O homem é para si

como o encoberto

Só se descobre o coberto ou o encoberto. Nós dizemos coberto o que tem sobre si algo que o esconde aos olhos. Deste modo, por exemplo, o corpo se diz coberto pelos vestidos. Quando, porém, dizemos encoberto, ou hesitamos entre o cobrir e o encobrir, coberto e encoberto, tal dizer, e a perplexidade no dizer, revelam sentido mais fundo, maior dificuldade da apreensão e do conceito. Assim, ocorre já em expressões comuns, ao referirmos, por exemplo, o céu, ou o sol, coberto ou encoberto. Coberto convém ao simplesmente sentido ou percebido como velado. Encoberto, por seu turno, convém quando o acto ou o agente de cobrir de modo mais ou menos indirecto ou mais ou menos consciente se referem.

Se retiro os vestidos, o corpo aparecerá em sua nudez; como poderei, entretanto, retirar as nuvens que velam o que é para mim céu indefinido, indeciso, ilusório, ou face do sol? Fui eu próprio, ou alguém, quem se vestiu: e o refiro num processo, desde o primeiro ao último gesto. E tal como vou da nudez ao corpo vestido, posso regressar deste àquela. Perante o que aparece coberto, depende de mim ou de alguém descobri-lo; perante o que aparece encoberto dificuldade em grau maior ou menor se depara. O processo e a consequente situação escapam-me, de algum modo: ou ao meu poder, ou, mais subtilmente, ao meu saber.

 

Tal a breve síntese das longas reflexões sugeridas pela situação do homem quando regresssa do sentido do mistério remoto ou do drama insolúvel ou irresolúvel, ao sentido do renovado enigma do ser da verdade para si.

No sentido menos comum ou já trivial do drama insolúvel, um ser alheio ao ser do homem é, para ele, como o de que o seu ser depende; no sentido exclusivo do mistério, toda a consciência, todo o conhecimento, todo o saber quedam dependentes de uma verdade alheia ao pensamento.

Que significado, porém, pode encontrar-se para tal dependência? Pois o que depende do que é enquanto é, ou é ser da verdade, e se dirá então absoluta ou estrita e inelutável necessidade, outro certamente será do que ele. Se é, porém, o irredutível outro, como pode tal relação de algum modo estabelecer-se, como o que se sente, como o que se crê, como o que se pensa?   

E o que depende enquanto pensa, depende então da verdade substancial do que é, mas com a condição de algo haver dessa verdade no próprio ser como o que é enquanto pensa, ou no próprio pensamento. Se, porém, no pensamento a verdade é como substancial, ou como o que plena e necessáriamente cumpre todo o pensamento, que sentido tem então pensar? Pois pensar é carecer de algum modo da verdade que na visão unívoca não foi, ou não foi para si, ou foi dada no limite do ser qual somos ou do pensamento qual pensamos.

De qualquer modo, e isso importa atenta e reiteradamente considerar, o homem é para si como o encoberto, e o será em seu ser, ou no pensamento, ou num e noutro.