APRESENTAÇÃO

( nota: este é o texto original, ainda inédito, escrito para apresentar a revista Escola Formal, publicada em 1976. Este texto nunca foi publicado, uma vez que Luis Furtado foi substituído na direcção da revista por Orlando Vitorino e Afonso Botelho)

Sabedor do caminho percorrido por mais de vinte séculos de filosofia, poderá o leitor considerar anacrónico o nome de Escola Formal que, originado na mais nobre tradição de pensamento, parece querer animar as cinzas de uma época já morta. Essa possível atitude de reserva, filha da prudência consciente ou da ignorância estulta, ponderada foi no nosso espírito.

Temos sempre verificado que em qualquer conotação que se faça entre a filosofia e a história tende o pensamento a reflectir toda uma esfera lógica significativa que se sobrepõe aos acontecimentos factuais que limitam ao espaço e ao tempo a natureza de uma actividade mental que os transcende.

A esfera do Logos é sempre libertadora em modos de consciência que afirmam no homem responsável a capacidade do saber e do pensar.

Hoje o pensamento ocidental garante uma teoria do progresso do género humano pela luta activa e incessante das ideias.

Na vida cosmológica e espiritual de um Hegel ou na senda sociológica e material de um Marx duas tendências complementares, embora ditas em contradicção irredutível, parecem prosseguir análogos fins por um idêntico meio que é motor da história e do homem - a dialéctica.

Mas não é a dialéctica que, por si mesma, garante o advento de universais valores. Ela reconhece nestas duas perspectivas que tão somente adia no tempo a instauração de uma realidade que ao seu exercíco se condiciona e dele depende.

Não basta que pela dialéctica se anuncie a virtual promessa de uma escatologia para que as possibilidades lógicas do pensamento nela inatamente se impliquem e expliquem. Para isso teríamos de aceitar que o sentido ôntico das ideias seja inato, isto é, que logo de início estas assumam o conteúdo consciente de tudo aquilo que em flâmulas triunfantes apregoam e agitam.

Neste caso, quanto a nós, raras pessoas estarão aptas para inserir no espaço e no tempo a eficácia de um discurso onde os caminhos da razão quase sempre se confundem nas combinações mais opostas, nos princípios mais contraditórios e divergentes. Por outro lado, resvala a dialéctica sem proveito quando a ansiedade cognitiva intenciona a abstracção do sensível.

Aí se denuncia o congénito sinal de um vazio em que as categorias ideais do pensamento declivam solicitando o apoio de sinais persuasivos mais imediatos e concretos.

No discorrer mental que é o do nosso tempo há uma tão obscura indefinição dos modos como o pensar humano a si próprio se reconhece, que sinceramente duvidamos que a grande maioria dita responsável fale de raciocínios sabendo o que é raciocinar, fale de conceitos sabendo o que é conceptualizar, fale de ideias sabendo o que é idealizar.

Longe de qualquer impróprio formalismo de circunstância, ou inconfessado intento que com a já passada escolástica se confunda, a revista Escola Formal pretende assumir, para aqueles que a leiam e meditem a consciência das razões lógicas inseridas no seio do discurso e do pensamento. Essa consciência é assumida pela forma, que é a garantia da presença dos seres no espaço e no tempo. Só ela fundamenta o pensamento no caminho certo da substancialidade, só ela concede ao discurso a consciência da sua situação perante as possibilidades do universo lógico. Para o humanismo, estamos certos, este caminho representará o fim de um pensar cada vez mais decadente e estéril em face de uma necessária epistemologia.

Temos de confessar que a dialéctica do nosso mundo ao mesmo tempo que ambiciona explicar as coisas, retira-se delas. Ao mesmo tempo que deseja a interioridade, só sedimenta compromissos com as superfícies exteriores. Reconhecemos que em seu nome longa tem sido a nossa espera, já que em qualquer campo onde esta se comprometa assistimos à voraz destruição, pela ideia de um remoto futuro, de valores eternos do passado e do presente.

Parece-nos que não há para a filosofia outra alternativa senão a lúcida coragem de restituir a formalidade ao pensamento.

Ao contrário do que muitos defendem, não é a formalidade repulsiva do exercício independente e livre do saber e do pensar, mas sim a presença lógica que solicita o juízo certo de todos os modos intelectuais que no pensamento humano se implicam.

Se esta revista tem o nome de Escola Formal é porque entendemos que há uma razão constituinte e libertadora que de todos os seres se aproxima sem lhes alterar o sentido que, segundo a natureza, os identifica e personaliza. Aqui convém sugerir e realçar a importância de uma didáctica que desperte a alma para a luz do espírito.

É essa a nossa intenção.

Esperamos que os nossos leitores compreendam e aceitem que urge elucidar em todos os portugueses a consequência das ideias que dizem defender.

Assim o exige o exercício responsável desta difícil liberdade em que vivemos.