenas laboram numa filosofia regressiva em vez de realizarem uma filosofia progressiva.

Ora a verdade não é corresponder a Escolástica a um momento histórico - é, pelo contrário, haver um progresso histórico, uma actualização da Escolástica a compasso com o desenvolvimento da filosofia.

Eis o que torna possível distinguir a escolástica medieval da escolástica moderna, para bem interpretar as contradições estéreis do pensamento português: uma alma profundamente medieval, superficialmente cultivada pelos modernos. O drama continua em nossos dias, na luta entre medievalistas e modernistas, porque só a raros pensadores é dada como evidente a conclusão do ciclo tricentenário da modernidade.

Não podemos, pois, deixar de reconhecer e louvar o mérito da obra do Doutor Miranda Barbosa, que nos parece uma tentativa de contribuição para o fundamento da Escolástica contemporânea. Com efeito, o insigne autor de «A essência do conhecimento» em muitos lugares se afasta dos neo-escolásticos de Lovaina e de Milão, não se limitando, como muitos destes, a uma crítica destrutiva do idealismo gnoseológico de Descartes ou Kant, mas aceitando, pelo contrário, a problemática que caracteriza a filosofia moderna e contemporânea, para a tentar resolver de modo inédito, senão original.

Esta notícia, - que não pode ser uma recensão analítica, como a que conviria a uma revista filosófica, - pretende apenas chamar a atenção dos estudiosos para um livro de espécie rara na nossa cultura e promover o estudo de um trabalho meritório, significativo e valioso. Todos sabemos que, no nosso ambiente literário o livro de filosofia permanece quase desconhecido e não influi, directamente, pela mensagem do que é portador - quanto mais um livro intitulado «a essência do conhecimento» e proveniente das, justa ou injustamente, desacreditadas instituições universitárias!...

A sede de curiosidade que hoje se observa no público leitor não pode ficar satisfeita com um livro de gnoseologia; as questões prévias, por muito interessantes que sejam, não correspondem de modo imediato às mais prementes questões humanas; e com tedioso desgosto tem sido verificado que a sucessão de escritos sobre lógica, epistemologia e gnoseologia, provenientes das mais novas gerações universitárias, não contêm sequer a promessa de resolução pertinente dos problemas da filosofia.

Efectivamente, o sintoma não é animador...

Presumimos que ao Doutor Miranda Barbosa menos interessa que as suas obras sejam lidas por grande público do que estudadas pelo círculo qualificado dos seus alunos universitários, e compreendemos muito bem a atitude própria de um espírito de escol. Isso não obsta, porém, a que o nosso juízo seja diferente, pois desejaríamos que um escritor a quem Deus concedeu apreciáveis dons, com eles contribuísse para a obra necessária da filosofia portuguesa.

Lisboa, 1947

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