Gramática de Hermes - II

«Quando os termos ou extremos que circundam o verbo, na condição de agentes ou pacientes, deixam de ser imagens naturais para ser conceitos humanos ou até para serem imagens divinas, o pensamento altera-se para ser científico, filosófico ou religioso.»

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais, Guimarães Editores, pág. 120

Os de-signativos 

“Nome” e “substantivo” são dois termos vulgarmente dados como sinónimos. A didáctica gramatical usa-os indistintamente para classificar certas palavras numa mesma classe morfológica. Na Gramática de Hermes, porém, esses dois termos referem classes diferentes de um mesmo género, o género designativo, conforme o esquema abaixo:

                              nomes
designativos                                   Essenciativos
                              substantivos   
                                                      Entitativos
 

Assim, nomes são as palavras que signam ou designam entes naturais singulares e concretos, percepcionados pelas sensações, ou pelos sentidos – são, afinal, designações com pleno sentido. Os nomes são os frutos da acção de nomear, e sendo este um dos verbos originários da fala, na Gramática de Hermes não será admissível confundir um e outros com os restantes modos de expressão.

È indispensável mostrar a diferença!

 Quando nomeamos, chamamos ou clamamos por algo ou alguém a quem damos, imediatamente, total direito de presença perante os nossos sensos e os daqueles que nos rodeiam e testemunham o chamamento; e estranhas são, para nós, se não até raras, as situações em que o nomeado não corresponde ao chamamento. O chamamento é a voz da certeza existencial, da confiança no ser, é uma voz de peremptória consignação.

Já os substantivos, que dividimos em duas espécies distintas, são designações de entes sentimentais, inteligíveis e imagináveis que pousam, ou não, sobre um substante, como a roupa pousa sobre o corpo, e o vestem e identificam.

Retomando os exemplos que usámos na anterior excursão, podemos agora avançar no esclarecimento dos tópicos.

Óbviamente, «Platão» é um nome e tem pleno sentido, já que designa alguém cuja existência foi e é confirmada pelos sensos, foi e é aceite pelo senso comum.


Nota breve sobre o verbo «ser»

O que é, existe, está presente e se e-videncia aos sensos justificou o lema do trivium  escolástico «a existência não é um predicado». O senso comum reforça esta asserção da Escola, uma vez que, de facto, ninguém diz: «A rosa, que é, é vermelha», “O Sol, que existe, nasceu”.
Só em relação ao Ser - cuja existência, por inerente indeterminação ou absoluteidade, é ausência perante os sensos, ou ilusão de Não-Ser - poderá justificar-se que clamemos, como os Helenos o fizeram: «O Ser, é!». Faz jus, porque afinal, o que assim se estará verdadeiramente exprimindo, será: «O Ser, que parece não ser, é!»
Se insistimos, na Gramática de Hermes, em fazer a diálise da “substância” Latina, é por esta emergir de fusão Greco-Judaica-Cristã; nessa fusão, entre outras de igual relevância, ocorreu a exaltante participação dos Semitas na afirmação do Ser. Ao Helénico “o Ser, é!” juntou-se o Hebraico “Eu sou quem sou!”. Eis o Ser, de que se falava na Jónia, a falar por Si, no Sinai! Eis a consciência afirmando-se primaz perante a existência.
Nesta Gramática, portanto, procuramos distinguir, isolar e reaver morfologias originárias destas duas fontes primevas, a Helénica e a Semita, para delas recuperar novos veios de divagação e compreensão da Língua Pátria, que agrega signos com muitos milénios de História. Talvez, mais adiante, haja ânimo, na inspiração da fala materna, para ousar proferir algo como: «Deus é, e está».

Fim da Nota

Já «pensamento», que vimos ser uma substantivação, por metamorfose, do infinitivo «pensar», é o que na Gramática de Hermes chamamos própriamente essenciativo ao conceito que designa um agente cuja entidade, ou actividade, é apenas inteligível - com significado, mas não sentido. Lembremos que os casos de telepatia, apesar de mencionados em várias fontes, ainda não anularam a convicção de que todo o pensamento é secreto e próprio de cada um – logo, os pensamentos de alguém escapam aos sensos dos outros, ao senso comum; são experienciais, mas não experimentais! Como tal, o pensamento permanece em estádio conceptual metafísico, subjectivado e não objectivado, e é desse íntimo e sempre resguardado sacrário que brotam os poemas, os filosofemas, os matematemas, em suma, as várias formas de oração.

Sintetizemos agora todo o movimento vital e vocal das palavras de que temos vindo a fazer a hermenêutica:

O nome que chama  o ente

Com o nome Platão, chamamos o ente concreto, Platão.

A Platão reconhecemos que é agente do verbo ou acção de pensar.

Do infinitivo “pensar” passamos, por metamorfose, ao essenciativo “pensamento”.

Deste conceito “pensamento” visionamos, por anamorfose, a ousia, adjectivo, essência ou atributo “pensador”.

Esta essência, quando atraída pela gravidade ou jus ao agente que a merece, ou seja, por diamorfose, vai vestir esse agente e nele ganha a substância, que se assinala com o artigo - eis “o pensador”, substantivo que mais própriamente se chama, na Gramática de Hermes, um substantivo entitativo. O entitativo não se esgota em Platão, porque não é o seu nome próprio. Quando muito, será o seu cognome. O entitativo, como se vê, é um geral significante que pode agrupar, ou vestir, diversos singulares, sentidos ou contados.

(Estes entitativos são os nomes de entes abstractos; daqui nascem todos os conceitos matemáticos).

Criado o novo ente “o pensador”, há que reconhecer-lhe a potência e atribuir-lhe o seu reino, o seu espaço vital, onde sabemos que exercerá a sua acção e poderá ser feliz: por eumorfose, chegamos ao “pensável”.

Concluindo esta excursão sobre os nomes e os substantivos, cabe dizer que a Gramática de Hermes ouve o preceito do Génesis de que o nome é consequência ou expressão da lei divina segundo a qual o ser humano é apetente e competente para nomear todas as criaturas e entes, isto é, todos os criados ou nascidos. Depois de designar todos os entes físicos e naturais, incluindo os que lhe são maléficos, o ser humano reconhece-se na necessidade de se persignar, para assim proteger a sua própria alma, em que está inscrito o seu verdadeiro nome: na tradição Cristã, dirá “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”; na tradição Islâmica dirá “Bissmillahi Rohmani Rohim” …

Sem tal persignação, o nomeador, que é o primeiro falante e pensador, enredado na sua própria fala, envolto nas diversas morfoses que acima descrevemos, todas elas formas de poder ou potência, formas de acção ou acto, pode perder-se, enganar-se, ser iludido e finalmente, virando-se o feitiço contra o feiticeiro, olvidar o seu próprio Nome e confundir todas as criaturas, caindo na confusão a que se chamou Babel.

A Gramática de Hermes, para reavivar a Árvore inscrita no corpo Humano, desmonta pacientemente essa fatídica Torre que a envolve, cobre e faz definhar.

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