Orlando Vitorino,

ao Undécimo Ano.

Sou pela viagem! Prefiro-a à homenagem, em que, vulgarmente, o que se faz é prender o falecido sujeito, que valoramos merecedor, a um volumoso busto, a uma lápide tumular, ou a um nome de rua.

Em vez de assim imobilizar tal meritório viajante, que percorre já outros mundos, remetendo-o a uma situada, ilusória e carente intemporalidade, prefiro, neste undécimo ano após a morte de Orlando Vitorino, ousar fazer com ele um viajante discurso que, a ter alguma filosófica interrogação, será também incursão na memória imperturbável, onde todas as viagens são possíveis e ficam devidamente seladas.

Como é sabido, após o golpe de Estado do 25 de Abril de 1974, as autoridades militares reunidas em Junta chamaram diversas personalidades civis e disseram-lhes: criem partidos políticos.

Não vou aqui perder tempo acrescentando peripécias desse enredo, já que viajar na memória imperturbável não corresponde a ser memorialista. A razão de invocar tal acontecimento, ocorrido há quatro decénios, apenas serve de contexto para dizer que, embora Orlando Vitorino não estivesse no lote de «personalidades» a quem uma Junta Militar chamaria para fazer tal encomenda, dado não ter currículo político relevante, tanto ele como muitos outros portugueses decidiram organizar, ou comparecer, em iniciativas destinadas a discutir um possível ideário para um possível partido.

Assim me vi a acompanhar o Orlando a uma série de reuniões cuja finalidade era prover de doutrina um potencial «Partido», que uns viam «liberal», outros «trabalhista». E foi numa dessas reuniões que ouvi, pela primeira vez, o Orlando teorizar, para espanto meu, e estranheza de outros, o seu conceito de propriedade.



A morte do verbo volir
– II parte

(Gramática de Hermes IV)

Volir, um verbo categorial

O verbo volir é, na filosofia das línguas que o podem declinar, o verbo cujas formas aglutinam os processos elementares do agir com uma finalidade predeterminada e do decidir que determina essa finalidade. Só pode volir quem se reconhecer agente  com o poder íntimo suficiente para exercer esses processos.. Assim, volir aglutina, como faculdade, causa e motor, os processos psíquicos da decisão, os processos lógicos do juízo, os processos sociais do fazer, os processos politicos do eleger, do legislar e do governar, o processo militar de comandar, o processo religioso de obedecer ao mandamento ou aderir ao dogma. Todos os verbos que significam estes processos – decidir, julgar, fazer, decretar, legislar, mandar, ordenar, obedecer -  convergem em volir, como se este fosse o seu máximo género, o seu verbo categorial.




«A Morte de Portugal»

de Miguel Real

O Destino de Portugal é a incógnita que Real, neste livro, falhou; é o quarto termo, a chave para a analogia.

Sem teorizar o Destino de Portugal, sem nos transmitir, portanto, o «ver a Pátria», Miguel Real, para suas e nossas incomodidade e frustração, acabou remetendo-se e remetendo-nos para a contraface plúmbea desse Destino, uma inominada Fatalidade, que nunca mencionou directamente, mas corporizou na decadência quase ininterrupta que vai descrevendo e, já em etapa derradeira, no «fim anunciado» que resultará do canibalismo cultural Português que considera vigente até aos dias de hoje.

Uma nota sobre
DESCARTES e ESPINOSA



Autor: Jonathan Bennett


Tradução: Joao Seabra Botelho

Descartes era um dualista e Espinosa um monista. Se isto determina um contraste entre eles, deveria haver uma qualquer questão à qual Descartes teria respondido “dois” e Espinosa “um”.Vejamos então:

a)Quantas substâncias há?
Espinosa: “Uma”. Descartes “Específicamente, uma; mas se abrirmos um pouco o critério que define substância, milhões”. Nunca, em relação a esta questão, Descartes alguma vez respondeu “dois”.

b)Quantos tipos básicos de substância há?
Descartes:”dois”; Espinosa “dois: embora haja apenas uma substância, ela é de dois tipos”.

Textos de João Seabra Botelho

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Prefácio ao livro de Miguel Bruno Duarte

«Noemas da filosofia portuguesa»
Prefácio

1 - Da filosofia portuguesa

Filólogo e pensador que merece o epíteto de luso-brasileiro, já que desenvolveu e deixou no Brasil grande parte do seu labor, o português Eudoro de Sousa escreveu algures numa das suas obras: “Não preciso lembrar que, em certo ponto da escala temporal, o historiador da cultura brasileira teria de enfrentar a cultura ibérica, e daí partir para a cultura européia, e que, no estado atual dos nossos conhecimentos, só nos deteríamos no berço desta última, situado no mediterrâneo oriental pré-helênico, nas culturas neolíticas pré-cerâmicas da Ásia Menor.”

Sim, tem razão Eudoro...É exigível ao intelecto da maturidade humana que tenha consciência das suas raízes. É descabido julgar que podemos ignorar as origens sem perder os fins; e perder os fins é o mesmo que andar irremediavelmente perdido.

Assim, hoje, os países do continente Americano que vieram a constituir-se como culturas autónomas, interrogam-se sobre as suas raízes europeias, e mais particularmente sobre as suas raízes ibéricas, ou mais particularmente ainda sobre as suas raízes portuguesas, tal como desde há já vários séculos aos portugueses do espaço lusitano tem sido exigido que recordem as suas origens em longínquas paragens do Lácio, do Peloponeso, da Fenícia ou da Arábia.

Sentimentologia – Excursão IV
Epitímia

A epitímia, o desejo ou o desiderium latino, é o sentimento que completa uma tríade composta ainda pela eutímia, ou tranquilitas e a protímia ou perseverantia, de que já falámos.

Começámos pela tranquilitas e pela perseverantia, por estes sentimentos se acomodarem sem dificuldade de maior no léxico habitual do nosso convívio quotidiano. Agora, cabe falar da epitímia e, também, do que está na origem desta tríade sentimental, o timo, ou tumo, e o que há a dizer poderá soar bem mais estranho.

Mais estranho, pois do timo resta-nos a memória escassa de umas poucas palavras, quase todas longínquas e obscuras. Este apagamento do timo vem de longe, mas foi reforçado modernamente pela ciência positiva, já que esta ciência não encontra, da acção do timo, rastros químicos ou físicos que possa identificar e incluir na sua tabela de causas e efeitos e comprovem a sua importância para o desenvolvimento e a saúde do corpo humano. Logo, em relação ao timo a ciência, hoje, parece limitar-se a dizer-nos que se trata de uma modesta glândula, oculta e esquecida por detrás do coração, que apresenta forma semelhante a uma borboleta e se desenvolve apenas até ao termo da puberdade, não dando evidência de desempenhar outra função que não seja a de segregar um elemento essencial ao sistema imunitário.

Na Antiguidade, porém, do tumo provinha uma das energiais vitais mais primárias e profundas que, como veremos adiante, nos deixou frequentes sinais da sua presença. Esses sinais, hoje, parecem ter desaparecido. Curiosamente, porém, sem que lhe façamos referência directa, o tumo mantém-se subterrâneamente presente, pois é bem nas nossas entranhas que, por vezes, somos desagradavelmente surpreendidos pelo pânico que nos provoca o mais temido inimigo da saúde humana! Falamos daquela forma natural que cresce rápida, desordenada e, por vezes, letalmente, a que vinculamos o timo, ou tumo, já que lhe chamamos um “tumor”.