O ocaso do Reducionismo

(De vencedor a vencido?)

O Reducionismo tem a sua reputação abalada porque sobre ele impende, actualmente, a séria acusação de ter passado da simplicidade para o simplismo. Há fortes indícios de que o Reducionismo descambou no uso abusivo e imperativo da simplicidade, como se esta fora um sinónimo ou uma exigência da verdade.

No entanto, como é fácil constatar que o poder de uma explicação convincente e luminosa reside, a maior parte das vezes, na sua simplicidade, a simplicidade continua a manter o seu estatuto de relevante critério metodológico.

Resiste, assim, às sevícias e maus-tratos dos que dela abusam e se serviram, e servem, à exaustão… A simplicidade resiste aos que se querem refugiar nos argumentos simplistas que todos os estúpidos compreendem, o pasto preferido de todos os demagogos para ganhar polémicas doutrinárias, mais ideológicas que científicas.

Resiste também aos que, nos meios académicos e de investigação instituticional, elaboram projectos e programas “de investigação científica” rasteiros e irrelevantes, ou tentam a manutenção de subsídios e bolsas elaborando peças argumentativas pretensamente bem fundamentadas, mas essencialmente desprovidas de verdadeiro talento e amor à verdade.

Entretanto, ao longo das últimas décadas, pode ler-se em publicações especializadas que, cada vez com maior frequência, se tem chegado à constatação de que o critério da simplificação pode ser irrelevante, metodológicamente inoperante e, até, contraproducente. Na investigação de muitos fenómenos intrinsecamente complexos e caóticos que a Física, a Biologia e outras Ciências têm recentemente investigado, simplificar ou reduzir aos elementos mais simples não dá respostas.

As mudanças da Física no séc. XX

Não será errado atribuir à Física um papel fundamental na alteração dos padrões epistemológicos que começou a ocorrer em meados do século XX, alteração que veio pôr em causa o Reducionismo e a Simplificação que lhe é inerente...

Pode-se assinalar o ano de 1905, ( o «annus mirabilis»de Einstein e da relatividade que já referimos noutro escrito ) como o ponto de partida da Física para novas teorias que, gradualmente mas sem retorno, deixaram para trás os pilares do paradigma Newtoniano, a que o Reducionismo se achava íntimamente ligado...

Com a exaustão e posterior colapso desse paradigma, as novas teorias exigiram renovados métodos e programas de investigação. Entretanto, convém recordar que toda a «Investigação Científica» cresceu exponencialmente, também durante o século XX, quando se deu a intervenção interessada e o investimento massivo dos Estados mais ricos e avançados do Mundo. Este crescente interesse da Política na Ciência, baseado na máxima de que “Conhecer é Poder”, garantiu o financiamento de projectos, a formação de investigadores e a actividade de numerosas instituições e dispendiosos aparatos científicos.

Hoje, a cada dia que passa, mais os investigadores nos revelam ordens extraordinariamente complexas e incertas da realidade, e critérios muito diferentes de as qualificar. Essas novas ordens de realidade derivaram, por um lado, da alteração de algumas das constantes mais fundamentais, ou elementos absolutos, da estrutura gnoseológica da Física… O caso porventura mais flagrante e fácilmente perceptível a um mero curioso, foi o caso da passagem da constante do corpo imóvel e inerte, no espaço e tempo infinitos e absolutos da Física Newtoniana para a constante da velocidade da luz, num espaçotempo curvo e relativo a essa velocidade, dimensão limite e fundamental da física da Relatividade. Por outro lado, essas novas ordens de realidade sugeriram, ou exigiram, a concepção de novas escalas, que implodiram a noção iluminista e moderna de “dimensão”; ocorre lembrar que, no Renascimento, já tinham irrompido o macro e o microcosmos, com as suas analogias escalares e os paradoxos da infinitude máxima e mínima, mas o Empirismo e o Materialismo da Idade Moderna tinham-se dado ao trabalho de unificar toda a Realidade no que é mesurável ou perceptível pelos sentidos humanos. Esta atitude profiláctica, de saneamento das fantasias e ilusões, de promoção da Certeza Científica e da Razão, naturalmente resultou em desprimor da Fé Religiosa, do Saber Mágico, da Ignorância Filosófica e da Imaginação.

Mas foram os sucessos dessa mesma Ciência Certa, ao utilizar poderosos telescópios e não menos poderosos microscópios, que foram alargando os limites dessa realidade euclidiana de dimensão univoca. E esses limites foram empurrados até medidas ou dimensões tão extraordináriamente pequenas, como a constante de Planck (10-30cm), ou tão extraordinariamente grandes, como a distância de 15 mil milhões de anos-luz, até ao presumível extremo do Cosmos, que permitiram invadir, vislumbrar, percepcionar e perscrutar novas e fracturante realidades, seja a da dimensão subatómica, seja a da multidimensional realidade galáctica e de universos paralelos... E, aí, rezam as crónicas, caminha-se de surpresa em surpresa, e as rupturas não param de acontecer…

Nessas fronteiras, portanto, parecem ter nascido ordens de realidade do “lado de lá”, seja o que é ou está do outro lado dos gigantescos buracos negros, ou anti-matéria, seja o que é ou está do outro lado das minúsculas partículas com atributos de ubiquidade, ou seja o que é ou está no “espaço virtual” da realidade cibernética.

Desde os primórdios deste reabrir da Física à multidimensionalidade que os mentores do Reducionismo tentaram manter-se intransigentes em alguns dos seus pressupostos; Na época agitada e polémica dos finais do século XIX, primórdios do século XX, viram-se alguns autores a acusar de ilusórios (porque não evidentes aos sentidos…), os átomos; depois, foi negado o éter, ou campo de propagação das ondas eletromagnéticas; depois, foram ridicularizados alguns atributos dos quanta; enfim, com o andar dos tempos e o acumular de derrotas, os Reducionistas aprenderam a conviver com tudo o que contraria o seu simplismo, seja o cálculo de probabilidades, seja o princípio da incerteza, seja a teoria do caos, e aceitaram que nem sempre a divisão dos problemas nos seus termos mais simples é a via certa para o conhecimento, sendo até que essa simplificação, por vezes, é simplesmente impossível uma vez que impede o estudo e conhecimento directo dos compostos que acabou de separar...

Quebrada assim uma idealmente simples cadeia universal e linear de causalidade, num espaçotempo tendencialmente circular, senão até reversível, o Reducionismo deu-se por vencido e cedeu a primazia, na montra dos métodos e das modas doutrinárias.

Perante este fracasso, poder-se-ia pensar que o Reducionismo iria paulatinamente passar à História, tal como já aconteceu a outras doutrinas e métodos, em passado longínquo ou mais recente. Mas neste mundo posmodernista, que reconheceu as falhas e limitações do Reducionismo, essa doutrina ainda vive, de boa saúde, em algumas propostas bem recentes, e algumas de cariz filosófico e implicações até metafísicas...

A dialéctica do simples e do complexo

Parecerá, à primeira vista, que a Filosofia, ao contrário das Ciências, depende demasiado de complexidades, de sínteses de sofisticados argumentos e de teses mais ou menos abstrusas, para poder servir de campo fértil à reabilitação do Reducionismo e das virtudes da simplicidade…

Mas não se esqueçam os menos atentos que continua bem viva a linha filosófica de raízes anglo-americanas que persiste na tese materialista e reducionista, não já como proposta meramente epistemológica mas, de facto, também ontológica. Trata-se de reformular a tese evolucionista saxónica, ou a tese “behaviourista” americana, de que a consciência humana, e nela, ou com ela, a inteligência ou quaisquer outras faculdades que compõem o todo mental, são epifenómenos do corpo e do cérebro, naquela ascensão hierárquica de causalidade a causalidade, do mais simples ao mais complexo, tão característica do Reducionismo. Das partículas aos átomos, destes às moléculas, do magnetismo à descarga dos neurónios, das sinapses às impressões, destas às imagens, das imagens às metáforas, das metáforas ao pensamento e ao discurso. Sem falhas, nem hiatos, sem enigmas nem mistérios.

Não se estranhe, porém, a resiliência das propostas materialistas e reducionistas. A refutação indubitável destas teses implicaria fazer-se a prova das teses axiomáticas contraditórias, isto é, exigiria comprovar os princípios do Idealismo.

Ora, o que se tem feito é apenas, com base nas novas descobertas da Física, levantar os problemas, os erros ou a incongruência de alguns pressupostos, postulados e conclusões do Materialismo. E como nenhuma teoria se espera perfeita e acabada, o Materialismo renasce a cada instante das suas próprias cinzas, corrigindo, esquecendo ou ultrapassando esses erros e incongruências.

A refutação indubitável do Materialismo, e não apenas na Metodologia ou na Ciência, mas também na Metafísica e na Ontologia e, porque não, na Sociologia e na Política, ainda não foi feita. Mas talvez nunca o possa vir a ser, por uma simples razão dificilmente se comprova, nos termos restritos da causalidade repetível que são exigidos pelo Reducionismo, o contrário do Materialismo; ou seja, não há meio de provocar fenoménicamente a ocorrência mesurável de pensamentos sem actividade cerebral, ou a presença de seres vivos mas sem corpo, ou a existência de entes mais rápidos que a luz… Já Aristóteles, que não era reducionista e até fora discípulo do Idealista Platão, não deixou de afirmar que todos os entes são um composto de morphe e ulê, de forma e matéria. Formas puras, ou matéria pura, dizia o Estagirita, não existem no Universo Físico.

Assim sendo, não espanta que os defensores do Reducionismo Materialista não desistam das suas teses!

Afirmam, sem cansaço, que as suas propostas básicas ainda não foram (e, como se disse acima, talvez nunca o cheguem a ser…) devidamente refutadas nos termos em que eles mesmo exigem que tais refutações sejam apresentadas…

Repete-se, aliás, esta atitude… Todos os que seguem convictamente uma doutrina e, no fundo, não pretendem que seja feita a sua refutação, exigem e estipulam determinadas condições de validade a essa refutação… Ora, muitas vezes, são desde logo essas mesmas condições exigidas que tornam a refutação, à partida, impossível!

Os casos são vários e fáceis de apresentar.

Por exemplo:

- os ateus, para deixarem de o ser, exigem determinadas provas da existência de Deus, provas essas que, desde logo, contrariam ou, até, contradizem, a própria noção de Deus.

- Os Crentes, pelo seu lado, para aceitarem que a sua Fé foi devidamente refutada, exigem que se prove a existência do Universo sem um Criador, evento obviamente impossível de produzir.

- Os Idealistas, para passarem a Materialistas, pedem a prova da precedência da matéria sobre a forma, ou a prova da existência de uma matéria que engendra e é causa necessária e suficiente da Forma, embora não seja possível percepcionar a “matéria pura”…

- os Materialistas exigem, por seu lado, ver as Ideias Puras na ponta do bisturi.

Enfim…A vontade humana rege (e subverte!) os debates intelectuais ou, pelo menos, assim o parece, atendendo a estas situações….

Portanto, talvez seja melhor não perder tempo a pretender refutar o Reducionismo e os Reducionistas…

Mais vale que se agradeçam os contributos que eles continuem a prestar à compreensão da natureza humana e da sua inserção na Vida, já que, persistindo nos seus estudos, os Reducionistas vão surgindo com regularidade no palco das obras filosóficas e científicas para nos apresentarem as suas renovadas teses e perspectivas.

È sobre alguns tópicos de de uma dessas renovadas teses que este escrito versa.

“Filosofia na Carne”, sub-intitulada “A mente corpórea e o desafio que levanta ao Pensamento Ocidental”, (Philosophy In the Flesh:The Embodied Mind and Its Challenge to Western Thought, George Lakoff and Mark Johnson;New York: Basic Books, 1999) é uma dessas novas obras.

E pretende provar que o padrão milenar do pensamento filosófico é a consequência de um simples facto: de sermos corpo.


Vinte anos depois

Vinte anos depois de “As Metáforas que guiam a nossa vida” (Metaphors we live by), Lakoff e Johnson mostram-nos por onde e como caminharam, em que novos temas trabalharam e ampliaram as suas antigas teses sobre a natureza essencialmente metafórica da linguagem e do discurso.

O modelo desse primeiro livro, que deixou marcas, é ampliado e estruturado, tal como o são as suas teses básicas, as mesmas do anterior, agora retomadas com renovado fulgor.

Relembremos: o pensamento abstracto não é a evidência de uma faculdade “espiritual”, ou “ de um transcendental racional”, nem mesmo de uma faculdade, algo enigmática nas suas origens, tipicamente humana, de formulação, ou seja, de concepção, apreensão, combinação e expressão das formas, nomeadamente as formas lógico-matemáticas.

Idealistas, Espiritualistas ou até Materialistas envergonhados da anglo-americana Filosofia Analítica, ou da Linguagem, assim como todos os pós-modernistas e adeptos da New Age desenganem-se!!!…. Não é por haver Mecânica Quântica ou Teoria das Cordas que os Materialistas puros e duros vão desistir da sua visão do Mundo…

O pensamento abstracto é, entendamo-nos, apenas a expressão metafórica de uma experiência codificada em processos pré-verbais como o caminhar, o ver, o ouvir, o mexer e sentir, o medir. Assim se faz, ao mesmo tempo, duas coisas: por um lado, avança-se, contra os adversários que referi acima, com mais um discurso, bem argumentado em seiscentas páginas, de teses anti-transcendentalistas; mas também, e curiosamente, se elabora uma crítica pesada à Filosofia Analítica que, apesar de cúmplice com o Reducionismo na simplificação da inteligência na mente, e esta no cérebro, não larga a sua condescência com uma racionalidade formalizante que, supostamente, a si mesma se fundamenta, num axiomatismo ou formalismo total, ou completo, que homens como Carnapp, membro do Círculo de Viena e cultor do Positivismo Lógico, enxertaram na cultura universitária Americana, ao atravessarem o Atlântico fugidos dos fragores da Segunda Guerra Mundial, e reencontrando, nessa Terra de Oportunidades, novo fôlego para retomarem a reconstrução exaltante da dimensão estritamente humana no Universo.

Não, não, diz Lakoff aos seus conterrâneos, a razão, meus amigos, é corpórea.

Afirma “Filosofia na Carne”, sem rodeios, que foi no decurso da evolução da espécie humana que obtivemos os conceitos básicos: de cor, de espaço, de movimento, etc… Desses padrões básicos, transpostos para as zonas corticais superiores do cérebro, gerámos as correspondentes metáforas, que são os elementares conceitos que estão na génese dos raciocínios...

Curiosamente, apesar de partirem deste reducionismo que destrói o significado da maior parte da filosofia Ocidental e reduz o transcendental à mais completa das ilusões, os autores não levam esta sua visão da filosofia corpórea ao limite da total desconstrução da linguagem e do pensamento, enquanto sinais decadentes dessa ilusória transcendência existencial ou essencial. Distinguem-se, assim, de autores descontrucionistas mais pessimistas como Man ou Derrida.

Os autores também concluem que a filosofia analítica Anglo-Americana continua assente num padrão figurativo e representativo que é contraditório com a sua tese da origem instrumental da linguagem e do pensamento, mas acham que é possível corrigir este erro com uma permanente atenção e respeito pela evidência experimental. Em suma, Filosofia na Carne adopta um cândido lugar mediador entre os analíticos e os pós-modernistas, num optimismo que percorre toda a obra, começando logo na crença de que os padrões sensoriais e motores, apodados de metáforas primárias, podem “emigrar” para as áreas corticais superiores, onde se transmutam em conceitos abstractos.

Claro, esta noção de um conhecimento enraizado nos processos motoro-sensoriais, na experiência e vivência do corpo, exige uma postura céptica quanto a conhecimentos ou saberes essenciais, universais e intemporais. Longe vai já aquela Philosophia Perennis que, num quadro gnoseológico próprio e englobante, tentava fazer a síntese final, ou talvez a ponte, entre a Religião e a Ciência.

Mas esse é o caminho que traçou, desde o seu início, o veio principal da Filosofia Norte-Americana, nas suas diversas versões e autores… Insiste e persiste num materialismo reducionista, num racionalismo voluntarista e cientificante, talvez porque a Academia, reflectindo também a Nação que a sustenta, esteja receosa de abandonar ou de fracturar excessivamente o conjunto de fundamentos teóricos que lhe deram o domínio das Tecnologias, com as quais produz o aparato científico-industrial-militar que garante a sua supremacia mundial. Mas este juízo poderá ser considerado injusto por quem esteja atento à capacidade de diálogo e de contraditório que fermenta e cresce quotidianamente na cultura Norte-Americana. Tensões contrárias não são escondidas nem reprimidas impunemente… Pelo contrário, parecem alimentar e fortalecer a capacidade produtiva da Cultura Norte-Americana.

Não será de estranhar, portanto, que se mantenha vivo e se prolongue no futuro próximo o já velho conflito que percorre e agita as mais fundas bases dessa sociedade civil… De um lado, temos uma forte tradição Cristã, reformadora e evangélica, reavivada com os seus novos profetas, como Joseph Smith; do outro, a igualmente forte corrente ateia e materialista, herdeira do Voluntarismo, do Positivismo e do Materialismo Europeus. O debate, por vezes até assumindo formas violentas, vai percorrendo os vários temas em que se contrariam estas duas correntes de opinião. Uma das expressões presentes, e correntes, desse conflito é o debate e a luta política acesa sobre os conteúdos educativos das Escolas Públicas dos E.U.A… Assiste-se a uma guerra entre o Evolucionismo e o Criacionismo. E como a maior parte das Escolas é gerida por Cidadãos, sem predominar uma imposíção curricular definitiva do Governo Federal, o panorama de vitórias e derrotas é muito diversificado.

Lakoff e Jonhson escreveram um livro sério. Mas é bastante volumoso, o que requer um longo esforço de leitura. Os autores denotam uma intensa recolha de informação, um trabalho notável e organizado, que merece respeito e convoca todos os leitores, que queiram também ser interlocutores neste debate, a um patamar de dedicação e esforço profissional que fará parecer ridículas e imperdoáveis afirmações peremptórias ou meramente dógmaticas, argumentos de improviso apressado ou de oportunismo leviano, ou a ligeireza retórica de um senso comum mais atrevido que bem intencionado.

O livro exige uma leitura atenta, e só dentro de alguns anos assentará toda a poeira que levantou. Até lá, e sem essa leitura ainda feita, deixo aqui o aviso que este texto não pretende ser uma recensão dessa obra, mas apenas uma colecção bastante despreocupada de alguns comentários que o livro me sugeriu, na sequência da sua entrada no mercado.

Lakoff e Johnson querem fundamentar uma tese, ou um sonho, que está na base de todas as doutrinas materialistas – que a consciência humana é um epifenómeno, isto é, a consequência de um facto puro e duro, como tantos outros que, a cada momento, compõem o fluxo ininterrupto da actividade dos neurónios cerebrais, tal como ela aparece registada pelos sensores que captam os sinais electromagnéticos que evidenciam, físicamente, essa actividade.

Para fundamentar essa tese, os autores de “Filosofia na Carne” têm de tentar provar que a Lógica tem a sua origem elementar e simples em processos dos sistemas sensoriais e motores, e se um nexo causal indubitável for efectivamente estabelecido entre esse plano de ocorrências e os domínios do racional, então estará certa a perspectiva metafórica da linguagem e a natureza meramente figurativa e lúdica das palavras e seus conceitos.

Segundo “Filosofia na Carne”, entre o processo neurológico que está na origem da percepção de “amarelo”, e a experiência subjectiva que um qualquer sujeito terá de vivenciar para percepcionar o “amarelo”, não existe um qualquer nível independente, um esteio próprio do fluxo de verdade desse conceito, (ou doutros…).

Ou seja, como sempre se faz em sistemas de raiz materialista, nega-se a existência de Ideias; em Filosofia, porém, e como antes já referimos, ao mencionar Aristóteles, sabemos que essa negação é uma tese tão antiga como a sua contrária. Quando alguns Gregos afirmaram a existência de Ideias, já outros preferiam negá-la e propôr, alternativamente, elementos como o Fogo para gerar o movimento e as formas.

Um debate de sempre?

Sendo este debate, então, velho, no mínimo, de vinte séculos, estaremos agora mais perto de uma conclusão sobre esse dilema, ao sermos conduzidos pela escrita de Lakoff e Johnson?

Sem surpresas, (já que essa é, também, uma das atitudes recorrentes da mais funda matriz filosófica anglo-americana…) Lakoff declara-se um pragmatista; delimita a sua metafísica ao exercício de uma universal necessidade de conceptualizar. Conceptualizamos, sempre que tal é necessário, para sobreviver!

« O que denominamos “real” é o que precisamos de criar, conceptualmente, a fim de atingirmos com sucesso a sobrevivência; o nosso objectivo são os conhecimentos que nos assegurem a compreensão das situações que nos rodeiam.»

É assim, diz Lakoff, que avançamos para o combate pela sobrevivência - armados com esta capacidade que é tanto fruto do engenho individual gerado pelo processo genético, como do longo processo cultural em que somos educados. E, na medida em que temos sucesso e vamos sobrevivendo, vamos continuando a repetir incessantemente esses mesmos processos, o educativo e o genético, assim acumulando e aperfeiçoando instrumentos e estratégias, num percurso milenar que concretiza a sequência evolutiva das gerações.

É este valor pragmático das ideias que limita as consequências, possivelmente negativas, pessimistas e destrutivas, do relativismo e do cepticismo inerentes a “Filosofia na Carne”.

Um cepticismo optimista

«Filosofia na Carne» preconiza um cepticismo optimista; por um lado, avança com uma nova versão da máxima “O homem é a medida de todas as coisas”, que reduz a: “o corpo do homem é a medida de todas as coisas”. Dificilmente poderíamos encontrar uma base mais simples e redutora para o possível exercício do conhecimento… Mas ao realçar o critério universal da “sobrevivência”, que a Teoria da Evolução eleva a axioma máximo, como uma finalidade escatológica para a qual a verdade, os conceitos, os raciocínios, a moral, contribuem positivamente, Lakoff afasta-se do cepticismo total, que retira qualquer validade ou coerência ao conhecimento humano. A verdade, na sua origem, é um produto da nossa actividade sensorial, motora e mental; mas impõe-se e subsiste como critério cujo valor advém da sua eficácia em ajudar os seres humanos a sobreviverem enquanto seres vivos no Planeta Terra. Tal verdade não é, portanto, uma função arbitrária, incoerente, ilusória; antes possui um alto valor pragmático, mas é uma verdade totalmente idiossincrática da espécie humana.

A Inteligência Universal, portanto, não existe! O diálogo com alienígenas, que a cultura popular cinéfila difundiu em muitas versões, como no filme Contacto, de Carl Sagan, também ele um notável Reducionista Americano, torna-se impossível, ou altamente improvável. Ficam também em causa os fundamentos da Inteligência Artificial, se concebida esta como capaz de substituir ou replicar a Inteligência Humana. Fica igualmente sem sentido a possibilidade desta Inteligência ser cedida a outras espécies, de forma altruista.

Ao longo dos parágrafos da terceira secção do livro, Lakoff e Jonhson tentam mapear todos os domínios conceptuais corpóreos onde começa e se estabelece o elo metafórico dinâmico que estrutura os padrões de inferência de onde produzimos até as mais abstractas especulações e transcendentais teses filosóficas; percorrendo díspares períodos da história da Filosofia, desde os Jónios a Platão e Aristóteles, passando por Descartes e Kant, esses parágrafos são um consistente e sugestivo percurso hermenêutico, assente numa erudição irrepreensível.

Mas não podemos deixar de levantar a dúvida: não estamos aqui, novamente, perante o simplismo reducionista, no seu melhor, quando se afirma, por exemplo, que o sistema Cartesiano pode ser mapeado a meia dúzia de metáforas desenvolvidas a partir da visão…???

Por outro lado, embora queiram refutar a Filosofia Analítica e, como tal, neguem que a estrutura do pensamento derive da estrutura da linguagem – decerto uma das teses fundamentais dessa escola - Lakoff e Jonhson acabam por confiar quase exclusivamente em elementos linguísticos para elaborar as suas teses e respectivas peças probatórias. Ironia do destino? Ao atacarem, de forma quase demolidora, a filosofia analítica e formalista, que consideram, sem surpresas, como o oposto da “filosofia na carne”, ou o oposto do saber gerado pela mente corpórea, os autores vão zurzindo o porco… com o seu chouriço.

Mas que o livro é interessante, e que o debate multidisciplinar sobre as raízes causais da actividade cognitiva e a inserção da mente no corpo irá prosseguir de forma intensa, não tenho dúvidas… A vasta bibliografia disponível sobre estes temas aí está para o provar, e não pára de crescer…

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