Idealismo, hoje?


O Idealismo é uma teoria metafísica. Ora a Metafísica, geralmente, entende-se como a temática filosófica que trata de questões como: o que é real (por oposição ao que é aparente, ou ilusório)? O que é que existe (por oposição ao que é apenas transitório, acidental)? E ainda: o que é o universo na sua totalidade? E o Ser, enquanto tal? Usa-se também definir a metafísica como a teoria dos primeiros princípios, aqueles princípios que, uma vez analisados, tidos por verdadeiros, e não havendo outros que os antecedam ou dos quais eles possam ser extraídos, são então tomados como fundamento de toda a realidade e de todo o conhecimento dessa realidade, quer como origens, quer como causas, quer como modelos, quer como fins.

Historicamente, “Metafísica” foi o nome que Andrónico de Rodes deu a um tratado específico da obra de Aristóteles. Este tratado, que o próprio Aristóteles descreveu como sendo o tratado da “ filosofia primeira”, era normalmente estudado após a Física, ou meta-física. Portanto, embora não se possa definitivamente ajuizar se este nome foi dado por essa razão meramente circunstancial, ou se foi metodicamente aplicado para designar globalmente os temas da “filosofia primeira”, a designação ganhou cidadania como o nome da disciplina que enquadra esse tipo de teorias.

Platão expôs magistralmente a teoria Idealista, mas não foi o único Grego a questionar a díade essências-aparências... Também o fez a escola de Pitágoras, que tanto o influenciou, mas esta escola deixou o seu saber envolto numa nuvem que impede a apreciação mais directa das suas teses... Já a escola de Parménides, a Escola Eleática, afirmou enfaticamente a irrealidade do que percebemos em movimento, e a plenitude do que é eterno e imóvel; mas a leitura do que propôs Parménides tem sido errada, totalmente distorcida . Aristóteles teorizou, também ele, sobre a “filosofia primeira”, almejando um saber dos primeiros princípios, uma Metafísica. Mas não concordou com Platão quanto a esta teoria Idealista. De facto, Aristóteles não aceitou como verdadeira a tese da existência de Ideias ou paradigmas perceptíveis pelo intelecto humano mas cuja existência persistisse em esfera do Ser que não se confundisse com o espaço físico.

O Idealismo de Platão anuncia e crava indelevelmente na memória colectiva da humanidade alguns dos temas que foram sendo desenvolvidos ao longo de séculos por outros filósofos, como Santo Anselmo, George Berkeley, Descartes, Leibniz, Hegel, Henry Bergson, Kurt Godel, num percurso que foi actualizando e reformulando esses tópicos e deixa, aos interessados de última hora, uma escadaria ampla cujos degraus correspondem a diferentes pontos de acesso a uma sabedoria perene e, em perfeita analogia, a graduais vivências e momentos de especial lucidez na íntima subjectividade de cada intelecto que se dá ao esforço de tentar perceber uma teoria que contradiz a «vox populi» e requer, a dado passo, que se beba a cicuta que nos liberta em definitivo da «Caverna» e dos seus denodados guardadores!!!

O Idealismo caracteriza-se por afirmar e definir as Ideias como objectos estáveis de conhecimento, independentes da mente humana. Essas Ideias ou Universais são essências que informam os particulares, os entes que existem. Por isso, o intelecto humano consegue perceber a presença de tais atributos nesses entes particulares que, acabamos por entender, mais não são, em última análise, que as instâncias possíveis ou as presenças concretas que reflectem, sempre de forma ainda imperfeita, essas essências universais. Esses paradigmas são de substância intelectual e podem ser visionados pelo olhar da mente que já consegue vislumbrar para além do nevoeiro das aparências, o que não é fácil.

Já os críticos ou opositores do Idealismo afirmam que as ideias são representações ou imagens mentais, geradas pela fantasia, imaginação ou capacidade de efabulação da mente. Os termos lógicos ou eminentemente racionais não são essências ou paradigmas mas apenas a expressão de relações que a mente consegue abstrair das situações e dos seres concretos que as protagonizam.

Até que ponto, então, perguntam os críticos do Idealismo, não será o Idealismo apenas o filho pródigo de um insaciável desejo de nos afastarmos da mudança permanente das coisas, das atribuladas manifestações das forças cegas da Natureza, dos conteúdos enganadores das aparências??? Até que ponto, perguntam os críticos, não será esse desejo de renuncia do mundo, esse desprezo pelo movimento da natureza e dos carentes e imperfeitos seres vivos que nos leva a inventar uma espécie de entes com uma existência exemplar, à medida da satisfação das necessidades geradas por esse desejo? Não será o Idealismo (senão mesmo a “filosofia tradicional”) uma tentativa de fugir à história, à temporalidade e à estranheza com que ela se nos apresenta, provocando e suscitando assim a actividade do pensamento?

Em resumo: onde está a prova da existência de Ideias? Apenas no testemunho subjectivo de alguns iluminados que as contemplaram na sua radiante e sublime perfeição???

O Idealista, porém, sabe, ao menos, duas coisas; a primeira, que a realidade em mudança, essa que os seus críticos tomam como comprovadamente existente e exterior à mente, é real, enquanto tal, apenas para o homem, no homem e com o homem que a percebe. Ser é ser percebido – essi est percipi. A segunda, é que os seus críticos também não conseguem provar a existência da “realidade exterior”….

Analisemos agora a primeira.

Imaginemos um qualquer “universo”, cheio de coisas, mas sem seres humanos… Como é que esse “universo” seria “real”??? Aliás, quem nos garante que seria, sequer, considerado “um Universo”? Porque não um Caos?

Ao contrário do Racionalista, que crê ser a Razão não só uma faculdade natural do, e no, Homem (o animal racional), mas também um fundamento da própria realidade (Galileu, por exemplo, afirmava que a Natureza estava “escrita” em expressões matemáticas), o Idealista afirma que a racionalidade é dada ao Homem, e que, como tal, lhe pode, também, ser negada. O ser Humano enlouquece com alguma frequência, e erra constantemente! O intelecto é um potencial instrumento para ascender ao conhecimento das Ideias, mas não está livre da demência, da ignorância, do orgulho, da ganância, o que o sujeita a enganos e erros. Para o Idealista, este universo só tem mostrado, até agora, uma única razão de Ser, aquela que se revela ao ser capaz de ser o representante natural da Inteligência Universal, o Homem. No entanto, a Racionalidade do Real é somente garantida pelas Ideias, ou pela acção do Espírito, de que este Universo participa, graças aos seres inteligentes que nele actuam segundo a sua orientação. Ao optimismo do Racionalista, que antecipa na Realidade uma constantemente perfeita concatenação de causas e razões, que ele se propõe inteligir pelos processos próprios da Razão, o Idealista contrapõe a evidência de que o Mal existe, ou seja, que o universo do mutável é um jogo de luzes e sombras onde, inelutávelmente, «ignoramus».

Se o Intelecto Humano desaparecer, afirmam os Idealistas, a “realidade” que o homem “vê”, desaparece!!! Não temos qualquer testemunho de outros seres inteligentes garantindo que a realidade exterior inteligível que vemos sobreviverá ao nosso desaparecimento enquanto espécie…

No entanto, ao contrário do que poderia parecer depois do que acima dissemos, convém salientar que o Idealista não aceita o célebre aforismo de Protágoras “O Homem é a medida de todas as coisas, do ser das que são, enquanto são, e do não ser das que não são, enquanto não são.” De facto, se Protágoras pretende aqui afirmar o domínio da mente humana sobre a Natureza, tese que depois evolui para um voluntarismo de grandes tradições filosóficas, o Idealista irá, aí, discordar…

E discorda pois, uma vez mais, o Idealista recorda que o Homem é naturalmente ignorante, é frequentemente enganado pelas aparências, a sua vontade é conflituosa com outras vontades, e como tal destrutiva, e os seus actos e decisões estão sujeitos ao erro…

Mas se Protágoras pretendesse dizer, numa interpretação mais humilde, que “a medida das coisas”, enquanto fruto da intuição das Ideias, ou Modelos, e sua utilização como escala de valores, é uma capacidade única do Homem, que assim se dedica, sem oposição ou limite, a “medir todas as coisas”, então o Idealista poderá concordar…

Passemos agora a analisar a segunda.

Experimentemos pedir a um crítico do Idealismo, daqueles que acusa o Idealismo de cair no dualismo ao enunciar duas realidades - a realidade fenoménica ou aparente, e a realidade ideal ou noménica, daqueles que afirmam um monismo ontológico, uma única e fechada realidade objectiva, ou res extensa, experimentemos pedir-lhe que prove a existência da “realidade” exterior à mente, a tal “realidade” mais real que as Ideias, porque estas são meros fantasmas mentais…

Como resulta evidente, o crítico não poderá fazer tal prova… Quando muito, com o seu silêncio indicará que essa prova é inútil, e até impossível, porque não é necessário provar o que é evidente… Como diria Wittgenstein, o que não se pode dizer deve ser mantido em silêncio…

Mas se o crítico quiser arriscar essa prova, contrariando a noção lógica de que a existência não é um predicado, terá sempre de recorrer a ideias para a efectuar! Toda a prova é um dado qualificado e significativo que confirma uma verdade previamente definida. Ora, “dados qualificados”, “verdade previamente definida”, etc… são conceitos que não correspondem a nenhum elemento dessa realidade exterior… Então???? Donde vieram estes conceitos, estas “ideias”?

Os mais persistentes, senão teimosos, como os Positivistas Lógicos, irão dizer então que as ideias são palavras, isto é, elementos da linguagem, e a linguagem é um dado natural (como afirmam, já vimos antes, os Racionalistas, embora os Racionalistas não tomem, necessariamente, a Razão como o resultado da Evolução). Todas as palavras servem, assim, ou para referir coisas existentes, ou para descrever as suas acções e relações.

Mas, que diabo… Donde veio o sentido daquelas palavras que não nomeiam nenhum ente natural??? Donde vieram os números, as formas geométricas, a linha recta, o ponto? Donde veio a Justiça, a Verdade, a Beleza?

É certo que a “aparência” das palavras, quer o som, quer a escrita, são elementos da res extensa, dados naturais… É certo que encontramos vestígios milenares de escritas e linguagens e que podemos rastrear a evolução e aperfeiçoamento de alfabetos e gramáticas… Mas tal sucessão de factos é desesperadamente irrelevante para explicar o inesperado surgimento das transcendentais, antinaturais, Ideias… Os sons ou as letras, as palavras ou as frases, os pensamentos ou os discursos, tudo isso funciona como o acompanhante, o veículo, o invólucro natural e não o factor criador do sentido das palavras escandalosamente diferentes do Mundo Natural, como Verdade ou Justiça. Logo por azar, tanto os substantivos como os verbos que nomeiam os seres naturais e a sua actividade parecem ganhar nova dimensão quando lhes aplicamos os adjectivos que nomeiam os valores e atributos estritamente significativos para os seres humanos e totalmente inúteis para a ordem natural.

O Idealista, convém realçar, não é um solipsista… O Idealista é um crente no real exterior, mas na medida em que este real “participa”, ou é informado, pelas Ideias. Hegel disse, de forma lapidar: Todo o real é racional, todo o racional é real. O real exterior, portanto, é o resultado do desenrolar da acção do Espírito… Mas temos de reconhecer em Hegel um certo optimismo histórico que não é partilhado por todos os autores do Idealismo, sobretudo por aqueles que não têm motivos religiosos para crer que a História é guiada por um Deus Benevolente.

Mas compreende-se a dúvida, senão mesmo a frustração, dos críticos do Idealismo perante a existência de Ideias paradigmáticas que condicionam e informam a vida do Homem neste Mundo, quando o acesso a estas Ideias é apresentado como difícil, como uma luta contra a escravidão e em favor da liberdade, ou do saber libertador.

Sim, compreende-se… Afinal, se todos aprendemos a falar, se todos aprendemos a pensar e, em resultado disso, todos nos reconhecemos como humanos, ou “animais racionais”, qual a razão para que apenas alguns (e segundo o testemunho de apenas esses alguns), possam ter a visão de um “plano extra de existência”, o acesso a uma “realidade metafísica” onde, finalmente, nos libertamos das grilhetas da Caverna das Aparências???…

Ockham, que tornou célebre a “lâmina de barbear argumentos”, (Pluralitas non est ponenda sine necessitate – não se utilizem pluralidades sem necessidade) poderia ter dito, em nome de todos os “pobres de espírito” que se acham incapazes de ascender ao supostamente luminoso patamar das Ideias: “Dêem-me a razão mais simples, deixem-se de fantasias e grandiloquências. Para quê um Mundo das Ideias para explicar este mundo?”.

Não podemos também esquecer, para entender algumas facetas do Idealismo ao longo dos séculos, a interferência e a osmose da Religião e da Teologia com a Metafísica. Aliás, para Aristóteles a Filosofia Primeira, ou Metafísica, seria uma teologia, ou o saber do Motor Imóvel… Essas interferências ocorreram, também, com o Idealismo.

As religiões proféticas – Judaísmo, Cristianismo e Islamismo – encaram a realidade exterior como um Universo Criado onde o Ser Humano está de passagem, a caminho de um outro plano de existência.

Não admira, portanto, que o Idealismo, próximo destas teses, tenha acabado por incorporar alguma historicidade da religião, como a noção de um Mundo Histórico Finito, ou de um Criador Divino, representado na actividade de um Espírito, tal como Hegel o teorizou.

Os religiosos autores de muita da Teologia Judaica, Cristã ou Islâmica utilizaram, sem rebuço, a obra filosófica e metafísica dos Clássicos, nomeadamente dos Neo-Platónicos e dos Gnósticos. A Gnose, sendo uma ascese ou ascensão ao Saber Eterno, está ligada às teses do Idealismo Platónico e Neo-Platónico…

No entanto, o convívio dos Gnósticos e dos místicos das religiões monoteístas com as autoridades teológicas e ortodoxas dessas religiões nem sempre tem sido pacífico. Foram muitas vezes considerados heterodoxos, ou mesmo heréticos, e olhados com alguma desconfiança.

Semelhantemente, as mais recentes Ortodoxias Filosóficas, que imperam na maior parte das Universidades e Academias dos países onde a Filosofia “mexe”, olham com suspeita e algum desdém a Metafísica, e em particular o Idealismo. Convém aqui relembrar Nietzsche, porque o seu volumoso perfil está sempre presente na galeria dos mais vigorosos adversários do idealismo... Todavia, a sua solidão tão heróica quanto trágica, assim como o seu suicídio, liberam-no de ser emparelhado com essas vozes da ortodoxia monista, reconfortadas na solidez da matéria que julgam que os rodeia...

Um exemplo flagrante da censura ou pressão preconceituosa contra os idealistas, em pleno século vinte, será o caso de Kurt Goedel, que se iniciou nas lides filosóficas como membro convidado do Circulo de Viena, o grupo dos criadores do Positivismo Lógico e ferozes críticos do idealismo. Desde essa peculiar circunstância inicial, em que o genial lógico estava totalmente isolado, incompreendido e menosprezado, até ao final da sua vida, em Princeton, nos E.U.A., Goedel foi sistematicamente esquecido ou mal interpretado, porque o seu Platonismo não era conforme com as metafísicas em voga. Valeu-lhe, no entanto, para além do seu génio e da qualidade dos seus trabalhos lógicos, o seu colega e amigo Einstein, cuja influência e notoriedade levou longe e alto a sua mútua amizade e respeito.

Por tudo o que se disse, parece ser justo afirmar que o Idealismo, hoje, é uma aventura difícil, a exigir a coragem de afrontar o senso comum de filósofos e académicos comodamente assentes numa filosofia sem Metafísica, sem trancendência, encerrada num empirismo reducionista e num ateísmo militante, mas a que as novas tecnologias dão bem estar e aparência de sucesso, e a Inteligência Artificial dá a sempre necessária e conveniente Utopia.