Orlando Vitorino,ao Undécimo Ano

por João Seabra Botelho


Sou pela viagem! Prefiro-a à homenagem, em que, vulgarmente, o que se faz é prender o falecido sujeito, que valoramos merecedor, a um volumoso busto, a uma lápide tumular, ou a um nome de rua.

Em vez de assim imobilizar tal meritório viajante, que percorre já outros mundos, remetendo-o a uma situada, ilusória e carente intemporalidade, prefiro, neste undécimo ano após a morte de Orlando Vitorino, ousar fazer com ele um viajante discurso que, a ter alguma filosófica interrogação, será também incursão na memória imperturbável, onde todas as viagens são possíveis e ficam devidamente seladas.

Como é sabido, após o golpe de Estado do 25 de Abril de 1974, as autoridades militares reunidas em Junta chamaram diversas personalidades civis e disseram-lhes: criem partidos políticos.

Não vou aqui perder tempo acrescentando peripécias desse enredo, já que viajar na memória imperturbável não corresponde a ser memorialista. A razão de invocar tal acontecimento, ocorrido há quatro decénios, apenas serve de contexto para dizer que, embora Orlando Vitorino não estivesse no lote de «personalidades» a quem uma Junta Militar chamaria para fazer tal encomenda, dado não ter currículo político relevante, tanto ele como muitos outros portugueses decidiram organizar, ou comparecer, em iniciativas destinadas a discutir um possível ideário para um possível partido.

Assim me vi a acompanhar o Orlando a uma série de reuniões cuja finalidade era prover de doutrina um potencial «Partido», que uns viam «liberal», outros «trabalhista». E foi numa dessas reuniões que ouvi, pela primeira vez, o Orlando teorizar, para espanto meu, e estranheza de outros, o seu conceito de propriedade.

Esse momento, ou esse conceito, ou o espanto que me invadiu – qual deles (ou talvez todos?) terá inscrito, para lá do olvido, bem no topo das Escadinhas da Memória o que, desde então até hoje, ficou para mim como a prova, sempre presente ou invocável, da coragem que verticaliza, e assim o sustém, o pensamento orlandino???

Acrescento, a propósito, que foi a recusa de alguns chavões voluntaristas, à época muito em moda e defendidos pelo principal mentor da iniciativa na redacção de certas alíneas do «programa», que levou o Orlando, e julgo que mais alguns, a abandonar o projecto.

Fiquei, naqueles meus verdes anos, combalido, e até assustado, com aquele conceito de «propriedade». Sabia que, quando ouvi Orlando expô-lo, momentâneamente tinha percebido tudo, para logo depois tudo ficar envolto numa nuvem que não me deixava perceber nada.

Hoje, já impossibilitado de invocar a inépcia juvenil, e instigado pela saudade do filósofo e do seu filosofar inimitável, vou tentar ler a nuvem, enfrentando esse desafio de outrora, em mim reminiscente, com a mesma ombridade com que Orlando, ele mesmo, o enfrentou. Relembro então a tese: a propriedade é a actualização do próprio, ou do que é próprio.

Entender-se-á agora a razão da minha juvenil estupefacção... Fiquei estupefacto perante a total diferença entre este conceito e o que dizia o ensurdecedor troar das vozes incontáveis que exprimiam o «zeit geist» da época.

Nesse troar havia, básicamente, duas vozes que se hostilizavam, a «corrente revolucionária» e a «maioria silenciosa», que hoje vemos representados nos «vanguardistas» e «conservadores».

A «corrente revolucionária», que ainda invocava alguns sábios e seus aforismos, como aquele que dizia que «a propriedade é o roubo», fazia-se ouvir sobretudo pelas vozes ditas populares e trabalhadoras, vozes de um vigor inesgotável naqueles dias de 1974, e que repetiam, incansávelmente: a propriedade é a posse, e «a posse dos meios de produção» é a seta que indica o caminho da felicidade colectiva.

Assim, por muito que a minha juventude pudesse, então, simpatizar com aquela irreverência desafiante e libertária que ainda corria em paralelo com o processo revolucionário e suas sucessivas erupções, a incompatibilidade conceptual entre o então vigente conceito de propriedade, que se prestava ao lema ideológico «marxista» da «apropriação dos meios de produção como via para a sociedade sem classes», (lema consagrado na Constituição, num prólogo de poesia alegre, que em alegre indiferença pela imparcialidade perante o jogo político, desde logo inscreveu como destino inelutável de Portugal o «caminho para o socialismo»), e o conceito orlandino de propriedade que eu tentava ainda inteligir, essa incompatibilidade era total... E perante isto, impunha-se-me que optasse. Não hesitei um segundo sequer - decidi pelo conceito filosóficamente mais credível, o conceito de propriedade de Orlando Vitorino.

Mas havendo, além dessa «corrente revolucionária», a tal «maioria silenciosa», e sendo verdade que ambas se degladiavam, em episódios que a história descreve, ensinando-nos como tudo se foi passando até ao 25 de Novembro de 1975, em que essa maioria conseguiu, finalmente, manietar os mais irrequietos «revolucionários», que até aí tinham constituído permanente ameaça velada à ordem institucional democrática, essa oposição da «maioria silenciosa» à «corrente revolucionária» talvez significasse que me fosse possível encontrar nessa «maioria silenciosa» a representação política do conceito orlandino de propriedade, que não é posse, mas dádiva.

Perante a minha já assumida incompatibilidade com a «corrente revolucionária», dediquei então algum tempo a obter resposta à questão: - é aqui, na «maioria silenciosa», que encontro possível representação política para o conceito de propriedade de matriz orlandina?

Não! Diria até...de modo algum!

De facto, O que constatei é que essa «maioria silenciosa» contrapunha à posse colectiva, à tal colectivização «das propriedades», apenas uma outra forma de posse – a privada. Tudo se resumia, pois, a um conflito generalizado que incidia, exclusivamente, em duas formas de possuir, ambas confundidas com propriedade – ou a posse colectiva, ou a posse privada!

Depressa conclui, portanto, que ninguém partilhava, aceitava ou praticava o conceito de propriedade que me fora exposto por Orlando Vitorino. Aparentemente, todos os Portugueses, excepto Orlando Vitorino e poucos mais – eu próprio, na minha estupefacção, hesitava na forma de assumir tal conceito – entendiam a propriedade como o possuível ou o possuído, sujeito de uma única categoria verbal, o verbo «ter» ou, por outras palavras, à categoria adjectiva da quantidade.

E toda a agitação social, no fundo, resultava da disputa entre as duas facções por essa posse! A solução definitiva de todos os anseios e práticas políticas parecia resumir-se e assentar em duas utopias, uma baseada na abundância, a outra na escassez:

- a primeira utopia seria a da «fraternidade», pois ao atingirmos um futuro de abundância, tantas coisas haveria para distribuir, que fraternalmente seriam distribuidas e possuidas, e todos ficariam satisfeitos e felizes;

- a segunda utopia seria a da «igualdade», pois se, no futuro, porventura fosse a escassez impossível de ultrapassar, impunha-se então dividir os bens por todos, igualmente, e nessa igualdade na escassez teriam todos de ficar felizes e conformados.

Orlando tentou dar-me alguns esclarecimentos, umas semanas depois daquelas sessões de discussão política e programática, esclarecimentos que eu bem precisava, e com urgência, para poder justificar a mim próprio a minha aceitação de uma tarefa hercúlea como aquela – pensar (e viver...) a propriedade a contrario de todo o País e arredores.

A conversa esclarecedora foi em sua casa. Orlando disse-me mais ou menos isto: a propriedade concretiza a liberdade humana neste mundo.

Como? Por momentos, atraído pela inércia pensante dos defensores da «posse», caí na imagem distorcida e perversa da licensiosidade – quem não tem (licença para ter) tudo o que quer, passa a tê-lo. Mas logo o olhar inquisitivo de Orlando (terá visto a imagem de falsa abundância paradisíaca que se me formou na mente?), me fez perceber a armadilha!

Não, liberdade não é poder fazer tudo, por oposição a um cativeiro em que nada, ou apenas alguma coisa, se pode fazer! A liberdade é a expressão verdadeira da identidade de cada um. E, para isso, há que saber quem se é – afinal, «conhece-te a ti mesmo» é o pilar da liberdade política – e desse conhecimento de si advém a possibilidade de concretizar em comunidade, em politeia, a dádiva do que somos - e que é único.

O paradigma da propriedade é, portanto, a poesia. Entenda-se, aqui, que o poético é o que cada um cria, por oposição ao que é mecânico ou repetitivo. Qualquer obra de arte é, sempre, a propriedade do seu autor! Assim, o exercício de todas as artes e de todos os ofícios é um exercício de liberdade, e um gerador da propriedade.

E mais me disse Orlando: a propriedade só assiste o ser humano. Por vezes, falamos no trabalho das formiguinhas, nas construções do simpático castor, nos ninhos dos passarinhos; mas embora haja aí uma acumulada adequação aos fins, essa acção não se toma como própria, ou geradora de propriedade, já que esses animais não se reconhecem como os mesmos, ou seja, os próprios.

Livres da diabolização, isto é, da «divisão em dois» que aflige os homens ao nascerem e os obriga a viajar para si mesmos, que é como quem diz, que os obriga a passar da sua hominidade à sua humanidade, libertando-se, os animais simplesmente usufruem das competências que lhes satisfazem as apetências. Vivem, portanto, sem liberdade, sem responsabilidade, mas em estimada e harmoniosa conformidade.

No final desta conversa, Orlando Vitorino notou que me faltava o ânimo para tamanho bico de obra. Eu estava a antever o que se iria passar nas decénios seguintes: incapaz de encontrar um político ou um partido em que me sentisse representado, iria ser um exilado político na minha própria terra!

De facto, nestes quarenta anos que se passaram, sempre me abstive ou entreguei voto em branco.

Orlando levantou-se, tirou um livro da estante, abriu-o, apontou e disse-me: lê aqui. E eu li:«O homem não é uma inutilidade num mundo feito, mas o obreiro de um mundo a fazer».

«Ora bem – disse-me então – leva o livro e lê com calma». Já na rua, vi que se tratava de «A Alegria, a Dor e a Graça», de Leonardo Coimbra.

Desta conversa me ficou, portanto, a noção de que me tinha sido transmitida uma sublime, embora «pesada herança».

Fiquei a perceber que, daí em diante, seria um estranho perante todos os que julgam a propriedade como sinónimo de posse. E são tantos os que assim julgam...

Fiquei a perceber que seria também um estranho perante os que entendem a liberdade como «liberdades», ou dizendo melhor, como licenças. E são tantos os que assim julgam...

A liberdade orlandina, verdadeira aporia que, nesta conversa, Orlando me ajudou a idear, foi ganhando a forma conceptual que hoje exprimo nas palavras seguintes: a liberdade é o princípio de um movimento, e energia de sua expressão, e finalidade ou motivo desse movimento ou acção, que é doar o ser que unicamente somos ao mundo e aos outros.

Esta liberdade, a liberdade primordial e filosofável, é que faz de Orlando Vitorino (e de quem como ele pensa) «liberal».

Ora, dizer isto na patética plateia onde sou forçado a sentar-me para, quase diariamente, assistir a não menos patéticos debates políticos, é algo que tem sido, sem surpresa, totalmente incompreensível! De facto, «liberal», para Orlando, é quem assume a liberdade primordial, que é a dádiva de si mesmo, e sabe que ela se concretiza no mundo através da propriedade!

Nesta patética plateia, porém, «liberal» é quem entende liberdade como «liberdades», como licenças, e sobretudo defende a licença para ter, que se concretiza na defesa da posse privada e na oposição à posse colectiva...

E aqui fica dito o que foi - assim, segundo a lembrança dos tempos de sempre.

Orlando, entre outros, ajudou-me a perceber que, indubitavelmente, a escola de Filosofia Portuguesa oferece ao neófito o dificílimo curso da liberdade, curso do qual não há diploma nem certificação mas que, asseguro-vos por dolorosa experiência própria, garante a impossíbilidade da complacência perante a estupidez humana, que nos tenta tomar a todos de assalto.

A minha vida, entretanto, assumiu outro rumo, e deixei de conviver com o Orlando.

Com o decorrer dos anos, voltei a vê-lo algumas vezes, à distância, naqueles eventos públicos em que o cidadão Orlando Vitorino, uma vez mais, se dispunha, corajosa e pacientemente, a enfrentar a tal estupidez humana. E assim foi, até à sua morte.

Agora, ao undécimo ano dessa passagem, não testemunho senão o que nunca se perde, porque é próprio.