Gramática de Hermes - I

«Sampaio Bruno concebia o ler e o escrever como análise do explícito e indagação do implícito, e possuia portanto um conceito divinatório da filologia.»

Álvaro Ribeiro, Arte de Filosofar, Portugália, 1955, pág. 161/162


O agente e o sujeito

O verbo, mandam os cânones da sintaxe da gramática escolar, requer sempre um «sujeito». Segundo essa gramática, a forma exemplar de uma oração é: «sujeito-predicado- complementos».

Este esquema, porém, é equívoco e requer uma indagação na Gramática de Hermes.

Os verbos são os vocábulos que permitem descrever movimento; este, tanto pode ser uma forma de acção como uma forma de paixão.

O verbo «agir» é como que a categoria seminal semântica de todos os verbos cujo significado exprime uma acção e, ainda, de todos as conjugações na voz activa. Ora, a semântica impele-nos a dizer que quem age é o agente.

Assim sendo, tanto para o verbo «agir», como para todos os verbos que exprimam acção e todas as conjugações em voz activa, a forma exemplar e canónica da oração, na Gramática de Hermes, será «agente-predicado-complementos».

Já o verbo «padecer» será a categoria seminal semântica de todos os verbos que permitam descrever a paixão, e de todas as conjugações na voz passiva. Nestes casos, a forma «sujeito-predicado-complementos» é aceitável, por não gerar qualquer equívoco ou contrariedade entre a sintáctica e a semântica dos termos. Quem padece, é sujeito a...


O móvel e o estático

A escola Platónica deixou dito que não há percepção do movimento sem um ponto estático. Vinte cinco séculos depois, Einstein veio dizer que na Natureza não há pontos estáticos, apenas corpos que podem deslocar-se à mesma velocidade, mantendo entre eles uma distância estável. Logo, temos de inferir que um Ponto Imóvel só pode ser Meta-físico, e que sem a Metafísica não seria possível percepcionar a Física, ou seja, os corpos que se movem.

Os verbos exprimem o movimento, mas para conservarem as suas formas moventes necessitam do seu próprio ponto estático. O infinitivo é a forma verbal estática, em redor da qual se movem todas as conjugações, nas suas diversas formas flexionadas.

Na Gramática de Hermes assinalam-se esses infinitivos (todos os infinitivos de todos os verbos havidos e a haver) como os pontos que constituem a linha que separa e distingue as substâncias ou agências, das essências ou atributos.

A escada ascendente e descendente da flexão verbal, devidamente exemplificada em orações simples, pode representar-se da seguinte forma:

1 - primeira agência ( ou substância primeira Aristotélica)

- Platão (nome, ou agente, ou substância primeira) pensa (predicado ou acção) a geometria (complemento)

Esta acção é descrita do exterior, por quem vê um movimento com princípio no agente e fim no facto ou feito realizado. é um acto de voluntas, um arco ou segmento de círculo, a que podemos calcular o raio, com a questão: O que o motiva?

Mas esta acção, ou movimento, pode ser vista interiormente, do lado de dentro do arco, deslocando a atenção do todo e seus limites para cada um dos seus momentos constituintes. Dir-se-á então:

- Platão está a pensar a geometria

A forma infinitiva, em Portugal, fez cair em desuso o gerûndio, que ainda se mantém no Brasil e mais apropriadamente representa a sucessão ou série de pontos sem limite visível imediato. Já o infinitivo impele à fixação mental de um desses momentos que a constituem, momento que ganha em intensidade e que representa agora, por si só, toda a série estável e infinita.

É neste ponto, um dos pontos ou momentos da linha que demarca o extremo do reino da Física, para além do qual está o reino das ideias, ou Metafísica, que fica a Porta de Entrada nesse reino do lado de lá.

Metamorfose do predicado

A forma infinitiva do verbo irradia o conteúdo semântico que passa para o plano metafísico, onde em metamorfose, e graças à imaginação, o predicado aparece agora como agente metafísico – pensamento – que é «o agente em si», a ideia que fixa o infinitivo.

Esta ideia, ou eidos, ou visão, está ligada genesíacamente ao agente, ou substância primeira, Platão de seu nome, que por ela clama para que nele espelhe a sua essência ou atributo.

Profere então um ad-jectivo, uma ousia ou essência que, como reflexo dimanado da esfera das ideias, vai ad-jazer, iluminar ou qualificar o agente. Este, agora sujeito à atribuição dessa essência, antes infusa no verbo ou acção inicial, assume nova gradação identificativa.

O ad-jectivo proferido a partir de «pensar» e «pensamento», é «pensador».

2 - Segunda agência (ou substância segunda Aristotélica)

O pensador (adjectivo substantivado, ou substância segunda) conhece ( novo predicado) a geometria (complemento).

O agente desta acção, como se vê, já não é o nome, mas o atributo; ou seja, Platão é referido, nesta segunda instância, não já pelo seu nome mas por uma sua essência, a que está agora sujeito, pois com ela foi qualificado na sequência da acção que realizou.

Portanto, na Gramática de Hermes, esta única frase flui já de forma mais complexa; conjuga, não um, mas dois movimentos distintos:

1 - o movimento ou acção física expressa agora num novo predicado, «conhece»

2 - o movimento ou paixão metafísica de que padece o sujeito “Platão”, que aqui, enquanto “pensador”, já é uma substância segunda, já é nomeado por actualizar a essência metafísica do pensar.

O «pensador», elemento móvel, tem agora no «pensamento» o imóvel arquétipo metafísico indispensável à percepção do seu movimento, o ponto axial que lhe assegura a mobilidade, a potencialidade que lhe garante a acção. Assim reconhecido, este agente está preparado para avançar para um novo predicado, «conhecer». No fraseado sucedâneo se vão dando novos passos, semelhantes a este, e assim se alargam e percorrem longos caminhos.

Tenta-se, na Gramática de Hermes, pelos tropos agora descritos, desentranhar as diferenças, umas vezes ocultas, outras tantas vezes ignoradas, entre upokeimenon, ou substância, e ousia, ou essência.

Na Gramática de Hermes também se evita a utilização das clássicas orações com o verbo ser, que são vulgarmente utilizadas nos compêndios didácticos de Lógica. A escolha, para o ensino, deste tipo de frases, S é P, acarreta consequências que não são benignas.

Por um lado, o verbo ser, como é sabido, é um verbo especial, que parece, na sua extensão ilimitada, exaurir, absorver ou dissolver, dispensar ou eliminar os outros verbos.

Talvez por isso mesmo, este tipo de frases é, na maior parte dos casos, uma terceira agência (Platão é pensador), asserção essencialista e imobilista, cuja utilização exaustiva na didáctica lógica faz recuar para a obscuridade as duas primeiras agências que acabámos de descrever, mais todos os verbos que nelas poderiam figurar, e que, em conjunto, são as locuções que directamente exprimem acção ou paixão, isto é, as locuções mais próximas e representativas da vida concreta.

Do uso do esquema S é P, e outros formalismos semelhantes, evoluiu a Lógica, indiscutivelmente, para novas oportunidades de abstracção e desenvolvimento dedutivo, como se observa e constata na lógica matemática, na informática, em brilhantes conjecturas matemáticas como a «teoria das cordas».

Mas para a Gramática resultaram, ao longo dos tempos, algumas feridas profundas que só uma filologia divinatória e curativa pode sarar, tais como:
- consequências da polémica do nominalismo versus realismo.
- consequências degradantes, para a fala e o pensar comuns, de muitas inteligências jovens se desgostarem precocemente da Lógica, perante o antipático vazio desse tipo de asserções sempre formalistas, que variam apenas em extensão, que insistem e persistem, obsessivas, no ente e na essência estáticos esquecendo as formas naturais em seu movimento próprio e as categorias que dinâmicamente as exprimem.

regresso à pag. ant erior