Gramática de Hermes - III

A morte do verbo sensir

«A queda da imagem no espaço, onde o homem constrói, experimenta e observa, redunda necessáriamente em prosaísmo. Todos os estilistas reconhecem que a presença de imagens mortas é visível na prosa fria e consolidada. Os novos movimentos literários reinvindicam por isso uma liberdade de expressão que permita a refluência do imaginar, isto é, uma renascença.»

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais, Guimarães Editores, pág. 116

Do verbo Sentir

Mantendo e alargando a simbolia da lusa fala como uma árvore, e da linguagem como a sua copa, e as folhas, as palavras; sabendo que certas folhas caem, porque secam, e tais são as palavras que fenecem na memória, como folhagem enterrada no húmus mental da reminiscência colectiva e informe; lembrando, das excursões anteriores da Gramática de Hermes, a metamorfose do infinitivo dos verbos em essenciativos, substantivos sem ente, conceitos metafísicos donde emergem, como folhas levadas pelo sopro da inspiração poética e prosódica os adjectivos essenciais ou atributos; vejamos então o peculiar caso do sentimento.

Tal como da metamorfose do infinitivo do verbo «pensar», em seu repouso de acção suspensa sem agente motor, se gera «pensamento», assim também será do infinitivo «sentir» que se gera «sentimento». Acontece, porém, que os verbos estão sempre sujeitos a condicionantes pneumáticas ou atmosféricas, sejam as acalmias, sejam as intempéries, que tanto podem favorecer o seu desenvolvimento como causar a sua queda. Nem todas as folhas conseguem atingir, ou manter, a exposição à luz solar.

O infinitivo «sentir», como se pode constatar, ramifica-se hoje em vários conceitos, tornando-se equívoco. O «sentimento», seu conceito primogénito, vemos que foi constrangido, empurrado e afastado da exposição solar pelos «sentidos» e pelas «sensações». Esta disputa fraternal confunde e perturba a nossa elocução, dicção e compreensão do filho, agora pródigo, o «sentimento».

Como se deu esta ramificação?

Terá sido certamente durante um imemorial Outono Romano que secou, caíu e morreu o verbo «sensir»... Este seria o verbo próprio para exprimir a acção dos sensos. Que este verbo devia existir, prova-o o verbo latino sensifico,are (sensus + facio), que significava dar ou capacitar com sensações ou sensibilidade, verbo que tinha a seu lado sentifico,are (sentio + facio), que significava dar ou capacitar com sentimentos.

Pois bem, este «sensir», infinitivo ou acção pura, iria dar-nos, por metamorfose, o «sensimento»; mas, afinal, este conceito vocalizou no termo «sensação», mais rude, mais resistente à erosão do falar quotidiano.

Da existência remota e caduca de «sensir» e «sensimento» temos também notícia por outros despojos que assinalam a sua presença. Do essenciativo «sensimento» se gerou o adjectivo ou atributo «sensor», e deste, enquanto agente ou substãncia segunda, se determina o que na sua acção delimita, « o sensível». Talvez por estar enfraquecido pelo esquecimento do seu verbo originário, o «sensor» é compensado ainda com mais adornos e utensílios - a sensibilidade, a sensualidade, os sentidos.

Como se verifica, a cadência desta folha - o verbo «sensir» - não anulou a presença e sobrevivência de vários dos seus correlatos vocálicos. Estes, mais a preponderãncia dos sensos na vida humana quotidiana, mais a sua proximidade fonética e sonora com o infinitivo «sentir», forçaram então uma diferente ordem - deu-se o enxerto, a eflorescência de uma nova ramificação! Eis como, do verbo «sentir», brota agora um imponente cacho de vocábulos, uns de raiz, outros de enxertia.

Acontece que, as mais das vezes, tal fartura impede, lamentavelmente, a lúcida apreciação do território semãntico próprio do verbo sentir. No nosso discurso corrente e descuidado, ou no mais invulgar e cuidado, tomamos como metamorfoses igualmente legítimas do verbo sentir tanto o termo sentimento como o termo sensação. Mas isso não é verdade!

A morte anunciada da enteléquia

A língua Inglesa, que conta com a afluência de distintos caudais linguísticos no seu património lexical, conseguiu preservar, na altura própria, a diferença verbal entre «sentir» e «sensir», graças a dois verbos distintos - «to feel» e «to sense», o primeiro de origem saxónica, o segundo de raiz latina. Tal facto só poderia ter potenciado e contribuído para a amplitude sentimental na temática da Poesia e do Teatro de Língua Inglesa, de que foi ilustre exemplo o genial Shakespeare, a quem os linguistas atribuem a autoria de mais de seiscentos vocábulos, que acrescentou, pela sua obra teatral, ao falar da sua época.

Indiscutivelmente, os sentimentos são tema central de alguns dos mais altos momentos da dramaturgia shakespereana. São inesquecíveis, na sua obra, vários quadros emblemáticos de sentimentos como o amor, o ciúme, a ambição, a angústia. Alguns momentos atingem o cume da intensidade dramática e ganham expressão lendária, como o desespero extremo, que nos deixou o pungente clamor: »O meu Reino por um cavalo!»

Curiosamente, porém, o veio empirista da cultura Inglesa, mais tarde Anglo-Americana, na sequência de uma não menos notável tradição filosófica e escolástica, apostou fortemente, na passagem do séc. XIX para as primeiras décadas do século XX, na Psicologia Comportamental, uma psicologia sem sentimentos, apenas com sensações; sem coração, só com cérebro!

Consistentemente apegados a uma estratégia atomista e reducionista, que cinde o complexo em simples, e das partes simples reconstrói o composto, promovendo tais mecanismos combinatórios (ou associativismo) a causalidade principal, os filósofos, cientistas, psicólogos e linguistas empiristas, mais tarde «analíticos», desenvolveram teses e doutrinas que a sua própria cultura, tanto a popular como a erudita, alegremente contraria.

Foi no esteio dessa tradição empirista que se veio desfazendo gradualmente a diferença entre os verbos mencionados, confundindo assim os seus derivados essenciativos - os sentimentos - «feelings» - e as sensações - «sensations».

Um exemplo flagrante e significativo desta confusão, imposta e divulgada pela escola materialista, pode ver-se no notável livro de Richard Rorty «Filosofia e a Especulação da Natureza» (1). Este livro, de 395 páginas, intenta comentar e reformular toda a temática filosófica da epistemologia e do processo cognitivo, referindo abundantemente, como seria de esperar no tratamento deste tópico, as sensações, impressões, intuições (kantianas), percepções, conceitos e quejandos. Pois bem: este autor não usa nem considera, uma só vez, a palavra «sentiment»! E mais: Rorty usa «raw feels» para designar as «sensações puras», em vez de, como seria etimológicamente correcto «raw sensations»!!!. Assim, «raw feels» não serão já os «puros sentimentos», mas as mais «puras sensações»!

Constatamos ainda que Richard Rorty nunca usará neste livro (ou, se alguma vez o fez, tal escapou à minha leitura...) a palavra «imaginação» - o que não deixa de ser extraordinário, e muito sugestivo, no caso presente é que, tenhamos isto em mente, Rorty apresenta como uma das suas teses principais a conjectura de que todo o conhecimento ocidental se baseia em metáforas visuais, de representação, de especulação ou espelhamento da Natureza, tese que, aliás, justifica o título do próprio livro.

Mas sabendo nós que a imaginação pode potenciar a passagem do estreito píncaro do gólgota mental, onde parecem sucumbir, por fatal inerência, ou inércia, os materialistas, já não ficamos espantados com o apagar da imaginação, nem com a profecia que Rorty nos deixa, com uma franqueza de elogiar, sobre a morte da enteléquia... Veja-se o texto seguinte: « Toda a fala, pensamento, teoria, poema, texto ou filosofia acabará por ser totalmente previsível (ou predizível) em termos puramente naturalistas. Um qualquer descritivo, do tipo científico de átomos-e-o-vazio, dos micro-processos ocorridos no interior dos seres humanos irá permitir a previsão (ou predicção) de todo e qualquer som ou escrita que venham a ser proferidos. Não há espírito(s) ( ou fantasmas, conforme se queira traduzir).» (2)

Visto este exemplo, um entre muitíssimos, desse latente e fecundo conflito entre os veios romãntico e empirista da cultura anglo-americana, referimos de seguida dois breves exemplos da pujante vitalidade da posição romãntica...

Pujante porque, de facto, literatura, cinema, teatro e televisão em língua Inglesa prolongam e desenvolvem esta secular tradição, presente em obras abundantemente perpassadas pela sentimentalidade que a Ciência Académica se permitiu, e permite, ignorar ou mesmo desprezar.

Um, é a celebérrima canção de Sinatra «Feelings», em que se devolve «to feel» à matriz semãntica original. A canção fala, óbviamente, de sentimentos, não de sensações. Outro, está patente no sucesso obtido pelo filme americano com o sugestivo título «O sexto sentido», filme não só abertamente contrário aos dogmas da Psicologia Comportamental materialista, mas que devolve também «sense» ao seu significado próprio.


Do sentimento ao fingimento

«Entre a lógica normal, que abstraída da gramática, da retórica e da dialéctica, regula apenas a coerência do discurso, e a lógica formal, ou morfologia das articulações intelectivas, há-de o estudioso optar como se estivesse no ponto crucial da filosofia.»

Álvaro Ribeiro, Estudos Gerais, Guimarães Editores, pag. 129

A persistente referência a um «sexto sentido» nas culturas de todos os quadrantes e em rebeldia contra a constante censura da «psicologia científica» da academia oficial torna plausível esperar que ainda haja nos humanos uma difusa memória do exercício de ascese ou ascensão que leva dos sensos físicos aos sentidores metafísicos, sendo a acção destes últimos, na verdade, reflectida no tempo actual pelo que agora chamamos sentimentos. De certo modo, podemos dizer: matar os sentimentos é acabar com o transcendental.


Na Língua Portuguesa, e sem espanto, a enxertia ou intromissão das daninhas «sensações» na metamorfose conceptual do verbo «sentir», resultante do desmaio do ignoto verbo «sensir», facilitou a divulgação das doutrinas materialistas que propugnavam por uma óbvia hipertrofia das sensações no processo do conhecimento e uma concomitante atrofia dos sentimentos. (3)

Impávidos, iremos assistir ao mirrar do coração? O coração irá transformar-se, para nós, cada vez mais, apenas num músculo?

O filosofar sugere-nos que, em Portugal, tal será improvável, senão mesmo impossível... Por muito que se esforce a Universidade Positivista, não será viável erradicar a matriz semita, que pelas tradições judaica, cristã e islãmica nos deixaram sempre o Amor e o sentimento, na cultura Pátria, a iluminar e guiar o Motor e o pensamento, oriundos da matriz Helénica ou Ariana.

Não admira, portanto, que a par, e apesar, da ofensiva do racionalismo e do empirismo em Portugal, se tivesse aqui afirmado uma notável pléiade de Poetas e Filósofos atentos à Alegria, à Dor e à Graça! Verdadeiros Cavaleiros do Amor, esses autores souberam manter-se atentos à sentimentalidade e aos sentidores, que não apenas à sensibilidade e aos sensos.

No entanto, pela Gramática de Hermes constatamos que este imperativo Pátrio de adunar o pensamento ao Amor é severamente prejudicado pelas contingências e acidentes históricos que levaram ao vazio ou ausência de alguns dos vocábulos correlatos ao verbo sentir, impedidos estes de plenamente se desenvolverem pela presença asfixiante, usurpadora e parasitária dos correlatos do desaparecido «sensir».

Normalmente, a ausência da palavra certa deixa o homem comum silenciado, preplexo, boquiaberto... Ao invés, já para alguém como Fernando Pessoa, poeta assistido de génio, esse vazio ou silêncio pode ser, afinal, estímulo para o salto acrobático que ultrapasse o abismo. Perante a ausência da palavra «sentidor», Pessoa, ultrapassando o gólgota mental, pairou e vagueou nesse desfiladeiro onde se cruza o rio caudaloso das sensações com a cascata dos sentimentos, e aí viu, num olhar verdadeiramente aquilino e perscrutador, que todos os sentimentos brotam como signos estáveis de uma realidade ausente e todas as sensações fluem, como aparências fugazes de uma realidade presente.

Aí, Pessoa «viu»: todos os sentimentos são acções, todas as sensações são paixões.

Desse salto, dessa acrobacia, desse voo rasante sobre a fonte da Poesia, veio a aterrar no apolíneo verso «O poeta é um fingidor»! E no poema solta então a visão epifãnica, a epoptia de uma espiral, ou rodopio - um ser humano privado de sentimentos e acossado pelas sensações, aparências de um real que sempre evanesce e que, por isso, tem de ser fingido, fingido, fingido, até ser verdadeiro???

A Gramática de Hermes permite-nos reconhecer que é indispensável algum talento de acronia no perfil de um Povo, para que este, na sua cultura e nos dias de hoje, eleve um sentimento a símbolo da Pátria. Daí que muitos Portugueses não concordem com a exaltação da Saudade, exaltação que, segundo eles, dificulta ou contraria o nosso «aggiornamento», a nossa «modernização», a nossa integração na Europa.

Esquecem-se, porém, esses Sergistas que o excesso da fria luz da razão acaba por dar vazão ao escaldante abuso da vontade, à violência; em diferentes escalas, isto ficou bem claro na história europeia do século XX, como também não deixou de ficar claro nos escritos polémicos daquele a quem Cortesão epitetou «um profeta à bordoada.»(4).

Para haver acordo, há-de haver coração.

ANEXO

Catálogo de morfoses

Verbo sentir

Infinitivo - sentir

Metamorfose em conceito ou essenciativo - sentimento

Anamorfose em essência - sentidor (em desuso)

Eumorfose em potências - sentível(em desuso) sentimental

Diamorfose em substãncia segunda ou entitativo - o sentimental, o sentimentalão (depreciativo), o sentidor (em desuso).


Verbo «sensir»

Infinitivo - Sensir

Metamorfose em conceitos ou essenciativos - sensimento (em desuso) ou sensação

Anamorfose em essências - sensor ou sensório

Eumorfose em potências - sensível, sensual, sensorial

Diamorfose em substãncias segundas ou entitativos - o sentido, o senso


Verbo «fingir»

Infinitivo -fingir

Metamorfose em conceito ou essenciativo - fingimento

Anamorfose em essência - fingidor, fingido

Eumorfose em potência - fingível

Diamorfose em substãncias segundas ou entitativos - o fingido, o fingidor

Verbo «mentir»

Infinitivo - mentir ou mentar

Metamorfose em conceito ou essenciativo -mentira ou mensagem

Anamorfose em essência - mentiroso, mentor, mensageiro, mental

Eumorfose em Potência - mentável, mental

Diamorfose em substãncias segundas ou entitativos - a mente, o mentiroso

(1) Richard Rorty, «Philosophy and the Mirror of Nature», Princeton University Press, 1980, segunda impressão com correções.

(2)«Every speech, thought, theory, poem, composition, and philosophy will turn out to be completely predictable in purely naturalistic terms. Some atoms-and-the-void account of micro-processes within individual human beings will permit the prediction of every sound or inscription which will ever be uttered. There are no ghosts.» Idem, pág. 387

(3) Ao frequentar a Faculdade de Letras, ainda assisti a aulas de uma ridícula cadeira de «Psicologia Experimental», filha do labor de universitários positivistas irrelevantes (irrelevantes, porque ninguém, hoje, perde um minuto a lê-los...) como Matos Romão e Moreira de Sá. A «sebenta» começava com uma leitura sarcástica do «Peri Psuquê» de Aristóteles e culminava em mui científicas medições dos» limiares de sensibilidade». Haja Deus! E assim se foi divulgando o catecismo materialista, pela pena e boca dos catedráticos «de direita» do Estado Novo, que na sua cegueira e estupidez corroeram, eles mesmos, os alicerces não materialistas do regime que lhes dava de comer. Entretanto, atentos à degradação do regime, e preparados para renascer das suas cinzas, muitos dos «assistentes» de então, sem espanto, são os catedráticos e reitores de hoje. E celebram a vitória do materialismo na Universidade que dominam.

(4) Conforme nota de Ribeiro dos Santos no seu livro sobre a Renascença Portuguesa, assim se referiu Jaime Cortesão a António Sérgio.