Filosofar é o interrogar imperituro do enigma


Filosofar é reassumir incessantemente a interrogação, podendo em cada resposta deixar o vivo apelo para o germe subtil do interrogar imperituro.

Porém, e como sempre, no mesmo verbo da verdade vai o engano do corpo moribundo da verdade pretérita: a substantivação do enigma e do ser no enigma, acto aberto, ilude com sua pompa vã.

E assim, pode no interrogante pressuroso de responder deter-se o sentido de interrogar, como na filosofia cultural e livresca, se oblitera ou perverte o sentido do filosofar autêntico.

Assim, aquele que se interroga como homem religioso, ou como poeta e artista, ou como sábio de alguma certeza, na pausa de sua finita ciência, aquele ainda que se interroga como homem comum, em momento singular de perplexidade ou aflição, temor ou desespero, sobre a vida e o sentido da vida, esse interrogará afinal sobre o mesmo, embora de modo menos directo, nu e abstracto, por maneira mais indirecta, impura e aleatória.

Interrogando-se sobre o ser do seu ser, situa já o homem o enigma em seu sentido denso e grave. Pois se o homem fosse apenas o que é sem consciência da relação entre saber e ignorar, não haveria enigma; e se ele fosse o que de si plenamente sabe, também não haveria enigma.

O enigma marca o momento solene do encontro do homem consigo mesmo.

Homem: o ser que entra e sai incessantemente no ser da visão unívoca, e na mesma visão, para sobre um e a outra se interrogar; ou, se não se interroga, para existir em equivalente misterioso ou dramático desde o âmago de si às mais extrínsecas formas de seu viver.