Excertos da

“Crítica da Compreensão Pura” de Emanuel Kant


Selecção, ordenação, introdução e tradução livre de João Seabra Botelho

Introdução: É sabido que Kant teceu muito laboriosamente a argumentação exaustiva do seu sistema, pois era daqueles burgueses Modernos convencidos de que a Humanidade tinha finalmente entrado na Idade da Razão e, como tal, era tempo de criar um sistema capaz de corrigir os erros do passado Clássico e Medieval.

Não era só ele, porém, a desejar essa tarefa...Desde Lord Bacon que vários filósofos vinham dando a entender, de maneira mais ou menos explícita, que iriam tentar oferecer ao mundo um novo «organon», suplantando assim Aristóteles.

O leitor sem pretensões de erudição universitária, simplesmente animado de curiosidade filosófica, apanha um susto ao ver Kant soterrado sob centenas de versões, citações e traduções e um número abismal de interessados e seguidores... Quase parece que esses todos já disseram tudo. Ao mesmo tempo, porém, fica no ar, lançada subreptíciamente, a seguinte sugestão: só grandes especialistas compreenderão realmente a obra...

Encontrar textos de Kant que apresentem, de forma sucinta mas elucidativa, alguns dos momentos em que o seu filosofar serviu realmente de instrumento à inteligência universal, parece, pois, tarefa arriscada, qual incauto caminhante entrando em floresta densa e agreste, onde só devem entrar experientes viajantes. A esse primeiro desafio junta-se depois, como adiante explicitamos, o de traduzir esses textos para português.

Nortearam estas leitura, selecção e tradução algumas teses de escola formal, que a seguir se indicam:

1 - Entende-se em escola formal que só mesmo filosofando se compreende o filosofar dos outros. Neste exercício geram-se vínculos que podem vir a constituir, em certas condições favoráveis, uma tradição ou continuidade no dizer e no pensar que agrega, numa certa contemporaniedade, autores imbuídos de vivências matriciais e patriciais comuns.

2 - A tradição filosófica Germânica adoptou diversos termos da cultura greco-latina, partilhando com outros povos europeus o espólio recolhido e desenvolvido pela Escolástica medieval. Nessa adopção, e sem surpresa, alterou frequentemente o sentido desses termos. Ficaram, assim, muitos vocábulos dessa tradição greco-latina atribuídos a conceitos germânicos que lhe não correspondiam univocamente. Esses vocábulos, de facto, invocavam conceitos diferentes, tanto na tradição clássica original como nas posteriores tradições herdeiras, nomeadamente as escolas mediterrânica e atlântica.

3 - A esta confusão ou equivocidade, que foi apontada por Álvaro Ribeiro e outros, junta-se uma outra semelhante, mas de sentido inverso: não o que os Alemães fizeram do Grego e do Latim, mas o que os Latinos modernos fizeram dos filósofos Alemães, ao traduzirem a filosofia germânica para outras línguas e suas respectivas tradições filosóficas.

4 - Consagrados estes equívocos em muitos decénios de actividade universitária, encetar hoje qualquer esforço para libertar as palavras escravas das grilhetas dos equívocos dessa conveniência erudita e universitária é tarefa contrariada pela intensa actividade dos adeptos e cultores da Escolástica Europeia, que já tem os seus termos fixados, ou cunhados como o Euro, em esforçados Congressos de volumosas actas vertidas depois em compactos dicionários editados por opulentas fundações e institutos. Nada haveria nisto de errado, até por haver um esforço meritório na União Europeia de respeitar as línguas nacionais, se sob esse processo de normalização que dá de comer a tanto funcionário europeu da cultura não se escondessem distorções de sentidos próprios que, qual toupeiras, vão por seus secretos túneis roer as raízes às várias tradições mal traduzidas. Aos poucos, fenece o fluxo continuado e fertilizante das significações mais vernáculas, que são como velas que iluminam a procissão da fala; apaga-se hoje uma vela, amanhã outra, e mais tarde ou mais cedo acaba o cortejo por quedar-se imóvel no escuro, e morre mais uma pátria na noite antiquíssima... E que importância tem isso? Para quem não quer saber, nenhuma!

5 - Há várias tradições filosóficas na Europa e, actualmente, a todas se deparam as questões de primazia, de sobrevivência, de fusão, de morte.

6 - A escola formal confirma a existência de uma tradição portuguesa de filosofar. A linguagem desse filosofar, todavia, como toda a vivência na natureza, não escapa à cósmica entropia amorfisante que nos conduz no sentido da indiferenciação e do autismo. Pede-nos então a vida, ou talvez nos exija, que tenhamos consciência de que custa falar, como custa parir. Se é certo que ainda há mulheres ( embora sejam cada vez menos ), que querem parir portugueses, também parece ainda haver quem queira falar Português, o que, hoje, é como acender vela na ventania e rumar a destino próprio, em procissão ou romaria, enquanto que, já esquecidos e entorpecidos, os envenenados pela entropia se sentam, hipnotizados, a ver televisão.

Concluindo, então:

Como certos termos clássicos, seja, por exemplo, "intuição", foram usados por Kant com significado diferente do da tradição greco-latina (e quem diz "intuição", dirá "razão", "conceito" e outros casos mais...), e como a filosofia portuguesa tem um quadro conceptual firmado, em que os termos clássicos bebem o seu significado de fonte própria e secular, resolvi traduzir em total liberdade os conceitos do filósofo germânico, pro-vocando e pro-duzindo, ou seja, chamando para ir por certo caminho. Não pretendi, em suma, verter em Português o filosofar Alemão - isso andam a fazer muitos, e já haverá que chegue – mas dizer o que diria o Alemão Kant, se filosofasse em Português. Assim se esclarece o segundo desafio, certamente controverso, deste texto.

A concluir esta introdução, já longa, recordo o propósito inovador do filósofo de Konigsberg, que assinalei no início. E como Aristóteles tinha feito saber que, para se ascender à Metafísica, é necessário formular dois corpos de conhecimentos - a Psicologia, indispensável ciência da Psique, a alma que agencia toda a gnose, e a Ontologia, ou ciência do Ser, o pórtico que antecede a culminante Teleologia - Kant, para erigir novas colunas no templo moderno do filosofar ocidental, teria de acabar com elas. E acabou mesmo!

Assim o pensou, assim o disse e deixou escrito.

Intencionalmente pouco extensos, mas elucidativos das suas teses, os excertos aqui apresentados são alguns dos filosofemas duma notável obra de engenharia intelectual, obra de demolição e reconstrução.

EXCERTOS

Analítica da Compreensão Pura

As formas puras da compreensão nunca admitem um uso transcendental, mas apenas empírico, e os princípios da compreensão pura só podem ser associados, como condições gerais de uma experiência possível, a objectos dos sentidos, nunca a coisas-em-si-mesmas (sem consideração pelo modo como temos de as apreender).

(…)

A Analítica Transcendental permitiu-nos, portanto, aceder a esta importante conclusão: a compreensão a priori nunca pode fazer mais que antecipar a forma de uma possível experiência; e como nada pode ser objecto de experiência senão o fenómeno, deduz-se que a compreensão não pode ultrapassar os limites da percepção sensível, pois só neles nos são apresentados os objectos. A compreensão a priori compõe-se apenas dos princípios de manifestação dos fenómenos, e o orgulhoso nome Ontologia, que pressupõe a possibilidade de conceber de forma sistemática as diferentes formas do conhecimento a priori das coisas-em-si-mesmas (por exemplo, o princípio da causalidade) deve ser substituído pelo nome mais modesto de Analítica da Compreensão Pura.

Pensar é o acto de associar uma certa percepção a um objecto. Se o conteúdo dessa percepção não é dado (pelos sentidos), chamamos a esse objecto de "transcendental" e o seu conceito, que apenas pode admitir um uso transcendental, é o que produz no pensamento uma unidade que agrega elementos dispersos pela pluralidade do geral.

Uma categoria pura é um exemplo desse tipo de forma inteligível em que está ausente toda e qualquer percepção sensível - a única percepção que nos é possível; esse tipo de forma inteligível não pode determinar um objecto concreto, mas apenas um pensamento, um conceito geral, determinação que tomará um dos diversos modos em que a mente pode compreender um geral abstracto.

(…)

A pura utilização transcendental de categorias resulta, portanto, sem qualquer utilidade, e não tem objecto concreto e definido. Daqui se  conclui que de uma categoria pura não se infere qualquer juizo sintético a priori, e tais categorias apenas encontram uso possível na sua aplicação ao empírico, nunca ao transcendental; de facto, não são possíveis juízos sintéticos a priori para além da esfera das experiências possíveis, isto é, da percepção sensível.

Reflexão Transcendental

Reflexio, reflexão, não atenta nos objectos em si mesmos, para directamente deles obter ou a eles directamente atribuir os seus conceitos, mas é antes um estado da mente no qual nos predispomos a descobrir as condições subjectivas em que podemos chegar a conceber esses conceitos.

(…)

Antes de dizer mais qualquer coisa sobre as nossas representações, a primeira questão que se levanta é: a que faculdade do conhecimento pertencem todas elas?

Será à compreensão ou à percepção?

(…)

Os juízos são tidos por originários da compreensão. Mas nem todos os juízos justificam ou merecem continuada investigação; alguns são tão evidentes – como, por exemplo, que entre dois pontos só pode haver um único segmento de recta – que logo percebemos que não iremos descobrir neles qualquer outra verdade que não aquela que de imediato transmitem.

No entanto, todos os juízos, não, todas as comparações requerem reflexão, ou seja, uma discriminação de qual a faculdade a que respectivamente cada dado conceito pertence. A acção pela qual eu abstraio e determino se essas representações, quando comparadas, se revelam originárias da pura compreeensão, ou da percepção sensível, eu chamei reflexão transcendental.

As relações nas quais dois conceitos podem ser confrontados, num só estado da mente, serão as relações da identidade e diferença, a da conformidade ou oposição, a do interno e do externo, e finalmente a do determinável e da determinação (matéria e forma).

Antes de avançarmos para juízos específicos, temos de comparar os conceitos que neles usamos, seja em relação à sua identidade (em que muitas representações ficam sob um só conceito) que é o fundamento dos juízos gerais, seja em relação à sua diferença, que é o fundamento dos juízos particulares, ou em relação à sua conformidade ou oposição, que são o fundamento dos juízos afirmativos e negativos, etc. Só a reflexão transcendental pode determinar a relação das representações com as duas faculdades que determinam as duas classes mais gerais do conhecimento, a compreensão e a percepção sensível. Se as coisas são idênticas ou diferentes, em conformidade ou oposição, etc… tal não pode ser determinado por mera comparação (comparatio) mas, antes de mais, por uma adequada identificação da classe de conhecimento a que pertencem, através da reflexão transcendental. Podemos assim dizer que a reflexão lógica é a mera comparação, porque não toma em consideração a faculdade do conhecimento a que pertence cada representação, e trata-as, sendo que todas se encontram na mente, como se fossem homogéneas. Mas a reflexão transcendental (que se refere aos objectos inteligíveis em si mesmos) dá a possibilidade de comparar objectivamente essas representações umas com as outras e de distinguir as diferentes faculdades de conhecimento a que pertencem.

Identidade e diferença

Quando um objecto se nos apresenta diversas vezes, mas de cada vez com as mesmas determinações internas (qualitas et quantitas), ele é, enquanto considerado apenas como um objecto da compreensão pura, sempre uno e o mesmo, uma só coisa, não muitas (numerica identitas). Mas se é um fenómeno, a exclusiva comparação dos conceitos poderá não trazer qualquer resultado.

Porém, mesmo que tudo o que se refira aos conceitos seja idêntico, a simples diferença na localização destes fenómenos, no mesmo momento, será suficiente justificação para admitirmos a diferença numérica, isto é, a pluralidade dos objectos (dos sentidos). Assim, poderá não haver nenhuma diferença conceptual, ou seja, diferença nas determinações internas, de duas gotas de água (seja em qualidade, seja em quantidade), mas o simples facto de poderem ser vistas ao mesmo tempo em localizações diferentes é suficiente para estabelecer a sua diferença numérica.

Leibniz tomou os fenómenos como coisas em si mesmas, intelligibilia, ou seja, objectos da pura compreensão, (mas a que, devido à natureza, por vezes confusa, da sua representação, acabou por atribuir o nome de fenómenos), e desse seu ponto de vista o princípio da indiscernibilidade, indivisibilidade ou individuação (principium identitas in discernibilium) que lhes atribuiu não pode ser contestado. Só que tais objectos são objectos da percepção sensível e o uso da compreensão em relação a eles não é puro, antes empírico, ou seja, composto de dados da percepção sensível, e é suficiente a sua condição de fenómenos externos situados no espaço para estar fundamentada a sua diversidade, divisibilidade e pluralidade.

Tal se aplica a todas as coisas que existem ao mesmo tempo em diferentes partes do espaço, por muito semelhantes que sejam em todos os outros aspectos.

(…)

Se o lamento “não compreendemos o interior das coisas” pretende significar que pela compreensão pura não conseguimos perceber o que são em si mesmas as coisas que se nos apresentam, esse lamento parece ser totalmente injusto e despropositado, pois pressupõe, em alternativa, a possibilidade de estarmos despojados da nossa faculdade sensorial e sermos, apesar disso, capazes de conhecer e ver coisas, necessariamente através de uma faculdade cognoscitiva, uma intuição completamente diferente da humana – diferente não apenas em grau, mas em origem e formação. De facto, não seríamos humanos, mas seres que nem sequer sabemos dizer se são possíveis, quanto mais dizer o que seriam, se existissem.

Entretanto, a observação e análise dos fenómenos avançam para o interior da natureza, e ninguém pode dizer até onde, com o andar dos tempos, este avanço irá. Mas mesmo que toda a natureza nos fosse plenamente revelada, permaneceriam por responder as tais questões transcendentais, porque não nos é possível observar a nossa própria mente com qualquer outro modo ou percepção que não aquela que advém da nossa compreensão, do nosso senso interno. É nesse senso interno que reside o mistério da nossa sensibilidade – a sua relação com cada objecto, a base transcendental em que essa unidade relacional se forma são aspectos que estão indubitavelmente demasiado escondidos da nossa apreensão para os podermos conhecer, nós que, afinal, só podemos conhecer a nossa mente com esse mesmo senso interno, tomando-a, também a ela, como fenómeno ou objecto.

Com esse imperfeito instrumento de investigação sempre iremos depararmo-nos, uns atrás dos outros, com fenómenos, cuja ilusória causa não-sensível e não-fenomenal sempre procuraremos em vão.

O que torna extremamente útil este exercício crítico dos resultados obtidos por actos de mera reflexão é que nos mostra com clareza que são nulas as conclusões de comparações exclusivamente intelectuais de objectos meramente racionais, o que confirma também a afirmação que temos vindo a enfatizar, a saber, que os fenómenos, embora não possam ser apercebidos como coisas em si mesmas e em paridade ou semelhança com os objectos puros da compreensão, como as categorias, no entanto são os únicos objectos acerca dos quais podemos atingir um conhecimento objectivo, isto é, em que a uma percepção sensível corresponde ou se conforma um conceito.

(…) (Nota do Tradutor - Depois de expôr o fim da Ontologia, Kant explica o fim da Psicologia)

De tudo isto concluímos que a psicologia racional deve a sua origem a um simples engano. A unidade da consciência, na qual se fundam as categorias, é erradamente tomada por uma percepção do sujeito enquanto objecto, e desse erro emerge um outro, a sua inclusão na categoria da substância.

Mas essa unidade é apenas a unidade em pensamento; ora o pensamento, por si só, não gera qualquer objecto. Como tal, a categoria da substância, que sempre pressupõe uma qualquer percepção sensível, não lhe pode ser atribuída, o que determina que o sujeito não pode ser conhecido. O sujeito que pensa as categorias, portanto, não pode, apenas por que as pensa, chegar a um conceito de si-mesmo como objecto dessas categorias.

(…)

A ilusão dialéctica na psicologia racional nasce de confundirmos uma ideia de compreensão (como pura inteligibilidade ou racionalidade) com um conceito geral, totalmente indefinido, de um ser vivo pensante.

(…)

Estamos, portanto, a confundir a possível abstração da nossa existência, a existência que está empiricamente comprovada e condicionada, pela imaginada consciência de uma possível existência separada do corpo, do nosso ser enquanto ser pensante. Assim nos convencemos a acreditar que conhecemos o sujeito ou a substância em nós, enquanto objecto transcendental, quando, na realidade, o que temos apenas é a unidade da consciência, em que se fundamenta todo o conhecimento e determinação.

A tarefa de provar a convivência comum da alma com o corpo não é tarefa que se possa atribuir em exclusivo à psicologia racional.

(…)

A dificuldade dessa missão consiste, como é sabido, em que se assume a heterogeneidade entre o objecto – a alma - do senso interior e os objectos dos sentidos exteriores, sendo que a condicionante formal do primeiro é somente o tempo, enquanto que as determinantes formais dos segundos são o tempo e o espaço.

Se entendermos, no entanto, que tanto um como os outros apenas diferem, não por diferença interna, como substâncias heterógeneas, mas por aparência, em que uns aparecem exteriores ao outro, e que o que está, enquanto númeno, no cerne de todos os objectos e da matéria fenoménica em geral poderá não ser, em si, afinal, diferente, essa dificuldade desvanece-se.

Agora, já só queda a questão: então, como é que acabou por ser possível a existência dessa comunidade de substâncias, a alma e o corpo?

Mas esta questão já não é do foro da psicologia, transita para a Cosmologia e, como o Leitor compreenderá depois do que dissemos na Analítica Transcendental, ela está muito para além dos limites de todo o conhecimento humano.

COMENTARIO de Miguel Bruno Duarte

Caro João,
Congratulo a tua iniciativa perante as expressões áridas da erudição universitária e de toda a indústria editorial que a apoia e sustém. De facto, o conceito, em Kant, não é um ente mental, mas um «agrafe mnemónico», conforme escrevera Álvaro Ribeiro. O que explica também que o espaço e o tempo estejam fora da tábua das categorias, pois, assim, não seria possível submeter a sensitividade variável dos diferentes ao uso judicativo dos conceitos puros do intelecto.

Com efeito, Kant limita o intelecto ao universo das relações científicas, e, portanto, em queda acelerada para um mundo constituído de inércia, já que, aí, apenas prevalece a deslocação mecânica de partículas, corpos ou corpúsculos. Exclui, por isso, a monadologia em prol de uma ciência condenada a apreender, em termos atomísticos, os diversos fenómenos no espaço e no tempo. Numa palavra: exclui o princípio do movimento.

Na questão da alma, é de ver como Kant, relativamente ao "Cogito, ergo sum", dizia, e com razão, tratar-se de uma «miserável tautologia». E daí até ao «argumento ontológico», o problema continua a pôr-se ao pensamento que não se limite a encarar as categorias de Aristóteles como «uma forma geral na qual concebemos todas as coisas». Neste sentido,o entendera Fernando Pessoa ("Textos Filosóficos", Vol. I), perfilhando assim - não sei se consciente ou inconscientemente - da cultura neo-platónica de Porfírio e de Boécio.

Ora, sendo a teoria aristotélica das categorias, como dizia Álvaro Ribeiro, uma teoria da predicação, temos que, necessariamente, reabilitar a lógica do conceito. Não só, mas fundamentalmente.

Isto, claro, não obstante pudermos admitir, ainda que sob o paradigma fotográfico, o carácter revelador da Natureza segundo Alberto Caeiro. Ou, analogamente, a «percepção profunda» preconizada por Krishnamurti, em que o conceito, reduzido a imagem, distorce a percepção holística da realidade. Contudo, para além disso, o "caminho" pode e há-de passar, a meu ver, pela doutrina tradicional de que Deus se revela ao homem por intermédio da palavra ou do verbo.

Deus, inominável e invisível, não contradiz, pois, a afirmação de que a palavra é o modo mais humano de revelação. Nem mesmo contradiz esta afirmação de Swedenborg: «É impossível aos anjos enunciar uma única palavra de uma língua humana». Aliás, a mediação sempre teve e terá lugar, quanto mais não seja pela actuação intuitiva dos anjos sobre o pensamento dos homens.

"Traduttore, traditore", diz o adágio italiano. Disso dão exemplo, na língua alemã, as palavras "Begriff", "Urteil" e "Schluss", que não correspondem, como sabes, a conceito, juízo e silogismo. Mas convém, entretanto, ter também presente que Kant não pôs, de um modo unívoco, fim à ontologia. Quer dizer: teorizou uma ontologia do intelecto (Verstand), aquém da razão humana e divina.

Em suma: com a filosofia portuguesa, liberta da tecnicidade universitária, temos, pelo menos, uma certeza: a de que «o intercâmbio, ou o comércio intelectual, não deve ser processado antes de estarem devidamente acauteladas não só a independência da cultura mas também a genuidade da tradução», pois, na sequência das palavras de Álvaro Ribeiro, «a adopção de um vocábulo equívoco tem por consequência adulterar e até inverter a linha normal do pensamento filosófico» ("Estudos Gerais").

PS: Ocorreu-me, agora, a propósito da mediação angélica, chamar a tua atenção para a distinção kantista entre conceito e intuição. Repara, neste trecho, qual não é a inteligência vulpina do filósofo da Germânia: «Fora da intuição, não há outro modo de conhecer senão por conceitos». Ou, mais precisamente, a distinção que ele estabelece entre "intuitus originarius" e "intuitus derivativus". Nisto anda o Luís Furtado, apostado em saber como o nosso tempo interior, no condicionalismo apriorístico de uma razão sem profundidade, acaba anexada em espaço, ou num só espaço.

Miguel Bruno Duarte

COMENTÁRIO de João Seabra Botelho

Caro Miguel,

A escrita sai-me, não só lenta, mas imprevisível. Daí que raramente me seja possível o oportuno retorquir ao "comentário", esse soldado do tempo virtual, que marcha no calendário, de tema para tema, sem a mínima complacência pelos retardatários; ainda vou a tempo, agora? Tu me dirás, que gozas do acordar matutino da escrita e ouviste o soar do clarim e saberás se ainda está de pé este tema...

No opúsculo de Luís Furtado «O Humanismo de Leonardo Coimbra», que bem conheces, fui buscar o mote para a releitura que fiz de Kant. Ei-lo: "Conclui resolutamente Leonardo que só o humanismo cristão tem força para ser o redentor do humanismo idealista dos Gregos! Só a mensagem cristã realiza a consubstanciação real entre a forma e a ideia!"

Ora, sabemos que forma (morfê) e ideia são termos vivos na Grécia Antiga, e dialogando com o que dessa Grécia ainda podemos perceber, conseguimos alcançar o seu significado, isto é, conseguimos ainda referir esses termos, (ou inferir?), ao que, no nosso íntimo, são dois momentos ou elementos do que designamos, genericamente, por "pensamento".

Mas onde está, nessa mesma Grécia, o conceito? Termo bem latino, esse. Que palavra grega traduz?

Se o latino (ou seja, Cristão) "conceito" é "a consubstanciação real da forma e da ideia", - segundo Furtado, o que intuiu Leonardo, porque Leonardo intuiu "o alcance e o significado da graça" - então o kantino "begriff" será algo de bem diferente: a consubstanciação real da forma com a sensação. E como a sensação é o "dado", diz bem Álvaro Ribeiro... Estamos, realmente, perante um agrafe mnemónico, se todo o conhecimento é conhecer o passado, o terminado ou determinado, o facto, o feito. Eis a Ciência Moderna, que recentemente perdeu o seu anterior domínio total das mentalidades!

E assim, todo o futuro que desde logo não se converte em passado é Vontade, apenas Vontade, e uma vontade, como diz Furtado, que "desiste perante o invisível"! Quão longe estamos do futuro Cristão, que é Esperança...

Mas não se sustém tal solitária vontade sem o poder para efectivamente se exercer!!!

Temos, então, que tudo converge para a luta por esse poder, pelo Poder! Eis o projecto em que decaiu a filosofia Germânica, imitando, na queda, outros que também assim já caíram, reconfortando aqueles que ainda cairão. Decaiu do seu inicial cristianismo, ou da luta pelo amor.

Será que Mestre Eckart (recente motivo de conferências universitárias por dele se ter interessado o infatigável Paulo Borges), Nicolau de Cusa e Lutero, no seu percurso, não deixam sinais manifestos da cisão trágica que ocorreu no seio da Cristandade?

É óbvio que Kant não aceita outro intuito que não o "derivativus". Fica-lhe bem a humildade...

Mas também não é bonito recusar uma oferta... Mais ainda, quando aquele que recebe a oferta se reconhece nela, e a ela se dá, aceitando-a, a ela se dá, sendo-a. Ora, para Leonardo, para os seus discípulos, a Graça é o único intuito, "originarius"; é o que nos é dado ser.

Há que ter a humildade de saber aceitar essa oferta.

Diga-se, em abono da verdade e por respeito à honestidade intelectual de Kant, que essa humildade de saber aceitar essa oferta é tão rara e difícil, que a Kant lhe pareceu mais plausível dizê-la impossível; e a humanidade, ao manter-se tristemente presa ao "derivativus", parece querer concordar com ele, ou dar-lhe razão.

A contragosto, também Luís Furtado é forçado a reconhecer, «não sem desânimo, que o nosso século ainda não será o instaurador de uma universal consciência».

Mas, do futuro, quem sabe?

João Seabra Botelho

in «Leonardo, revista de filosofia portuguesa», 2009