Devaneio sobre a Beleza e a Arte

Nota: Este texto foi escrito a convite de Manuel Bernardes, para integrar o catálogo da exposição individual de pintura que realizou em Fevereiro de 2011


capa de catalogo“Tudo o que n'Ele tem permanecido invisível desde a criação do mundo será visto claramente ao apreendermos as coisas que criou” (Romanos, 1:20)

Os que olham para uma pintura esperam que o intento do artista tenha sido o de abrir uma fresta nos limites deste mundo, por onde passe uma réstea de Beleza. O artista, esse, espera que os olhares que procuram a sua pintura se deixem guiar pela luz, as cores e as formas dos seus quadros, ao encontro das subtis energias que fluem dessa fresta.

E é assim que a Beleza se torna real, e visível, apesar de não ser deste mundo.

É à Natureza que incumbe a tarefa de trazer o que é belo a este mundo. E criar coisas belas neste mundo é uma tarefa realmente indispensável, porque a Beleza é a Alegria de Deus.

A Arte é a única actividade humana que colabora com a Natureza nessa incumbência.

Os Atenienses de há vinte cinco séculos enfrentaram o dilema: deve o homem dedicar o seu precioso tempo a criar coisas belas, mas totalmente inúteis? A Ciência e a Técnica, o Comércio e a Guerra, não são essas as actividades que protegem e engrandecem a Cidade? Vejam Esparta...

E o que é isso da Beleza, da Verdade ou do Bem, senão estranhos nomes que chamam por coisas ausentes - ausentes nalgum Céu por onde passamos antes de nascer, ou nas nossas reminiscências de remotas eras, escondidas algures na Noite antiquíssima do Tempo?

O dilema estava instalado, e os Atenienes oscilaram... Uns, refugiaram-se na segurança dos nomes úteis, que chamam por coisas que existem, como o barco, a espada, a oliveira, a casa, o templo, Péricles ou Aspásia; e não pouparam à sicuta o filósofo que enfraquecia a Cidade e distraía os Cidadãos falando de coisas inexistentes. Outros, porém, dedicaram-e à aventura de levantar o inútil Parténon e de transformar a velha Acrópole defensiva e militar num monumental louvor à Beleza, lavrando um testemunho, irrefutável até aos dias de hoje, de que é a Arte que melhor concilia a Humanidade com a Natureza.

Hoje, na nossa culta Civilização com os seus milhares de milhões de pessoas, o dilema permanece na Cidade, porque o ser Humano é ainda o mesmo. E as respostas ao dilema são também as mesmas: haverá os que irão procurar refúgio, e haverá os que se dedicarão ao que é inútil, mas vale a pena.

Ao artista, portanto, continua a exigir-se que se liberte dos poderes de Esparta e tenha a coragem de subir a íngreme colina da Acropole, que leva ao inútil Partenon... Ao Manuel Bernardes, que é meu amigo desde a escola primária, bem lhe conheço a irrequietude que é o sintoma da doença que só essa liberdade cura. Esta exposição, por outro lado, é prova de que também não lhe falta a coragem.

Mas chegar ao Partenon, sendo um bom destino, é apenas o princípio da viagem, não o seu fim. Muitíssimos turistas chegam hoje ao Parténon... E que acontece? Distraídos com as formosas estátuas de deuses exóticos, que ávidamente fotografam para mostrar aos amigos e fazer render o custo da viagem, esquecem-se, como há dois milénios, de procurar com o olhar a estátua ao “Deus Desconhecido”...Confundem, pois, Formosura com Beleza. Ora a Formosura é a Aia, não a Princesa. A Formosura é a Fada, não a Deusa. E aos artistas, não lhes acontece o mesmo?

Na aplicação da Justiça, o Direito exige, para que haja crime, a chamada “mens rea”, ou seja, não basta o acto criminoso, o “actus reus”, terá de haver uma intenção maléfica e criminosa. Ora, para que haja uma obra de arte, não basta o “actus artisticus”, não basta levar uma forma ao barro, ou uma cor à tela... O artista tem mesmo de assumir o verdadeiro intento da Arte: abrir uma fresta nos limites deste mundo, por onde se possa vilumbrar uma réstea de Beleza. Mas, para isso, o artista terá de enfrentar o vazio que advém de a Beleza estar ausente em parte incerta, vazio que é a penosa “terra de ninguém” que o separa da fonte da inspiração.

Há sempre uma prova de fogo para quem tem a audácia de querer criar obras de Arte, entrando no reino sob a égide da Beleza; e muitos acabam por desistir, contentando-se com as fadas menores, que regem os artifícios, não a Arte.

E os que miram ou admiram a obra do artista, rodeados de tanta artificialidade e tão pouca Arte, farão bem em recordar estas palavras de Anne Frank: “Vê as coisas belas que, apesar de tudo, ainda temos à nossa volta, e sê feliz.”