O espírito é o que se revela como último

O real, o que equívocamente dizemos e asseveramos como ser, o que chamamos vida e viver para a morte ou da morte, este todo informe e harmonioso, mundo de longos e infindos hábitos de pensar e agir alucinado e fantasmático - é o misto da cisão pelo qual nem o que é, é, nem o que não é, não é, nem a verdade pode assegurar-se, nem o pensamento consistir na não-verdade.

Então no seio da cisão extrema ou da alma dispersa ou do mundo ilusório em sua luz baça e sua opaca substância, o pensamento assume o Nada.

Então, mas só então, é dado falar do espírito e o pensamento se conhece propriamente como espírito.

Tal é o insubstancial substante, o que dizemos mas com a certeza de que o negamos de algum modo no dizê-lo, o por que é todo o ser com sentido e toda a palavra, mas que ser algum diz e para que não há palavra.

Quem poderá referir a maravilha e o deslumbramento de um tal instante, que percorre todo o tempo e a si o assimila? Ao que se situa, mas não no separativo espaço, ao que emerge, mas não como ser do tempo fugitivo, ao que vive, mas não de extrínseco viver, dado é então de mil modos ou por múltiplas formas descobrir novo princípio da relação do ser e da verdade: descobrir, própriamente dizemos, e não criar ou inventar. Pois a verdade, como o que absolutamente é, ou como o que não é para ser, enquanto relação ou anulação da relação ao que é ou não é para ser - ninguém a cria ou criou jamais, Deus ou criatura de Deus, mas tudo a manifesta, como o que revela ou patenteia, desde o mais alto ao mais baixo, desde o mais íntimo ao mais extrínseco.

Nem no que se move nem no que se não move está a verdade, nem no patente, nem no secreto; nem no crente está a verdade, nem no ateu, nem no que simboliza e imagina, nem no que pensa e argumenta; nem na certeza está a verdade nem na incerteza, as quais ambas assinalam a verdade distante; nem no justo nem no injusto está alguma garantia, nem no bem, nem na relação de bem e mal, nem em nenhuma verdade humana ou divina.

E quem diz Deus é e é a verdade, e só Deus é verdade, esse mostra toda a ciência, mas logo a perde se consequente o afirma. E aquele que diz Deus não é ou não é verdade, mostra a outra cumulativa face da ciência, mas logo também a perde no amar mais a sua verdade que a mesma verdade.

Do que chamamos cisão e da doutrina do Nada deixamos assim dependente toda a revelação e todo o saber em seus múltiplos graus. Na doutrina do insubstancial substante e seu trânsito para a liberdade divina, como verdade actual e símbolo real do que infinitamente cinde para absolutamente unir, alcança agora a teoria a sua última forma.

Nós, seguindo os ínvios caminhos, e não foi dado ser e pensar senão para tal, sondámos quanto foi possível a cisão, meditámos por outro lado o uno ser da cisão, atendemos o cumulativo ser e verdade de ambos e por isso assumimos a responsabilidade do pensamento.

O saber que aí foi ou é ainda ao homem possível queda hoje velado e subtil nos mitos remotíssimos, ou no que deles revive sempre na alma e no inocente viver desde a infância inspirada; mas a teologia cristã, inimiga dos mitos, por razões que hoje plenamente é dado compreender, bem como a filosofia e a ciência daquela filhas, não sem razão chamadas modernas como o que nasceu do tempo aceite no ser da verdade sem enigma, seguindo o fatal pendor que, por demasia na fé obediente e escrava ou por demasia no amor da verdade leva a frustá-la - repeliram para o domínio da fábula ou do que se chama superstição, tudo quanto antes do cristianismo , e já no seio do mesmo cristianismo, nos temerosos abismos da cisão e do imenso ser da cisão se perscrutara.

A este ciclo do tempo do ser da cisão, por certo o mais breve de todos, o ciclo do tempo abstracto, própriamente histórico, que ocultou quase inteiramente na pré-história ignota as relações do ser e do saber, preside na fase terminal e extrema o cristianismo e a filosofia hoje trivial, com a forma de saber que se chama ciência e sua técnica titânica. Ora, os titãs, sejam as antigas divindades, sejam os modernos homens de sua remota geração, surgem sempre do ser da cisão que ignora a cisão e seu sentido, sentido que aparece como o não-ser da cisão e o anular de toda a relação obsessiva entre ser e não-ser, que é própriamente a relação e a ilusão da relação, e de toda a realidade e irrealidade de nascer e morrer, e renovado sentido de tudo quanto distinguimos como verdade e erro, de tudo quanto se opõe como bem e mal, de todo o justo que anula o injusto.

No entanto, o oculto e patente liame do ser e da verdade, ou do mero existir e do saber, só se revela na mais profunda interioridade do homem. Isto nos foi transmitido, isto foi sabido e dito até muito perto de nós por todos os que, noutros termos, formularam a doutrina imperitura. O espírito é o que se revela como último.