Fala-se hoje de

Escola Formal?


Falava-se, então, na Escola Formal, como iniciativa sugerida por Álvaro Ribeiro para a educação presente e futura da mentalidade portuguesa.

Meus senhores, há dois universos: um, é o da realidade, o outro é o da mentalidade.

O que é uma mentalidade? É algo que, em si mesmo, se auto defende, escamoteia, e se torna impermeável ao que é a realidade. Aliás, a realidade transcende até o que mentalmente julgamos que é o universo válido da cultura e da civilização.

Antigamente, e do ponto de vista clássico, distinguia-se entre cultura e civilização. Hoje, já nem sequer temos essa distinção, porque toda a nossa inteligência, que nos promete um mundo global, assenta numa base que, grau a grau, repulsivamente vai afastando os valores autênticos da nossa vivência quotidiana, em benefício de um pragmatismo cujos aproveitadores não sabemos onde residem, nem nos manifestam o seu rosto.

E o que é a realidade? É a realidade económica? É o dinheiro que compra as Pátrias, espoliando-as dos seus bens e da sua riqueza, através de subsídios ditos até a fundo perdido? Verdadeiramente, o que já antes Napoleão, por exemplo, tentara construir, por caminhos de sangue, de guerra, de coragem, de valentia, hoje é feito através dessa nova arma, que leva a que as Nações sejam absorvidas, juntamente com os seus valores, por caminhos de lama.

E isto previa já o Álvaro Ribeiro!

Como tal, ele pensava que era urgente distinguir aquilo que à realidade do Homem eterno pertence. Ele desejava a instituição de uma escola formal que conseguisse, em relação à inteligência humana, uma certa invulnerabilidade, ou seja, um escol que conseguisse, no seu saber, formalizar, em relação à liberdade do nosso pensamento, o que são os falsos apelos, as mentiras e os enleios, a informação, a contra-informação, em que as sociedades mergulharam e que passivamente seguiram, moldando a sua liberdade de pensar como se tudo isso fosse a única luz directiva da sua existência e das existências nacionais, que também elas teriam por dever consciencializar, defender e honrar.

Não se trata, aqui, de uma ideologia, como podem, desde já, algumas pessoas tenebrosamente pensar…

Aqui não há pontos físicos, nem de direita nem de esquerda… Não há aqui dessas histórias… Tratar-se-ía, simplesmente, de constituir um pensamento que conseguisse afirmar todos os seus recursos de liberdade, que pudesse, de modo independente, afirmar a identidade humana na sua singular plenitude.

Ora o pensamento activo que consegue afirmar a singularidade humana na sua plenitude, singularidade essa que implica identidade diversificada, é precisamente o pensamento formal.

Se me perguntarem, agora: o que é o pensamento formal? Direi que a formalidade é a de cada pessoa, a de cada indivíduo; é o modo como cada um junta e associa os conceitos, ou o modo pessoal do seu conceber.

É que a questão não é a Lógica! Não é o uso da Escolástica… É o uso da associação, ou daquilo que em nós concebe e cria, respeitando a integridade humana: se for assim, bate tudo certo - na concordância das almas e das consciências, como diria até Leonardo Coimbra...

 Mas eu digo que nós somos incapazes de associar, porque não temos capacidade para nos precavermos do impacto das imagens do Mundo, que nos petrificam, que adormecem a nossa identidade.

Como tal, não pensamos o mundo e a realidade… Somos pensados!

Acabamos a associar o que eles mais desejam… e daí a importância de um ensino leve, sem conteúdos, em que se requerem atitudes, ou seja, o modo mais ou menos dócil como se processa a chamada inserção social!

 Dir-me-ão que este contexto supõe sempre a solicitação constante de recursos  aos que vão aprendendo, mas essa excitação é simplesmente o estímulo que os conduz às reacções necessárias para nos proporcionarem e animarem a sociedade que temos e de que vamos usufruindo, que é a do nosso consumo, mas também da produção de bens culturais, a produção de ideias que têm como fim esse mesmo efeito de inserção.

Por isso, todos dizem que Portugal e os Portugueses devem imaginar e inventar uma sociedade criativa dentro da civilização industrial; e  isto dentro do entendimento que esta mesma civilização e mentalidade nos podem proporcionar. Sim, vamos ser cada vez mais submissos e febrilmente escravos, mesmo na nossa tão estimada democracia!

E cada vez mais, certamente, nos iremos detestar uns aos outros, desaparecendo aquele Portugal que fala dos nossos sentimentos, em que repousávamos com as nossas famílias, como que embalados por um sentimento comum que constituía o berço extremoso da nossa Nação.

Falei do ensino, embora levemente, porque muito mais há para dizer…  Mas o ensino é simplificador – e onde há simplificação, há sempre conspiração!  Temos ainda, para impedir as nossas associações mais livres - aquelas que encontramos numa certa poesia, libertadora até, deixem-me falar assim, porque é ai que cabem os horizontes de uma Nação que não se constrange nem se limita à sua superfície , ao seus quilómetros quadrados, nem à sua população -  temos ainda, dizia,  uma informação que os nossos políticos mais ou menos cortejam, embora sectorialmente possam entrar em conflito com ela – informação que cada vez mais formalmente reduz a problemática da Nação a uma problemática de globalização.

Na prática, hoje, existimos muito menos do que uma região qualquer existia, com os seus problemas, perante o Governo da II Republica.  

Por isto mesmo - e pergunto-me por quê?- por estes graus decrescentes de afirmação,  eu tenho que desconfiar da república. Até penso, às vezes, que não sendo a monarquia contraditória da república, como a má informação ou a má imprensa instalou como verdade falsa entre os Portugueses, eu acho que o Rei está sempre acima disto tudo.


Poderia, então, ter sido diferente a revista Escola Formal, se a direcção não tivesse mudado, assim como as intenções que presidiram à sua publicação?

É natural que Álvaro Ribeiro tivesse escrito uma carta, porque ele me disse que a publicação da revista iria ser suspensa. Eu só não sabia por que razão…

No entanto, o António Telmo, mais tarde, disse-me que a revista fora suspensa porque o Álvaro tinha escrito uma carta ao Orlando, que ele próprio já tinha lido…

O que teria, então, sido essa outra Escola Formal? Isso é a questão que se coloca hoje a todos aqueles que prosseguem, sem desfalecimento e, a maior parte das vezes, sem reconhecimento,  um modelo de entendimento que consiga ser transmitido a todos os que pensam sobre o ainda problema da filosofia portuguesa…

É que não é somente Aristóteles – uma lógica natural – nem uma lógica transcendental, de Kant que, no fundo, é o mesmo que a lógica matemática do Lambert…

Trata-se, sim, daquele equilíbrio que se possa ter, dentro da condição natural do homem em relação aos mistérios humanos e, também com o homem e através do homem, aos mistérios divinos. Mas, para isto, é necessário o nosso esforço. Não o esforço do trabalho, nem tampouco o elogio do ócio, mas é e sempre será da ciência do equilíbrio consciente do homem com a sua própria interioridade. Só aí podemos descobrir o que é verdadeiramente humano e a partir daí podemos continuar a nossa jornada para o infinito daquilo que é a própria humanidade. Eu, parafraseando Aristóteles, sei o que é o Homem, mas não sei quem é o Homem.

Ora bem, voltando à Escola Formal, de acordo com o que foi exposto acima, o Orlando Vitorino seria o destinatário natural de uma carta decisiva de Álvaro Ribeiro sobre a revista. Essa carta não é, segundo penso, a que, só agora, inopinadamente, por António Telmo, me foi dado ler. Não acho no Álvaro Ribeiro aquela qualidade de dizer as coisas por interposta pessoa, pessoa que iria transmitir a mensagem, para, logo a seguir, o Orlando pesar a precipitada sentença de óbito sobre uma revista que, para ele, representava uma tão preciosa oportunidade.

Avaliando bem, o Orlando, com o seu espírito varonil, teria certamente fingido ignorar essa carta, mesmo que soubesse da existência dela, se directamente não lhe fosse destinada!

E ainda agora me lembro, depois de tudo isto, do ar esfíngico e irónico do Álvaro quando me disse que a Escola Formal ia terminar… Lembro-me do sorriso reticente de quem tem uma certeza que vai ser cumprida, de quem tem um poder que certamente será considerado.

- Julga o Furtado que vai sair o próximo número da Escola Formal?... Não vai! Então espere e veremos.

O que determinou, afinal,  o fim da Escola Formal? Decerto uma carta, ou uma conversa, mas sempre directamente entre  Álvaro Ribeiro e Orlando Vitorino, nunca através de António Telmo! Em abono da verdade, julgo que posso honradamente afirmar que esta carta, dirigida tão sómente a António Telmo, e sem uma conversa ou outra carta de comunicação directa entre o Álvaro e o Orlando, não poderia ter produzido este efeito de colapso.

O que desejava então o Álvaro, para a Escola Formal? Ele desejava a correspondência entre um saber tradicional e um pensamento que viesse a explicar o movimento da Alma Lusíada.

Mas, como se explica essa alma ? Por aproximações harmoniosas, por tendências formais, por construções nobres em que a Alma Lusíada recebe, no fim, a graça e o reconhecimento, por Deus, da aristocracia que lhe é própria.

Esta é a escolha para que foi dotada, e esta escolha representa a força do seu movimento, a tranquilidade da sua afirmação por estados sucessivos de vivência e de comunicabilidade com todas as almas que parcialmente anseiam por correspondência, tal como as diversas cores procuram a luz, da qual todas elas podem transparecer, nas suas identidades, nos seus graus, e nas hierarquias que lhe são próprias dentro da ordem de uma autêntica, e digo autêntica de uma vez por todas, civilização universal.

Eu não posso aqui falar ou citar casos particulares, no âmbito de uma escola formal cujo sinete e armas pertencem a Aristóteles e, talvez, quem sabe, ao grande Alexandre da Macedónia, seu discípulo. Eu não posso aqui dizer, repito, que o Álvaro estaria em desacordo, nesta matriz, com algum discípulo que descobrisse em Averróis, em São Tomás, em Santo Anselmo, em São Boaventura, alguma derivação pela qual, como epígono, tivesse em determinado instante um certo brilho, uma certa centelha de génio, realizando nesse instante o seu anseio pessoal, que nunca lhe seria negado.

É que todos nós, perante o infinito, existimos. Basta que existamos, apenas e tão só num pequeno instante, pelo espírito, cá na Terra.

Mas não estou a fugir ao tema... O que determinou o fim daquela Escola Formal?

O Álvaro Ribeiro notou, ou concluiu, que as progressões e as graduações da Escola Formal poderiam estar dependentes e, de certo modo, sob a influência de algo que lhe era exterior, algo que fugia a este movimento interno, algo que dialogava de forma demasiadamente próxima com a tumultuosa e, ao mesmo tempo, desregrada revolução portuguesa do 25 de Abril.

Isto equivaleria, na revista, ao seguinte: um capitão bebé, um bébe barbudo, levantava um problema social qualquer e encontraria nesta revista, que era de pura atitude filosófica, uma repercussão em que a resposta necessariamente enobrecia a pergunta mas que, socialmente, tornava esta revista comum a todas as outras revistas que faziam então parte do ciclo submisso da informação e da mentalidade da época.

Ora, naquilo que é a compreensão das pessoas, numa revista assim nunca existiria o apelo para uma transcensão mental. Haveria, sim, a tendência para uma declinação constante para o que a própria revista, desde logo, não deveria fomentar - conversas comuns sobre lugares comuns, categorias mentais normalmente usadas segundo o processo revolucionário em curso. Ou seja, isso teria como consequência uma dialéctica daqueles que dialogam, no entendimento que têm, sem terem nas mesmas palavras que dizem o necessário entendimento para isso.


in «Leonardo, Revista de Filosofia Portuguesa», Abril 2009