O Lugar dos Solitários


Nota de introdução:
A Escola de Filosofia Portuguesa é o lugar de solitários, disse o autor deste texto na conferência «Filosofia Portuguesa hoje»que decorreu na Biblioteca Municipal de Sesimbra no dia 24 de Novembro (2007). O orador suspeitava que as suas palavras o deixariam ainda mais solitário. Assim foi: ao silêncio sobre as interrogações a propósito da nova geração da filosofia portuguesa sobreveio o argumento ad hominem, num estilo pouco comum no debate de ideias. Hoje, o autor dedica as suas palavras a Álvaro Ribeiro e Orlando Vitorino.


«O tolo é como préstito infindável
De fantasmas e deuses. Lá vai êle,
No sítio mais exposto aos inimigos.
É a labareda efémera, afrontando
A eterna escuridão, o eterno frio.»


Teixeira de Pascoaes

Convoca á oração alguém que, sublinha o poeta, não merece resposta de animais, entre os quais jumentos, nem de ecos fantásticos. Porque o tolo nada diz ou sabe dizer e, se acaso, dos presentes alguma compreensão há, vantagem levam sobre quem, vivendo na eterna idiotia, sentado na ponte, ignora e não compreende. Tendes pois, perante vós, um tolo de oratória rarefeita que, não obstante desconfiar que as palavras têm peso, conta e medida, tem por certo que nada Vos dirá. Em boa verdade, são palavras sem hipótese de eco no Firmamento e os mais atentos sabem, que não passam de sons pouco razoados e imperceptíveis.

Nesta solidão pasmada, e a Escola da Filosofia Portuguesa é o lugar de solitários, dirijo-me a Vós na perfeita convicção da minha idiotia e com a certeza que as palavras se dissolvem no silêncio, talvez ensurdecedor, e me deixarão ainda mais solitário. Pensar tudo desde o princípio, ou para a ele volver, sem grilhetas, eis o que importa. No espanto, não cabe cultura, religião ou história. A liberdade é heterodoxa ou não é.

Ah! Que temor causa o radical princípio de identidade!

Sem ele não se nomeia, predica ou atribui. A ortodoxia dos princípios é coisa de idiota. Estranho destino da virilidade da arte de pensar que não se envolve nos enredos das coisas demoníacas.

A beleza, a verdade e a bondade, são os princípios da filosofia que o tolo contempla, alheio aos que procuram retirar-lhes a primazia na arte de pensar e negá-los segundo valores morais, religiosos e sociais.

Dói-lhe a ilusão do espírito! A decadência do pensamento, triste fim!, pressente-se nos que deturpam o preceito ético da interrogação, na pergunta de exigência probatória. Em redor, versões dos mesmos quadros mentais, imitações do mesmo espírito maligno, degladiam-se ou fingem fazê-lo para proveito dos inocentes, caricaturas ou esboços de almas, conforme o poeta e o filósofo. O tolo interroga-se sobre o paradeiro dos homens libertos, dos quais apenas tem a obscura, a indecisa e a difusa impressão.

Os mais antigos afirmam o primado da filosofia sobre os outros modos de saber, e a necessidade de saber mostrar, ou seja, de fazer ciência. O que se mostra são ideias, conceitos e teses. E ele, tolo desde sempre, procura um lugar no mundo, talvez porque ainda não seja quem cisma na ponte. O método é a íntima e inviolável demanda através dos seres e das coisas, da inferência que evidencia o universal.

O que temos? Uma filosofia portuguesa, imagem da Pátria, que uns tantos convenientemente classificam como filosofia nacional, para a deturpar, quiçá negar, sob forma socialista, o nacionalismo, ao jeito dos anti-patriotas; os que confundem a morte dos filósofos com a morte do pensamento e esquecem a memória presente, actual ou actuante, e sobretudo, o carácter principial do pensamento, através do qual, os filósofos se reconhecem desde o princípio do mundo.

O tolo canta almas penadas e, acreditem, bem tenta enunciar a tese, segundo a qual, a filosofia portuguesa é uma escola, um escol, um sistema; nos seus cantos, a alegria suicida-se e bem adverte que não basta haver escritores, mais ou menos dotados, mais ou menos poéticos ou religiosos, metafísicos ou místicos, ocultistas ou esotéricos, para que se firme a filosofia portuguesa.

O tolo exalta-se e grita: «Creio em Deus! E creio na alma eterna!» E cisma! Cisma na eternidade do mundo que, por momentos, se deduz do pensamento que penetra a realidade e acorda a existência.

O tolo observa que, em seu redor, se fala mais de Deus do que do Espírito, palavra arredada da conversa, como que a indiciar que mais importa a religião do que a filosofia, a prova de amor do que o amor gratuito, a consciência gregária do que o princípio de individuação.

Um dos que sabem, diz que a filosofia é órgão de liberdade; outro, sublinha que a liberdade é a própria actividade do espírito; finalmente, um terceiro, retira a conclusão e afirma que o liberalismo, que se deduz da filosofia portuguesa, é o modo natural do homem viver em sociedade. O sistema da liberdade é o hábito do homem. O liberto depende da posição de saber que almeja.

Ainda falecem protestos na alma do tolo: fascista! Reaccionário! Extrema-direita!. O que diz um tolo? O que sabe ele sobre isso? Nada!
É um princípio passível de direita ou esquerda? De nada depende o princípio e tudo a ele se ordena.

O Tolo nada tem ou possui, muito menos a liberdade, o pensamento ou o saber. Mesmo o que se determina em liberdade, no fugaz instante, cristaliza-se na memória originária e inédita que se desoculta pela finalidade. A liberdade não é origem da necessidade, devaneia. Sussurra-lhe o poeta: «amas a realidade, porque, enfim, vês a substância eterna que se eleva, cá fora, em claras formas».

Na ponte, onde ainda remotamente se senta, o tolo espanta-se com a razão animada que é. Corpo, alma e espírito, sublime tríade que potencia o animal racional ao logaritmo da propriedade.

No deslumbre, por vezes perplexo ou delirante, no assombro do relâmpago, o idiota ama a inteira humanidade num só abraço.

As vestes da aparição são ainda teoremas, desenho da adivinha. O tolo enuncia palavras que revelam a mais séria nudez e cumprem a promessa do pensamento sófico. O corpo de Sofia é já só Verbo amoroso, que se descobre é imaginação e alimenta o desejo. Por fim, devassa o céu para, no infinito, sondar a imperfeita capela da sua alma.

A língua é a gramática da Pátria e sem filologia não há filosofia, para lembrar a esquecida tese que relaciona o teorema da cabala a as categorias aristotélicas. A boa nova é o anúncio de uma filologia, não já de gregos ou romanos, mas portuguesa! ponto sólido do sistema, escol ou Escola da Filosofia Portuguesa.

A iniciação, autognósica, far-se-á segundo a idealidade da escola formal. Tudo o resto é obstáculo ao movimento que vai da alma ao espírito. E há ainda os que apenas ficam na sombra e discutem o obstáculo, sem desconfiarem que a sombra é ausência de luz.

O espírito não se licencia, nem carece de autorização de seita, associação, sociedade ou ordem. A tradição é a palavra, acto de razão, e todos a ela têm acesso. Tudo o que há a saber pode-se saber e a todos é dado. A inteligência determina o grau de saber, visão ou teoria.

O poeta lembra-lhe, por vezes, que se acende uma discreta claridade, mas o tolo vê o desmaio da luz, na branca sombra do esquecimento.

Mais uma vez, o tolo é arrebatado pelo capricho delirante: sendo o movimento filosófico e poético que mais revistas originou na nossa cultura, porque se reduz a filosofia portuguesa a três (Águia, 57 e Teoremas de Filosofia), das quais só as duas primeiras desenvolveram teses e retiraram a consequente idealidade para a Pátria (e portanto, foram órgãos de filosofia)? Porque é que os filósofos que maior rigor e precisão imprimiram, ao pensamento e á expressão filosófica na língua portuguesa, sofrem a pena do silêncio, ao jeito de assassínio? Porque se pretende afirmar que a Escola de Filosofia Portuguesa não foi capaz de ter dado origem a 57 obras de filosofia, mas diversamente, a livros de história, religião, simbologia, poesia, esoterismo, divulgação cultural ou teses universitárias? Porque se esquece um filósofo que desenvolveu, durante dez meses, uma campanha presidencial, fez propostas concretas para a educação, a política e a economia e que, por fim, concebeu um curso de filosofia portuguesa? Porque se procura diminuir a Escola de Filosofia Portuguesa a uma tradição de escritores? Porque se continua a ignorar o carácter peripatético da Escola da Filosofia Portuguesa, e o seu livre magistério de pessoa a pessoa, mesmo por aqueles que se dizem iniciados por ela? Porque é que a nova geração da filosofia portuguesa é incapaz ou se recusa a ser a afirmação libertária do pensamento e da arte de pensar? Que espécie de compromissos procuram obstar à afirmação positiva e responsável das teses do sistema da filosofia portuguesa?

O Tolo inquieta-se e gostaria de verter as interrogações em perguntas, mas não é ainda ele que se senta na ponte, a cismar. É silhueta, ou como prefere o poeta, uma lembrança do passado. A mentira tem morada.

Termino este desabafo confidente com as palavras errantes do pateta Pascaoes.

«O pobre tolo nada vê, por fim,
Nas trevas que o dominam»