A História da Filosofia

e o Ensino Universitário

A divisão da história da filosofia em antiga, medieval, moderna e contemporânea resulta de um preconceito didáctico que só tem por defesa a origem estrangeira. E porque «lá fora» a organização universitária mantém no ensino um esquema que se reflecte nos compêndios escolares, «entre nós» parece quase irreverência, merecedora de áspero castigo, levantar a voz contra a conveniência de uma rotina consagrada pela internacionalidade.

No entanto, difícil será justificar a referida divisão da história da filosofia durante uma discussão criteriosa, e muito especialmente depois de gastos os falaciosos argumentos da conformidade com o modelo estrangeiro e da comodidade própria dos velhos hábitos.


Alocução no

Colóquio sobre Filosofia Portuguesa,

organizado pelo

Centro Contemporâneo de Cultura

Minhas senhoras, meus senhores:

Data de 1940 o problema que nos preocupa. Durante a II Guerra Mundial os principais beligerantes justificavam a sua política em nome da sua filosofia. Portugal mantinha-se neutro e realizava pacificamente as chamadas comemorações centenárias. A neutralidade, que era naquele tempo uma prova de independência, deveria ser doutrinalmente justificada no Congresso do Mundo Português.

Efectivamente, não há independência política sem autonomia cultural.

Ao percorrermos, porém, as páginas dos dezanove volumes das teses apresentadas ao Congresso do Mundo Português, nós, estudiosos e estudantes de fílosofia, notámos com desgosto a mínima atenção atribuída aos problemas do pensamento livre e especulativo, a quase omissão! Não estava oficialmente reconhecida a filosofia portuguesa. Porquê?

O problema começou a ser discutido em conversas de tertúlias várias, tímidamente, sem critério nem método.

Textos de Álvaro Ribeiro

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Doutrina Fadista

(excerto)

O fado é uma arte popular. O primeiro problema duma doutrina do fado consistirá, pois, em investigar quais sejam o verdadeiro significado e real valor da arte popular. Arte popular não pode ser entendida como arte que ao povo se dirige, descendo e simplificando, divulgando e degradando, até se tornar acessível ao público e à multidão. Arte popular não é o contrário de arte para raros apenas. Arte popular não é a arte que desce, pelo contrário, é a arte que sobe, a que procura sempre uma expressão mais alta. O artista que desce até ao povo demonstra, nesse movimento, que do povo não provém; a sua missão cultural, por muito útil e valiosa que seja, é estranha ao povo. Tal como um professor de língua estrangeira; tal como um missionário ou um conquistador.


Filosofia e Religião

na Teoria da História

Filosofia e religião pertencem a esferas autónomas e diferentes; ambas comparecem perante o mais alto grau da consciência humana; ambas correspondem a ansiedades inconfundíveis.

A perenidade da religião está demonstrada pela antropologia. Esta ciência, discernindo os aspectos corporal, animal e espiritual do composto humano, ainda que os não considere substâncias, assevera as diferenças que, históricas e geográficas, meramente empíricas, não chegam a anular a relação, evidente ou mística, do ser consciente com a realidade divina.


Recensão de «A essência do conhecimento»

de A. Miranda Barbosa

Este livro, que representa um trabalho sério nas intenções e honesto nos processos, possui também o mérito de estar redigido com sobriedade e lucidez, numa prosa limpidamente vernácula, a qual revela o espírito operante de um homem verdadeiramente estudioso. Mais notável ainda do que tão invulgares predicados é um carácter que distingue este livro entre as mais recentes dissertações universitárias: o de não consistir num fácil encadeado de transcrições e citações de livros estrangeiros, que mal encobre o desdém pelos valores substantivos da literatura portuguesa.