Todos nós, os da «Leonardo»

(Editorial de apresentação da revista, na sua publicação "on-line")

Leonardo é uma iniciativa da mais nova geração da Escola da Filosofia Portuguesa, tradição poética e filosófica que se iniciou com Sampaio Bruno e formalizou num «organon» principial com Teixeira de Pascoaes e Leonardo Coimbra na Renascença Portuguesa.

Depois, surgiram os continuadores, com a geração de José Marinho, Álvaro Ribeiro e, mais tarde, Orlando Vitorino, que desenvolveram a doutrina e sistematizaram as teses. A geração dos mais velhos está ainda representada por António Telmo e Pinharanda Gomes, que nos garantem o magistério da palavra e a iniciação numa tradição que tem vindo a aperfeiçoar a expressão poética e filosófica.

Pertencer à geração da Escola da Filosofia Portuguesa exige um compromisso espiritual: é de sua livre opção que, todos nós, os da «Leonardo», aceitam conviver em tertúlia segundo o magistério que vai de mestre a discípulo e que caracteriza a iniciação filosófica e literária assegurada sem interrupção, desde há 150 anos, ao longo das sucessivas gerações.

Todos nós, os da «Leonardo», ouvimos a palavra de viva voz de mestres e o que nos distingue é sermos heterodoxos e livres na exegese e na hermenêutica. Todos nós cumprimos os requisitos que nos foram transmitidos por Álvaro Ribeiro, necessários á compreensão da filosofia portuguesa: acreditar em Deus e possuir, de alguma forma, formação esotérica.

A ideia de Deus é um aspecto decisivo para a filosofia, porque dela deriva a própria finalidade teleológica do pensamento e da razão. A filosofia há-de sempre conceber uma teologia para que o real da sua virtualidade se determine e exista, pela Verdade, no pensamento. Assim se reconduz o mundo ao Espírito.

À filosofia portuguesa corresponde uma teologia segundo a matriz judaico-cristã e antigos arquétipos.

Todos nós, os da «Leonardo», cumprimos em diverso grau o segundo aspecto. O esoterismo não é ocultismo, nem se confunde com a paixão oriental. A operação é racional, ordinal e o teorema desenhável. O movimento é íntimo, individual e necessário à autognose. Sem tradição, ou seja, o que nos vem da herança, perde-se a razão da palavra e do verbo e inveja-se a ordem no mundo.

Não se compreende o que se ouve, nem se sabe o que se diz. A filosofia exige iniciação, mas não é coisa de iniciados. Os seus princípios são universais e gerais e todos os homens deles participam ou podem participar. Acontece que muitos são apenas espectros humanos (escreveu Leonardo Coimbra: "esboços de alma") porque não querem, não podem ou não sabem ascender à razão teórica. Só por isso, a filosofia não é dada a todos os homens.

Na primeira série da «Leonardo», em 1988, afirmámos que a existência da filosofia portuguesa tinha sido demonstrada e que essa discussão já, ao tempo, era anacrónica. Hoje, afirmamos que já não é adequada a designação que em 1957 foi atribuída a esta tradição filosófica e poética pela cultura institucional: "grupo da filosofia portuguesa", classificação que serve vários "index" e tenta diminuir o mais profundo e sério movimento cultural ao estatuto de seita.

Nos nossos dias, a filosofia portuguesa é uma instituição. Significa que tem um conjunto de ideias, conceitos e noções que derivam de princípios que, diríamos, são constitutivos e determinantes de um ideal de Pátria. A Pátria é uma entidade espiritual, eterna e transcendente ao movimento geracional. Ninguém pode decretar a sua dissolução.

A filosofia portuguesa forma um escol de poetas e filósofos que são alguns dos que firmam a Pátria no futuro.

Hoje, a filosofia portuguesa é a única escola de filosofia e caracteriza-se por ser completamente inútil para a vida quotidiana. Também é cada vez mais boçal e desadequada a expressão «filosofia nacional».



 

A filosofia portuguesa refere-se a uma entidade espiritual, como demonstra até aos nossos dias a sistematização das suas teses. Álvaro Ribeiro fazia corresponder a filosofia portuguesa ao Quinto Império. A Nação tem uma conotação matricial, orgânica e sujeita às vicissitudes das gerações de portugueses, como o demonstra o próprio direito que atribui a nacionalidade.

A Nação será a Mátria, uma realidade que é sentimental, sensitiva e que apaixona. Estrangeirados são os que pensam em português, em vez de pensarem português. Justifica-se deste modo que possam ser nacionalistas, mas sem autenticamente serem patriotas. A esses, basta-lhes o bilhete de identidade!

Os novos têm as ideias dos velhos e os velhos as ideias novas. A proximidade do fim e a ausência de esperança não permitem entusiasmar os mais novos com a ideia pátria. A tentação dos intelectuais é fazer corresponder ao Outono da vida a dissolução de Portugal como Pátria, Nação e Estado. Os ateus e zangados com a Vida, preferem viver no passado perfeito e negar os nossos dias. De uma forma ou de outra, todos vêm em Camões o arquétipo do herói. A sua morte é o fim da Pátria.

Já estão descritas as razões da decadência de Portugal, expostas por sucessivas gerações de poetas e filósofos. E como lembrava Pascoaes, Portugal é o país do Outono. Não obstante, o ideal pátrio tem uma escola peripatética e sem lugar certo. A virtude da esperança garante a sua transmissão para além das vicissitudes próprias de cada geração e da expressão de cada tempo. Não somos os únicos, nem os últimos.

Portugal, como Estado, vive tempos díficeis e está dominado por uma oligarquia que se vai perpetuando no governo da coisa pública. Hoje, o Estado não promove a Justiça, nem a Liberdade e tende a introduzir-se em todos os domínios da vida individual e social. É intervencionista apesar de o «Estado providência» já ter demonstrado a sua falência pela teoria e pela prática. Entre os dois únicos sistemas possíveis, o socialismo e o liberalismo, a oligarquia escolhe o primeiro, esquecendo que o segundo é o modo natural de os homens viverem em sociedade e que os homens nasceram para serem livres, vários e felizes. E tenta fazer da democracia uma deusa, quando desde a Antiguidade se sabe que as sociedades vivem segundo formas mais ou menos degradadas e simultâneas de democracia, a aristrocracia e a monarquia. Hoje, vivemos governados por uma ditadura oligárquica e, sempre, por um monarca, cujo nome se ignora.

A existência de Portugal como Estado tem ainda outro desafio. É necessário conceber um texto constitucional que consagre os princípios, cuja estabilidade corresponda à eternidade da Pátria e que enunciem a existência de Portugal como Pátria, Nação e Estado. Em 1988, afirmámos que quem não acredita em Deus não deveria tratar da Constituição. Hoje, repetimos o mesmo apelo. Podem analfabetos e estrangeirados dar expressão estável e essencial a uma entidade espiritual? A Constituição deve firmar um ideal e conter os seus elementos constitutivos. É a garantia da soberania do Estado. Será um contra-senso admitir que outra «Lei Fundamental» se lhe sobreponha, a menos que se tenha a dissolução do Estado por finalidade.

A existência de Portugal como Estado está também em perigo por outras razões. O preconceito está enraizado também por influência religiosa. As igrejas que obedecem a sedes estrangeiras não contribuirão para a ideia da dissolução de Portugal como Estado? Outra interrogação: é a teologia portuguesa contrária ou contraditória à teologia cristã?

A tradição portuguesa do Quinto Império indicia uma outra exegese do Cristianismo em harmonia com a teologia dos filósofos e poetas. É uma espiritualidade que, como escreve álvaro Ribeiro, «faz a apologia dos elementos revelados para que as desenvolva das contingências linguísticas para se formularem com precisão dogmática».

A filosofia portuguesa, que doutrina, desde a sua primeira e original intuição, a Liberdade e que faz dos seus filosofemas o «orgão da liberdade», segundo a expressão de Leonardo Coimbra, terá que pensar e enunciar a nova condição humana, sob o risco de toda a existência ser sempre pensada de acordo com as finalidades da filosofia moderna, cujas consequências conduzem ao fim do mundo, caso delas o mundo dependa.

Em Lisboa, a 4 de Abril de 2007, às 00:51:14'