A minha esposa


Dedicatória de «A Luta Pela Imortalidade»

de Leonardo Coimbra

Minha querida amiga:

Lembras-te daquela madrugada trágica em que na casa de meu Pai, sob o uivo dos cães e duma aragem rápida, fina, incoercível, de Junho, nos fômos do quarto onde morrera o nosso filho?

Muito enleados, árvores destroçadas pelo ciclone, fômos para o quarto onde, dez anos antes, quási nos meus braços morrera meu Pai.

A tua dôr era toda do nosso filho, a minha dôr era a dele e a tua; nunca senti tão claramente que o homem é o protector da mulher, que lhe cumpre trazê-la ao colo e no coração.

Como eras dolorosa - os cabelos caídos, a tua desolação, o frio do teu mortificado corpo!

Eu tinha escrito o meu primeiro livro. Era uma síntese filosófica, chegando a conclusões optimistas sôbre o mundo como sociedade de seres espirituais imperecíveis.

Acabara esse livro num sábado, no domingo lêra as conclusões ao poeta Teixeira de Pascoaes, na segunda-feira adoecia o nosso filho bruscamente, e para morrer.

Era a grande experiência, o meu pensamento posto à prova, crua e insofismável!


O livro aí anda - «O Criacionismo» - a mostrar o heroísmo e a honestidade do meu pensamento.

Tu, minha querida Amiga, pedias-me que abrisse os teus olhos à minha melancólica e severa esperança.

Por ti trabalhei, para ti muito especialmente procurei provas experimentais e acessíveis do meu pensamento metafísico.

O meu livro - «A Morte» - é um compromisso entre o meu método e os teus desejos.

Foi escrito naquela terra, tanto da minha saudade, para onde fômos escorraçados pela má vontade caluniosa dos reitores dos liceus do Porto - a Póvoa do Varzim.

Aqui absolvo os meus inconscientes inimigos (tanto que, hoje, um é amigo) e aqui deixo a nossa infinita gratidão aos bons amigos, ao delicado carinho que na Póvoa encontrámos.

Um domingo saímos os dois, e, diante dos arcos partidos do aqueduto de Vila do Conde, arcos escondidos debaixo do abraço vegetal da hera, disse-te eu que o meu coração era uma ruína verde.

Lembro o teu abraço, promessa de ressurreição - é o nosso filho que mesmo agora te está beijando!

A minha promessa aí está também - é este livro, que viste nascer sob o doce e claro olhar da tua Alegria.

Toma-o!

O Teu
Leonardo Coimbra

(este livro foi acabado de imprimir a 30 de Outubro de 1918, na tipografia da «Renascença Portuguesa», Rua dos Mártires da Liberdade, 178, Porto)