A Física, depois de Einstein, e as suas consequências na Filosofia


“It follows from our physical experience that an object can not have two positions at a given instant of time. In other words, an object can not simultaneously be at two positions.”

“Da nossa experiência física concluímos que um objecto não pode ter duas posições distintas num dado instante de tempo. Por outras palavras, um objecto não pode simultaneamente estar em duas posições diferentes.”

A nota acima é extraída de um Curso de Física de uma universidade norte-americana.

A metafísica nasceu do facto de o pensamento e a linguagem integrarem a negativa. Podemos afirmar e podemos negar. A metafísica é a compreensão das consequências e implicações da negação de palavras, termos ou conceitos com que nomeamos todos os entes e a sua respectiva actividade, que em conjunto compõem aquilo que é chamado “a realidade física”. Em suma, há metafísica na medida em que podemos dizer “nada” e “não-ser”.

A citação acima apresentada é sugestiva… Ela parece exprimir o óbvio, uma exigência ou imperativo do ser, tal como ele nos parece apresentar-se na “experiência física”. Um “objecto” não pode estar em dois locais diferentes no mesmo instante. Ora, a metafísica diz-nos que há ubiquidade, que ela é possível…. Ao contrapor-se à “realidade fisica” tal como ela foi cientificamente descrita desde Galileu e Newton, a Metafísica manteve em aberto, mesmo contra as acusações de superstição ou ilusão, o movimento e a dúvida que libertam o homem para outras dimensóes possíveis do Ser, que não apenas o ser enquanto objecto físico; o exercício de libertação pela dúvida foi magistralmente exemplificado por Descartes, que assim chegou ao limite da «phisis» e, perante o nada, reconheceu o metafísico “cogito”.

Esta citação é proveniente de um Curso de Física da Relatividade, curso em que a própria Física, abandonando os conceitos de tempo, espaço e repouso absolutos, em que assentavam as teorias de Newton, assume uma nova constante universal e absoluta, a velocidade da luz, e consequentemente absolutiza o movimento, colocando todos os seres em posição relativa uns aos outros, porque todos estão em movimento, em posição indeterminável e indeterminada fora dessa relação.

No entanto, essa relatividade referencial pode usar o truque de simular sistemas inertes de coordenadas, supostamente estáticos, para fazer medidas e quantificar distâncias. O truque reside em que dois objectos (ou mais) que se desloquem à mesma velocidade podem convencionar entre si que estão imóveis (em relação uns aos outros). Isto tem sido feito desde sempre, implicitamente, por todos os que habitam o Planeta Terra e se movem em conjunto à mesma velocidade; esta árvore e aquela, dizemos nós, estão paradas, e a distância ebntre ambas mantem-se inalterada…

Além disto, não sendo a velocidade da luz infinita, a ubiquidade é recusada pela Relatividade, uma vez que as viagens no tempo, que são teoricamente possiveis e concretizariam a ubiquidade, não são exequíveis na prática, por não se conhecer combustível que permita a um qualquer objecto físico atingir suficiente aceleração para ultrapassar a velocidade da luz. Como tal, e ainda longe da radical transformação teórica que a Física Quântica veio propôr, a Relatividade, de forma algo surpreendente, reafirma o princípio do terceiro excluído. Cada objecto, em Física, tem que estar num só local, em cada instante mensurável de tempo.

Já não se passa o mesmo na Metafísica…

Convém aqui lembrar que a metafísica foi amplamente “invadida” por temas e vivências da histórica expansão das Religiões Monoteístas e Criacionistas. Deus, os Atributos Divinos, a Criação, o Paraíso, a Ressurreição ou Imortalidade da Alma, o Espírito, e muitos outros tópicos vieram animar o palco metafísico, trazendo consigo alguns parentes mais ou menos afastados ou tardios, como Cabalas, Alquimias, Gnoses, magias e esoterismos de vários tipos.

Este panorama não deixa de parece confuso, denso e assustador, tanta a profusão de acontecimentos históricos e intensíssimas participações no “drama metafísico” que se desenrolou na sequência desta “invasão”... Mas também não podemos deixar de reconhecer que, indiscutivelmente, se tratou de um enredo empolgante…

Porém, em última análise, temos de concluir que esse lastro, proveniente da religião e da magia e acumulado durante séculos, constituiu um pesado fardo posto às costas da Filosofia, já que identificou o amor ao saber com o amor ao divino, e o divino com a verdade do ser, e dificultou assim um exercício mais filosófico, mais liberto e desinteressado das implicações imediatas e mediatas das manifestações de religiosidade, de mística ou de poética. Ficou mais sinuoso e íngreme o caminho filosófico, o caminho daqueles que pretendiam encontrar, finalmente despidos das vivências emocionais e das garras da dependência, os princípios e conceitos que se perfilam na “philosophia perennis”.

Foi para esvaziar esse fardo, para recuperar uma visão mais clara e um caminho menos tortuoso para o saber que, na época chamada das Luzes, se realizou um conhecido processo de secularização da Filosofia, com o qual teve início a chamada Filosofia Moderna.

 


Relançando o problema do conhecimento humano desde as suas raízes mais simples e atentando, cuidadosa e detalhadamente, no método que levaria à elaboração dos seus teoremas, os filósofos deram mãos à Ciência e afastaram-se, suspeitosos e entristecidos, senão mesmo revoltados, dos exaltados crentes das religiosas realidades metafísicas, outrora reflexivas, agora dogmáticas, outrora iniciáticas de uma sabedoria individual, agora operativas da humana colaboração com a Obra Divina e, em tal exaltação, vividas com excesso de sangue, suor e lágrimas.

Excesso, claro, repita-se, se medido do ponto de vista daquele filosofar acima referido, que requer um modus faciendi mais plácido, mais contemplativo, que propicie uma progressiva lucidez intelectual capaz de visionar as translúcidas e fugazes ideias universais, se elas existirem, ou, caso não existam, capaz de visionar as ainda mais fugazes e instáveis relações mentais que ordenam as impressões sensíveis...

Certamente que a Razão, ou até mesmo essa visão intelectual mais descarnada e etérea, noética, está assente num coração que pulsa com a vida… Quem o negaria? Mas, se nada obsta a que o coração possa ser santo, e que para tal percorra o curso dos mistérios religiosos com suas exigências de sangue e água benta, indubitavelmente se prefere que seja livre. A liberdade, para um verdadeiro filósofo, não é negociável… Ora, a liberdade dá-se mal com um Corpus Dogmaticus (não tanto com a fé, que, a ser verdadeira, não é escrava senão do Absoluto e a escravidão para com O Que Não Tem Limites é certamente a máxima libertação possível de tudo o que é limitado e limitante…), e assim se percebe e concede razão àqueles que realizaram a secularização operada pelas Luzes.

O filosofar que não é inspirado ou confrontado com os conhecimentos científicos e as sabedorias ou tradições perenes perde de vista os terrenos da comum caminhada dos homens e torna-se num exercício de excessiva solidão teórica e reflexiva. Essa solidão pode arrastar o filosofar para um transcendente potencial, desvio ou refúgio esquizofrénico da quotidiana dimensão da vida laboriosa, repetitiva e mesquinha.

A Física, quer por conceitos, quer por teorias, sempre condicionou e modelou diversos temas filosóficos, ideológicos e políticos. Podemos constatar que, com a aceleração exponencial da moderna investigação científica, a Física ganhou uma dinâmica que conduziu a profundas alterações conceptuais e teóricas, verdadeiras revoluções, como a que foi operada por Einstein no annus mirabilis de 1905. Tais substanciais alterações não foram, de imediato, integradas pelas áreas humanistas do saber, que se mantiveram num percurso de inércia, assente em conceitos que tinham bebido da Ciência e esta mesma havia já ultrapassado.

O Marxismo será o exemplo mais flagrante, e o mais patético, uma vez que esta doutrina sociológica impôs em muitas sociedades o que parecia ser uma ideologia de sonho que, em pouco tempo, passou ao pesadelo de práticas políticas opressoras. Durante um período de várias décadas essa ideologia exerceu um apertado domínio das mentalidades, perpetuando-se assim no poder muito para além da época em que foi feita a total refutação dos seus fundamentos teóricos e “científicos” (de que tanto se orgulhara…).

Não custa perceber que o Marxismo assentou num historicismo profético e imperativo, totalmente apegado à física Newtoniana, crente e dependente do mecanicismo e seu associado princípio da inércia, que inspirou a tese da mecânica confrontação entre as classes sociais, crente e dependente do movimento uniformemente acelerado, modelo do progresso incessante e crescente que as sociedades socialistas empreenderiam, necessariamente, cientificamente, a caminho da libertação final. O Marxismo foi ignorante e avesso à “revolução Einsteiniana” e à Física Quântica, e a outras iguarias desenvolvidas pela Física do século XX que, desafortunadamente para todos os seus crentes e até fanáticos, vieram directamente contradizer os mais básicos pressupostos e fundamentos metafísicos da doutrina congeminada por Karl Marx.

Indiferente, porém, a esta revolução da Física na primeira metade do século XX, o Marxismo continuava assente no já caduco paradigma que tinha sido instituído pela revolução da Física Mecanicista. Totalmente reféns do seu próprio dogmatismo ideológico e das suas inabaláveis “certezas científicas”, assim desarmados e incapazes de evoluir e escapar aos ditames da Nomenclatura, os empenhados e combativos Marxistas não perceberam que as alterações radicais da Física, introduzidas por Einstein e companheiros logo nos primeiros decénios do século, iriam constituir uma letal ameaça para o desenvolvimento da sua ideologia e o sucesso das suas políticas.

Essas alterações, porém, seriam o claro prenúncio (para quem tivesse a inteligência de ler os sinais…) da inapelável corrosão dos fundamentos teóricos do Imperial Finalismo Comunista, que tão fértil solo encontrou na Ásia das não menos Imperiais Mãe Rússia e Grande China. Esse lento mas progressivo esboroar veio a culminar, históricamente, na derrocada do Muro de Berlim, a vistosa expressão territorial e mediática do fim de uma era ideológica ...

Verifica-se, pois, que as alterações ocorridas na Física a partir de 1905 não levaram menos de cinquenta anos a fazer-se sentir na cultura e na mentalidade das sociedades e das pessoas, mesmo nos países onde essa Física mais se divulgou e ganhou prestígio.

Se Lawrence Durrel, não antes de 1957, ao iniciar a publicação do famoso «Quarteto de Alexandria», foi o primeiro romancista a reclamar que essa sua obra literária fora escrita, pela primeira vez na História da Literatura, segundo o paradigma da Relatividade, o padrão quadrimensional do continuo espaçotempo, com três livros espalhando o enredo pelo espaço, e o quarto introduzindo o avanço no tempo e se, ainda hoje, cem anos depois da Relatividade, filmes como «Matrix» são lançados, com sucesso, no mercado, não parece que tenho alguma razão?


Lisboa, 20 de Abril de 2007

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