Mário Ferreira dos Santos,

Philosophus Brasiliensis


A mão amiga e generosa de Leandro Mello Ferreira fez-me chegar uma meia dúzia de livros de Mário Ferreira de Santos.

Falamos de alguém que bem merece o epíteto que Olavo de Carvalho, com propriedade, lhe atribuiu, de “Philosophus Brasiliensis”.

O epíteto de Filósofo é de difícil atribuição, tão raro ascende ao filosofar a frustrada actividade febril e incessante de todos os bem pensantes que, às catadupas, saiem «licenciados», mas não libertados, das mais variadas instituições de ensino. Porém, no caso de Mário Ferreira dos Santos, até poderia parecer fácil atribuir-lhe tal epíteto, de tal forma está patente, na sua obra - seja qual for a perspectiva em que se queira apreciá-la - um extraordinário exercício filosófico!

No entanto, torna-se difícil, para mim, dizer de Mário F. dos Santos que é filósofo por razão exactamente oposta à que é comum e acima descrevi. De facto, pela leitura dos livros de Ferreira dos Santos e audição das suas palestras, fiquei convicto que alguma transmutação ocorreu em sua alma que fez morrer a inquietação filosófica e, das cinzas desta, fez nascer uma magna e sofrida Sabedoria, como se o cerne da sua individualidade, libertando-se finalmente das últimas amarras de mundanidade e egoísmo, tivesse altruísticamente assumido a infinitude da dádiva do Saber que sustenta o Universo, numa total adesão às energias puras, ou ideias, que dão movimento mórfico ou ordenado a todas as formas de vida que compoêm o Cosmos.

Esse superior estado sófico com que Mário foi agraciado está patente, para quem queira ouvir, na sua voz, que pudemos ouvir gravada em diversas palestras e lições livres, voz cheia de interna paz, generosidade e sábia confiança. Está também patente no seu retrato, que nos transmite a clara impressão da sua luz interior. Finalmente, manifesta-se na sua própria afirmação, sustentada por um sistema completíssimo de teses filosóficas, de que há uma sapientia perennis que, dos princípios do Princípio, aos fins do Fim, se mantém presente e a cada instante, ou em cada eternidade, se revela. E isto é o que sempre foi afirmado por todos os Sábios, os que, como Pitágoras ou Platão, deixaram patente essa eternidade tanto nas suas obras, como nas suas vidas.

Mário Ferreira dos Santos foi um viajante que partiu, caminhou, caminhou, caminhou, num hercúleo esforço para chegar, até que um dia, já derreado e pronto a desistir, pela graça de Deus, chegou! Bem o pode perceber cada um dos lusófonos viandantes que há muitas gerações andam incansávelmente percorrendo os quatro cantos do Mundo.

Daí que Ferreira dos Santos nos fale de uma Filosofia Concreta, longe das usuais contrariedades de cepticismos, dogmatismos ou relativismos, e afirme a demonstração como método, considerando que só na apodítica está o critério lógico que pode identificar e valorizar as teses que importam. Ora isto, junto com a imensa amplitude temática da sua obra, é o que nos leva a tomar por verdade que Mário é já, nos anos culminantes da sua vida, um Sábio que, na santidade dessa sabedoria, se dá como Mestre aos discípulos de boa vontade.

Entenda-se que tal condição de mestria por oratória inspirada e sapiente não acontece pelo esforço da erudição, ou mesmo do pensamento, sem que, na alma, se não dê antes guarida ao Espírito que sopra onde quer.

Que um Homem destes e sua Obra sejam desprezados, esquecidos e ignorados, quer no seu País Natal, quer nos restantes países Lusófonos, é um verdadeiro escândalo bíblico, daqueles escândalos que iria deixar os cabelos em pé às pessoas de bem, se ainda houvesse pessoas dessas... Mas hoje, pessoas boas são geralmente as que estão arredadas do boliço cultural, enquanto que as pessoas espertas e versadas no panorama editorial conseguem geralmente ser tudo, menos pessoas de bem... Não admirará, então, que o espírito diabólico que espalha a estupidez e a loucura sobre os humanos tenha conseguido ocultar esta obra colossal.

Veja-se o seguinte: o Brasil, com este Autor e esta obra, tem um magistral Curso de Filosofia feito e pronto para difundir por todos os jovens Brasileiros com coração inquieto e inteligência aberta. Aproveita? Não!... Simplesmente ignora, enquanto uma catrefa infindável de escribas do bacharelismo universitário troca “papers” uns com os outros...

E em Portugal? Aqui, onde já de há vários decénios existe convívio filosófico com Brasileiros, desde a fornada de Agostinho da Silva, Eudoro de Sousa e António Telmo, passando por outros como Afonso Botelho, António Quadros ou Pinharanda Gomes, que também se envolveram em iniciativas e trabalhos relacionados com a chamada filosofia luso-brasileira, até ao recentíssimo recenseamento do Pensamento Brasileiro pelo especialista António Brás Teixeira, ninguém foi capaz de descobrir, reconhecer, divulgar ou sequer murmurar o nome de Mário Ferreira dos Santos?

O caso de Brás Teixeira, que me parece o mais recente, muito surpreende, já que este autor não só tem experiência, pelo exemplo dos mestres que para si reclama, Álvaro Ribeiro e José Marinho, do que é ser filósofo ostracisado na sua própria terra pelo Poder e pelas Instituições, - experiência que lhe facilitaria reconhecer e, galhardamente, corrigir, o ostracismo a que também foi votado Ferreira dos Santos - como também se apresenta, aos seus pares, como um especialista do pensamento atlântico, alguém que terá estudado exaustivamente esse tema, já que sobre ele escreve obra de título assaz académico, título do qual um leitor outra coisa não pode depreender senão que o autor se considera na posse de tal conhecimento especializado, exaustivo e competente...

Em suma, afirmando-se universitário conhecedor da actividade filosófica no Brasil, Braz Teixeira deixa estupefacto quem, como eu, leia o seu livro para ter de concluir dessa leitura que, para ele, Ferreira dos Santos também não existe!

Lembramos agora algumas palavras de Álvaro Ribeiro, no prefácio da sua «Arte de Filosofar», onde diz que «quem acredita na sobrevivência da alma, ou de algo da alma, para além da morte, - e não dizemos na imortalidade para evitar um termo equívoco,- quem tal acredite está já livre de desejar a perduração da fama na memória dos outros homens, coevos ou vindouros», palavras que nos dão razão suficiente para entender que Mário Ferreira dos Santos dispensa liminarmente a fama e os louvores! Mas é a cultura luso-brasileira, e a filosofia lusófona em particular, que não podem dispensar e esquecer Ferreira dos Santos, já que obra de tamanha nobreza, envergadura científica e escopo sapiencial é, a História assim o demonstra, rara oferta do Destino.

Perante tudo isto, não posso senão cumprir a feliz e honrosa tarefa de clamar: Eis Mário Ferreira dos Santos, «Philosophus Brasiliensis» ! Eis um Ser Humano que nos devolve alguma Esperança na serena e subtil sobrevivência de uma sabedoria Atlântica!


Sugerimos alguns livros de Mário Ferreira dos Santos:

- A Sabedoria das Leis Eternas, prefácio e edição de Olavo de Carvalho, Editora É Realizações

- Filosofia da Crise – Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais vol. VI, Editora Logos, 1956

- Platão, o Um e o Múltiplo, comentários sobre “O Parménides”, editora Ibrasa, 2001

- Pitágoras e o Tema do Número, editora Ibrasa 2000

- Aristóteles e as Mutações, editora Logos, 1955