Luís Furtado

Revista Democracia e Liberdade

nº42/43 Julho/Dezembro de 1987

«O Humanismo de Leonardo Coimbra»

por Luís Furtado

Pode o discurso humano, históricamente instaurado, fundar uma autêntica razão universal?

O humanismo acredita que a razão humana nunca é isolada ou impermeável. Através do diálogo entre o sujeito e os outros, pode resultar uma coerência de fraterno e solidário entendimento! Acontece que esta coerência é, contudo, posta em causa quando se trata de construir a urgente objectividade do quotidiano humanista. Damo-nos conta de que a vontade histórica, ao conseguir no tempo o triunfo de determinados ideais, nunca porém os consolida em vitórias autênticas e definitivas... Os imperativos categóricos da sociedade, em palavras de ordem constantemente repetidas, acabam por tornar fútil, senão ridícula, a linguagem nobre dos valores humanos.

A razão só instaura, só é liame fraternal entre os seres, quando nos princípios que defende encontra a ressonância interior do sujeito, que é a sua verdadeira alma! É, pois, indispensável que o consenso apologético do discurso tenha uma garantia intimamente vivida por uma consciência revelada.

Encontra-se, no entanto, o homem sempre comprometido com o enigma de si próprio, quando procura resposta para os mistérios do universo. Eloquente e ajustada é a frase de Protágoras que, embora afirmando um saber relativista, estabelecia contudo o sujeito como único mediador de toda e qualquer interrogação!

Leonardo Coimbra investiga desde os Gregos, porque sabe que o acto de conhecer-se nunca é isolado do acto de conhecer e que todas as interrogações sobre o humano emergem progressivamente reveladas, por inerência à problemática de filosofar. A descoberta da exterioridade, como ainda da identidade do próprio, irrompe do acto de pensamento, onde, acima de tudo, importa o mistério da unidade da ideia! Na dimensão temporal em que nos encontramos, só nos é dado a conhecer o múltiplo pela unidade em que as representações do sensível são abrangidas numa só significação! Sendo assim, o pensamento humano, que já no sujeito unifica a maravilha cromática do universo, instaura desde logo, a partir dos fenómenos, um primeiro noema como promessa antecipada da platónica ideia.

É, pois, necessário transpôr o panorama do mundo, saber se o uno da ideia será em si mesmo uma realidade autêntica, como ilha escondida pela bruma do sensível, ou uma criação da mente humana que tem de estabelecer itinerários cardeais, rotas discursivas, como condições da sua própria navegabilidade pensante!

Em Leonardo, a monadologia e o criacionismo afirmam nas ideias uma vida própria compartilhada não só pelo sujeito que as pensa, mas pelo Deus uno que, com amor para o seu seio, as atrai e pela graça com elas íntimamente convive. Tem de haver «uma ordem e harmonia das ideias unificadas em síntese cúpula ou pirâmide do supremo bem»1. «Parece que a ideia platónica unifica porque é unidade! A unificação do múltiplo sensível existe e é possível pelo uno da ideia inteligível».2

Mas nós apenas temos notícia das imagens visadas pelos olhos materiais. Assim, na transferência interrogante da imagem física para a ideia metafísica, a filosofia de Leonardo Coimbra estabelece com coragem esta pergunta crucial: não será a ideia uma imagem aristocratizada?3

Ora, o pensamento filosófico não pode ser um exercício de ordem subjectiva, com possíveis efeitos terapêuticos nas dúvidas ou indecisões das inteligências inquietas! Toda a viagem cognoscente tem de culminar num ponto e revelar uma autêntica realidade, sendo porém certo que deverá substituir o comprometimento cinético dos noemas do sensível pela noesis do inteligível. A resolução deste magno problema só vem por uma confiança verdadeiramente ontológica no mais puro sentido, ou seja, admitir sem reservas que há, entre o ser e o logos uma tão franca e absoluta comparticipação que o próprio pensamento se assume no seu decorrente discurso, como uma indubitável realidade fundante e actualizadora! Só assim é credível a transposição lógica de todos os estádios intermédios da actividade especulativa na enteléquia de um puro ver de pensar!Caso contrário, haveria «uma impossibilidade do resgate universal porque o sensível só servirá para insinuar o paradigma do intelígível»4.

A filosofia, sempre inscrita na temporalidade, não faria mais do que dar ilusória importância às tarefas transcendentes de um logos mais apto a resolver os problemas humanos do que a conquistar os mistérios divinos! Seria apenas um platonismo intermédio, sem revelação contemplativa! Todos os esforços da metafísica «seriam afirmações do espírito em frente de uma matéria rebelde que, simples potência, pode oferecer-se a actualizações sucessivas, ou seja, à geração, à corrupção e à morte»5. Perante esta dificuldade «Aristóteles nada trouxe de novo, mais do que definir claramente a ideia ou forma como correspondente do real que será o abraço da potência da matéria com o acto em forma ou ideia 6.

Sabemos que a exaltação do logos foi decisiva na filosofia grega que depois de um Heraclito sai da intimidade das imagens vividas nos Mistérios, para a azul luminosidade dos pórticos de Atenas! Mas essa vivência íntima e secreta tem necessáriamente de se realizar em forma e conteúdo! Para que isso aconteça é preciso que a palavra seja mais que a expressão designativa dos fenómenos exteriores, porque inútil se torna todo o discurso filosófico sem uma interior operatividade! O que a filosofia pretende como condição ética é o poder da palavra como reflexão operativa, susceptível de promover a permuta do sensível pela transparência do inteligível.

Neste sentido, Leonardo Coimbra reconhece que a filosofia, quando dá publicamente o testemunho de si própria «quereria ser o pensamento do discurso, a unidade interior desse pensamento enquanto distendido em palavras»7. Souberam os Gregos, com Parménides, que essa unidade interior responsável era o logos, tanto no pensamento como na palavra, unum et idem com o ser. O pensar humano e o seu correlativo discurso ganhavam assim a liberdade e a confiança na exteriorização especulativa.

Com Sócrates, a prova da maiêutica vem garantir que a palavra quanto mais não seja na relação dialogante entre mestre e discípulo tem realmente o poder operativo e eficaz da revelação. A legitimidade do humano discurso não é agora dependente de uma arte oratória e formalista, mas afigura-se como acontecimento originário a toda a expressividade audível, que vai permitir o fundamento de uma lógica do ser que nele se exprime e por ele se anima.

Mas convém acrescentar que a valência ontológica da palavra não se efectiva num meio homogéneo mas sim nas consciências singulares, em que o interlocutor tem de valer éticamente a própria interlocução! A mestria de Sócrates, admirável para os discípulos, era indiferente ou execrável para os demais cidadãos de Atenas. Há variáveis pessoais de empatia e disponibilidade, denunciando que a convergência das razões particulares não fundamenta o triunfo de uma razão universal em que a suposta comunhão de pensamento tornaria aliás supérfluo o diálogo inteligente entre os seres. O patético da actual abstracção humanista é que promove uma pluralidade em que os falantes só aparentemente pertencem a uma razão única, que apesar do consenso, nunca se concretiza, porque os indivíduos conservam patente ou explícita a reserva da sua pessoa moral.

O discurso em Leonardo não pode desistir, pois, da compensatória exigência intelectiva na qual a ética teria a virtualidade de garantir a recuperação justa e proporcionante entre o ser e o saber.

Geralmente reconhecemos a ética como um domínio de valores que são fonte de um comportamento da consciência na sua possível expressividade moral. Mas porque não considerar a ética como um comportamento mais interior ainda, o da própria alma, insinuando o modelo perfeito em todos os actos de cognoscitiva inteligibilidade?

Como resolver o ponto de partida de Aristóteles com a meta de chegada de Platão? Conclui resolutamente Leonardo que só o humanismo cristão tem força para ser o redentor do humanismo idealista dos Gregos! Só a mensagem cristã realiza a consubstanciação real entre a forma e a ideia!

No humanismo idealista dos gregos contribui a ideia platónica para que a figura humana possa ser elevada à imortal plenitude da harmonia e da perfeição. O esforço da estatuária grega é o de tornar perene uma lembrança jamais saciada onde a beleza e a verdade se equivalem como forma de origem do corpo terreno sujeito ao envelhecimento e à morte. Mas é o humanismo cristão que realiza o platonismo, visto que, pela ressurreição física de Cristo, o corpo mortal se transforma em ideia de corpo imortal!

Para além de tudo ainda, a ascensão do corpo físico a uma metafísica morada, não alcança apenas a epifania de uma temporalidade periférica, mas assume-se como ontofania plena e irradiante a todo o manifestado. É pela luz desta nova mensagem que a alma humana é resgatada e integrada numa promessa de unidade intemporal verdadeiramente escatológica. A alma humana responde agora por um processo de inteligibilidade, porque é também o centro de um processo de unificação, onde transparece a promessa de uma revelação suprema.

Eis, quanto a nós, no pensamento de Leonardo Coimbra, o alcance e o significado da graça, que não é apenas redentora do género humano pela dádiva de um Deus de amor e benevolência, mas é resgate ôntico que no homem actualiza e possibilita o fundamento da enteléquia. A graça ilumina a alma, dando um poder indubitável à intuição, que pode irromper em formas válidas de pensamento, no humano exercício da inteligência raciocinante...Desenha-se assim a relação do sujeito com os fenómenos através da figura fecunda da analogia que definitivamente permite «a apreensão do ser em planos ontológicos, de um ser não distribuído, esparso ou perdido em seres, mas hierárquicamente participado e reconhecido.»8 O mundo pode ser, pois, sem receio, filosofado como um sistema legítimo de conhecimentos ou noções.

E como se geram essas noções?

Por um máximo de racionalização do intuir do sensível! A realidade será pensada pelo homem na medida em que ele racionalize aquilo que intui. Cada forma intuída é, pois, uma mónada racional e nocional!

Este participante convívio entre a intuição e a forma está bem longe do irredutível antagonismo entre o nómeno e o sempre representativo fenómeno, como acontece na filosofia de Kant. A mediação formal da ideia em Leonardo, beneficiada pela graça, emerge através da transparência graduada de uma enteléquia, que a partir do sensível alcança a mónada inteligível. Devemos, portanto, considerar o seu pensamento como uma resposta válida à problemática crucial que fundamenta o ponto de partida de toda a corrente idealista alemã.

Quanto a nós, a génese possível que antecipa este idealismo, está em Christian Wolff que, admirador de Descartes, e defensor do Aufklarung, não se eximia porém de recuperar um certo saber clássico, vincadamente platónico e aristotélico. Compreendemos melhor o alcance filosófico de Wolff ao defender Platão e Aristóteles do naufrágio da escolástica, se tivermos em conta que ele tentava, no século das Luzes, repôr o interrogado enigma da relação entre a forma e a ideia! Estava ciente que a confiança na razão defendida por Descartes e apregoada pelos Iluministas, para triunfar na história, tinha de ser ainda justificada na interioridade do homem, que realizava o mistério dessa alquimia subtil entre o excesso da natureza e o intenso de um cogito especulante. Não seria, contudo, com os recursos de um aristotelismo, nesta época altamente polémica, que Wolff conseguiria explicar como é que a psicologia empírica circunscrita às formas do mundo ultrapassava as próprias determinações dos fenómenos, a favor de uma actividade racional. É nesta herança que o seu discípulo Alexandre Baumgarten vem afirmar que a alma pratica uma certa aistesis, que potencia e eleva as formas do sensível aos modelos abstractos da razão. Mas a estética de Baumgarten não era uma sensibilidade apenas referenciada a um emotivo psiquismo. Mais do que isso!... Também subentendia a existência de uma lógica nesse sensível, como causa modeladora das suas próprias formalizações.

Depois de Aristóteles, e pela primeira vez com Kant, parece que a metafísica tem agora a oportunidade de ganhar a consciência do seu próprio fundamento, desde que a lógica racional do sensível, já anunciada por Baumgarten, seja sujeita à crítica dos modos como a razão se elabora, desde o concreto dos fenómenos ao abstracto dos mais puros conceitos...

Aceita Kant sem reservas que o nosso conhecimento é de raiz intuitiva, embora para nós ele resulte sempre tematizado no seu carácter receptivo. Com efeito, a exterioridade empírica e formal é susceptível de ser intuída mas o certo é que a representação é um produto que esconde o modo puro e essencialmente activo pelo qual as representativas imagens são actualizadas! Há, realmente, «uma arte escondida na profundidade da alma», mas o que obtemos não é esse conceber a priori como ser do esquema, mas sim a imagem que dele resulta como representação possível. Ora, essa furtiva actividade oculta-se na apercepção. Para o nosso conhecimento a apercepção funciona como um quiasma, e continuamente ilude o conteúdo ou o nómeno pela representação do fenómeno. Na reflexão interior do sujeito, o posicionamento da essência nunca é concêntrico à forma que nos é representada!

Na nossa actividade cognoscitiva o ser resulta como assimétrico ou excêntrico ao produto do acto de conhecer e, consequentemente, transcendental.

Vejamos a diferença na filosofia grega para avaliarmos a importância do itinerário interrogante de Leonardo Coimbra, por nós anteriormente referido!

Em Parménides, o ser é o qualificativo que está nas coisas como condição destas serem reais, assim como é presença presente no acto cognoscitivo. Na filosofia alemã o ser transcendental não está nas coisas nem as excede, indefinidamente as penetra sem contudo se confundir com nenhuma, porque não é detectável nem no espaço nem no tempo!

Reparemos que estas duas categorias são condições inelutáveis da própria manifestação formal, em qualquer situação concreta ou abstracta por nós concebida. Desde logo em Kant, também a consciência se anuncia impossibilitada de focalizar o nómeno, já que o  espaço e o tempo constituem, para ela, os dados a priori de toda e qualquer revelação. É neste último aspecto que a filosofia de Kant vai influenciar, no idealismo dos pensadores alemães, a dúvida sobre a verdade de toda a especulação metafísica, com a consequente crítica a todos os acontecimentos constituintes do processo formativo eidético. Daí que a metafísica exprima o ser já no crepúsculo de um sendo, como ténue presença apenas espectral, que jamais pode sair triunfante da temporalidade.

Ora, para Leonardo Coimbra, a génese do humanismo antropolátrico que sucede ao humanismo cristão tem origem na insuficiência do fundamento ôntico da forma, como condição legitimadora da ideia. Com efeito, é impossível um verdadeiro humanismo confrontado com a usura ontológica de um conhecimento metafísico! Importa, pois, que estejamos conscientes de que a filosofia humanista é extremamente vulnerável e dependente da possível revelação do ser.

A ressonância do ser no pensamento humano vem exigir o recurso da vontade como imperativo categórico dos valores que o humanismo defende e actualiza.

A vontade em si mesma já não ambiciona o reconhecimento do ser nos aspectos prismátcos de uma transparência existencial, porque se justifica apenas no visível da acção empreendedora. Se meditarmos bem, ela é o resultado de uma desistência perante o invisível, e denuncia, na sua natureza, o antagonismo entre o acto do ser e a forma que o manifesta. Ao ignorar a essência formalizante, a vontade intenciona apenas nas formas do mundo a realização objectiva dos seus propósitos.

Dentro desta herança filosófica não pode a ciência orgulhar-se de ter apressado o materialismo, ou sequer dissuadido a confiança do homem na sua milenar ânsia especulativa. A vida intelectual, desenganada da metafísica, dimensiona-se pela exterioridade e acaba por reconhecer as vantagens operativas de uma razão prática, em que a forma é tão sómente o objecto, e a substância apenas a matéria...

Quer a vontade no mundo contemporâneo inscrever a razão no tempo moldando-a aos objectivos sociais e políticos que escolhe e decide. Por isso, este racionalismo voluntarista, ao utilizar a sua acção com o pretexto dos valores humanos, tem de ser por nós cuidadosamente interrogado. É que a dialéctica da história, ao explorar antagonismo tantas vezes fictíciamente excitados, não pode já ser maiêutica de aceleração das almas. Somos forçados a afirmar, não sem desânimo, que o nosso século ainda não será o instaurador de uma universal consciência.

É nesta ausência de ser, relativamente ao compromisso intrínseco com a ideia, que ao humanismo antropolátrico sucede aquilo que Leonardo Coimbra chama de humanismo exaustivo. Este último revela nas sociedades toda a revoltante nudez do conteúdo voluntarista da razão, como evidente ameaça de sinal totalitário. O seu mais ofensivo cinismo está em supôr que pode subjugar as consciências no domínio consumado das suas decisões e que, a partir daí, o ser da razão se ignora e se esquece de si mesmo!

Este humanismo, que já não distingue a máscara que usa de um rosto verdadeiramente humano, deturpa a evolução da história e adia para um futuro mais longínquo os laços de uma fraternidade universal prometida a todos os homens.

1. A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre, Ed. Tavares Martins        2. Idem, pág. 9      3. Idem pág.8

4. Idem, pág.10         5. Idem, pág. 13          6. Idem, pág.12        7. Idem, pág.41        8 .Idem pág.47