Separata do nº4 da Revista de Portugal, 1938


Heidegger e Holderlin

ou

a essência da Poesia

por Delfim Santos


Este pequeno trabalho é um ensaio de aproximação, em português, a um estudo de Heidegger sobre a essência da Poesia. Chamamos-lhe ensaio de aproximação porque mais não seria possível que fosse. Um pensador ou um poeta que use como meio de expressão uma língua eslava ou germânica não deixará nunca revelar a sua autêntica grandeza quando traduzida numa língua românica, sobretudo quando esse poeta ou pensador, como no caso presente, é personalidade de forte originalidade. Esta dificuldade tem sido muitas vezes enunciada e outras tantas sentida, mas quase sempre se motiva em razões de ordem linguística. Todavia não é disto que se trata quando nos referimos a obras de pensamento.

Uma língua é muito mais do que um meio de expressão. Uma língua tem em si limites que não pode ultrapassar: ela delimita e condiciona a manifestação das possibilidades do pensamento de um povo ou dos povos que a falam. São dois aspectos correlativos: não há linguagem sem pensamento e não há pensamento sem linguagem, e o desenvolvimento de ambos é condição recíproca. Não há filo-sofia sem filo-logia, como também e recíprocamente não há filo-logia sem filo-sofia. Mas esta posição do problema é resultante de um dualismo teóricamente injustificável e pedagogicamente pernicioso - o logos é pensamento e palavra.

Um verso pode ter um conteúdo pobre e todavia revelar um grande valor poético; um sistema filosófico não vale só pelo seu conteúdo afirmativo, mas muito mais pela «forma do pensamento» que nos oferece. Sócrates, Platão, Aristóteles, Kant, Hegel e Bergson não valem só pelo que disseram àcerca da realidade, mas sobretudo pela forma de pensamento que puseram em acção e que lhes permitiu dizer o que disseram. Quantas vezes cada um destes pensadores foi «refutado»? Vezes inumeráveis, com efeito. Mas a filosofia de um filósofo não é o conjunto das afirmações que ele fez sobre este ou aquele aspecto da realidade, mas a «forma de pensamento» com que ele enfrentou a realidade. E assim o trabalho dos crítico-refutadores, se alguma coisa refuta, está isso ainda longe de ser o que eles julgam ter refutado. Muitas vezes à «forma do pensamento» chama-se método, todavia forma de pensamento e método são coisas diferentes e o último é já consequência do primeiro. Uma língua eslava, uma língua germânica e uma língua latina, para só nos referirmos à Europa, são cada uma delas a expressão de um mundo diferente e com limites não coincidentes.

Quando se afirma que tal pensador russo foi traduzido em alemão ou que tal pensador alemão foi traduzido em francês, isto na verdade apenas diz o seguinte: que em tal pensador russo foi traduzido para alemão o que na sua «forma de pensamento» se deixa compreender pela língua alemã, ou que para francês foi traduzido do alemão aquilo que no pensador alemão é transferível para o francês. Infelizmente, cada língua tem sempre uma base de referência que não coincide com a base de referência de qualquer outra e que é determinada pela história da cultura do povo que a fala.

Heidegger é, por este motivo, intraduzível porque a sua «forma de pensamento» desloca a base de referência da língua alemã e, portanto, todo o sistema de correspondência estabelecido entre esta e qualquer outra língua. A sua terminologia é absolutamente necessária àquilo que ele pretende dizer, todavia aquilo que ele diz não se deixa dizer, como ele diz, em qualquer outra língua. Trata-se de um pensamento que não se consentiu o uso de termos vulgarizados porque estes só permitiriam repetição e impediriam ver como novo o que é novo. A aparelhagem conceptual do filósofo não pode ser a aparelhagem conceptual de emprego na vida diária. Filosofia é uma eminente actividade do pensamento que, como tal, despreza toda a popularidade e os utensílios de que esta se serve.

Mas não se julgue que há em Heidegger uma duplicação de termos da linguagem vulgar que o filósofo cria para não usar a língua do povo. A sua original terminologia é criada para exprimir aspectos da realidade e situações do homem que não têm existência para o homem vulgar e, portanto, também não têm correspondência terminológica com elas. O homem vulgar vive num mundo restrito pelas suas ocupações em grande parte degradantes do seu estado de animal metafísico. Os seus interesses limitam-se a esse mundo e as suas possibilidades de compreensão estão por sua vez limitadas aos seus interesses.

O autêntico pensador começa por quebrar imediatamente o quadro convencional e habitual que a vida de relação impôs ao homem que resolveu ou foi obrigado a viver para viver. Mas outra é a missão do filósofo: missão de esclarecimento de aderências obscuras para além do homem vulgar. Quando este diz que não entende o filósofo ele nada diz que importe saber. É esta a única relação possível de inteligência entre o filósofo e o não-filósofo; e quando o homem vulgar diz ter compreendido o filósofo é porque o filósofo é homem vulgar ou o homem vulgar não é homem vulgar. Pode certamente haver uma filosofia do homem vulgar e esta é tão limitada como o seu próprio mundo; e há filósofos que se dedicam à produção de tais filosofias. Porém a estes não pertence Heiddeger.

Quem conhece o significado da posição de Heidegger na filosofia e quem conhece o estranho e profundo significado da poesia desse grande poeta Holderlin seguramente interpretará tal estudo como a tentativa de aprofundamento do que seja essencialmente poesia pelo único homem que será capaz de compreender e esclarecer o problema: o filósofo. E Holderlin foi escolhido porque dele se pode dizer que foi o Poeta do Poeta.Embora o seu caminho de poeta tivesse sido abruptamente interrompido, desde sempre o colega e amigo de Hegel se preocupou com a compreensão do que essencialmente a poesia era. Heidegger desenvolve o seu estudo seguindo cinco citações que faz da obra dele. Na primeira delas a poesia parece considerada sob o aspecto de «jogo», de actividade lúdica, de recreio. Ora nenhuma actividade revela o homem mais profundamente do que o jogo ou o recreio. É aqui que o home se mostra ou pode mostrar ele mesmo. E o trabalho só vale e só tem profundo sentido criador quando é recreio ou quando dá ao homem o mesmo equivalente emocional que o recreio lhe dá.

Um trabalho que se oponha ao recreio não é verdadeiramente trabalho, é «criação de fadiga». Para evitar a fadiga no trabalho moderno dá-se ao artífice a categoria de «especialista» e habitua-se o trabalhador ao seu trabalho. Mas um trabalhador habituado não é um trabalhador, mas um candidato a máquina. O homem e a máquina são duas tendências inevitáveis do mundo moderno: há homens que se pretendem libertar da máquina que os domina em qualquer aspecto da vida social e há homens que se pretendem libertar do homem que neles cohabita. Um trabalho em recreio, outro em escravidão.

O poeta é um dos extremos desta oposição. E Holderlin é de todos os poetas talvez o que mais se afastou do extremo oposto. O poeta recreia-se no seu mundo de imagens e a poesia é por isso «a mais inocente das ocupações». Poesia é um sonho verbal, é um recreio em palavras. E a sua substância é sempre e só o domínio verbal.

Mas o que é a linguagem para o Poeta? - «o mais perigoso de todos os bens que ao homem foi dado», a fim de que ele se crie, se destrua, se afunde e reapareça como eterno vivente e possa assim mostrar como é. Mas como é possível que a linguagem, sendo a substância da «mais inocente das ocupações» seja também «o mais perigoso de todos os bens que ao homem foi dado? Voltemos atrás e perguntemos: quem é o Homem?

O homem é aquele, de todos os seres, que deve testemunhar o que ele é. Mas testemunhar significa também manifestar-se: o homem é o que é no testemunho e revelação da sua própria presença. Testemunho e revelação não são formas de expressão do homem mas conformações intrínsecas à Presença do Homem. Mas que deve o homem como tal manifestar? - que pertence à Terra e que é o herdeiro e aprendiz em todas as coisas. Mas estas estão em contradição. Ao que as mantém em contradição e ao que procura o seu acordo chama Holderlin «interioridade». O testemunho desta interioridade consiste na criação dum mundo e também na sua destruição. O testemunho da humanidade e a sua própria ratificação realiza-se, pois, na liberdade de julgamento e na liberdade de decisão. E esta atinge a necessidade do seu comportamento na dependência de um alto Dever. E o testemunho da dependência acontece como História. Mas a História só é possível porque ao homem foi dada a linguagem. A linguagem é, pois, neste sentido, um Bem que ao homem foi dado.

Mas em que sentido é a linguagem «o mais perigoso dos bens?» Ela é o mais perigoso de todos os perigos. Perigo é a ameaça do «ser» pelo «sendo», do que «é» pelo que «devém», e a linguagem no seu «sendo» aflige o homem e no seu «não-sendo» engana-o e desilude-o. Mas a linguagem não é somente o perigo dos perigos: esconde também em si e para si um perigo constante. A língua deve manifestar o «sendo» como «sendo» e nela pode exprimir-se o mais puro e mais recôndito, como também o mais confuso e o mais vulgar. A palavra por si só não nos oferece a garantia da sua essencialidade nem da sua vulgaridade. O especial e o comum dizem-se idênticamente. E muitas vezes uma palavra essencial é considerada inessencial e também o contrário é possível. A linguagem permite a participação de experiências, de decisões e de concordância. A língua é um meio de compreensão, mas também não é apenas um meio de compreensão; ela não é um instrumento que o homem possue com muitos outros, mas oferece-lhe sobretudo a possibilidade de situação relativamente à Realidade. Só onde há linguagem há mundo, isto é: há decisão e obra, acção e responsabilidade e também arbítrio e agitação, confusão e desordem. E onde há mundo há história. E a linguagem é um «bem» porque garante ao homem a possibilidade de «ser histórico». A linguagem é a mais alta possibilidade de humanidade à disposição do homem.

Holderlin chama ao homem uma conversação, um diálogo. «Desde que nós somos um diálogo...». O ser do homem fundamenta-se na linguagem e só como diálogo é esta fundamental. Mas o que é um diálogo? - a penetração pelo verbo; a possibilidade de comunicar com outrem e de ouvir outrem sobre alguma coisa. Nós somos um diálogo e isto significa que nos podemos ouvir uns aos outros e que somos ao mesmo tempo e sempre uma conversação. E o diálogo e a sua unidade revelam a nossa «Presença». Mas Holderlin diz: «desde que nós somos um diálogo». A possibilidade de falar e falar não são ainda o essencial na linguagem. Só o diálogo permitirá a palavra essencial sobre o Um e o Mesmo. Mas desde quando somos nós um diálogo? O Um e o Mesmo só o podem ser à luz dum «permanente» e dum «constante». Mas isto só é possível com o aparecimento do Tempo. Só quando o homem se coloca em presença de um permanente, desde então pode ele expôr-se ao mutável e variável porque sómente o permanente e constante é mutável e variável.

Só desde que o Tempo se rasgou em presente, passado e futuro existe a possibilidade de unificação com um permanente. E assim temos a resposta: nós somos um diálogo desde que o tempo é tempo. E desde então somos seres históricos - porque ser-histórico e ser-diálogo pertencem-se mútuamente e significam o mesmo. Desde que nós somos um diálogo tem o homem vivido muito e muitas vezes apelado para os deuses. Mas a presença dos deuses e o aparecimento do mundo, como mundo, não são consequência da linguagem mas com ela contemporâneos. E é no apelar para os deuses e na tradução verbal do mundo que o diálogo se manifesta e nós verdadeiramente somos. Mas a palavra que faz apelo aos deuses é já resposta e provém da responsabilidade de um destino.

Mas como começa este diálogo que nós somos? Quem concebe no tempo destruidor um permanente e o traz à expressão? Hoderlin di-lo: o que permanece é erigido por poetas. Poesia na sua essência é criação no verbo e pelo verbo. Mas que é com isso erigido? O permanente, o persistente. Mas pode o que é permanente ser erigido? O permanente não é aquilo que sempre existiu. Não. Mesmo o permanente deve ser arrancado ao processo da existência; o simples deve ser determinado na confusão do composto; e os limites devem ser postos ao ilimitado. O permanente é também fugitivo, ou tudo que é eterno é passageiro e além disto nada mais. A essência da poesia consiste em fazer deste fugitivo autêntica permanência, e este cuidado e serviço foi confiado ao poeta. É o poeta que chama os deuses e todas as coisas naquilo que elas essencialmente são. E isto não significa pôr um nome às coisas, mas sim que só depois o «sendo» se torna conhecido como «sendo» para aquele que o nomeou. A Poesia é criação verbal do ser. O que permanece não é nunca formado do passageiro, o simples não se deixa imediatamente surpreender no confuso e o limite não está no ilimitado. O «ser» não é nunca o «sendo». Mas, porque a essência das coisas não poderá nunca ser derivada da sua existência, deverá aquela ser livremente criada e oferecida ás coisas. E tal oferta é criação. E o verbo do poeta é criação não sómente no sentido de livre oferta da essência das coisas às próprias coisas, mas também e simultâneamente no sentido da firme fundamentação da presença humana. Esta, no seu mais profundo sentido é sempre poética - e isto significa que ela é também uma dádiva ou oferta, como dádiva é o essencial que o poeta determina nas coisas.

Da meditação de Heidegger resulta que o domínio da poesia é a linguagem e que a essência da poesia só é compreensível a partir da essência da língua. Mas a poesia nunca se serve da língua como de alguma coisa já preexistente, porque é a própria poesia que possibilita a linguagem. A poesia é a língua original dum povo e é, portanto, da essência da poesia também que a essência da língua poderá ser compreendida. A língua de um povo é dádiva dos seus poetas. A poesia não é, pois, um dos aspectos da cultura de um povo, nem uma forma da expressão dessa cultura, mas o fundamento que suporta a história de um povo. Linguagem e Poesia pertencem-se intimamente e íntimamente se possibilitam. Não há história sem linguagem e não há linguagem sem poesia. A «presença humana» é, neste sentido, sempre poética. A essencial manifestação da linguagem é por sua vez o diálogo, e o diálogo o essencial fundamento da «presença humana». Mas a linguagem é o «mais perigoso de todos os bens», e a poesia, sendo «a mais inocente das ocupações», é também algo perigoso. A poesia parece uma actividade lúdica; porém, há uma diferença a notar entre jogo e poesia: o jogo reúne os homens e de tal modo que cada um se esquece de si próprio; na poesia o homem concentra-se no fundamento da sua própria presença. A poesia revela a poesia e o sonho em frente à realidade. E mais do que isto. A poesia mostra que a realidade é o mundo que ela revela e não aquilo que como tal é tido por todos. Poesia é a firme fundamentação da realidade. E vimos já que esta «fundamentação» é uma livre dádiva do poeta. Todavia, a liberdade do poeta não é arbítrio, mas a «alta necessidade». Poesia é originalmente chamamento dos deuses e este apelar para os deuses é resposta a alguma coisa a que os deuses mesmos nos obrigam a responder. Mas como nos falam os deuses? Por sinais. A missão do poeta consiste em surpreender estes «sinais» e em seguida revelá-los ao seu povo. Em cada sinal há um «sentido» que o poeta apercebe e lhe permite predizer o ainda-não-realizado. A fundamentação do ser está, pois, em relação com os sinais divinos que só o poeta pode apercebe.

A poesia é também a interpretação da voz do povo, e a sua essência é assim algo intermediário entre os sinais dos deuses e a voz do povo. A região da existência do poeta é igualmente intermediária entre a dos deuses e a do povo; o poeta é um »arremessado» neste intermédio e só e únicamente neste intermédio se poderá decidir quem o homem é e onde se manifesta a sua presença. A poesia de Holderlin vive também num intermédio histórico de que ela é interprete e anunciadora; entre o tempo dos deuses que já não existem e o tempo de um novo deus que ainda não é. E, assim, para Holderlin a essência da poesia é histórica porque pressupõe um tempo histórico do qual é antecipação e interpretação. E esta essência é, para Heidegger, a essência essencial da poesia. A determinação de uma essência intemporal e anhistórica seria a determinação de uma essência indiferente à diversidade dos fenómenos. Mas a busca do essencial não é a determinação do indiferente e para tudo válido.


Berlim, 20.5.38