A ILHA DOS AMORES EM
“OS LUSÍADAS”

É REAL? OU IMAGINÁRIA?

Abel de Lacerda Botelho

A popularmente chamada “Ilha dos Amores” concebida e descrita por Luiz Vaz de Camões no seu poema épico “OS LUSÍADAS” é uma Ilha real existente no Oceano Atlântico ou Índico?

Ou, pelo contrário, é uma “Ilha imaginária” criada e liricamente cantada e descrita por Camões?

Ou ela é mais do que imaginativa, e é uma “Ilha” no “Centro do Mundo”, um “Templo de sabedoria cósmica”, em que o “mistério da essência humana” está “encerrado” “escondido” “guardado” ou mesmo “eternizado? E de acesso de conhecimento só para “espíritos escolhidos”?

Será que a “chave que abre a porta dessa Ilha” é o verdadeiro objectivo e essencial do poema? Aquele “secreto segredo sacro” que possibilita ao “Peito ilustre Lusitano” por “obras valerosas da lei da morte se ir libertando”?

Será que “nessa Ilha Angélica pintada” criada por Camões, está “situado o TRONO DA VERDADE? A “essência da vida”? Será que essa “essência” é o grande protagonista de todo o poema? Aliás, a quem é que o poema é verdadeira e esotéricamente destinado? Será, que em lugar de chamar-se a essa ilha, a “Ilha dos Amores”, não deveríamos antes chamar-lhe A ILHA DO AMOR? A ILHA DO PURO AMOR?

Parte I


Camões para descrever essa “Ilha”, e o que lá existe, e o que lá se passou ou passa, dedicou 20% (vinte por cento) de todas as “estrofes poéticas” do seu Canto épico. Na verdade a descrição de tal “ILHA” começa na “estrofe nº 16 do Canto IX” e termina na “estrofe nº 143 do Canto X”. Ocupa, pois, 132 estrofes (e excluímos as que se referem a cantar “os feitos heróicos futuros dos portugueses ilustres que se destacaram em terras do Oriente, após a viagem do Gama”).

A designação de “Ilha dos Amores” não ocorre porém do poema, pois nele, ela é mencionada só por:
- “Insula divina” – (IX.21)
- “Ilha namorada” – (IX-51)
- “Ilha fresca e bela” – (IX-52)
- “Formosa Ilha alegre e deleitosa” - (IX-54)
- “Ilha Angélica pintada” – (IX-89)
- “Ilha de Vénus” – (IX-95)
- “Ilha alegre e namorada” – (X-143)

Vários comentaristas de “Os Lusíadas” tentaram ao longo dos tempos, identificar a “Ilha dos Amores” com uma Ilha real, concreta, geográficamente localizada. Assim vemos que, de entre eles, os mais significativos foram:

- Manuel Correia, contemporâneo de Camões e falecido em 1609 que escreveu: "(m)uytos tem para sey que esta ilha de que o Poeta falla, seja a de Santa Helena”.

Contudo, ele próprio, contesta esta sua afirmação esclarecendo:“Foy hu fingimento que o Poeta aqui fez, como claramente consta da letra."

Esta convicção errónea sobre a “Ilha dos Amores” ter sido localizada na Ilha de Santa Helena, situada no Atlântico Sul, vinha de alguns comentaristas da época, tais como Fernão Alvares do Oriente, que descreveu, na sua “Lusitania transformada”(1607) essa ilha, seguindo de perto a descrição camoniana da edição dita dos piscos (1584).

Teófilo Braga referiu a Ilha Terceira como sendo a Ilha dos Amores. Mais tarde, Faria e Sousa identificou-a como sendo a Ilha de Angediva. Gomes Monteiro propôs a Ilha de Zanzibar. Francisco Freire de Carvalho a Ilha de Ceilão. Cunha Gonçalves indicava a Ilha de Bombaim chamada também como Ilha da Boa Vida, onde aliás Camões deverá ter estado várias vezes, pois nessa Ilha, Garcia da Horta – grande amigo de Camões – possuía um palacete onde viveu.

Outros comentaristas indicaram diversas outras ilhas localizadas ora no Arquipélago das Canárias, ou de Cabo Verde ou a Ilha do Príncipe em São Tomé.Só que, a tese de a “Ilha dos Amores” corresponder geograficamente a uma ilha existente no Atlântico Sul, ou no Índico, é verdadeiramente empírica e “sem bom senso” pois, para nós, o génio de Camões “pintou” uma ilha imaginária e imaginada por ele, uma ilha simbólica, uma ilha esotérica e nunca “retratou” (ou como agora se diria) – “fotografou” nenhuma Ilha em concreto e real.

É mais que evidente que “A Ilha dos Amores” é pura criação de Camões e verdadeiramente simbólica, quer na ideia, quer no conteúdo, quer no objectivo. E só assim é que se justifica como é que um poeta lírico – como também o foi Camões – é capaz de dedicar no seu poema épico – 20% das suas estrofes (cento e trinta e duas estrofes) ao tema do “AMOR”. É claro que, o difícil, é encontrar “a chave” que “abra” tal “segredo”. E julgamos inclusive que nunca será encontrada tal “chave mestra”.

Contudo, ensaiemos percorrer uma via para a encontrar. E é nesse sentido que vamos “ensaiar” possíveis caminhos.

Antes disso, porém, não deixaremos de referir (como curiosidade) que, no que concerne a procurar saber se “existe” geográficamente uma Ilha a que Camões se tenha referido, e se “tal” ilha deveria ser procurada no Oceano Atlântico ou no Oceano Índico, vejamos o que diz a “estrofe 16 do Canto IX” :
“Apartadas assi da ardente costa
As venturosas naus, levando a proa
Pera onde a Natureza tinha posta
A meta Austrina da Esperança Boa”.

Portanto, a “tal ilha” estaria, pois, no Oceano Índico e situada antes de dobrar o Cabo da Boa Esperança, que era “a meta austrina” de quem, saindo da Índia, a pátrias terras desejasse voltar. Então, essa Ilha poderia realmente ser a Ilha de Moçambique (onde, aliás, Camões aportou e lá permaneceu, longo tempo, em 1569).

Eu, por um acaso bélico, visitei tal ilha mais de vinte vezes, e “in loco” constatei a existência do “promontório de Camões” onde inclusive o poeta está homenageado, e presente esculturalmente através de um seu busto lá colocado. Sítio e ilha, bem paradisíacos, onde inclusivamente não faltam as “casuarinas” (casuarinácea-cunninghamiana) cujas folhas, ao vento sibilando, produzem sons, verdadeiros apelos de sereias chamando seus argonautas.

Só que essa Ilha, a Ilha de Moçambique, é morfologicamente plana, e não possui “outeiros” nenhuns, nem rios, nem lagos, nem é “ornada de esmaltado e verde arreio” (C. IX-21). Mas, em conclusão deste capítulo, repetimos: Tentar encontrar física e geograficamente a tal “Ilha dos Amores” nos Oceanos Índio ou Atlântico é o mesmo que tentar acreditar no que é “fyngimento” de Camões e na sua liberdade poética e ainda por cima seria uma “grosseira leitura empírica” de “Os Lusíadas”, verdadeiramente ausente do “mínimo de bom senso”, e até “atentória” da genialidade do nosso maior épico.

Parte II

É claro e é evidente que a descrição que Camões faz dessa ilha como espaço de felicidade, de harmonia, de beleza de paisagens, de amenidade de clima e de fertilidade do solo e com a nomeação detalhada da sua fauna, flora e ambiente paradisíaco, - é um arquétipo fascinante do imaginário humano, várias vezes utilizado pelos grandes escritores e sobretudos poetas, e bem no género de “As ilhas dos bem-aventurados” da tradição helénica tal como o fez Hesíodo na sua obra “Os Trabalhos e os Dias” e como, mais tarde, Santo Isidoro de Sevilha relata nas “Ilhas afortunadas” (Fortunatarum insulae – Etymologiae, I. XIV, 6,8) ou mesmo até com o relato das “Ilhas lendárias” de origem céltica e judaico-cristã da ”Navigatio Sancti Brandani – “As Navegações de São Brandão”.

Como a Ilha é mais descrita como um jardim celestial, paradisíaco, com a sua flora simbólica, as suas flores odoríficas, os seus coloridos frutos, as suas puras águas, as suas aves harmoniosas, ela pode-se identificar mais como um dos paraísos terreal próprio dos MITOS ORIENTAIS e das crenças Judaico-Cristãs, e Camões invocaria então àquele “locus amoenus” como os “Jardins de Alcino” na Ilha dos “Feaces” descrita no Canto VII da Odisseia.

Ou como também surgem nos poemas italianos/ humanistas e renascentistas como é o caso dos “Trionfi” de Petrarca (Triumphus Cupidinis) ou do poema de Angelo Poliziano intitulado “Stanze per la giostra di Giuliano di Pietro de Medice”. Inclusivé, à descrição do jardim de Vénus do poema de Poliziano haverá que acrescentar as descrições de jardins presentes no “Orlando Furioso” de Oriosto (VI, 21; X, 61-63; XXXIV, 48).

Sobre a parte científica que Camões descreve e domina no seu Canto IX, há quem diga que o poeta se terá “inspirado” e “retirado” extractos de obras tais como de “Somnium Scipionis” de Cícero no referente à “Spera mundi”,ou recolhido elementos da obra do nosso cosmógrafo-real Pedro Nunes do seu “Tratado da Esfera” ou mesmo da obra”Tratado da Esfera Perguntas e Respostas” de D. João de Castro.

Um outro elemento, e não dos menores como veremos, que é evocado no episódio da “Ilha dos Amores” é o referente à “Lei do Amor Universal”. Nesse sentido, curioso é notar-se que VÉNUS andava ocupada numa “expedição contra os desmandos, os erros, e os vícios do “mundo revelde” que não obedecia a essa lei universal do Amor. Devemos notar que esta concepção do Amor, como princípio originário, regulador e regenerativo do ordenamento e da harmonia do mundo é de origem Neoplatónica. Marsílio Ficino a isso se refere no seu comentário ao “Banquete” de Platão quanto ao “amor nadus perpetuus”, e “copula mundi”. Aliás, Leão Hebreu, em diversas passagens do seu “Dialoghi di Amore” também a “isso” se refere.

Camões, curiosamente, nas estrofes 27 a 29 do Canto IX refere e verbera os desregramentos, as desonestidades e as torpezas dos responsáveis pela governação do reino e pela acção das instituições religiosas. E antes, na estrofe 26, Camões menciona os “erros grandes” do “mundo revelde” consagrando-os ao mito de Actéon:
“Via Actéon na caça tão austero
E guarde-se não seja indo comido
Desses cães que agora ama, e consumido”.

Curiosamente, Faria e Sousa interpretava alegoricamente esses ditos identificando Actéon a D. Sebastião. Na verdade, o conteúdo das já citadas estâncias de 26 a 29 Canto IX, constituem uma acusação de grande coragem cívica, politica e ética, formulada contra os poderes políticos e religiosos que, movidos pelo egoísmo, pela cobiça, e pela hipocrisia, esbulhavam, enganavam, e oprimiam o povo e não permitiam, com a sua rede de adulações, que se “mondasse o novo trigo florescente”.

Mas, regressando à harmonia da paisagem da “Ilha dos Amores” com os primores da sua flora e com o encanto da sua fauna, a “Ilha dos Namorados” configura-se realmente com o “locus amoenus” que há-de ser também o “locus eroticus” o leito nupcial da união amorosa entre as ninfas e os navegantes, do qual nascerá a “geração redentora do futuro”.

O princípio neoplatónico do amor como “modus perpetuus et copula mundi” alia-se no episódio à jubilosa sensualidade, sem sentimento de pecado, e à exaltação dos deleites em consonância com a doutrina formulada nos “Diálogos de Amor” de Leão Hebreu.

Uma das críticas literárias “atiçadas” a Camões e a “Os Lusíadas” é exactamente a de que Camões não seria, nem teria sido o tal génio idolatrado pela pátria lusa pois em “muitos versos” e… “em muitas descrições” ele, não terá sido mais que “copista”, ou “plagiador” dos grandes épicos antigos ou contemporâneos.

Estas críticas, porém, em nosso entender, não passam de verdadeiras calúnias, muitas delas movidas por inveja, ciúmes, ou incompetência literária de vários lusos maldizentes, ou por descrédito, insensatez, e ódio proveniente de enorme desonestidade intelectual que homens pensadores, poetas e até pseudo-filósofos estrangeiros, denegrindo Camões, pretendiam denegrir a literatura e a alma lusa que, por inveja e perfídia, eles jamais aceitavam ou aceitam que pudesse ser superior, e pudesse suplantar-se poética e filosoficamente e, até eticamente, à cultura dos países íncolas a que eles pertencem.

O que se passa é verdadeiramente outra verdade. Luiz de Camões em “Os Lusíadas” não copiou nem plagiou ninguém, quer escritores clássicos quer escritores seus contemporâneos nacionais ou estrangeiros.

Ele, sim, evocou e até transcreveu versos, imagens, citações, e até conceitos, poeticamente antes já descritos, mas não o fez, repete-se, por “copiar” ou para “plagiar”. Ele “cita-os” e “descreve-os” para demonstrar não só o que era próprio da sua enorme erudição, e mesmo conhecimento “Enciclopédico” da época como, sobretudo, o fez para “ilustrar” quão certas, quão correctas, quão verdadeiras estavam as suas ideias, os seus conceitos, o seu raciocínio, enfim, demonstrando como a sua POESIA seguia na VIA certa, VOGAVA na ondulação do saber correcto e mais – como eram meros degraus da Escada do seu próprio saber, a que ele de alma e coração se votara a subir, e a um patamar do Belo e da Verdade, ONDE nenhum outro Poeta ainda conseguira chegar.

E é essa “subida etérea” que leva ao último patamar da Justiça, do Belo e do Amor. Nos dois capítulos seguintes, iremos tentar desvendar o que a poesia Camoniana nos ensinou, escondendo-o, no sentido de que: “Na Ilha Angélica pintada / Entendei que, segundo o Amor tiverdes / (É) que tereis o entendimento de meus versos./ Pois só o Amor e Puro / (É) que faz que leia mais do que vê escrito”.

Parte III


Tendo em consideração o que atrás foi dito, desejo agora chamar a atenção, para que os episódios da “Ilha dos Amores” descrito nos Cantos IX-X de “Os Lusíadas” deverão ser lidos, entendidos, interpretados e até explicados, como estando inseridos num poema Épico que, de forma verdadeiramente genial, (para não se dizer: quase sobrenatural), foram pensados, elaborados e magistralmente escritos de uma forma CRIPTADA – CIFRADA.

“Os Lusíadas” têm realmente a capacidade para, em leitura singular ou primária, nos darem um conhecimento empírico: Os feitos dos Barões Portugueses, dos seus Reis que foram dilatando a Fé e o Império, do Peito Ilustre Lusitano que através do símbolo do seu capitão de mar Vasco da Gama e seus mareantes descobriram e executaram a viagem marítima da descoberta da Índia “em perigos e guerras mais que esforçados”, donde resulta que os heróis Lusos, - que praticavam ou praticam obras valerosas, da lei da morte se irão libertando.

“O Lusíadas” dão também um conhecimento científico: desde a arte e técnicas de marear, ao conhecimento das marés, correntes, instrumentos náuticos e de orientação, conhecimentos físicos, botânicos, geológicos, sociais, matemáticos, químicos, e desde a agricultura ao comércio e às industrias, desde a astronomia à cosmologia não descurando a sociologia, conhecimento dos povos e seus costumes, até às artes militares e bélicas, e inclusive de política administrativa.

Também “Os Lusíadas” são uma autêntica enciclopédia, do conhecimento simbólico – metafísico. - As descrições mitológicas, a vida, o sentir, as reacções e os desejos dos Deuses do Olímpio e dos semi-deuses, dos deuses terráqueos e dos terráqueos semi-deuses.

A simbologia Judaico-Cristã-Islâmica está mesmo presente nos X Cantos de que é composto o poema épico desde as estrofes 6 e 7 do I Canto:
“E vós, ó bem nascida esperança
……………………………………..
Do aumento da pequena Cristandade”
………………………………………..
E tenro e novo ramo florescente
De uma árvore de Cristo mais amada”

Até à estrofe Nº 105 do Canto X
“Um reino maometano, outro gentio
A quem tem o demónio leis escritas”.

E finalmente, em “os Lusíadas” poderemos ver, como está CIFRADO todo um conhecimento esotérico, gnóstico-cristão. E esse conhecimento, que percorre todos os cantos do poema, está, porém, fundamentalmente DESCRITO e atinge o seu APOGEU dentro do episódio da “Ilha Angélica Pintada” (IX-89).

Vejamos numa primeira abordagem deste tema, o que nos dizem fundamentalmente dois pensadores-filósofos da nossa recente geração do século XX.

Sampaio Bruno (1857-1915) – diz-nos que: “Urgia decifrar “Os Lusíadas” pois como texto inspirado que é, envolve no seu seio uma pluralidade de sentidos”.

Disse ele: “Os Lusíadas” é um texto cifrado, mas ainda hoje é difícil encontrar as razões que terão levado Camões a “esconder” por vezes, a verdade, que ele porém queria contar. Uma dessas razões terá sido “o medo à censura” inquisitorial, e às represálias do Tribunal do Santo Ofício. Basta analisarmos o que aconteceu ao seu contemporâneo (e grande amigo) Damião de Goes”.

Continua “Sampaio Bruno”: “Camões pertencia a uma organização revolucionária, e hostil à Igreja Romana. O sinal dessa organização – a senha – era a palavra A-M-O-R, que é a inversão literal da palavra ROMA”.

Sendo assim, pergunta Sampaio Bruno; “Para quem escreveu, ou escrevia o poeta? A quem se dirigia a sua mensagem politico-religiosa?”

O problema pode tentar resolver-se respondendo que existe em “Os Lusíadas” um ENSINO que:“Só é possível mostrá-lo - escondendo-o. Nesse “ensino” nunca ninguém será sábio, pois é um ensino em que se aprende-aprendendo, um ensino especial, não dado de uma vez por todas, e para sempre, é antes um ensino inserido numa “misteriosofia”. É um ensino que faz “que leia mais do que vê escrito”.

Camões teve, por vezes, o cuidado de desviar a atenção do essencial, fazendo muito barulho onde não está nada, dando ele próprio uma falsa interpretação dos seus versos acumulando erudição, envolvendo as palavras primeiras de pormenores luxuosos, à semelhança dos escultores que nas portas das Igrejas escondem na ornamentação as formas simbólicas essenciais.

As últimas estrofes do Canto IX são um exemplo dessa falsa interpretação. Certas ilustrações mitológicas são o modo de fazer passar por erudição o que é a indicação exacta dos sentidos. Por exemplo, o nome de ADAMASTOR constitui uma subtil troca de letras, a cifra de “ADÃO ASTRAL” da gnose hebraica.

O leitor comum dificilmente aceitará a existência de uma pluralidade de sentidos incluídos uns nos outros – próprios – da profundidade da profundidade. Significa isto, que há correspondência entre o “grau” do leitor, e o estrato profundo ou superficial que em “Os Lusíadas” se toca. Assim, - e por AMOR – o poeta ocultou “aquilo” sob condição inevitável de quem “o pretende mostrar”.

E assim, o que se irá “filosofando”, ficará sempre muito aquém do “mais” que em ”Os Lusíadas” está escrito.

Sobre este “sentir”, António Telmo refere o “Ao que em nós se sente, e se está pensando”.

Este nosso pensador-poeta-filósofo – António Telmo, estudou este assunto, e deixou-nos um valiosíssimo estudo no seu livro: “Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões” (Ed. Guimarães Editores – 1982) e cujo primeiro capítulo é exactamente intitulado “Introdução à Ilha do AMOR” e nele tem como dedicatória a Luís de Camões exactamente um dos seus versos - “Que faz que leia mais do que vê escrito”.

É desse livro que iremos em seguida reproduzir “extractos vários e seguidos” e é dele também que consta a “Iluminura” que reproduzimos como capa e contra-capa deste ensaio.

Esta iluminura pertence a um manuscrito dos fins do séc. XIV do Sul da Pérsia e vem reproduzido no livro SUFI de Laleh Bakhtiar. O leitor familiarizado com “Os Lusíada” facilmente reconhecerá nela a similitude com o retrato da “Ilha dos Amores”, de tal modo que poderia servir de ilustração ao Canto IX, pois nem nela falta, sequer, o pormenor dos cisnes e dos rouxinóis.

“Ao longo da água o níveo cisne canta,
Responde-lhe do ramo Filomena (C. IX-63).
Três formosos outeiros se mostravam
Erguidos com soberba graciosa
Que do “gramíneo esmalte” se adornavam (C. IX-54.)

Claras fontes e límpidas manavam
Do cume, que a verdura tem viçosa…” (C. IX-54”

Num vale ameno que os outeiros fende
Vinham as claras águas ajuntarem-se
Onde uma mesa fazem que se estende (C. IX-55)

Arvoredo gentil sobre ela pende (C. IX-55)
Mil árvores estão ao céu subindo” (C. IX-56).

A flora não corresponde exactamente à da paisagem pintada. Em Camões, aparecem árvores próprias do clima ocidental. No entanto o cipreste dominante nas ilustrações persas surge no fecho da estrofe 57 (C. IX) ligando – pelo movimento da sua forma em chama – o Paraíso Terrestre ao Paraíso Celeste.

“Está apontando o agudo cipariso
Pera onde é posto o etéreo Paraíso”


COMO EXPLICAR TÃO ESPANTOSA COINCIDÊNCIA?

A primeira ideia que ocorre é a do poeta ter conhecido ocasionalmente o manuscrito anterior de século e meio à redacção de “Os Lusíadas” e de nele se ter baseado para a “criação da Ilha”. É porém o próprio A. Telmo que questiona: “Onde haverá porém, erudito tão imprudente, que perfilhe tão absurda hipótese”? Ou então, terá o “poeta iniciado” tido acesso – não ao manuscrito – mas ao MUNDO onde a ilha existe realmente? Nesse caso, “as ilustrações” do manuscrito persa, seriam então repercussões de uma experiência tida de verdade. E assim as ilustrações representavam formações da imaginação de quem VIU e esteve lá.

Esse “mundo” visitado também por Camões, o “MUNDUS IMAGINALIS”, não é fantasia ou mentira nascida na mente, mas um mundo real e sensível, intermediário dele para com o mundo inteligível. Os Sufis, designavam isso por MALAKUT, e os cabalistas, por MALCUTH. Henry Corbin várias vezes nos lembra que HÁ EM TODOS OS SÁBIOS quer do passado quer do presente, um órgão subtil de percepção que normalmente está adormecido na maioria dos homens. Prevendo-se a sua confusão com a fantasia, nesses casos costuma-se dar à “imaginação” o epíteto de criadora ou CRIATRIZ. E assim: A Ilha de Vénus movia-se pelas águas, docemente empurrada pelos poderes da Deusa” COMO O VENTO LEVA BRANCA VELA” mas, logo que os nautas a viram e se lhe dirigem, ela “tornou-se firme e imóvel”.

Exactamente também Zorastustra e um pequeno grupo tiveram de atravessar uma grande extensão de água antes de alcançar a “montanha das auroras” situada no centro de um grande mar cósmico”.

Admitida esta explicação de semelhança entre as duas descrições – a persa e a camoniana – não nos basta uma simples verificação. Teremos de ir mais longe. E, com efeito, outros dados se nos oferecem em “Os Lusíadas” que sugerem a proveniência na poesia de Camões de tradição secreta de Zoroastro. Em dois pontos da “Ilha dos Amores”, o poeta parece saber muito bem onde radica a sua visão:
- O primeiro é quando compara a vegetação que cobre o rústico terreno a um tapete Persa (C. IX-60).
- O segundo quando, mencionando alguns frutos da ilha, se refere ao “pomo que da Pátria persa veio” (C. IX-58).

Aliás, diz que “a tapeçaria bela e fina, faz ser a de Aqueménia menos digna”; aqui acha que o pomo vindo da Pérsia se tornou melhor no terreno alheio.

Não houve nestes dois pontos a indicação de uma orientação iniciática que, tendo a Pérsia como pátria, assumiu uma nova e superior forma?

Existem ainda dados mais firmes. Um deles é o do “Oitavo clima” – termo pelo qual a tradição de Zoroastro designava o mundo subtil ou imaginal. Em Luís de Camões não encontramos explicita a expressão de “oitavo clima”, mas outra, verdadeiramente correspondente; que é a de “oitava parte”.
“Do que eu vi, a poder d' esforço e de arte,
E do que inda hei-de ver, a oitava parte?” (C. V-86)

Esta oitava parte do mar profundo, para além das sete partes em que no tempo de Vasco da Gama, estava dividido, corresponde exactamente ao oitavo clima, para além dos sete climas da terra. Sendo assim, teremos de identifica-lo como o “Reino de Cristal líquido e manso” onde Vénus fez surgir a Ilha.

Outro facto importante a ter em conta, é o da Ilha surgir aos olhos dos navegantes, quando a aurora se levanta:
“Houveram visto da Ilha namorada
Rompendo pelo céu a mãe formosa
De Memnónio suave e deleitosa” (C. IX-51).
Ora o lugar “in médio mundi” que Zaratustra alcançou, depois de ter atravessado uma larga extensão de água com um pequeno grupo, dá pelo nome de ERÂN-VÊJ. Há ali três outeiros, um deles é a montanha das auroras, a primeira que se avista. Está situada no meio do mar cósmico VOURUKASHA, onde veste as águas que recebe das outras duas.

Este tipo de conhecimento recebeu no hermetismo da Renascença o nome de “cognitio matutina”. (Portugueses somos do Ocidente/ vimos buscando as terras do Oriente, ou as terras da Aurora). E aqui surge um terceiro dado: A luz que ilumina Erân-vêj não vem do exterior, de um foco luminoso – sol, lua, ou lâmpada, vem é, do próprio objecto que é iluminado.
“Pera julgar, difícil cousa fora
No céu vendo e na terra as mesmas cores
Se dava às flores cor a bela Aurora,
Ou se lhe dão a ela, as belas flores” (C. IX-61)
Chegados a este ponto, uma pergunta crucial surge (Deixando para outros estudos, o saber-se em que medida as Ninfas que povoam a Ilha, se identificavam com os Anjos e Arcanjos femininos de Zoroastro). Há que demonstrar primeiramente, como se teria, DE FACTO, estabelecido uma relação entre a sabedoria persa, a espiritualidade iraniana, - e a outra sabedoria, a ocidental, que será entre nós a fonte de conhecimento de Camões.

Teve Luís de Camões nas suas longas viagens pelo oriente, encontrado “alguém” que ocasionalmente o “tenha iniciado”, lhe tenha transmitido tal “peregrino conhecimento”? Ou Camões, já tal conhecia e dominava mesmo antes de partir de Lisboa? Estamos chegados, a mais um “cruzamento” no percurso de nossa VIA, e teremos de tentar encontrar o caminho certo a seguir, pois a “Divina Providência”, por sabedoria ou por misericórdia, esqueceu-se de nesse “cruzamento” colocar qualquer indicação ou tabuleta orientadora de qual caminho a seguir, apesar de não nos ter dificultado definitivamente a encontrar a melhor direcção, pois não ousou transformar “o cruzamento” em mera ou vexatória “ROTUNDA”.

Vejamos: Rafael Monteiro, teve a audácia de ver em S. Tomé, como sendo a figura do Apóstolo que “em duplicado” – ou como “Dídimo ou Gémeo”, inspirou os célebres painéis de Nuno Gonçalves. No seu opúsculo “Ainda o Mistério dos Painéis” não quis, (ou não se atreveu) a identificar a dupla figura central com o Cristo e o seu Gémeo – S. Tomé o Dídimo -, mas lá foi sugerindo ser um, o São Tomé Arcebispo de Cantuária, que o pintor teria escondido sob uma imagem menos suspeita, aquele que foi no período áureo da existência verdadeira da Pátria – o Patrono de Portugal – S. TOMÉ. Consideramos que Rafael Monteiro – “pôs o dedo na ferida”, e é essa ferida que iremos também tocar através do próprio dedo de Luís de Camões. “A Ferida”, é a heresia de Prisciliano que perdurou, perdura e perdurará para além do nascimento espiritual e social que o heresiarca criou, e que difundiu, e que comandou exactamente na região que viria a ser a do mundo galaico-português. E se Camões – como uma tradição antiga afirma – nasceu em CHAVES, “a cidade portuguesa mais perto da Galiza – a “Aqua-Flavia” dos Romanos” não será de admirar que tenha lá ouvido contar pelos seus Avós, algumas histórias locais….

Menendez Pelayo, na sua obra “História dos Heterodoxos Espanhóis”, afirma e confirma que o Livro Sagrado dos priscilianistas era “Os Actos de S. Tomé”. Ora, é exactamente pelos “Actos de S. Tomé” que a espiritualidade iraniana penetra no nosso país. Henry Corbin, por várias vezes, chama a atenção para o perfeito paralelismo existente entre “O “Canto do Exílio Ocidental” do persa renovador de Zaratustra: SORAWARDI, e “O Canto da Pérola”, inserto nos “Actos de S. Tomé”. Lá está textualmente escrito:“Se é verdade que os – Actos de S. Tomé - tiveram de ser repelidos pelo cristianismo oficial para a zona dos Apócrifos; em compensação, pode afirmar - que esse livro formula o “leit-motive” de toda a espiritualidade iraniana”.

E Rafael Monteiro relembra que em “Os Lusíadas” são esquecidos os restantes Apóstolos, e a São Tomé, e à sua vida e obra são dedicados nada menos do que treze estrofes (estrofes 108 a 120 do Canto X). E depois disso o poeta diz:
“Mas passo esta matéria perigosa” (C. X-120).
E só depois da “descrição” deste episódio sobre S. Tomé, é que Vénus diz:
“Podeis-vos embarcar… para a Pátria amada” (C. X-143).
Destes factos que cada um tire as suas próprias conclusões, pois sentir o Puro Amor
“Milhor é experimentá-lo que julga-lo,,
Mas julgue-o, quem não pode experimentá-lo”. (C. IX-83).
Mas voltemos à pintura persa, e à Ilha Angélica pintada. Não há nelas dimensão de profundidade, sugestão de distância, nem de perspectiva. O próximo e o afastado projectam-se no mesmo plano. Tudo participa assim da mesma presença. Montanhas, árvores, rios, pássaros, flores, o próprio céu azul são interiores uns aos outros. São imagens suspensas. São em si sem dependência, suporte ou entrave.

Aqui, no MUNDUS SUBTILIS, a lei da perspectiva não funciona, nem existe: TUDO É.

Em Camões a Ilha, também está suspensa no “Reino de cristal líquido e manso”. E assim viaja-se numa Ilha pintada. De repente vemos tudo num maravilhoso tapete mágico.
“Ali a cabeça a flor cefísia inclina
Sôbolo tanque lúcido e sereno” (C. IX).

As flores são todas como o narciso, flores de jardim, o que é coisa estranha numa terra onde as árvores crescem e frutificam “sem necessidade de cultura” (estrofe 58).

É a anémona, o lírio roxo, a violeta, a rosa, a açucena, a manjerona, o jacinto, o jasmim, e o mirto. Destas flores, o mirto, o jasmim, a manjerona, o lírio e a rosa desempenharam um grande papel nas antigas cerimónias litúrgicas de Zoroastro. As flores são utilizadas como matéria-prima para a meditação alquímica. O fim é recompor mentalmente o paraíso, entrar na pleroma dos seres celestes: a contemplação das flores – seus emblemas – provoca reacções psíquicas, que transmutam as formas contempladas em energias que lhes correspondem, e tais energias resolvem-se finalmente em estados de consciência e de visão mental onde transparecem as figuras celestes.
“Dá Veloso, espantado, um grande grito:
Senhores, caça estranha (disse) é esta!
Se inda dura o Gentio antigo rito,
A Deusas é sagrada esta floresta!” (C. IX-69).
“Começam de enxergar subitamente,
Por entre verdes ramos, várias cores,
Cores de quem a vista julga e sente
Que não eram das rosas ou das flores, (C. IX-68).
A Ilha angélica é pois uma terra sagrada de Anjos e Arcanjos femininos, e é sem dúvida correspondente aos Anjos e Arcanjos femininos de ERÂN-VÊJ em que Thetis, é “Andrê-Surâ Anahitã” da mitologia persa, deusa imaculada e casta das águas, e que preside a uma das três montanhas a “Frovartis”. São as Ninfas, duplos celestes de cada um de nós, segundo a Teosofia de Zoroastro e também segundo a teosofia inspirada nos actos de S. Tomé o Gémeo, ou Dídimo.
“Mais descobrimos do que humano esprito
Desejou nunca” (C. IX-69).

E António Telmo conclui: O conceito Camoniano do Amor, corresponde ao conceito de Xvarnah em Zoroastro. É aquela “energia luminosa”, a Luz da Glória, é a “aurora ou aura” – a “cousa amada”. É a Energia universal, que nos próprios termos de Camões, é “a flama viva, o nunca morto lume/ de desejo que queima e não consome, é a potência de que se investe o Feminino, sem o qual nada é. É o fascínio que envolve deuses e humanos, e que preside ao “solve et coagula” das almas.

Mas António Telmo foi mais longe, e para ele, “Os Lusíadas” – pelos acidentes da viagem devem ser interpretados segundo aquilo que está simbolizado na “Ilha do Amor”. O ponto de ligação, aqui, reside em sabermos já que também Zaratustra e um pequeno grupo tiveram de atravessar uma grande extensão de água antes de alcançar a “montanha dos três montes” – a montanha das auroras situada no centro do grande mar cósmico. A. Telmo deixou bem frisado que não foi intenção dele, reduzir a imaginação mítica de Luiz de Camões à mitologia iraniana. Não se trata jamais de pensar que Camões fez “tradução” ou “plágio” de alguém. Acontece sim, que uma mesma experiência, aquela de “mais vale experimentá-la que julga-la”, se revela à alma em formas análogas. Só que essa experiência não é possível fora do ensino que tem, na sabedoria persa, o modelo milenário.

Assim A. Telmo pôs a hipótese de tal sabedoria e tal ensino terem assumido em Portugal a forma que lhes deu Prisciliano, e se terem transmitido em cadeia, pelo menos, até ao tempo de Luís de Camões.

Regressando à Ilha do amor, A. Telmo recorda que nela – há uma ninfa para cada nauta, que se sentam “dois a dois” no palácio de cristal e que por fim se juntam na hora da partida. Ele revela que “a beleza de “Os Lusíadas” atinge o esplendor culminante no Canto IX, mas a beleza, por uma curiosa ilusão do espírito é sempre ligada à fantasia, ao supérfluo, ao superficial”. E mais “o perigo da Beleza é o fascínio sem consciência da Sabedoria, que actua na Força”. É por isso que ele sugere ao leitor de “Os Lusíadas” que o que nele é dado como histórico, como discurso no tempo histórico e expansão no espaço geográfico, se for reflectido à luz do ARQUÉTIPO da ILHA, tornar-se-á transparente pela instauração interior e exterior do espaço e do tempo da alma.

Deixarão “Os Lusíadas” de ser uma epopeia do passado ensináveis nas escolas que do passado se ocupam.

E aquilo que um dia escreveu e disse – que “Os Lusíadas” são o Livro Sagrado de Portugal – não terá sido uma palavra vã.
“Que grandes são as cousas e excelentes
Que o mundo encobre aos homens imprudentes”.

Parte IV

Conclusão

Do que de Luiz de Camões sabemos, do estudo que da sua obra temos feito, e da leitura “em alma” que fazemos do poema “Os Lusíadas”, podemos sugerir que o episódio que nele está inserto e que vulgarmente é apelidado de “A Ilha dos Amores” (C. IX e X) não se trata de nenhuma Ilha existente no Globo Terrestre (geográficamente falando), nem se trata de nenhuns “amores” (erótico e liricamente falando).

Assim, o pretender saber se “A Ilha dos Amores” é uma Ilha Real é, pura e simplesmente:UM FALSO PROBLEMA.

I - Quanto à localização da Ilha
Efectivamente, a ilha descrita por Camões em “Os Lusíadas” Canto IX e X, não se situa nem no Oceano Atlântico, nem no Oceano Índico, nem em qualquer outro Oceano ou Mar. Aliás Camões, nunca se refere a tal ilha, designando-a de “Ilha dos Amores”. Das várias designações que ele emprega, e de que atrás já fizemos menção, uma se torna verdadeiramente emblemática, e que a nosso ver, traduz em pleno o pensamento do poeta: “Ilha Angélica pintada”.

Na verdade, a ilha descrita no poema nem é “uma porção de terra rodeada por água por todas as partes”. Nem sequer ela é uma ilha geográfica emergindo em qualquer mar, lago, ou rio. O próprio Camões nos diz e literalmente:
“Quando é que essa ilha surgiu”.
“De onde é que essa ilha surgiu”.
“Quem é que a fez surgir, e quem é que governava tal ilha”.
Depois da viagem marítima de Gama e de suas Naus terem atingido a Índia, e após a estadia que por lá tiveram, era chegada o tempo de regressar às terras Pátrias. Então:
“As venturosas naus
Se afastaram da ardente costa (indiana)
E apontaram suas proas
Pera onde a Natureza tinha posta
A meta Austrina da Esperança Boa,
Levando alegres novas e resposta
Da parte Oriental pera Lisboa”. (IX-16).
Isto é: As naus rumaram das costas Indianas para sul, em direcção ao Cabo da Boa Esperança para regressarem a Lisboa. Então a deusa Vénus – que tanto no Olimpo lutara contra os seus próprios irmãos deuses (sobretudo contra Baco) e tanto solicitara a Júpiter e Neptuno que ajudassem os seus lusitanos a conseguirem chegar à Índia, entendeu por bem – e perfeitamente BEM – que era justo
“Pera prémio de quanto mal passaram,
Buscar-lhe algum deleite, algum descanso,
No Reino de cristal, líquido e manso”. (C. IX-19).
Vénus, se bem pensou, melhor o executou, e
"Isto bem resolvido, determina
De ter-lhe aparelhada, lá no meio
Da águas, algua insula divina”. (C.IX-21).
E nessa Ilha divina (que não humana) Vénus, com a ajuda de seu filho Cupido enche-a de Ninfas e Nereidas já todas de amor feridas.
“Já todo o belo coro se aparelha
Das Nereidas
Para a ilha que Vénus as guiava. (IX-50).
Então:
“Cortando vão as naus a larga via
Quando juntas, com súbita alegria,
Houveram vista da Ilha namorada” (C. IX-51).
Pois:
“De longe a Ilha viram, fresca e bela,
Que Vénus pelas ondas lha levava
(Bem como o vento leva branca vela)
Pera onde a forte armada se enxergava” (C. IX-52).
E:
“Mas firme a fez e imóbil, como viu
Que era dos Nautas vista e demanda”(C. IX-53).
A Ilha portanto não é uma ilha real, geograficamente existente em nenhum mar, pois essa “Ilha” foi “gerada por Vénus”, e por isso ela é uma Ilha divina, “populada de Ninfas e Nereidas enamoradas” e após isso, Vénus “fez andar, fez navegar tal ilha até a levar à vista das naus da forte armada lusa.

E mais, Vénus, depois de levar a Ilha pelas ondas – como o vento leva branca vela – então, logo que tal Ilha foi vista – POR TODOS OS LUSOS – Vénus fez ANCORAR tal Ilha, pondo-a firme e IMÓVEL no meio do mar (IX-53).

A essa ilha divina gerada por Vénus, Camões chama “Ilha Angélica pintada”, pois nela os Nautas-lusos foram “saciados” e “nos mystérios do mundo” foram iniciados.

II

E o que é que acontece depois a essa “Ilha divinamente criada”?

Desapareceu? Volatilizou-se? Desfez-se? AFUNDOU-SE?

NÃO:
“Essa Ilha angélica pintada
Essa Ilha alegre e namorada”
Feita de PURO AMOR – foi simplesmente SUBLIMADA. Todos os nautas ao entrarem na Ilha do amor Puro, dela ficam enamorados”. A honra, a fama, a glória que é devida e dada “em graça” e “por graça” a todos aqueles que por obras valerosas da lei da morte se irão libertando, dá também acesso à “entrada” e “à visão” do Puro Amor. Daí, que os “nautas” ao sentarem-se, cada um deles, com sua Ninfa – Nereida – formam um casal que “comunga” do mesmo amor, tendo por cenário a “Ilha angélica pintada” e…mais, nessa visão e após ela, vem a “apreensão” do Puro Amor; e a partir daí já não há ”retorno terrestre” para a alma criada, pois ela, tendo-se “unido” ao seu “gémeo” de luz (ou aura) eterna, ela já é matéria subtil, e sublimada!!!

E assim, a “Ilha angélica pintada” conforme apareceu, … assim desapareceu, sublimada!

Por isso, a “Forte Armada Lusa”, ruma definitivamente para a Pátria terrestre, MOVIMENTANDO-SE com a própria Ilha:
“… e logo movimento
Fazem da Ilha alegre e namorada
…………………………………
Levam a companhia desejada
Das Ninfas, que hão-de ter eternamente
Por mais tempo que o Sol o Mundo aquente”. (C. X. 143).
Aliás é o próprio poeta que nos ensina sobre qual o verdadeiro significado da Ilha:
“… A Ilha angélica pintada
Outra cousa não é que as deleitosas
Honras que a vida fazem sublimada
Aquelas proeminências gloriosas
Os triunfos, a fronte coroada
De palmo e louro, a glória e maravilha
Estes são os deleites desta Ilha”. (C. IX-89).
Como eu, tive a humilde alegria, de nesta casa, e nesta Secção de Camões, em Outubro de 2002 ter apresentado um pequeno ensaio subordinado ao tema: Luiz Vaz de Camões – Cavaleiro Grã-Cruz da Ordem do Amor, hoje, em complemento, termino este pequeno ensaio camoniano dizendo que o génio de Camões conseguiu atingir o âmago do AMOR, do PURO AMOR.

“Os Lusíadas” além de serem “O Livro Sagrado dos Portugueses” – a sua Bíblia, eles constituem o Templo da Pátria, cujo sacrário é encimado pela Ilha Angélica.

“A ILHA DO AMOR”
“Quero que haja no reino Neptunino,
Onde eu nasci, progénie forte e bela;
E tome exemplo o mundo vil, malino,
Que contra tua potência se rebela,
Por que entendam que muro Adamantino
Nem triste hipocrisia vale contra ela;
Mal haverá na terra quem se guarde
Se teu fogo imortal nas águas arde”. (C. IX-42).

Se “Os Lusíadas” têm como sua “estrutura” e “corpo”, os
- Barões Lusos assinalados;
- A Memória daqueles Reis que dilataram a Fé e o Império;
- O Peito Ilustre Lusitano;
- E Aqueles que por obras valerosas
se vão da lei da morte libertando.

Têm por “alma” e “cantada” nos Cantos IX-X a exaltação do AMOR, do PURO AMOR.

 

Secção Luis de Camões da Sociedade de Geografia de Lisboa.

Comunicação feita no dia 17 de Janeiro de 2014 – dia de S. Antão.

por Abel de Lacerda Botelho

Notas:
Como curiosidade, anote-se que Camões esteve preso no Tronco – às Portas de S. Antão desde 16 de Junho de 1552 até 10 de Março de 1553, cerca de 9 meses, e embarcou para a Índia, por vontade própria a 24 de Março de 1553 (catorze dias após a sua libertação).

Santo Antão (251-356) Egipto.
“Representa a vitória da vontade, couraçada pela Fé, sobre as volúpias dos sentidos e do espírito que tendem a desviar o homem do caminho da santidade. (São célebres os quadros e pinturas sobre as tentações de S. Antão).