E quem interroga no interrogar?


Tudo, afinal, do sentido do enigma depende, ali e onde por ele se alcance a interrogação em sua intrínseca subjectividade, a interrogação que dizemos fundamental.

Nas instâncias do geral viver e pensar o que interroga, dizemos, é o mero ser em que a verdade imediata e univocamente é, para a si e de si encobrir-se; e o astucioso mas ingénuo interrogante supõe então interrogar tão fácil e directo quanto a intuição ou visão unívoca primeira.

Gradualmente, o sentido do enigma, o sentido do mistério, a perplexidade, a dúvida, são sofismados. E a condição do homem se revela como a daquele que, enquanto interroga, é contraditóriamente aceite no próprio ser enigmático como o consistente em verdade.

Sobre que interroga então o que interroga? E quem interroga no interrogar?

Todo o subtil enigma da interioridade aparece agora - e o sentido decisivo da subjectividade surge!

Se interrogo, o que em mim interroga não é o ser enquanto ser, nem na mera relação ao que é, enquanto é, a interrogação consiste. Não o corpo interroga da boca e na palavra sem íntima garantia, não o corpo interroga, mesmo quando seja dado já apreendê-lo na profundidade secreta, naquilo que o corpo nunca ou raras vezes é para nós.

Não a alma interroga, a alma crente ou amante.

O espírito, sim, eis o que interroga: e interroga como aquele a quem foi dado, e é sempre dado, na unívoca visão, o ser todo na verdade, a verdade toda no ser.

Na visão unívoca, porém, estava, com toda a verdade, todo o engano.

Estava toda a verdade: pois o uno se impõe como o inegado inegável e se supõe no negar, e ele se põe diversa mas cumulativamente no ser do que o nega no pensamento, como no mínimo saber e até de indubitáveis modos na mínima consciência do que o não vive ou já o viveu.

Estava todo o engano: porque não se sondavam ainda, com toda a requerida demora, os limites do que o sabe e do saber no que sabe.

Então o que viu e sempre vê, via e vê sem a visão de si.

Dizendo-o, porém, ainda o obcessivo engano de novo se insinua. Pois do ser a que está unido tem o espírito visão instantânea; de si, porém, ele não tem visão, mas o saber perante o qual todo o ver, como o do sentir, ou do crer, ou do intuir, é instante actual e finalidade e fim remoto do saber.

E assim o espírito é agora o que pensa no caminho da plenitude longamente recusada ou frustrada do pensar, o que pensa na intrinsecidade do ser vivente e da alma crente e amante, em todos os mais abscônditos e secretos sentidos do pensamento.

E para dizer aquilo que não é como corpo, nem está como alma ou anímico, o que não é nem se confina em ser algum, o que em estado algum consiste, surgiu própriamente a palavra: espírito.

E se, fiel ao velho princípio de em todos os momentos decisivos do pensamento interrogar sobre as originárias conotações, nos interrogarmos aqui, notaremos toda a pobreza da humana palavra e toda a sua riqueza.

Espírito significa-se como sopro e vento, como o que passa no que é e está como o ser de nós. Ele é como o que se respira e, não sendo vida, é condição de toda a vida. Ele é como o que se apreende já na máxima intrinsecidade do ser a si, na interioridade abissal, na subjectividade radical: como único sujeito de todo o ser enquanto é, para si, como o que sente, crê, age ou pensa.

E é como se agora o renovado sentido da verdade desenhasse caminho aberto e infinito, sem limites, sem as lentas perplexidades do sentido do enigma, sem a distância do ser e da verdade, que se significa no trânsito e recurso infindável, e no sentido do mistério.

Assim, mais uma vez e sempre, o ser que é para a verdade, a quer demasiado depressa!

Assim, no momento em que é dado o já decisivo sentido da interrogação e do espírito que interroga, quer o homem, na ilusão do método e do caminho último e decisivo, consistir no inconsistente!

No extremo do sentido do enigma, o espírito que se sonda como o que interroga sem obcessivo objecto, e em si, de tudo interrogando, a si mesmo interroga e de si, encontra afinal o inesperado.

Inesperado não alegre, por certo, não prazenteiro, não aliciante, não fácil, longo, sinuoso e obscuro, complexo inextricávelmente, equívoco no mesmo dizer-se - o espírito encontra o que chamamos cisão, não apenas como radical separatividade do ser e do pensar, mas como o que, dir-se-ía, separa o pensamento de toda a verdade do ser e de si mesmo.

Ao dizê-lo, porém, o que o diz, não sabe plenamento o que diz.

Longo processo se requer para plenamente saber do pleno saber que é dado.