O “UDJAT” E A VIAGEM DA ALMA
NA EPOPEIA DOS MARES


Introdução

Jorge Filgueiras era um íntimo amigo e frequentador da casa de Álvaro Ribeiro, que foi apresentado pessoalmente a Luis Furtado por um amigo comum, pouco tempo depois de Furtado ter iniciado o seu convívio filosófico na tertúlia do Café Colonial.

Filgueiras, além de um excelente conviva, que trazia sempre à conversa o brilho de uma cultura luminosa e franca, era um homem de profunda convicção católica, um homem bondoso e de excelente índole, que tinha por hábito coleccionar, imagine-se, opas de padres.

Dispunha de uma volumosa biblioteca, onde pontificava uma imponente e valiosa “História da Igreja”. Jorge sentava-se na sua secretária de trabalho, encarava aquelas opas que o rodeavam como se armaduras fossem de soldados de Cristo de outras eras, e sentia-se testemunha e participante do esforço evangelizante da Igreja Católica para sacralizar o inerte mundo satânico, abençoar a fertilidade da natureza, redimir e ressuscitar os humanos.

Jorge Filgueiras entregou a Luís Furtado este artigo que vamos publicar (escrito exactamente há 33 anos, em 14 de Fevereiro de 1977...) na intenção de o ver impresso na revista «Escola Formal»; e não chegou a pedir que lho devolvessem, assim que se constatou que fora interrompida a publicação da revista, pela mais infeliz das ocorrências – foi-lhe então diagnosticada uma doença fatal, que o vitimou alguns meses depois, com apenas cinquenta e dois anos.

(Publicado na «Leonardo» a 14 de Fevereiro de 2010)


 

A nau “Frol dela Mar”, de Estevão da Gama, da rota da Índia em 1502, a mesma nau onde Afonso de Albuquerque viria a naufragar quando regressava da conquista de Malaca, era “alterosa em castelos e a mais formidável”, segundo consta do “Livro das Armadas”.

Embora o desconhecido autor desse códice se movesse dentro da órbita dos iluminadores e portulanos das cartas de marear da época – as reproduções dos navios eram decalcadas sobre uma escassa dezena de modelos, modificando-se-lhe apenas os nomes  -  verifica-se no entanto haver em uma das reproduções da “Flor do Mar” dois olhos abertos  e pintados nas obras mortas em cada um dos costados do castelo da proa.

Ora este símbolo apotropaico, apesar da sua vulgaridade figurativa – não consta em outras gravuras ou desenhos conhecidos das naus e caravelas portuguesas dos séc. XV e XVI, mas aparece ainda hoje frequentemente em identica composição e disposição nos barcos de pesca da nossa orla maritima e na rede fluvial, tanto nos saveiros da Costa Nova (Ílhavo), como em Sines, tanto nos caíques da Costa da Caparica, da Nazaré e do Garbe lusitano, como nas fragatas, faluas e varinas do Tejo.

Se o significado mágico-religioso dos olhos abertos e pintados – como mais adiante se exporá – se perdeu no ror dos séculos e actualmente constitui apenas um resquício de carácter folclórico ou meramente decorativo, teria acaso representado, no apogeu da nossa epopeia marítima, – e serve de exemplo a “Flor do Mar” –, o seu valor simbólico intrínseco, ou seria tão sómente uma tradição perdida no tempo e achada no espaço, embora conservada na duração?

Glinn Daniel identifica o saveiro de Ílhavo com o modelo dos barcos vindos do Norte da Europa e portadores das chamadas civilizações megalíticas; mas as póvoas da orla marítima da Costa Nova são antigos assentamentos fenícios. E os saveiros reproduzem na proa os olhos abertos e pintados.

Nos meados do século XIX, pescadores de Ílhavo vieram com o agregado familiar para a Costa da Caparica. E os caíques têm o mesmo símbolo apotropaico como, aliás, o têm os de Sines e da Nazaré. No Tejo – encruzilhada fluvial de civilizações e culturas vindas e idas para o mar – as varinas, faluas e fragatas apresentam idêntica decoração frontal. E os barcos do Garbe lusitano, também.

De facto, os olhos abertos e pintados na proa dos barcos protegem, desde tempos imemoriais, os nautas do Mediterrâneo. E é ainda o caso dos barcos de pesca de Siracusa, com os mesmos símbolos pintados à proa.

Porquê, então, os olhos abertos e pintados, nos barcos da costa Atlântica?

Sabe-se terem sido na Antiguidade Oriental as viagens por mar constantes e periódicas – essencialmente navegação à vista, ou de reconhecimento da costa – realizada pelos fenícios, nautas mercadores, pelo menos em todo o complexo mediterrânico-atlântico. Estes teriam juntado à arte de navegar os princípios cultuais dos egípcios, por contaminação geográfica, modificados apenas pelas ordálias ou cultos de expressão local.

Ora, para os egípcios, o olho, o «udjat», era um símbolo sagrado, aberto e pintado em quase todas as manifestações de arte figurativa.

Considerado tanto como «fons e origo» de um fluido mágico, tanto como olho-luz purificador, vai buscar a sua força ao olhar do falcão, onde se manifesta uma estranha mancha indecifrável.

Por esse motivo, foi tecido à volta da estilização divinizada do falcão,  ou do deus Horus, todo o simbolismo da fecundidade universal ligado aos rituais de ascensão da vida e da morte. Deste modo, os sarcófagos antropomórficos, onde o corpo mumificado não se corrompia, eram decorados também com dois olhos abertos e pintados, a fim de permitir ao morto, na sua viagem de regresso ao desconhecido, segui-la sem necessidade de se deslocar, vendo assim o espectáculo do mundo exterior.

Como veículo dessa transmissão figurativa dos olhos abertos e pintados na proa dos barcos poderá deduzir-se ter sido o povo fenício que os trouxe para Ocidente, aceitando o «udjat» como símbolo de renovação e protecção, dada a analogia existente entre o sarcófago e a arca tumular na viagem de regresso pelo rio das brumas, ou o mar do desconhecido e do incerto, e a barca da vida e da morte, da fortuna e da ventura.

Esta ambivalência sarcófago-barca, vida-morte, está intimamente ligada à regeneração aquática. A água, substância da vida, é smultâneamente substância de morte. A ambivalência prevalece ainda ligada à arvore – o vegetal de onde é construído e sarcófago e a barca – por a morte e a vida necessitarem de protecção.

Ora o Ocidente – da raiz “occido, idi, casum”, morrer, está por sua vez não só intimamente ligado aos cultos obituários – e a parte mais ocidental da Europa é a do cabo da Roca, ou o cabo de Scynthia [ S(c)intra], onde há vestígios desses cultos no Paleolítico Superior – como também à hilogénese e à cosmogonia aquática.

Por ser talvez curioso o artigo de António de Monforte intitulado “Ex Oriente Lux” (in “Dionisus”, de Fevereiro de 1913), transcreve-se o seguinte trecho:

“Há-de ser do Ocidente, agora – confessa-o a minha fé – há-de ser do Ocidente, agora, que a palavra altíssima da Iniciação se elevará – do Ocidente, onde a agonia do Sol se dramatiza em marés vivas de sangue, onde a imolação tremenda do titan se envolve numa apocalipse de treva e assombro! Sobre o deserto áspero das Almas e Vento-do-Espírito há-de assoprar da terra dolorosa e pensativa, à beira do rio Oceano, aonde Ulysses subiu, por conselho de Circe, a propiciar os Manes, porque o País dos mortos, o Orco terrível, era onde ficava.

A luz que, em cada arrebol, cresce do Levante numa apoteose, é no Ocidente que ela expira, para renascer no dia seguinte mais bela, mais desejada. Todas as ideias, todas as sensações, todas as Formas do Oriente avançaram como a Luz, e como a Luz, aqui, na terra dolodrosa e pensativa, sofreram a tortura, padeceram o esquecimento.

 


Do martírio de um Deus, sempre uma religião nasceu! Um túmulo, é sempre a pedra primeira de um altar! E a hora chegou em que, da derrocada final, uma voz de Reconciliação se vai erguer.

A melodia de Orfeu anima as ossadas desfeitas, a cíthara mágica de Amphion congreça os colunelos dispersos. Homens, não choreis a morte da Luz!

Vai o Ocidente falar – a terra dolorosa e pensativa, que no sonho voado da cathedral soube vencer as Alturas, sem que a mão do Senhor lhe castigasse o arrojo!...”

Independentemente de um estudo circunstanciado sobre a ressurreição como criação nova, tanto pelo ritual do sangue – os mistérios de Attis e os de Mitra, e mesmo os do Cristo – como pelo ritual do fogo, é a ressurreição pela água – e o ritual do baptismo num e noutra implícito – que importa para o presente caso do símbolo apotropaico.

Assim, estar [o homem] na água significa morrer, submergir-se. Encontra-se aqui o mais profundo sentimento da vida, a mais poderosa percepção de nos sentirmos um ser da Criação. Ser-se tragado pela água é voltar à origem, ao princípio cósmico; é, do caos, passar de símil modo a um princípio individual, o seio materno. Por cima das águas primordiais move-se, no entanto, o Espírito de Deus, que dá vida ou cria, de novo, uma vida inteira.

Por sua vez, é Carl Jung quem nos diz: “ a morte é conduzida à mãe – à «madre primigénia» - para ser renascida. Por isso, a morte nas águas, nas águas violentas, é, no sonho, a mais maternal”. E prossegue Jung: “O desejo do homem é o de as mais sombrias águas da morte se transformarem nas águas da vida; seja a morte, no seu frio abraço, também o seio materno, assim como o mar, quando submerge nas suas profundezas o Sol, fá-lo também renascer. A vida nunca pôde acreditar na morte.”

Ora a alma-corpo incorruptível do sarcófago, ou a libertada da urna, do túmulo ou da barca-arca, busca o seu país situado neste mundo, o Paraíso Terrestre, embora nele tenha de sofrer, como ritual iniciático, o “descensus Avernus”, o orco terrível.

Gaston Bachelard, in “L’Eau et les Rêves”, quando levanta a questão sobre se teria sido a morte o primeiro navegador, porquanto os primitivos lançavam o ataúde no mar, deixando-o ir ao sabor das correntes, diz-nos não ser este ataúde, na hipótese mitológica, a última barca, mas sim a primeira. Assim, a morte não seria a última viagem, mas a primeira; comclui, então, que há verdadeiros e poderosos interesses para se enfrentar o mar – para navegar – mas tais interesses são quiméricos, por serem produto do sonho e não do cálculo. São os interesses fabulosos...

O herói do mar, é, então, o herói da morte!

“O primeiro marinheiro, é o primeiro homem vivo, tão corajoso como o é um morto”.

Se o herói - o nauta – se liga deste modo à poética e à mítica do mar e se une outrossim à imagem da morte como metáfora, a estas unem-se os segredos da Natureza e os Mistérios Divinos, e à Terra uns e outros se lhe aliam igualmente, em idênticas proporções. Forças ora ocultas, ora reveladas, sinais cósmicos e factores telúricos, crenças, superstições, receios – é o extraordinário desejo de romper o véu do desconhecido.

Tudo isto se conjuga na Alma do Povo Lusitano votado à ventura do mar, berço e sepultura de heróis – na morte e na ressurreição da Luz. Relembremos:

«Vae o Ocidente falar – a terra dolorosa e pensativa, que no sonho voado da cathedral soube vencer as Alturas, sem que a mão do Senhor lhe castigasse o arrojo!...»

Partindo do simbolismo do «udjat» para o «olho da alma» de Platão e de São Clemente de Alexandria, passando pelo de Silesius já em pleno neo-platonismo, dado ao mesmo factor apotropaico «a alma tem dois olhos: um, vê o tempo, o outro, observa a eternidade»; verifica-se haver concordância simbólica entre ambos. E se quisermos retroceder a facto ainda mais remoto, ao dos túmulos em forma de casa da época de Halstatt, com uma abertura circular superior, um «olhal», ou voltar às igrejas de estilo vulgo «românico», ou às catedrais góticas, com as rosáceas – e ainda a rosa dos mares dos mareantes – tudo isto é o mesmo símbolo da viagem da alma, embora estilizado, que prevalece nos ritos de ascensão.

A «Flor do Mar» parece, assim, ser a única nau, na reprodução do «Livro das Arnadas», em que se vêem pintados os olhos abertos, sendo também aquela que é « alterosa de castelos e a mais formidável». Destinada à rota da Índia, nela embarcou o grande Afonso de Albuquerque, para a conquista de Malaca. É a nossa epopeia no Oriente!

Para além das considerações já feitas, podemos ainda acrescentar: acontece fazer São João da Cruz, da flor, a imagem das virtudes da alma – uma figura-arquétipo, um centro espiritual. Por sua vez, o mar, em toda a sua poética é o símbolo da dinâmica da vida.

A flor, porém, é também, no ciclo celta do Rei Artur, o símbolo da instabilidade e fragilidade da criatura humana, votada a uma evolução perpétua e sempre sujeita ao carácter fugidio da formosura E o mar – as águas violentas – simboliza um estádio transitório entre as possibilidades ainda informais e as realidades formais, uma situação de ambivalência, de incerteza, de dúvida, de indecisão, um labirinto que tanto é imagem da vida como de morte. Por outro lado, a tríade universal do “Ikebana” admite, pelo menos a partir do seculo XIV, que certa disposição de um ramo de flores seja expressão da decadência da vida, da vertigem de todas as coisas sobre o abismo. Já Ezequiel profetizava, contra a cidade de Tiro, o crescimento do abismo e das águas profundas (Ez. 26, 19) , enquanto que o místico do Apocalipse canta o Novo Mundo, onde o mar deixará de existir (Apoc.  21, 1)...

A «Flor do Mar» naufragou no regresso de Malaca!

Neste pequeno estudo não caberia aprofundar os muitos significados mito-mágico-religiosos do olho aberto e pintado e dos valores inerentes à viagem da alma na hilogénese e na cosmogonia aquática.

Seja como for, os símbolos apotropaicos dos nossos barcos de pesca ou cabotagem são hoje simples motivos folclóricos, sem qualquer signifivado transcendente. Contudo, perduram intactos – invulneráveis – na sua forma.

Vendo-os assim, vêmo-los como num sonho de interesses fabulosos... «A existência autêntica do homem arcaico – ( e, porque não, do Português da Epopeia dos Mares) – não reduzido à existência fragmentada e alienada do homem civilizado do nosso tempo» como Mircea Eliade tão bem no-lo diz na «Lógica dos Símbolos».

Vendo-os assim, podemos confessar, como António Monforte confessa na sua e nossa Fé: « A luz que, em cada arrebol, cresce do Levante numa apoteose, é no Ocidente que ella expira, para renascer no dia seguinte mais bela, mais desejada..[...] E a hora chegou em que, da derrocada final uma voz de Reconciliação se vae erguer. A melodia de Orpheu anima as ossadas desfeitas, a cithara mágica de Amphion congreça os colunelos dispersos. Homens, não choreis a morte da Luz!»

Lisboa, aos 14 de Fevereiro de 1977
 

Jorge Filgueiras


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