O que é a lógica?


Assim, de uma forma directa e inesperada, me interpelou uma vez numa tertúlia alguém que sabia muito mais do que eu. Preocupava-o (creio) que estivéssemos falando de uma coisa sem realmente a compreender. Não me recordo do que na altura disse, mas creio que terei defendido que a lógica é, em última instância, ontologia.

Muitos anos passados, respondendo ao convite, que muito me honra, para colaborar na «Homo Viator», retomo o tema.

O que é então a lógica? E porque é esta questão importante?
Não existe propriamente uma definição académica sobre o que seja a lógica. Em primeiro lugar, tal deve-se ao facto de não haver, entre diferentes escolas de pensamento, um acordo acerca do “objecto” da lógica (o pensamento?, as regras do raciocínio válido? as condições de possibilidade do conhecimento? a realidade?). Mas, se nos posicionarmos num plano ainda anterior às decisões das escolas (ou sistemas) quanto ao problema (realismo, idealismo, nominalismo, epistemologia), verificamos uma outra coisa: é que a definição é desde logo uma forma ou expressão do tipo de pensamento lógico. Adiante desenvolveremos um pouco mais este ponto.

Lógica vem do grego logiké epistéme, a ciência do logos. O logos, que normalmente traduzimos por palavra, significa igualmente falar e ainda dizer, de um modo de específico. O modo de dizer próprio da lógica é o logos apofânticos, que significa “a palavra que mostra”, que diz o que algo é, o enunciado. O logos na filosofia é o logos que predica, o logos que afirma algo sobre uma coisa.

Recuperando agora o que dizíamos atrás, a definição (o dizer que uma coisa é ou se caracteriza por outra) é portanto já uma forma do pensamento lógico. Quem primeiro desenvolveu este tipo de pensamento, por definições, propondo a lógica discursiva enquanto método foi Sócrates, que procurava as definições e os universais.

Sendo um modo da linguagem (e do pensamento) que privilegia, por exemplo e entre outras operações mentais, a predicação, a afirmação e a definição, a lógica distingue-se de outras atitudes possíveis perante a realidade (e outros usos da linguagem): dos mitos, da religião, da poesia, da mística, das iniciações tradicionais.

É curioso que a “lei” positivista dos três estados de August Comte tenha sido recuperada pelas correntes espiritualistas do início do século XX. Muito embora valorizando de forma inversa à de Comte os diferentes estados, os espiritualistas também se referiram a um estado metafísico, seguido de um estado religioso, a que por sua vez se segue um estado racional. Os diversos estádios (de evolução) caracterizar-se-iam pelo uso de diferentes capacidades ou órgãos de percepção. Por exemplo: a clarividência, no estado metafísico, a profecia no estado religioso e a razão na nossa época.

A razão, em sentido maximamente próprio, é o pensamento humano, o pensamento lógico. E é por isto que a pergunta àcerca da lógica e a sua essência tem a maior importância.

Mas se a lógica é: a) uma forma particular de usar a linguagem; b) a ciência das regras válidas do pensamento, determinando, de forma necessária, quais os raciocínios válidos e quais os que enfermam de vícios; c) em sentido mais abrangente, a ciência do próprio pensamento – da nossa forma actual de pensamento (algo que em Kant tem o seu corolário na lógica transcendental); por outro lado a questão acerca da essência da lógica conduz-nos à questão do ser.

A lógica procura nas formas do dizer e nas formas do pensar, o conceber, quer dizer as formas pelas quais a realidade se manifesta, se esconde e se actualiza. Procura o que permanece para lá da mudança ou devir (e a este princípio imutável e organizador da realidade chamou Heraclito precisamente logos). A lógica procura a essência para responder, em termos propriamente filosóficos, à questão do ser.

Quer a dialética de Platão quer o organon de Aristóteles se reportam à questão do ser. Aristóteles ensina na Metafísica que o ser se diz de vários modos, tendo dedicado a sua vida ao respectivo estudo e explanação. Por outro lado, os princípios mais gerais da lógica, a saber o princípio de identidade, contradição e princípio de razão suficiente ou causal (aos quais alguns acrescentam o princípio do terceiro excluído, ao passo que outros o consideram subsumido nos dois primeiros), parecem universalmente invioláveis e estruturantes de toda a realidade.

A lógica, na linha de pensamento que proponho, vai-se assim (re)ligar à ontologia. Penso que era esta a orientação fundamental dos gregos antigos e também dos medievais, da qual acabámos, por razões que aqui não podemos senão enunciar de passagem, por derivar.

Entre as razões que a história da filosofia enuncia para tal ter acontecido, figura seguramente a crítica kantiana, que postulou a impossibilidade da lógica como ontologia, mas que em si mesma reflectia já uma deriva, uma perda do sentido original da questão do ser.

A enorme dificuldade que se apresenta à lógica – ao nosso pensamento – é, no processo de abstracção, não tornar a sua expressão numa coisa abstracta, numa construção convencional, sob pena de decair numa mera série de enunciados que se repetem e encadeiam, de construções formalistas ou, na pior das hipóteses, sofísticas, castelos no ar como no fundo catalogou Kant quase toda a metafísica que o precedeu.

A filosofia, com as asas da lógica, procura o universal, as formas e as ideias que actualizam e explicam o real, mas não raro o resultado a que chega são palavras vazias e não conceitos realizados. O universal que o pensamento encontra, acaba muitas vezes por ser o mínimo denominador comum, a generalidade que não é género, um conjunto vazio, uma extensão sem profundidade.

O porquê de assim acontecer e como tal se evitar, são problemas magnos da filosofia, que tocam o insondável e o mistério. Baste-nos por agora dizer que o logos remete para a essência do homem – o quem ou o si-mesmo, diz Heidegger – como ensinava já o portal de Delfos. O facto deste movimento de conhecimento do si mesmo exigir uma atitude re-flexiva, desde logo aponta para uma cisão e indica que, por defeito, o homem está fora de si mesmo.

Evitar cair num nominalismo moderno, num idealismo formalista e sem ideias continua, não obstante, a ser o maior desafio que a filosofia enfrenta. A mentalidade humana, devastada ainda pelo relativismo moral contemporâneo, dominada por uma imagem do mundo feita de exterioridade que as ciências físicas construíram, enfrenta hoje o vazio, o impasse, o desespero.

À filosofia requer-se que seja capaz de apreender significações cada vez mais abrangentes mas também cada vez mais profundas. Isso pressupõe um grande domínio do logos e exige não apenas a palavra certa, mas a ponderação do factor tempo. A mesma palavra, dita no tempo certo – o momento – pode significar tudo, dita fora de tempo, fora do ritmo, fora de escala, torna-se numa banalidade. A lógica, bússola ou rosa dos mares sem a qual nos perdemos no grande mar do ser, é o caminho que temos que trilhar para restaurar a integralidade do homem.

A filosofia, cremo-lo, faz-se na interioridade do nosso pensamento mas também numa cultura, no seio de uma língua, de uma tradição e de um culto. É verdade que, ensinam os mestres das viagens, ao nos aproximarmos do fim – ou do princípio – de todas as coisas, a palavra vai calando. Mas até lá há muito a dizer.