O homem é para si

como o encoberto

Só se descobre o coberto ou o encoberto.

Nós dizemos coberto o que tem sobre si algo que o esconde aos olhos. Deste modo, por exemplo, o corpo se diz coberto pelos vestidos. Quando, porém, dizemos encoberto, ou hesitamos entre o cobrir e o encobrir, coberto e encoberto, tal dizer, e a perplexidade no dizer, revelam sentido mais fundo, maior dificuldade da apreensão e do conceito. Assim, ocorre já em expressões comuns, ao referirmos, por exemplo, o céu, ou o sol, coberto ou encoberto. Coberto convém ao simplesmente sentido ou percebido como velado. Encoberto, por seu turno, convém quando o acto ou o agente de cobrir de modo mais ou menos indirecto ou mais ou menos consciente se referem.

Filosofar é o interrogar imperituro do enigma

Filosofar é reassumir incessantemente a interrogação, podendo em cada resposta deixar o vivo apelo para o germe subtil do interrogar imperituro.

Porém, e como sempre, no mesmo verbo da verdade vai o engano do corpo moribundo da verdade pretérita: a substantivação do enigma e do ser no enigma, acto aberto, ilude com sua pompa vã.

E assim, pode no interrogante pressuroso de responder deter-se o sentido de interrogar, como na filosofia cultural e livresca, se oblitera ou perverte o sentido do filosofar autêntico.

Textos de José Marinho

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Sete Aforismos

1 - O homem que concebe a imortalidade, esse mesmo a não concebe perfeitamente; isto equivaleria, com efeito, a tornar-se imortal. Todo o perfeito conceber leva ou deveria levar a ser. Mas que sentido tem um perfeito conceber? Não é todo o conceber necessariamente imperfeito e sinal de imperfeição? Conceber é assim relação extrínseca do ser e do sentido. Assim seguindo, já nego o que antes afirmara. Mas prefiro negar-me a mim próprio do que negar a verdade ou ignorar a sua solene e terrível exigência. O nosso conceber não nos leva a ser perfeitamente, apenas certifica da possibilidade de ser e a desenvolve ou manifesta no plano de ser em que existimos. Cai abaixo da geração vital e supõe o conhecimento mais perfeito.



E quem interroga no interrogar?

Tudo, afinal, do sentido do enigma depende, ali e onde por ele se alcance a interrogação em sua intrínseca subjectividade, a interrogação que dizemos fundamental.

Nas instâncias do geral viver e pensar o que interroga, dizemos, é o mero ser em que a verdade imediata e univocamente é, para a si e de si encobrir-se; e o astucioso mas ingénuo interrogante supõe então interrogar tão fácil e directo quanto a intuição ou visão unívoca primeira.

Gradualmente, o sentido do enigma, o sentido do mistério, a perplexidade, a dúvida, são sofismados. E a condição do homem se revela como a daquele que, enquanto interroga, é contraditóriamente aceite no próprio ser enigmático como o consistente em verdade.



O espírito é o que se revela como último

O real, o que equívocamente dizemos e asseveramos como ser, o que chamamos vida e viver para a morte ou da morte, este todo informe e harmonioso, mundo de longos e infindos hábitos de pensar e agir alucinado e fantasmático - é o misto da cisão pelo qual nem o que é, é, nem o que não é, não é, nem a verdade pode assegurar-se, nem o pensamento consistir na não-verdade.

Então no seio da cisão extrema ou da alma dispersa ou do mundo ilusório em sua luz baça e sua opaca substância, o pensamento assume o Nada.