GRAMÁTICA DE HERMES IV

Faltam-nos estudos bastantes sobre a composição étnica do povo português para que possamos interpretar este exemplo e outros de verificadas resistências – resistências activas e passivas – às formas estrangeiras de cultura. Cremos, porém, que os segredos nunca revelados pela etnografia, isto é, por um folclore e um artesanato que, moribundos, tendem a desaparecer, podem ser descobertos pelos estudos das camadas constitutivas do idioma vivente e explicados pela filologia”.

Álvaro Ribeiro, “A Arte de Filosofar”, Guimarães Editores, pag. 26


A morte do verbo volir (1)


O que é de pasmar


A excursão anterior da Gramática de Hermes tratou da morte do verbo sensir; agora, é a vez de pensar a morte do verbo volir.

Quem percorrer, de pés alados, as fluidas e fluentes formas da linguagem falada e escrita, quem vogar por palavras e frases, por suas flexões mórficas, sintácticas e semânticas, ver-se-á como quem viaja por entre espirais de constelações pairando suspensas no espaço vazio, em que os verbos, quais estrelas com seus sistemas de planetas e satélites, atraem e sustêem substantivos, adjectivos, advérbios, preposições e conjunções. Estas constelações são miríades de frases cintilantes emergindo de um Céu imenso e escuro que é, afinal, o Silêncio que tudo envolve e onde o que é sonoro ganha presença e se distingue. E vem à lembrança Leonardo Coimbra, que nos deixou a sua esperançosa visão de um ser humano que, agraciado, pode “encher de palavras amorosas todo o Espaço sem voz”.

Mas, diante dos nossos olhos, tanto os falantes como as próprias palavras vão nascendo e morrendo, inexorávelmente, o que nos constrange a repôr a fala na esfera da geração e da corrupção, a reenquadrá-la na simbólica de um organismo sujeito a mutações, como a árvore, e a reservar a urânica analogia do parágrafo anterior apenas para falas sagradas ou para alguma língua atlante anterior a Babel, pois só essas têm palavras de obediência eterna ao Falador Imóvel, obediência semelhante à que o eterno cosmos e seus astros férreos ou siderais mostram cumprir para com o seu Grande Arquitecto.

Retomemos, pois, a simbolia da árvore!

É com espanto e alegria que os pais mais atentos ouvem e vêem como as primeiras palavras dos seus filhos infantes urgem do impulso vital, à semelhança das folhas que a seiva primaveril faz brotar nos despidos ramos das árvores, até lhe tecerem a copa. E os pais acorrem, solícitos, a satisfazer essas palavras iniciais, os “primeiros desejos”.

Mais tarde, cabe aos filhos, resignados com a ceifa da foice invernal, assistir à morte dos pais e acudir, também solicitos, a ouvir as suas derradeiras palavras na leitura de um testamento em que estes registaram “as últimas vontades”. Todo o discurso humano aparece, assim, escorado entre o desejo e a vontade.

Ora o verbo volir, a que caberia exprimir, em língua Portuguesa, os actos de vontade, ao contrário do que se passou nas outras línguas ditas indo-europeias, as germânicas e as  românicas, não sobreviveu nas linguas Peninsulares! E tal facto, que usualmente descuramos por força da indiferença, a filha da rotina e do hábito, é, em boa verdade, de pasmar!

E, com Aristóteles o dizemos, não é o pasmo, ou o grego thaumatzw, que nos impele a filosofar???

Veja-se então: este verbo volir  está presente em todas essas outras línguas! Seja nas mais distantes, como a germânica e a anglo-saxónica, em que temos “wollen” e “will”, seja nas mais próximas de nós, as românicas, em que temos “vouloir”, no Francês, e “volare”, no Italiano, não ostenta o verbo volir vetusto perfil de palavra sempre altiva e influente, honrada com foral de presença certa em qualquer léxico - seja comum, científico ou sapiencial???

Se assim é, como aceitar sem pasmo que, na paisagem falante da Península Ibérica, fosse por causa substantiva, ou meramente acidental, se dê o desaparecimento total do verbo volir???


O enigma


A morte do verbo volir, creio, indica um enigma cuja decifração está disponível a quem quiser afastar o pó secular que cobre superficialmente a velha Língua Portuguesa para assistir ao urgir primaveril das suas palavras, para reconhecer causas e consequências dessa morte na cultura lusa...

Tal como antes vimos que também acontece com o verbo sensir, a nossa Língua mantém, bem viva, uma numerosa galeria de parentes próximos e distantes de volir, nados e criados na sua raíz étima, quer a de origem helénica, quer latina.

 

Essa numerosa parentela, ei-la, ufana, a desfilar sem risco nem contrariedades por gerações e gerações: vontade, volição, volitivo, voluntário, voluntarismo, voluntariedade, benevolência, volúvel, vulto, mas também bolir, boliço, reboliço, abúlico, bulimia, símbolo, parábola, metabolismo. É uma frondosa ramificação, coberta de vocábulos de sentidos e significados fortes, cuja fácil sobrevivência mais contrasta e sublinha a estranheza da morte do seu verbo nuclear e certamente proporcionará sinais e vestígios a quem se disponha a decifrar a morte de volir.

Contudo, é impossível situar a morte de volir num ponto determinado da linha do tempo horizontal, o que nos priva de poder determinar-lhe um rigoroso encadeamento causal, cumprindo a exigência científica da passagem necessária do antecedente ao consequente. É igualmente impossivel repetir o evento, o que anula qualquer processo experimental para comprovar, acima de qualquer dúvida razoável, hipotéticas causas da morte. A morte é patente, é óbvia, mas as suas causas escapam e escondem-se num enigma a decifrar...

O raciocínio analógico, a memória, a imaginação, ou ideação, processos de experienciação, não de experimentação, eis os processos a que posso recorrer. Alguma vez chegarei a compôr o silogismo?


A diferença


Apesar de desprezada, a diferença entre “volir” e “querer” não pode ser irrelevante, pois tem estado actuante há muitos séculos; “não existem sinónimos perfeitos, cada palavra portuguesa, ao sair do uso corrente, (...) leva consigo e retira do idioma a potência evocadora de um sentido, de um conceito ou de uma ideia.”1

Poderá não ser possível determinar se houve causa ou agente falante que tivesse provocado ou urdido a morte de volir; mas mesmo que a certidão de óbito conceda à ignorância e indique “morte acidental”, o desaparecimento de volir, como diz acima Álvaro Ribeiro, fez desaparecer, práticamente desde os primórdios da formação das línguas peninsulares, uma potência evocativa do nosso idioma; e uma outra potência, a de querer, veio ocupar-lhe o seu espaço próprio...

Qual é, então, a diferença entre essas potências, e quais as consequências geradas pela sua troca?

É sabido que “diferença” é o que distingue ou separa duas espécies, ou formas, do mesmo género, ou ideia geral. Ora, no tópico em apreciação, o primeiro género ou geral é o “dizer”, género tão fértil que nos permite, por exemplo, a operação quase caleidoscópica de juntar dizeres das línguas onde há o verbo volir, com a nossa, em que há querer.... Assim, a diferença entre essas potências evocadoras pode ser analisada e exposta nas suas possíveis variantes.

As analogias abaixo abrem, tentativamente, o caminho:

1ª analogia
- Quando um Francês diz “Je veux”, o que lhe vai na alma é “je peux”!
- Quando um Português diz “eu quero”, o que lhe vai na alma é “eu desejo”.

2ª analogia
- Quando um Inglês diz “I will do”, exprime uma convicção.
- Quando o Português diz “eu quero fazer”, exprime uma espectativa. (O Português só exprime a convicção do Inglês, quando diz “Eu vou fazer”).

A primeira consequência que resulta da diferença entre os verbos volir e querer é que os verbos “wollen”, “will”, “vouloir” e “volare” permitiram e permitem ao pensamento Germânico, Inglês, Francês e Italiano integrar e desenvolver uma Filosofia Nórdica, que começa ou acaba num voluntarismo; a face operativa deste voluntarismo diz-se com o verbo “fazer”.

O verbo “querer” permite ao pensamento Português e Castelhano integrar a Filosofia Atlântica e o seu marcante criacionismo, e a ausência de volir dificulta, frusta e condiciona, na Península, o sucesso avassalador das teses voluntaristas noutras culturas. Para os Portugueses em particular, a face operativa do seu querer diz-se com o verbo “ir”, o verbo crucial da cultura Lusíada e factor axial da Filosofia Atlântica, como tentarei mostrar numa próxima excursão da Gramática de Hermes.


Nórdicos e Atlantes


A Filosofia Nórdica e a Filosofia Atlântica desenvolvem-se em esteios próprios. Mas nos seus longínquos e comuns arquétipos, mal se distinguem; vão-se diferenciando lenta e gradualmente, como se a primeira se fosse especializando no estudo das causas material e eficiente e a segunda no estudo das causas formal e final; o que para uns é o exercício de uma faculdade ou potência, para outros é uma finalidade a atingir. OS primeiros, podem ou volem, os segundos desejam ou querem!

(continua....)

15 de Dezembro de 2010

1 Álvaro Ribeiro, «A Arte de Filosofar», Guimarães Editores, pag. 32

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