Como é possível não filosofar?

ou comentário tardio sobre a «existência da "Filosofia Portuguesa"»


Não corre o pensamento, incansável e inquieto, pelos mais recônditos recantos da nossa mente? E ao fazê-lo não está, as mais das vezes, pensando-se a si mesmo?

É um facto, ou um fado, que todos nós, nesta época e nesta sociedade, pensamos com a mesma cadência e naturalidade com que respiramos...

Desde crianças, e durante todo o "período educativo", ainda frágeis e incautos, vemo-nos incapazes de escapar ou alterar as condições em que, dia após dia após dia, nos inculcam esse hábito de pensar ininterruptamente...

E, no entanto, apesar de educados neste país Europeu, filho da Cultura Ocidental, não podemos pensar ou aceder à Filosofia Portuguesa... A nossa ilustre Academia e seus ilustres Académicos apenas refere, com modéstia de louvar (?), a Filosofia em Portugal, registando assim o que podemos interpretar como sendo as passagens ou as estadias, porventura turísticas, da Filosofia no nosso hospitaleiro e solarengo País.

Os que, a partir de 1957, se agruparam em torno de um exercício filosófico Português, constituindo o chamado grupo da Filosofia Portuguesa, parece que não conquistaram, para eles e para nós, o direito à cidadania intelectual Portuguesa, uma vez que continuam parcialmente ignorados, e por alguns avatares até mesmo marginalizados, como se comprova na leitura dos éditos curriculares da ilustre Universidade de Lisboa, e sua Faculdade de Filosofia - a única que refiro por me ser possível visitá-la com alguma facilidade.

Entretanto, como não escapamos à moderna benesse de sermos moldados no hábito de pensantes obsessivos, acabamos moldados no pensamento dos outros, disfarçadamente dependentes de outras culturas e outras línguas.


Prosseguindo, assim, uma vetusta tradição deste País, a dos estrangeirados, zarpamos céleres em direcção às Lovainas e Sorbonnes, para ai arrecadar a autoridade que depois, já na Terrinha, nos permitirá então, em opúsculo certeiro, confirmar a inexistência de qualquer Filosofia Portuguesa.

Fica-nos bem esta singela e paciente pequenez, este contentamento descontente com o nosso modesto rés do primeiro andar, a contar vindo do Céu!

Mas, mesmo na solidão desta Cultura sem coragem para afirmar a sua Filosofia, como é possível resistir ao desafio de orientar esse hábito de pensar para os sobressaltos aventurosos do livre pensamento?

Como é possível não tentar transformar esse processo mental, tendencialmente repetitivo e imposto pela necessidade, num exercício de liberdade e descoberta, num caminho de autonomia e autoria, numa dinâmica de identificação e partilha?

Sei que não vou por aí!

Finalmente...reduzir a «Filosofia» a uma disciplina escolar e ver nela a «matéria para marrar», é um dos tristes resultados de um sistema de ensino alienante, tristonho e incompetente. Em vez de promover a autonomia do pensamento, esta «filosofia» é mais um molde para completar o modelo do «cidadão europeu» - um votante pacato, culto mas conformado, consumista compulsivo mas ambientalista, escravo do trabalho mas viciado na reforma e, portanto, um refém do politicamente correcto. Não, isso não!!!

Há que dizer, como disse José Régio em poema inesquecível:

Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
Sei que não vou por aí!

para ler o poema completo clique aqui.

Lisboa, Setembro de 2006

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