Caminhos de Filosofia Portuguesa

Budismo ou Aristotelismo?

Luís Furtado

1 – O Budismo

O que é o Budismo? Ou, para nossa mais modesta compreensão, o que é o estado búdico? O que é ser Buda?

Recordo-me, em concentração respeitosa, à qual não falta uma certa saudade, dos tempos mais antigos em que eu, na companhia de outros mestres que já não estão entre nós, pensava estes temas que, aliás, preenchiam a minha alma, na aurora ainda imatura do seu pensar filosófico.

Falava então eu para o Álvaro Ribeiro de Rudolf Steiner, e da relação que se devia fazer, bem distinta, entre a teosofia e a antroposofia. Penso eu que agora essa questão, de novo, vai acontecendo entre nós. E que todas as religiões têm tendência, não para uma síntese, mas para uma síncrese, ou seja, para uma mistura!

Cristo deixará lentamente de ser, neste crepúsculo que acontece na nossa civilização, aquele Sol que faz gerar á sua volta todos os mistérios que a religião, por si mesma, implica. O fenómeno religioso circula à volta do Ser, no plano da essência, e à volta de Cristo no plano da existência manifestada. E é importante termos esta referência, sendo Cristo a encarnação do Filho de Deus; então, perante todo o Ser, o Homem é feito à imagem e semelhança de Deus.

Então o que é o Budismo?

Invoco aqui a velha distinção Steineriana entre os Mistérios Cristãos e os Mistérios Antigos.

Nos Mistérios Cristãos está uma cruz; ao cimo dessa cruz, estão as abreviaturas JNRI. Para conforto do meu coração, que sempre aspirou a conservar em si mesmo o ritmo consensual do Universo, aprendi a ler essas abreviaturas como – Ignis Natura Redemptur Integra – a Natureza Redimida Integralmente pelo Fogo, o fogo Divino, o Logos que acalenta, no seio da Terra, o nascimento de todas as coisas e a renovação da vida. Ele é o eixo vertical da Cruz, que vem de cima, e cujos braços, em extensão, mantêm o equilíbrio do mundo. O Logos é a Palavra de Deus.

Eis que Buda aparece como um ser levitante, que procura, não a Encarnação e este Mundo, para dar conforto ao Homem, mas sim o Absoluto.

 Há um dia em que ele faz o seu sermão sentando-se, como diz a tradição, debaixo de uma figueira. E então fala do seguinte modo:«Oh meus discípulos amados, perante o Ser, nada dura, tudo se extingue!» E no momento em que o disse, assim reza a lenda, dissolveu-se em Luz.

Temos que notar que há duas intenções: a primeira, firmemente centrada no Homem, ou na Encarnação e na Natureza, e seus mistérios, com a sua expressão ontológica no Mistério da Encarnação; a segunda, que apenas se refere à única realidade possível, ao horizonte supremo dentro do qual sucumbe toda a realidade. Todos os universos entram em crepúsculo, e só o Ser, como Absoluto, se exalta e glorifica.

É no livro «Os Mistérios Cristãos e os Mistérios Antigos» que, segundo Rudolfo Steiner, podemos encontrar a distinção que representa o axis crucis que distingue Buda de Cristo. Buda, dissolveu-se em Luz debaixo de uma figueira, árvore simbólica da iniciação antiga. Cristo, transfigurou-se no Monte das Oliveiras, mas não se extinguiram as suas formas; antes se amplificaram para o infinito, nas suas próprias vestes transparentes e brancas como a neve, e tornadas tranlúcidas pelo seu próprio ser, que delas irradiava em majestade e para assombro dos seus discípulos.

A figueira, segundo os símbolos e a tradição que deles reza, ficou tida como a árvore da antiga iniciação, ou desses antigos mistérios e, por isso, é a árvore onde, hoje, muitos intelectuais, como outrora Judas, se podem enforcar.


2 – Cristianismo e Aristotelismo

A cruz é a expressão de toda a realidade, ela exprime em qualquer ponto da Criação o domínio em que o Espírito se insere na existência. Por isso, podemos prolongá-la infinitamente, não só em extensão mas também naquela profundidade em que encontramos as mais altas esferas sobre as quais intervém o Poder e a Misericórdia de Deus.

Tudo existe, em suspenso, sobre o abismo, como uma criação divina.

É na Criação que está o milagre, não no facto de haver existências, que se suspendem como imagens ou miragens sobre as águas do caos.

Por isso, por ser milagre, a suspensão passa à existência plena, em glorificação da Presença de Deus. Na verdade, navegamos em suspensão no Infinito e, exactamente por isso, precisamos que toda a infinitude seja confirmada, ponto por ponto, instante a instante, pela criação Divina.

Sem este conceito, ou sem esta ideia preliminar que, no fundo, é verdadeiramente originária, o que significaria a existência humana perante as múltiplas existências e os múltiplos seres que infinitamente se sucedem na ordem do tempo e do infinito?

A questão, aqui, nem sequer é o problema de sabermos quem somos! Ninguém sabe quem é o Homem; nem mesmo os mais sábios humanistas o podem saber. E quando estes reflectem melhor, fora das suas ideologias já, desalentados pelos seus progressos morais e éticos, o máximo que podem dizer é que o próprio Homem, em si, se conhece mal a si mesmo. É um ser de magnificência de expressão mas cujas obras, finitas, são de reduzido valor. Apontam para o infinito, e é esse, apenas, o ânimo que lhes resta.

A questão é que quando pensamos a realidade, primeiro, como as crianças, usamos o tacto, ou seja, o con-tacto, para sabermos qual é a resistência a aferir, qual é a realidade que connosco se vem a corresponder, para, enfim, sabermos como balbuciamos as nossas palavras – talvez a linguagem mais verdadeira da correspondência entre nós e o mundo.

Mas o que temos, logo de início, é a matéria – é, portanto, a resistência dos sólidos.

E logo Aristóteles diz, complicando o problema da nossa percepção, que não se pode afirmar que «a matéria seja isto ou seja aquilo». Poderemos, pois, ser tão-sómente materialistas?

Não é a matéria, realmente, a base onde possamos descansar - porque, volto a repetir, a matéria não é isto nem aquilo! - mas, digamos, nós estamos confinados ao saber material que os nosso sentidos dão. Para onde podemos ir? Certamente, para a correspondência que temos do fenómeno, que é viva, que é eloquente, que nos fala das suas qualidades e atributos, que é o saber natural das substâncias.

A substância é uma realidade que, estando na matéria, se escapa da matéria. Transcende, porque passa a ser uma qualidade – é sobre esta perspectiva que ela pode ser lida pelas nossas percepções. Sem a substância, a matéria não teria propriedades e, como tal, seria inapreensível para a nossa percepção, quedaria ausente de tradução pelos sentidos que apreendem o mundo exterior. Realmente, não sabemos o que é a matéria; e o testemunho do que ela é vem através da substância, com um saber cumulativo da nossa própria experiência.

A filosofia portuguesa tem uma tarefa muito difícil. Vislumbra-se um esquema fundamental, mas com várias fechaduras, ou translacções de nós próprios. Temos de dar uma reviravolta, muito dificil, para dizer as coisas de forma diferente.

A atenção é uma forma de intenção e, para ser intensa, transpômo-la para outro território, um território que desconhecemos.

A vontade não voluntária, eis a intenção a que se referia Husserl.

Refiro-me aqui a todo aquele mistério de experiência que a vontade comum dos homens não consegue perceber, mas que em sentido intenso e subjacente vai prosseguindo, através de vários estados de consciência, sempre dentro do que posso afirmar que é uma empiricidade... É como se fosse uma reencarnação dos nossos sentidos, e já como que prevendo o futuro da natureza humana; ora, o futuro da natureza humana acontece sempre através das substâncias.

Dito de outro modo: para além, antes, ou depois das substâncias, a empiricidade não existe! São as substâncias que constituem a razão de ser da empiricidade, e não esta que constitui a razão de ser das substâncias.

E o homem é o sujeito passivo de uma transubstanciação da carne pelo espírito e, por isso mesmo, o Mistério da Encarnação persiste como a possibilidade do homem, como um futuro que é o futuro da própria humanidade.

A transubstanciação é o segredo, é o mistério que o ser humano transporta em si mesmo, enquanto viajante que é, não só deste espaço e deste tempo, neste mundo tridimensional e constante em que vivemos, mas também como viajante de outros mundos, de outros horizontes do espírito que não mais termina.

Há sempre em nós, mesmo naqueles que não compreendem isto que acabei de afirmar, um alento qualquer, um recurso interno que é a chama que alumia a nossa alma, e que a transporta.

Se pressentirmos isso, então o nosso corpo como que se transforma, e sendo, como é, a caverna dos nossos sentidos, passa também a ser a barca que nos pode transportar numa infinita viagem, que nos está destinada, através desses horizontes do espírito.