O Messianismo

e o filosofar Português

Já desde António Sérgio, e de outros antes dele, que tem sido profundamente desdenhado o Messianismo Português.

Este autor conseguia, na sua crença, confundir o messianismo com a expressão atrasada de uma cultura sem progresso.

Mas o que é o progresso? O progresso é apenas uma graduação no visível, que se substitui a uma graduação inteligível. O progresso é apenas uma mentalidade actual, que tem os seus contornos e os seus limites dentro das exigências do racionalismo.

Ora, todo o racionalismo é coxo! É isso, precisamente por essa incapacidade de movimentação diante da liberdade. O coxo justifica-se a si mesmo pela rigidez lógica dos seus movimentos. O mundo que lhe resta é a lógica que sustenta o seu sistema de sobrevivência própria. Eu direi que todas as consciências se instalam nessa realidade e todos os entendimentos se sustentam a partir desses pseudolimites, estabelecidos a partir do que chamamos a mentalidade do senso comum.

Se nós meditarmos sobre o progresso, geralmente utilizamos as categorias de uso comum. E dizemos cá para nós: na medida em que a sociedade se modifica, a mais modificada é a mais progressista. Para o homem o progresso calcula-se sempre no visível e no útil. Isto é o resultado da revolução tecnológica, produtora industrial de bens culturais. É nesta enxurrada de bens culturais que nós pensamos habitualmente aquilo que é a graduação do mais e do menos do sentido do progresso. Mas o homem, no fundo, é sempre o mesmo. E se retirássemos essa visibilidade, se um dia este tipo de graduação do progresso declinasse, o homem encontrar-se-ia consigo e necessariamente com as suas crenças ancestrais. Essas eram a sua perenidade em relação ao ser do qual o homem emerge como criação “sui generis”, naquilo que é e será no sentido de humanidade.

Eu quero dizer, se me dão licença para isso, caros leitores, que o progresso é medido e pesado. Retirem essa bitola, apenas material, e pensem nos valores conscientes ou inconscientes que estão nas vossas famílias, nas vossas qualidades. Pensem naquilo que pode ser mais elevado e mais nobre, independentemente do que nos rodeia, das vozes da propaganda, independentemente daquilo que vocês usam mas que, não tarda, talvez até venham a ter medo de usar, porque o uso extremo e não racionalizado implica o receio de todos esses meios postos à nossa disposição.

É sabido que em todo o mundo há episódios energéticos. Houve vários. O carvão, o petróleo, a energia do átomo, tudo isso nos parece inconclusivo em face do futuro da evolução gradual da humanidade. Se somos consumistas da técnica, sem o desejarmos somos também consumistas deste planeta que nos dá vida e nos rodeia na sua aura de protecção perante o infinito do qual recebe a bênção da vida.

Esta minha dissertação sobre este aspecto foi longa, talvez, mas exprimiu um cenário de tendência globalizante para que todos consciencializem como é ridícula a tese que não há Deus e que não há enviados de Deus a intervirem na evolução dos homens. Numa cadeia de séculos há sempre alguém que aparece e que muitas vezes nós não podemos de modo algum justificar o porquê do seu aparecimento, o porquê do seu sucesso, o porquê da sua consagração. Por eleição de Deus, serão sempre pessoas de paz, mas por karma dos homens talvez até se tornem pessoas de guerra.

Outros, andam na sociedade, anónimos, e ninguém os conhece… vivem a sua vida na dignidade própria do seu sonho. Afastam-se dos progressistas, sempre suspeitos, como intelectuais de café que aparecem como primas donas de uma ópera para a qual não têm o necessário talento para perdurar no presente, a não ser para darem fífias no futuro.

Assim, deixai o povo sonhar! Que os progressistas não anteponham o robot, ou a máquina de lavar, a um messias… Que não instalem no computador a mens magna que, reduzindo-nos ao ócio, nos há-de favorecer com a sua competência de organização global. É claro que, até neste sentido, esta ideia nega o sentido do trabalho. Já não trabalhamos por nós…

A redução do trabalho é imoral, porque é uma meta a atingir que nos rouba o sentido do instante a instante, o sentido do cuidado do ser nas coisas, e de nós com as coisas. Cuidar o ser é fundamental, como diria Heidegger, porque é sentir o ser para a existência e nos situa como existentes em toda a enigmática que daí advém.

Um outro ponto sobre o messianismo português, que é o sentido de atraso que pertence à redução que sempre é inerente ao pensamento socialista, eu tenho a dizer a esses senhores tocados pela graça do internacionalismo, mais do que pela graça do socialismo, mais ainda, para muitos, do que pela graça de Deus, eu tenho a dizer que Portugal tem o direito a ter o seu Dom Sebastião, deste ponto de vista lendário, deste ponto de vista mitológico, deste ponto de vista que exalta os nossos corações porque tudo isto é como que uma chuva divina, benéfica, a dar fecundidade a este chão da Pátria, a esta Nação pela qual somos e pela qual nascemos.

Rejeito, pois, liminarmente, toda aquela intervenção que não nos dá direito a termos um Dom Sebastião, tal como os Islamistas têm um sofrido Madhi, ou os Judeus têm o seu não contestado Messias Futuro.

Falo em direito cultural e em direito filosófico… E reservo para o pensamento português essa autoridade assumida para falar de si sem qualquer instalação estrangeira que o iniba de ser franco e leal para consigo mesmo, e de ser corajoso para com todos os outros que nos querem impor as suas orientações históricas internacionalistas.

Aí, eu espero, na graça de Deus, que aquilo que temos e nos é de raiz seja abençoado com uma bênção que já não seja apenas cultura ou história, mas religião.. Como todos os povos não existem por acaso, embora muitos, tal como as pessoas, não tenham a cumprir grandes desígnios no ciclo da história, eu espero, perante a cultura e a história, que o Messianismo Português ascenda a uma interpretação generalizada e autêntica do que verdadeiramente é no que respeita às aspirações da alma lusíada.

As estações do céu abrangem muito mais tempo que as estações terrenas.

Todos nós pensamos que os nossos deuses provêem dos crepúsculos finais de todos os Orientes possíveis, porque nós somos a Nação mais Ocidental.

Espero que consigamos, e isto é uma exortação aos filósofos, especular - volto a dizer, especular - sobre esse Ocidente em que todas a riquezas do Oriente vão renascer... O Sebastianismo é uma conquista da nossa Nação, que intenciona alcançar o seu espírito. É assim que todos os Portugueses devem ir concebendo a palavra esperança.

Será isto uma religião? Em todas as religiões há sempre um profeta. Em todas as religiões há sempre um ser fora do comum. Mas eu centro-me em Cristo e na ordem de Cristo, que é o Natal de toda a religiosidade possível, porque ele representa o impulso e expansão da cultura lusíada, dentro deste espaço exíguo ou limitado, dito tridimensional, em que nos encontramos, ele representa a pressuposta aliança do ser humano com os outros mundos. Por isso, eu direi que, dentro de todas as religiões, o sentido da fé se encerra numa só palavra – a esperança. É na esperança que nós esperamos. A esperança pode não ser colectiva, a esperança pode ser só de alguns… A esperança existe como a única luz possível e, por isso, para a exterioridade do mundo, por muito frágil que seja, ela consegue ser notável e chamar a si todos os seres.

Miraflores , 23 Março 2010


in "Leonardo, Revista de Filosofia Portuguesa", Maio 2009