A liberdade existe, a graça é o seu corpo


Excertos de «A Alegria, a Dor e a Graça»


É um universal que vem encher o vazio da forma.

Cada ser conhece imediatamente o Espaço como um ponto de impenetrabilidade que é a sua afirmação de coexistência, conhece o Tempo como o caminho da tendência, a distância entre o desejo e a acção.

Este conhecimento vago precisa-se pelo movimento, que dá ao Espaço e ao Tempo a sua mais alta organização.

No mundo da realidade, da harmonia, do caos ordenado, do Universo, o particular absoluto não existe. “Tudo é em tudo” é o primeiro universal.

A teoria perfeita da evolução biológica, por exemplo, seria aquela que fosse capaz de descer do universal ao particular, da nascente à foz, acompanhando as águas da origem.

O tempo não é uma ilusão de formas, que tenha por oposta realidade uma eternidade adormecida.Ele é já a vitória da consciência sobre o corpo, da ligação que se conhece e estima sobre a unidade inconsciente. Será, em eternidade, a memória perfeita e absoluta, foco da realidade de onde dimanam os abraços que a unem, a conservação de tudo o que existe com universal e substancial existência.

É um Universo luminoso, integralmente aceso em consciência, que desejamos; mas sem perder a penumbra da meia voz, dos suaves recessos da folhagem. Um Universo onde ao lado da flor da encosta, rútila de sol, viva, oculta e melindrosa, a criptogâmica das sombras.

…/...

O homem ama no meio de uma natureza insensível, e o frutos do seu amor e o próprio coração, onde floriram, vão arrastados na torrente dos mundos, rolando para o obscuro abismo do Nada.

../...

Entre todas as ideias há uma que S.Tomás de Aquino iluminou de todo o seu génio. É a ideia de ser.

Nenhuma ideia é, com efeito, mais implicita em tudo o que pensamos e fazemos, e, por isso mesmo, nenhuma tão oculta e tão difícil. É ela, no entanto, o nódulo estável, o fundo substancial, onde todo o cepticismo crítico encontra seguro pé para erguer a realidade.

Ela constitui o cogito de Descartes, mergulhador da dúvida até alcançar a substância e firmeza do seu corpo de ser e existência.

E Kant, desarticulando o cogito, de novo se perde em dúvidas,e, através da fluidez do subsolo, conquista a certeza duma realidade, no ser, que anima a actualidade do conhecimento.


Podemos sentir a relatividade duma vida em que as perdas e os ganhos se misturam e o momento em que vive parece fazê-lo da vida do instante que morreu; mas, se pensamos a vida do próprio instante, nós vemos que ele é, e a sua existência, a sua força de ser é alguma coisa de tão positivo que o sentimos penetrado de infinito e universal poder.

O ser é, para nós, o infinito enchendo o nada; a flor melindrosa e frágil podendo abrir as suas pétalas de encontro à imensidade, soerguer o seu corpo exíguo na vastidão do espaço.

.../...

O erro materialista consiste em, esquecendo o seu sentido metafísico, dizer que tudo é movimento em vez de dizer que em tudo há movimento.

A sua (do tempo) universalidade e a superioridade do movimento sobre o espaço e o tempo são as grandes fontes da heróica filosofia francesa contemporânea. É, com efeito, no movimento anterior à representação, no movimento pré-formador do acto, que Bergson vai procurar a realidade imediata, antes da representação deformadora.

E, como nos sentimos vagamente durar, como o Tempo é em nós, no pluralismo das sensações e dos desejos, é um Tempo sem a mácula do Espaço, a primeira realidade do mundo bergsonista.

No entanto, nós só nos realizamos pela acção, e essa acção só é eficaz e lúcida pelo movimento verdadeiro, isto é, pelo espaço dentro do tempo.

Ora o movimento é determinista e é livre. Determinista, nas ligações dos seres. Livre, na parte qualitativa com que cada ser o recebe e propaga.

Nos fenómenos, ele é determinista ( e que profunda e ampla unidade!) na fixidez do sentido da desigualdade que governa todos os sistemas. Livre no quantum de cada sistema; na fisionomia entrópica dos diferentes sistemas. É o que, no fenómeno, revela o Ser.

O determinismo e a liberdade são dois pólos abstractos da actividade cósmica, que sabe muito bem viver entre eles sem falsos compromissos, mas em superior e criadora síntese.

Há, pois, em tudo o que se nos afigura real e positivo, uma implícita actividade. Essa actividade exige um ser, este ser é a alma.

A liberdade existe, a graça é o seu corpo.

Todo o movimento se nos insinua na alma, mostrando assim a sua essência de comunicabilidade.

…/...

O sublime é o sentimento de Infinito.

Mais que o pensamento em acção, ou o sentimento, é a própria sensação que nos revela Deus. A graça é sentimento, sensação e pensamento.

O estado de graça é o sentimento da presença universal. Estar em graça é olhar o Universo daquele invisível centro de amor, que é o seio de Deus.

Estar em graça é ir devagar na Solidão a conversar com o invisível, a encher de humanas palavras amorosas todo o Espaço sem voz.